A “Liberdade” de Angela Merkel e o peso da sua ação política até aos dias de hoje

por Ana Monteiro Fernandes,    21 Fevereiro, 2025
A “Liberdade” de Angela Merkel e o peso da sua ação política até aos dias de hoje
Angela Merkel / Fotografia de Urban Zintel
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Foi a primeira mulher chanceler, cargo que ocupou por 16 anos, vinda da extinta RDA (República Democrática da Alemanha). Em 2021, no fim das suas funções, uma geração inteira não se recordava de mais ninguém à frente do governo alemão. É por isso conhecida por “mutti”, como quem diz, a mãe desta geração “Merkel”.

O sul da Europa não tem boas lembranças suas tendo em conta o papel da Alemanha dentro da União Europeia, uma vez que o pulso firme dos países bem e mal comportados de 2008 marcou uma mudança mundial. Mas se há quem a olhe com desdém pela forma como a crise europeia foi dirigida — não esqueçamos também Wolfgang Schäuble, o seu ministro das finanças — também há quem a admire pela coragem que mostrou em abrir as fronteiras aos refugiados na crise de 2015, mesmo sabendo que enfrentaria uma forte oposição interna.

Passou pela crise do Euro; pela crise do Covid; Putin recebeu-a numa reunião com o seu cão à solta, mesmo sabendo que a chanceler tinha medo de cães por ter sido mordida por um; Trump recusou-se a dar-lhe um aperto de mão; recentemente, criticou o facto da CDU ter contado com os votos da AfD (extrema-direita alemã) para fazer passar o seu projeto lei para a imigração (que posteriormente acabaria chumbada no parlamento) e, apesar da boa popularidade que também conseguiu granjear, é apontada como a pessoa que abriu as portas de pandora para os problemas que a Alemanha atravessa, por causa das suas medidas de abertura de fronteiras e dependência dos recursos energéticos russos.

Angela Merkel exerceu o seu cargo numa altura de mudança a nível mundial e esteve no centro do furacão da crise e da pandemia. Independentemente do que se considere da sua ação política, “Liberdade”, a sua autobiografia, é por isso mesmo uma peça chave para quem quer compreender esta última década e meia, principalmente quando a Alemanha está prestes a ir a eleições.

A crise dos refugiados

Ao escrever “Liberdade”, a intenção de Angela Merkel é clara e vai logo ao cerne da questão: “Durante muito tempo não me imaginei a escrever um livro destes. Essa intenção alterou-se pela primeira vez em 2015, pelo menos um pouco. Foi nesse ano que decidi que não seria rejeitada a entrada na Alemanha, através da fronteira com a Áustria, aos refugiados que na noite de 4 para 5 de setembro se encaminhavam da capital húngara para a fronteira austríaca”. E continua: “Essa decisão, mas sobretudo as suas consequências, foram por mim vividas como um ponto de viragem na minha função como chanceler federal: passou a haver um antes e um depois. Nessa altura propus-me a, um dia, quando deixasse de ocupar o cargo, narrar o decurso dos eventos, descrever os motivos da minha decisão, explicar o meu entendimento da Europa e da globalização — que tiveram influência nessa decisão —, e a fazê-lo de uma forma que só mesmo um livro permite. Não quis deixar essa narração exclusivamente nas mãos de outros.”

Capa do livro / DR

Em Abril de 2015, Matteo Renzi, então primeiro-ministro da Itália, liga para Angela Merkel a pedir um conselho especial da UE, com a reunião dos chefes de Estado e governos europeus. Não queria que a Itália ficasse sozinha, uma vez que uma embarcação provinda da Líbia com destino a Itália, repleta de refugiados, tinha acabado de naufragar no Mediterrâneo ceifando a vida de centenas de pessoas: “Também já disse ao Donald Tusk [então presidente do Conselho Europeu] que tem de ficar bem claro que não se trata de um problema italiano. Não me podem deixar desamparado nesta situação”, lê-se em “Liberdade”.

