A quarta parede em “Scenes from a Marriage”

por Cronista convidado,    12 Outubro, 2021
A quarta parede em “Scenes from a Marriage”
Oscar Isaac e Jessica Chastain em “Scenes from a Marriage”
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Scener ur ett äktenskap, do realizador, produtor e dramaturgo sueco Ingmar Bergman foi lançada em 1973 para o formato televisivo e contava-nos a história da desintegração de um casamento. Recebida com grande entusiasmo crítico na altura, a produção chegou-nos até hoje como um marco do realismo cinematográfico e uma das melhores obras de Bergman.

Mais recentemente, no passado dia 13 de setembro de 2021, a plataforma de streaming HBO lançou em Portugal uma adaptação contemporânea deste clássico, à luz das relações, do quotidiano e das vivências cujas mutações, ao longo de quase meio-século, eram inevitáveis.

Contudo, não é pela qualidade cinematográfica, pelo nível de atuação ou pelas modificações feitas ao guião original que surge a novidade mais reveladora desta nova produção. Surge, sim, genialmente, pelos (sensivelmente) trinta segundos iniciais de cada um dos cinco episódios, cujas durações orbitam os sessenta minutos. É nestes trinta segundos iniciais que a quarta parede dramática é visceralmente rasgada diante de nós.

Ainda antes de mergulharmos na ação a decorrer, nas personagens à nossa frente, na luz e nos próprios ambientes, somos deparados com aquilo que é uma reprodução das  filmagens — ou um plano inferior das ”reais” filmagens. Se este rápido vislumbre é o choque, a imediatidade com que os atores recompõem as suas expressões e começam as suas falas é o murro no estômago que nos prepara para a compreensão do significado daquilo que  acabámos de ver. A história daquela relação, que implode diante dos nossos olhos deixa de  ser a mensagem a realçar: dali em diante, deixamos de estar perante uma história de um amor eviscerado das suas fundações, tanto pelo egoísmo e narcisismo de quem que vai, como pela insciência e falsa comodidade de quem fica.

E o que nos resta? Apenas uma (genialmente retratada) performatividade inerente às relações amorosas. É-nos difícil responder à questão lógica que se segue: serão os atores uma dupla excecional na representação dos dramas amorosos de uma relação conturbada (no mínimo); ou seremos nós, individualmente, que, nos nossos infinitamente específicos contextos, dramatizamos e representamos papéis, mesmo nas nossas vidas mais íntimas?

E, mais significante ainda, o que nos fará sentir essa necessidade de recorrer à estética, mesmo quando o que sentimos é sincero para connosco? Que mensagem é transmitida acerca da agência de cada um de nós nas relações onde nos movemos, invariavelmente?

É nesta perda de vergonha e colossal indelicadeza, a roçar uma verdadeira genialidade artística, que a adaptação de 2021 difere do original de Bergman e é, por isto mesmo, que não poderia ser mais atual. Esta mensagem subliminar desliga-se por completo do fait accompli da história das duas personagens e mantém-se assim, firme como os raukfält (colunas rochosas formadas pela erosão marítima) comuns na ilha de Fårö, onde Bergman filmou muitas das cenas da sua produção original.

Crónica de André Francisquinho.

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