“Witches”, de Elizabeth Sankey: um retrato de mulheres em chamas
Esta crónica também está traduzida para inglês aqui.
“Isto tocou-me profundamente, porque eu sempre fui perseguida pela sombra da loucura.”
À medida que o tema da saúde mental se tornou um ponto central do debate público, cada vez mais pessoas partilharam as suas histórias, cada vez mais filmes e documentários tentaram representar estados mentais de loucura, depressão, escuridão mental. Mas, até este documentário chegar, nenhum havia sido cru e aberto o suficiente para falar sobre um aspecto que muitas vezes lhe é inerente: a maldade (ou o conceito social do mal). Desde sempre, principalmente nós, mulheres, fomos incentivadas a esconder esse aspecto. A reprimir esse aspecto. A mantê-lo preso na escuridão onde ele pertence. Tanto que acabamos por entrar num ciclo vicioso de tentar convencer-nos a nós mesma de que ele não existe dentro de nós, que não faz parte da nossa definição. Mas deixem-me dizer-vos: tentar negar a sua existência não levará à sua aniquilação. No máximo, vai levar-vos a viver uma mentira.
Há aproximadamente 4 anos, fui drogada e violada (sim, vou usar o termo que traz mais desconforto, porque confortar os conformados não vai incentivar mudança nenhuma) num dos sítios que, até àquele dia, considerava ser um dos mais seguros para mim: o bar académico da minha faculdade. Depois disso, caí na asfixia silenciosa, que define o estado de negação. Mergulhei no profundo e labiríntico buraco negro da depressão.
Não vou falar sobre o que me levou até ele, porque, francamente, ainda estou a tentar decifrar essa parte e não é o objetivo deste texto. O objetivo é fazer o que parte deste documentário incentiva a fazer: falar da escuridão. A partir do momento em que te encontras neste lugar, onde a noção de espaço e tempo deixa de existir, a tua mente consciente vai-se expandir e vai-te levar a ter pensamentos que, até então, só tinhas visto representados pelos vilões da história. Pensamentos que nunca imaginaste ter porque, até agora, te encaixavas no conceito social do “bem”. Mesmo neste exato momento, estou a tentar desconectar-me do meu próprio discurso, a não falar na primeira pessoa, e isso é o quão assustada eu estou de ser estigmatizada. Os meus pensamentos começaram a ser reduzidos quase inteiramente a fantasias que incluíam não apenas magoar-me a mim mesma, como também, magoar outras pessoas. Pessoas que eu amo. Pessoas que, no fundo, nunca teria coragem de prejudicar intencionalmente. A partir do momento em que me encontrei neste estado, comecei a sentir uma sinestesia de sentimentos: raiva, ódio, tristeza. No final, acabei por me perder. Eu tinha a necessidade de direcionar estas emoções para alguma coisa, então comecei a direcioná-las para mim mesma, auto-induzindo dor física, na esperança de que esta acalmasse a dor que me estava a comer lentamente por dentro. E funcionou, mas apenas temporariamente. Então comecei a projetar essas emoções nas pessoas ao meu redor, porque o Eu começou a ser um recipiente demasiado pequeno. Senti raiva e ódio pela minha mãe. Senti raiva e ódio pelo meu pai. E eu queria descarregar estes sentimentos neles. Queria que eles entendessem a loucura que eu estava a viver e, mais, queria que eles também a vivessem, porque por detrás dessas emoções havia um profundo sentimento de injustiça. Porquê eu? Porquê só eu? E com estas questões surgem outras relacionadas com a origem de tudo. Fui eu que me coloquei nesta posição? Ou foram outros que me conduziram até ela?
Será que acreditar na segunda opção torna tudo mais fácil? Aqui está a resposta: não. O ódio que projectei naqueles que amava refletiu-se diretamente na minha direção. Comecei a odiar-me ainda mais. E comecei a odiá-los ainda mais porque me odiava. Fiquei presa neste ciclo vicioso de projeção e reflexão. Houve momentos em que acreditei verdadeiramente que tinha conseguido libertar-me dele, mas agora, olhando para trás, não passava de uma ilusão de liberdade.

No momento presente, sinto que ainda estou aqui. Presa. E a parte paradoxal, que imagino ser de difícil compreensão para outros, é que não sei se quero sair. Sempre encontrei conforto naquilo que se torna familiar. Sempre tive medo da mudança, do desconhecido. Tenho 24 anos e tudo o que encontrei até agora foram os mesmos velhos medos que tinha quando era criança. Será que algum dia vou querer sair? Será que algum dia conseguirei sair? Eu não tenho a resposta. O que eu sei é que as mulheres neste documentário, “Witches”, de Elizabeth Sankey, conseguiram libertar-se e, portanto, também eu devo fazê-lo.
Há séculos, chamavam-nos de “bruxas” e, literalmente, condenavam-nos à fogueira. Hoje, continuam a queimar-nos, mas não de uma forma tão literal; agora, fazem-no metaforicamente. A opressão tomou outra forma e outro contorno, mas continua aqui, viva. Mas também nós, mulheres, continuamos aqui, vivas. E as cinzas daquelas que eles queimaram também continuam aqui, em cada partícula de nós. Concebidas nas cinzas, nós vamos renascer. Como o pó, nós vamos ascender.