Como Merkel explica na sua biografia, já havia sido implementado na Itália o programa “Mare Nostrum”, como resposta a dois naufrágios prévios no Mediterrâneo, com vista a prender traficantes e resgatar os refugiados. Os Ministros da Administração Interna Europeus implementaram a “Operação Trinton” para a protecção das fronteiras externas europeias, mas estas medidas não conseguiram evitar a tragédia das vidas que se perderam no Mediterrâneo. Merkel explica que tendo em conta o acordo de Dublin primeiramente implementado nos anos 90, a análise dos pedidos de asilo requeridos ficavam ao encargo dos primeiros países de chegada, o que, desta forma, implicavam, maioritariamente, a Grécia, a Itália e Espanha. A então chanceler alemã admite:“Nós, que geograficamente nos localizávamos no centro da União Europeia, podíamos tirar partido do Espaço Schengen, um mercado interno sem controlo nas fronteiras internas, e não tínhamos de nos preocupar com o que se passava nas fronteiras externas da União Europeia”, refere Angela Merkel.

E contrapõe: “Era cómodo, e adaptamo-nos bem à situação. Cabia aos países do Mediterrâneo, neste caso Itália, lidar com as consequências dos dramas como aquele que ocorreu na costa de Itália na noite de 18 para 19 de Abril de 2015 — com ou sem Triton. Formalmente, era o correto a fazer, mas de um ponto de vista político e humanitário deixou de ser sustentável”, confessa.

O Conselho Europeu reuniu-se acedendo ao pedido de Matteo Renzi mas, segundo Angela Merkel, os resultados desse conselho “não foram ao fundo da questão”, de forma a encontrar uma solução para o problema. Com a primavera árabe, a guerra da Síria e as fronteiras externas do Mediterrâneo sobrelotadas, as pessoas começaram também a dirigir-se para norte e esta era uma situação que também implicava a Alemanha. Os países de passagem dos Balcãs ocidentais também foram particularmente afetados pela chegada de refugiados. O problema batia também às portas da Alemanha — Merkel estava ciente disso — e um dos momentos que reporta diz respeito aos 71 refugiados asfixiados num camião hermeticamente fechado numa área de serviço no estado de Burgenland, na Áustria.

Angela Merkel e Donald Trump em 2017 / Fotografia da Casa Branca – Shealah Craighead / via Wikipédia

Merkel foi fortemente criticada por dizer, precisamente, “nós conseguimos”, numa conferência de imprensa de verão que daria daí a uns dias: “Digo-o de forma muito simples: a Alemanha é um país forte. A nossa abordagem a este assunto deve derivar do seguinte motivo: já fizemos tanto — nós conseguimos! Nós conseguimos e, face a cada obstáculo no caminho, há que superá-lo, há que trabalhar nisso. Para tal, a Federação fará tudo o que estiver ao seu alcance em conjunto com os Lander e as comunas.” A então chanceler foca como estas palavras foram mal percecionadas, como sendo um convite totalmente aberto a toda a imigração: “Não devo dizer que conseguimos porque podem interpretar erradamente estas palavras, como se quisesse receber na Alemanha todos os refugiados deste mundo? Eu não podia pensar assim. Não sei quantas vezes na vida já disse uma ou outra variante, que conseguimos isto ou aquilo. É claro que, naquele dia de 31 de Agosto de 2015, estava ciente de que aquelas 3 palavras, por si só, não resolviam o problema que tínhamos pela frente, que precisava de ajuda.” E conclui, “Mas aquelas três palavras simbolizavam a minha profunda confiança de que havia pessoas suficientes no país que pensavam e sentiam o mesmo que eu e a quem eu, do meu lado, podia transmitir coragem. A minha confiança não haveria de ficar sem resposta.”

