Entrevista. Anne Morin: “Vivian Maier tinha tudo contra ela. Era mulher, pobre, mas tinha uma paixão, a fotografia, e foi até ao fim”

por Ana Monteiro Fernandes,    24 Março, 2026
Entrevista. Anne Morin: “Vivian Maier tinha tudo contra ela. Era mulher, pobre, mas tinha uma paixão, a fotografia, e foi até ao fim”
Anne Morin / DR

Fazendo um caminho inverso ao do “sonho americano”, Vivian Maier (1926-2009) tinha como profissão ser ama, enquanto se dedicava à fotografia deambulando, principalmente, pelas ruas de Chicago ou Nova Iorque ao mesmo tempo que treinava o seu olhar. Nunca quis ser exposta ou publicada. Discreta, “precisava mesmo de fazer aquele trabalho para si própria. Isso torna tudo ainda mais interessante, porque queria ser livre e construir a sua própria identidade”. Quem o diz é Anne Morin, a curadora da exposição “Vivian Maier – Antologia”, a inaugurar no Centro de Fotografia Português no Porto, dia 27 de março. “O que quis fazer foi projetar na exposição a arquitetura, o esqueleto do arquivo. Percebi que ela trabalhou sempre, durante 45 anos, sobre os mesmos temas: retrato, autorretrato, infância, cinema, cor e rua. Todas as categorias, todos os capítulos encontrados na exposição no Porto refletem o que existia no arquivo”, explica ainda a curadora formada pela Escola Nacional de Fotografia de Arles e pela Escola Superior de Belas-Artes de Montpellier, e diretora da diChroma Photography, em Madrid, especializada em exposições fotográficas itinerantes a nível internacional, e no desenvolvimento e produção de projetos culturais.

Vivian Maier. Autorretrato, Nova Iorque, 1954 © Estate of Vivian Maier, Courtesy of Maloof Collection and Howard Greenberg Gallery, NY

A exposição, que já passou por Viena de Áustria, Berlim, São Paulo e Seul, contém mais de 140 imagens e encontra-se organizada em sete secções, indo desde a fotografia formalista, passando pelos retratos de adultos e crianças, em preto e branco e a cores. Numa altura ser-se fotógrafa e, ainda por cima mulher, era bastante difícil, Anne Morin relembra que “Vivian Maier tinha tudo contra ela. Não era ninguém, mas tinha uma paixão, a fotografia, e foi até ao fim”, deixando a mensagem que nunca se deve desistir de um sonho. Esta foi a conversa que a Comunidade Cultura e Arte teve com Anne Morin, sobre a exposição que inicia a 27 de março, patente no Centro Português de Fotografia, no Porto, até 30 de agosto.

Esta exposição sobre Vivian Maier já foi apresentada em Viena, Berlim, São Paulo, Seul e, em breve, estará no Porto. Como tem sido a reação do público a esta exposição? 

Absolutamente incrível. Nunca vi um sucesso tão grande numa exposição. Qualquer pessoa pode identificar-se com Vivian Maier porque tem uma obra bastante próxima das pessoas. Não diz respeito apenas às mulheres ou aos fotógrafos. Trata-se realmente de um fenómeno internacional muito poderoso, porque nunca vimos algo assim na história da fotografia. O facto de ter permanecido invisível durante o período do sonho americano e, de repente, ter-se transformado num ícone é realmente muito poderoso. Por essa razão é que é um fenómeno mundial.

“Morreu sem ser conhecida, mas agora, ao fazermos tantas exposições sobre ela, estamos a reparar o passado, a história, e a colocá-la no lugar onde devia estar.”

Acha que por ela não ter sido conhecida, pelo facto do seu trabalho só ter sido reconhecido mais tarde, ajudou a impulsionar este fenómeno, no sentido em que as pessoas se conseguem identificar com ela por causa disso?

Sim, provavelmente pelo facto dela nunca ter querido ser famosa: nunca quis ser exposta ou publicada. Precisava mesmo de fazer aquele trabalho para si própria. Isso torna tudo ainda mais interessante, porque queria ser livre e construir a sua própria identidade. Naquela época, na sociedade norte-americana, pessoas como ela — ou seja, a Vivian Maier era pobre, não tinha casa, cuidava dos outros, não tinha raízes ou família — não eram ninguém. O facto de, 40 anos depois, reconhecermos o seu trabalho torna a história, o fenómeno e a própria Vivian muito mais interessantes.