Como já referido, a rota dos balcãs ocidentais também começaram a ser amplamente utilizadas como forma de se chegar à Europa ocidental. Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, não tardaria a construir um muro na fronteira com a Sérvia, e as fronteiras greco-turca e búlgaro-turca já se encontravam fortificadas. Isto levou a que se trocasse a rota terrestre pela rota marítima através das ilhas gregas do Mar Egeu, seguindo daí para a Croácia e Eslovénia, rumo à Alemanha e Áustria. Ora a 4 de Setembro, Merkel depara-se com a realidade dos refugiados que queriam transpor a fronteira da Hungria para a Áustria a pé, através da auto-estrada. Após conversas com o chanceler austríaco, surge a proposta de se dividirem os refugiados, metade para a Áustria, outra metade para Alemanha. Após conversações com os congéneres internos, Merkel toma uma das decisões que considera ser das mais decisivas do seu governo, dividindo a sua acção política num antes e depois: as fronteiras da Alemanha são abertas para a recepção destes refugiados. As facções mais progressista que olhavam e ainda podem olhar para Merkel com desdém devido às políticas económicas mais duras na crise do euro, dão-lhe o devido crédito nesta decisão. Por sua vez, as facções mais conservadoras, tendo em conta o peso que o tema da imigração tem no debate europeu e, principalmente, nestas eleições alemãs que se avizinham, ainda a responsabilizam por esta medida, uma vez que as propostas políticas de Friedrich Merz preveem uma atitude mais dura face à imigração, o que também tem levado a críticas públicas por parte de Merkel a Merz. O atual líder da CDU alemã chegou mesmo a contar com os votos da AfD para, numa primeira volta, fazer passar uma moção com políticas migratórias mais restritivas. Após duras críticas fora e dentro da própria CDU, a medida seria rejeitada no parlamento numa segunda votação após 12 parlamentares do próprio partido recuarem na sua intenção de voto devido à associação com a AfD. A própria Angela Merkel já teceu críticas a esta aproximação do seu partido à extrema-direita alemã que, se caso a proposta passasse pela segunda vez, seria a primeira na história com votos de um partido que se tem radicalizado cada vez mais à extrema-direita.

A crise europeia, a guerra da ucrânia e a dependência energética da Rússia

Quando a crise do euro iniciou estávamos em 2008 e Jean Claude Junker era o então presidente do Eurogrupo. Os países do sul da Europa passaram por um período dificílimo, sendo a Grécia um caso bastante particular, deixando em aberto a sua retirada da zona euro, algo sem precedentes durante os anos da sua existência. Havia também outra decisão a tomar, o plano de regaste da Grécia. Em várias entrevistas, Jean Calude Junker aponta o bom humor de Merkel, o que por vezes acaba por não ser bem perceptível na sua imagem pública, e o seu pragmatismo e sentido prático — para cada problema em específico, uma resposta específica. Assim como capacidade de estudar bem as várias hipóteses para a solução de um problema, tal como uma cientista – não podemos esquecer a sua formação em física. Aponta-lhe, no entanto, as seguintes falhas: a sua morosidade na aprovação de um plano de resgate para a Grécia e a sua hesitação. Segundo Juncker, estas falhas foram perniciosas e, se as decisões fossem tomadas de forma mais célere, a União Europeia poderia ter poupado muito mais dinheiro e o descalabro poder-se-ia ter evitado. Outra crítica prende-se com o facto de que quando foi ponderada a ideia da saída da Grécia da zona euro — uma ideia da qual Wolfgang Schäuble, ministro das finanças alemão, era adepto — Merkel, apesar de não concordar com a ideia, nunca ter negado que a saída da Grécia poderia ser útil.

Merkel e Obama na reunião do G7 na Alemanha em 2015 / Fotografia de Pete Souza – White House

Yanis Varoufakis, ministro da Finanças da Grécia, referiu o seguinte num documentário do órgão de comunicação alemão DW, sobre Angela Merkel: “Não podemos esquecer que foi a idiotice dos bancos como o Deutsche Bank ou o Société Générale que criou a catástrofe da crise do euro. Ela [Angela Merkel] resgatou-os, transferindo de forma cínica todas essas perdas para os ombros dos contribuintes. Ela ficará na história como a chanceler que permitiu que isso acontecesse.”

A principal crítica da sua oposição política também aponta o facto de se promover a ideia de que a Alemanha e os países do norte europeu é que estariam a pagar o suposto mau comportamento dos países do sul quando se sabe que esta foi, essencialmente, uma crise bancária, nos quais os bancos alemães também não estavam isentos de culpa, principalmente numa altura em que a Alemanha usufruía de um excedente comercial enquanto o sul europeu teve de se ver a braços com intervenções de resgate e a troika, tal como aconteceu com Portugal. Mas Angela Merkel conta no seu livro como, por exemplo, recebeu a notícia, no dia 28 de Julho de 2007, por sms, enquanto se encontrava na ópera, que o IKP [Deutsche Industrie bank] se encontrava com problemas. E o que é o IKB, afinal? Em liberdade explica-se: “É uma instituição de crédito de Dusseldorf cujas origens remontam à década de 1920. A atividade do banco incidia, sobretudo, na concessão de créditos de investimento de longo prazo a médias empresas e encaminhava fundos de programas de apoio públicos para os seus clientes. Operava como um “banco de encaminhamento” para o Kreditanstal fur Wiederaufbau (KfW) [Instituição de crédito à reconstrução], o banco de fomento da Federação, que na altura era também o seu maior acionista.”

E explica: “O KfW era, e ainda é, uma entidade pública e dá seguimento a incumbências do Governo federal e dos estados federados. Deste modo promove médias empresas, profissionais liberais e empreendedores e, mediante a concessão de créditos, presta apoio, entre outros, a projetos de infraestruturas, de construção de habitação e de proteção ambiental.” O que se passou, então, com o IKB? Este organismo tinha fundado uma sociedade-veículo nos Estados Unidos para a qual tinha concedido garantias de liquidez de 1,8 milhões de euros. A crise do subprime americana traria então problemas e, face a esta situação, o Deutsche Bank tinha tomado a decisão de não prorrogar a linha de crédito do IKB, além de ter informado a Autoridade Federal de Supervisão Financeira, colocando o IKB em risco de insolvência. Tinha-se de travar estas insolvências. Convém não esquecer que o próprio Deutsche Bank se viu a braços os seus próprios problemas, tal como reporta o seguinte artigo da Exame, “Crises e escândalos levaram Deutsch Bank a reestruturação global. No mesmo artigo, lê-se a explicação desses mesmos escândalos: “Nos Estados Unidos, o banco era um dos líderes em empréstimos com hipotecas como garantias — serviços que foram um dos motivos para a crise global de 2008. Mesmo depois que concorrentes abandonaram a estratégia, o banco continuou a vender esses serviços. Naquele ano, reportou seu primeiro prejuízo depois de cinco décadas, com perdas de 3,9 bilhões de euros. Em 2012, o banco se envolveu no escândalo Libor, em que investigações descobriram que bancos manipulavam a taxa de juros média, a Libor, para interesse próprio. Alguns dos principais executivos do Deutsche Bank renunciaram em meio à crise e o banco precisou pagar uma multa recorde de mais de 2,5 bilhões de dólares.”

Merkel aborda também a crise de outro banco, o Hypo Real Estate Holding (HRE), que se encontrava que se encontrava indexado ao índice de referência do mercado de ações alemão. Seria, então, o Estado a ter uma participação para o seu salvamento. O banco seria nacionalizado.

Reunião do G8 em Muskoka, no Canada, em 2010 / Fotografia de White House – Pete Souza

A crise europeia que seguiu poria, então, em grave risco países como Portugal, Espanha, Itália e Grécia, sendo a Grécia dos casos que mais controvérsia gerou. Merkel escreve no seu livro de forma clara como uma das condições da adesão da Alemanha à União Económica e Monetária era o “no bail out”, ou seja, “a obrigação de cada país de assumir a responsabilidade pelo pagamento das suas próprias dívidas. Era o que estava consagrados nos tratados da UE.” Foi o que Angela Merkel deixou claro numa pré-reunião antes do Conselho Europeu de chefes de Estado e Governo, em 2010, na Biblioteca Solvay. Essa pré-reunião foi feita a pedido do então presidente francês, Nicolas Sarkozy, e reuniria, então, Merkel, Durão Barroso, Papandreou, então primeiro-ministro da Grécia, e Jean – Claude Trichet, então presidente do Banco Central Europeu. Merkel conta como à excepção de Papandreou que se encontrava em silêncio, o objetivo da reunião seria deixar estabelecido como a Grécia precisava de dinheiro. Segundo consta no livro “Liberdade”, Sarkozy terá dito: “Cortes de quatro pontos percentuais do PIB, isso é o caminho mais certo para lançar a revolta nas ruas! Agora, com a crise financeira, precisamos de mais despesa do Estado, não menos! É preciso ajudar a Grécia.” Trichet esclarece: “A Grécia precisa de dinheiro!”. A resposta de Merkel foi a seguinte: “É evidente que também gostaria de ajudar, afinal de contas partilhamos todos a Zona Euro. (…) Mas não posso, de modo algum, dar dinheiro.” Ao que se seguiu a insistência de todos da sala do quão grave a situação da Grécia era.