Anne Morin / DR

Então nunca teve, mesmo, intenção de publicar o seu trabalho? 

Nunca. A Vivian Maier era uma mulher e, naquela época, ser-se uma fotógrafa no século XX, ainda para mais mulher, era muito difícil: ou tinha um marido muito rico ao lado, capaz de sustentar a sua carreira, ou não podia permitir-se a uma longa trajetória como fotógrafa. As mulheres eram praticamente condenadas a terem carreiras curtas e, como tal, muitas delas acabavam em situações muito difíceis. A Vivian Maier nunca foi contra as suas próprias circunstâncias. Era ama quando era ama, mas queria tirar fotografias, provavelmente, porque queria existir através da fotografia: precisava mesmo de existir através da fotografia.

“Vivian Maier tinha uma enorme cultura visual e foi completamente autodidata, nunca estudou fotografia numa escola. O que a tornou muito forte foi ter inventado as suas próprias regras, a sua própria linguagem. A rua, a imprensa, o cinema, essas foram as suas principais influências.”

Como foi o processo de seleção do material e das fotografias para a exposição? Quais foram os principais pontos a considerar?

Cheguei ao seu arquivo como uma das primeiras – antes de mim, ninguém tinha estudado ou investigado o arquivo de Vivian Maier. Tive de reconstruir um retrato daquela mulher sem pistas. O que quis fazer foi projetar na exposição a arquitetura, o esqueleto do arquivo. Percebi que ela trabalhou sempre, durante 45 anos, sobre os mesmos temas: retrato, autorretrato, infância, cinema, cor e rua. Todas as categorias, todos os capítulos que encontrará na exposição no Porto refletem o que existia no arquivo.

Para além de fotógrafa, Vivian Maier também fez filmes em Super 8. O seu olhar fotográfico também é visível nesses filmes, certo?

Sim, o que é realmente interessante. Está a apontar algo muito importante no trabalho dela. Os seus filmes em Super 8 ou 16 mm, há cerca de 300 no arquivo, mostram-nos não só o que ela vê – como pessoas a andar na rua – mas também vemos como ela olha, o movimento dos seus olhos. Foca ali, move-se para aqui. Está à procura não só de algo, mas de uma imagem. Muitas vezes filmava, primeiro, com a câmara Super 8 e, depois, parava e tirava uma fotografia. Ela está a olhar para uma cena à procura de uma imagem. O que vemos é o que tem na retina: não é apenas o que vê, mas como vê.

“A Vivian Maier era uma mulher e, naquela época, ser-se uma fotógrafa no século XX, ainda para mais mulher, era muito difícil: ou tinha um marido muito rico ao lado, capaz de sustentar a sua carreira, ou não podia permitir-se a uma longa trajetória como fotógrafa. As mulheres eram praticamente condenadas a terem carreiras curtas e, como tal, muitas delas acabavam em situações muito difíceis.”

Pode falar um pouco sobre os seus autorretratos? São muito interessantes. 

É a parte mais importante do seu trabalho. Existem cerca de 500 autorretratos por ano durante 45 anos: é uma quantidade imensa de autorretratos. Não há outro fotógrafo no século XX que vá tão fundo na questão do autorretrato. É a sua forma mais famosa de autorrepresentação e a mais simples e minimalista: uma sombra projetada numa parede. No final, ela nem precisa de um autorretrato da sua fisionomia. Não se preocupa com o seu aspeto, se tem 40, 60 ou 70 anos. O importante é a silhueta a dizer: “estou aqui, neste lugar, neste momento”.

Vivien Maier tem um arquivo imenso, cerca de 150 mil negativos. Ainda há muito a descobrir sobre esta artista? O que falta conhecer? O que seria interessante explorar mais?