Chegou-se a um consenso dos seguintes pontos: exigir à Grécia o cumprimento dos compromissos de redução da dívida; que o ECOFIN aprovasse as medidas de redução do défice apresentadas pela Grécia; a supervisão da Comissão Europeia (CE), do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI), “que os países da Zona Euro deveriam adotar medidas orientadas e coordenadas caso se verifasse algum risco para a estabilidade da Área do Euro em geral. E remata, “Foi assim que, logo naquela manhã de fevereiro em Bruxelas, passámos para o papel toda a filosofia de resgate do Euro. Os Estados-membros tinham de adotar as medidas necessárias a nível interno, que seriam avaliadas pela Comissão, o BCE e o FMI. Posteriormente, as três instituições ficariam conhecidas pela designação Troika. Ninguém assumiria as dívidas de outro país da Zona Euro, mas todos contribuíram para salvaguardar a sua estabilidade global. (…) Eu sentia que tinha condições para trabalhar nesta base, pois também o Tribunal Constitucional alemão vinculou a integração da Alemanha na União monetária à estabilidade desta última.”

Chegaria, então, outro desafio para Merkel, como dar conhecer esta decisão ao seu governo em coligação e parlamentares, principalmente quando este assunto não estava incluído nos moldes da coligação do seu governo. “Voltaram a despertar todos os velhos medos do tempo da introdução do euro por Helmut Kohl. Já na altura muitos não acreditavam que o euro teria a mesma estabilidade do marco alemão. A disponibilidade para ajudar a Grécia era diminuta”, explica. Sobre as aprovações das medidas de ajuda à Grécia no Bundestag, Merkel diz “que foi preciso um grande esforço de persuasão” da sua parte “para convencer a maioria dos membros dos grupos parlamentares a aprovarem a lei.” Isto incluía convencer, inclusivamente, membros da sua própria bancada.
Um episódio que relata prende-se com uma conferência de imprensa que deu, precisamente, com Pedro Passos Coelho, então primeiro-ministro de Portugal. Então, proferiu esta frase: “…É nesta medida que procuraremos sempre encontrar caminhos para configurar o envolvimento parlamentar de uma forma que, ainda assim, seja compatível com as exigências dos mercados…” Pelo que explica, a totalidade da sua afirmação foi descontextualizada pelo SPD que, na sua perspetiva, a acusou de má-fé de manter subserviência aos mercados.

A dependência energética da Alemanha face à Rússia, algo que lhe é cobrado, também está presente no seu livro. Em 2022, Merkel afirmava aos jornalistas numa conferência de imprensa em Lisboa que não estava arrependida em ter assinado os acordos dos gasodutos Nord Stream 1 e 2: “Agimos de acordo com o tempo que vivíamos. Nessa altura, era claro que haveria uma alteração de todo o abastecimento energético. Estávamos a abandonar a energia nuclear e queríamos abandonar a energia de carvão. E, para isso, precisávamos do gás russo”.

Angela Merkel em 2008 / Fotografia via Wikipédia

No seu livro, complementa: “A dependência da Alemanha em relação ao gás russo, pela qual eu havia sido censurada precisamente em relação ao Nord Stream 2, tornou-se realidade sem que alguma vez se tivesse recebido qualquer gás transportado através daquele gasoduto.” E defende-se dizendo que só aceitaria a entrada em funcionamento da Nord Stream 2 se “após o término do acordo de trânsito, que nessa altura ainda estava em vigor, a Ucrânia pudesse celebrar um novo contrato de distribuição com a Gazprom”, uma vez que a Ucrânia não podia abdicar das receitas das taxas de trânsito.” Quanto às sanções dos Estados Unidos revela, “depois de, em janeiro de 2017, Donald Trump ter assumido a presidência dos EUA, a administração americana criou as bases legais para as chamadas «sanções extraterritoriais», aplicadas a empresas envolvidas na construção do Nord Stream 2. Os EUA argumentaram que a construção do gasoduto punha em causa os seus interesses de segurança, pois desse modo a Alemanha, sua aliada, colocar-se-ia numa posição de dependência excessiva em relação à Rússia. A meu ver, o que os EUA na verdade fizeram foi recorrer à sua extraordinária força económica e financeira para impedir os projetos económicos de outros países, incluindo países amigos. A motivação dos EUA foi, acima de tudo, o seu próprio interesse económico, pois pretendiam exportar para a Europa, sob a forma de GNL, o gás que obtinham com recurso à técnica do fraturamento hidráulico (fracking).”

Expõe que a própria RFA já havia recorrido a petróleo Russo e que “Joe Biden, sucessor de Trump, que assumiu o cargo em janeiro de 2021, não tardou a promover aquilo que, a meu ver, deve ser o relacionamento correto entre parceiros e amigos: ao invés de nos impor novas sanções — apesar de todas as adversidades, a construção do Nord Stream 2 estava praticamente terminada —, a 21 de julho de 2021 concordámos emitir uma «Declaração conjunta de apoio à Ucrânia, em prol da segurança energética europeia e dos nossos objetivos climáticos». Ficou acordado que, caso a Rússia viesse a usar a energia como arma, a Alemanha se comprometia a defender, tanto a nível nacional como a nível europeu, a imposição de novas sanções contra esse país, incluindo a restrição de fornecimentos de gás. Pouco antes de essa declaração ser divulgada, informei telefonicamente Putin a respeito do seu conteúdo. Ele pareceu ter ficado surpreendido por a Alemanha ter alcançado um entendimento com os EUA. Tive a impressão de que não terá ficado agradado com este facto. Só isso bastaria como demonstração de que o modo como Joe Biden voltou a tratar-nos — afinal aquele que se esperaria entre parceiros de uma aliança —, era a atitude correta”, explica. Convém, no entanto, relembrar que o ex chanceler alemão do SPD, Gerhard Schröder, foi nomeado à administração da própria Gazprom, uma notícia que, então, em 2022, não caiu bem no seio dos protagonistas políticos alemães.

Sobre Putin, abordou quando numa reunião o presidente Russo a recebeu com um cão à solta e afiança como o presidente russo sabia que Merkel tinha medo de cães, e uma outra situação particular: “ Putin convidou-me para o acompanhar no seu carro até ao aeroporto. No caminho, ia mostrando povoações com casas de madeira tipicamente russas e explicando que ali viviam pessoas com pouco dinheiro e que, por isso, podiam ser facilmente aliciadas. Que, na Ucrânia, o Governo norte-americano incentivou precisamente grupos de pessoas como aquelas, a troco de dinheiro, para que participassem na Revolução Laranja do outono de 2004. — Jamais permitirei que tal aconteça na Rússia — disse Putin, segundo me recordo. — Acontece que, na RDA, ninguém nos aliciou com dinheiro dos Estados Unidos para fazermos uma revolução pacífica — retorqui. — Nós quisemos a revolução e, com ela, a nossa vida mudou para melhor. E as pessoas na Ucrânia queriam exatamente o mesmo. Putin mudou de assunto. — Sabes qual a grande diferença entre a Constituição dos Estados Unidos e a da Rússia? — perguntou-me então. Eu não fazia a mínima ideia onde ele queria chegar. — Em ambas, o presidente pode cumprir, no máximo, dois mandatos consecutivos — prosseguiu. — No entanto, nos EUA, não pode voltar a ser reeleito, mesmo que haja um intervalo no exercício do cargo. O presidente russo, mesmo depois de dois mandatos, pode ser reeleito desde que faça uma pausa. A mensagem que retirei dessas parcas palavras proferidas por Putin na Sibéria, naquele dia de primavera de 2006, a caminho do aeroporto, foi a seguinte: não me vais perder de vista mesmo que daqui a dois anos, quando completar dois mandatos e de acordo com a Constituição, tenha de entregar a pasta ao meu sucessor — eu vou voltar, será apenas uma pausa. Não teci qualquer comentário à afirmação de Putin, mas percebi muito bem a posição em que me encontrava”