Penso que há duas áreas que ainda precisam de ser realmente investigadas. Em primeiro, o seu cinema, no entanto, no catálogo da exposição que publicámos, há um bom ensaio de alguém que aborda o cinema. Em segundo lugar, o trabalho a cores: acho que ainda não está completamente amadurecido, mas há coisas interessantes a descobrir aí.

Quanto ao arquivo, pelo que vi, são cerca de 150 mil negativos. Vimos todos os rolos não revelados, porque ela deixou 2500 rolos por revelar e está tudo visível agora.

Para além do trabalho, deixou também muitos objetos. Colecionava autocolantes, postais e bilhetes. Nunca deitava nada fora e guardava tudo. Todo esse material, todo esse “tecido”, ainda precisa de ser investigado. 

Desde 1965, começou a fotografar com uma câmara de 35 mm, uma Leica, uma câmara muito boa. Há imensos rolos, muito trabalho a cores e muitas pequenas impressões vintage.

Vivian Maier. Autorretrato, 5 de maio de 1955 © Estate of Vivian Maier, Courtesy of Maloof Collection and Howard Greenberg Gallery, NY

Hoje somos incentivados a mostrar o nosso trabalho, o que fazemos. Temos redes sociais para mostrar as nossas fotografias, o nosso trabalho. Mas ela fez exatamente o contrário. Na sua opinião, o que podemos aprender hoje com Vivian Maier? Qual é o seu principal legado? 

Nunca desistir e acreditarmos em nós mesmos. Se tens um sonho, vai até ao fim. A Vivian Maier tinha tudo contra ela. Era mulher, pobre, mas tinha uma paixão, a fotografia, e foi até ao fim. Morreu sem ser conhecida, mas agora, ao fazermos tantas exposições sobre ela, estamos a reparar o passado, a história, e a colocá-la no lugar onde devia estar. Não pôde alcançar esse lugar enquanto vivia porque era apenas uma ama, mas o que aprendemos é: vive a tua paixão e vai até ao fim. Não ligues ao que está contra ti. Acredita em ti. Essa mensagem é bonita para as pessoas que acham que nunca vão conseguir, que nunca vão fazer nada. Ela, no entanto, acreditou em si própria.

“É nas cidades que muitas histórias acontecem, especialmente nas zonas mais pobres, porque a vida está na rua.”

Para compreendermos melhor o seu trabalho, pelo que vi, para ela era muito importante a arquitetura da cidade, o espaço urbano. Pode falar um pouco sobre esse aspecto?

Sim, Vivian interessava-se pelo formalismo. As formas, composições, arquitetura, estruturas, ritmo – tudo isso, que pertence muito a cidades como Nova Iorque ou Chicago – faz parte das suas fotografias. Claro, diríamos que os protagonistas principais são as pessoas, mas são as pessoas na rua, as pessoas na cidade. Fotografou paisagens quando esteve em França, mas Vivian Maier era um animal urbano e profundamente ligada à cidade. É nas cidades que muitas histórias acontecem, especialmente nas zonas mais pobres, porque a vida está na rua. Também encontrei muitas ligações entre esses edifícios e algumas séries de televisão dos anos 60, onde os edifícios eram vistos como dispositivos óticos com janelas, formas de enquadramento, de observação. Nova Iorque é uma cidade ótica. Há sempre uma pulsação de Vivian ali. Portanto, sim, ela era muito formalista.

É interessante que ela era ama, sem recursos económicos. Pode explicar como nasceu esse interesse cultural pela fotografia e como conseguiu encontrar as suas referências?

Penso que, quando os pais se separaram em 1930, a mãe foi viver para o Bronx com uma mulher chamada Jeanne Bertrand. Jeanne Bertrand era francesa, da mesma região que a mãe, e era fotógrafa. Foi aí que Vivian Maier teve o primeiro contacto com a fotografia. Depois, temos de perceber que Vivian, enquanto tirava fotografias, foi desenvolvendo o seu próprio olhar. Ia ao cinema três vezes por semana, ia ao teatro, comprava livros, via revistas e visitava exposições. Tinha uma enorme cultura visual e foi completamente autodidata, nunca estudou fotografia numa escola. O que a tornou muito forte foi ter inventado as suas próprias regras, a sua própria linguagem. A rua, a imprensa, o cinema, essas foram as suas principais influências.

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