Isto conduz-nos à guerra da Ucrânia e a outra posição que Merkel defendeu, a não aceitação da Ucrânia da Nato: “A agressão de Putin foi dirigida contra um país que, o mais tardar desde a Revolução Laranja, formulou cada vez mais claramente o seu desejo de se tornar membro da NATO, tal como antes, em março de 1999, a Polónia, Chéquia e Hungria e, em março de 2004, a Estónia, Letónia, Lituânia, Roménia, Bulgária, Eslovénia e Eslováquia. Foi dirigida contra um país que alimentava a esperança de passar ao Membership Action Plan (MAP) por ocasião da Cimeira da NATO de 2008, em Bucareste, o primeiro passo para a adesão à NATO. A França e a Alemanha, Nicolas Sarkozy e eu, havíamos rejeitado a integração da Ucrânia neste plano. A alegada operação especial de Putin de 24 de fevereiro de 2022, depois do ataque da Rússia à Crimeia em 2014, não foi mais do que um novo assalto, que desta vez teve como alvo toda a Ucrânia, com o qual a Rússia violou a integridade territorial e a soberania de um Estado independente, uma manifesta transgressão do direito internacional.”

Angela Merkel tem uma vida dividida em duas partes: os primeiros 35 anos na República Democrática Alemã (RDA), e os últimos 35 anos numa Alemanha unificada em democracia. Filha de um pai pastor que decidiu, por vontade própria, ministrar na RDA por sentir ser lá preciso, aprendeu desde cedo a medir as palavras, a pensar antes de falar mas, ao mesmo tempo, a deixar a sua marca quando, por exemplo, no seu último ano de liceu a sua turma decidiu, voluntariamente, não apresentar um trabalho de final de ano que era requerido. Sendo a turma intimada a apresentar esse mesmo trabalho, fê-lo à sua maneira, o que quase pôs em risco a sua entrada na universidade. Foi a primeira mulher chanceler – o que se torna interessante quando se fica a saber que veio da RDA – iniciou a sua carreira política já aos 35 anos e, principalmente, o que a fez permanecer na CDU foi o facto de lhe parecer o partido mais integralista e, na sua óptica, com uma melhor visão da abertura da Alemanha unificada ao ocidente. Pode-se gostar ou não gostar da sua ação política. Por um lado pode parecer fria a sua descrição da crise do euro e, ao mesmo tempo, calorosa a abertura das fronteiras alemãs aos refugiados. Uma coisa não se pode negar, governou numa altura essencial de mudança, que nos catapultou para a ordem mundial de agora.

Por isso, por todos estes aspectos, trata-se de um livro a ter em conta — traduzido a quatro mãos por Ana Pinto Mendes, Margarida Pacheco Nunes, Mónia Filipe e Paulo Rêgo — principalmente quando a Alemanha está prestes a ir a votos e há uma nuvem que paira no ar. Embora a CDU, o seu partido, esteja em primeiro nas sondagens, a AfD está em segundo e não se sabe o que poderá acontecer. Merz abriu uma porta de pandora por ter aceitado os votos da AfD, muito embora já tenha frisado veementemente que jamais faria uma coligação mas, mesmo assim, há diferenças que permaneceram desde Merkel e, claro, a questão da imigração permanece em primeiro plano, mantendo-se uma tendência para endurecer a sua legislação no que diz respeito a uma maior facilidade de deportações e um controle mais rígido das fronteiras, o que coloca o próprio SPD numa posição pouco confortável. No entanto, independentemente do que acontecer, não esqueçamos que a história se escreve todos os dias.

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