A vergonha tem de mudar de lado

“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Sempre às terças na Comunidade Cultura e Arte.
Querida Patrícia,
Abro esta carta com um tema que circula através de uma petição online — «Contra a violência sobre as mulheres». Esta é a terceira petição de «Por um mundo mais justo», um ajuntamento de pessoas, movido sobretudo pela Francisca de Magalhães Barros (activista e pintora), sendo que a primeira petição que fizeram, com 44 mil assinaturas, foi tornada lei em 2021, dando à criança estatuto de vítima, quando inserida num contexto de violência doméstica. A petição que circula agora, em 2025, tem como objectivo sensibilizar para a urgência de legislar medidas mais eficazes que previnam e reprimam crimes sexuais e de violência doméstica contra as mulheres, sobretudo em casos de homicídio (pede-se a autonomização do crime de feminicídio). Terminaste a tua carta com uma questão que se liga ao que acabo de te contar: «Será porque, apesar de todas as constatações, a mulher sabe que o electrodoméstico continua a ser o seu melhor amigo na cozinha, mas, ainda assim, prefere ter a companhia de um marido, ainda que inapto e machista, no sofá? Será o medo da solidão um calcanhar daqueles?» Não sei se, nos casos da violência doméstica, é só o medo da solidão que faz uma mulher ficar numa casa que arde por dentro todos os dias, como um Hades eterno, ou se o faz por dependência económica e/ou emocional. No caso da violência emocional, uma droga bem viciante e que pode adoecer até à falência a própria vítima, é um cenário muito complexo. A minha experiência enquanto espectadora e protagonista neste assunto faz-me estar por dentro de narrativas reais. São uma droga que circula há várias gerações na minha família, materna e paterna. É como se nos corresse no sangue, entendes? Cortar esse cordão umbilical, que nos liga a uma espécie de ambientes tóxicos e violentos, é um acto de extrema coragem. Se a própria lei não protege quem já tem dificuldade em escapar a um fado ancestral, como pode uma mulher quebrar as grades, muitas vezes invisíveis, que a mantêm em cárcere dos padrões com que cresceu e da violência do agressor? Lembro-me de ser criança e de pensar — porque não saíam as mulheres desse ambiente hostil? Porque não faziam queixa à polícia e mudavam de casa? Na minha cabeça de criança, fugir de um agressor não podia ser mais complicado do que escapar ilesa ao jogo das escondidas, em que, se fores esperta, te escondes bem e voltas para o lugar salvo quando apanhas o predador pelas costas. Cedo descobri que não é assim que funciona. Sair de uma relação violenta e abusiva é muito difícil; primeiro, porque é preciso que a vítima acredite que vale mais do que aquilo (pancada, insultos, negligência, entre outros), quando normalmente cresceu a acreditar que vale pouco; segundo, porque é preciso que a lei lhe diga, como no jogo das escondidas, «bate na parede e diz “1,2,3”, estás salva», e a mulher ficar mesmo a salvo.
Este tema mexe demasiado comigo. Falavas da tua avó na carta anterior. Também te quero falar das minhas avós — Adelina e Silvina. A Silvina está quase a completar noventa e cinco anos, a Adelina partiu há uns anos. Ambas vítimas de violência doméstica enquanto os meus avôs foram vivos. Durante muitos anos, levaram porrada a sério, com uma frequência no mínimo semanal, e só não morreram às mãos dos maridos por sorte. Foi mesmo sorte aquilo que tiveram, dentro do grande azar de terem casado com monstros. Era assim naquela altura, podias ter ventura ou infortúnio com o marido que te calhava. Se tivesses má fortuna, tinhas que te aguentar. Afinal, estavam ligados para sempre. Estávamos em pleno Estado Novo, a esposa era propriedade do marido e a violência sobre as mulheres uma coisa completamente normalizada, ninguém fazia queixa se o marido lhe batesse, muito menos se abusasse sexualmente dela (nem ela saberia dizer que estava a ser abusada, o marido tinha direitos sobre o seu corpo). Fazer queixa para quê?, a própria polícia dizia para não serem queixinhas e que os arrufos resolviam-se em casa. Falo-te dos anos 40, 50, 60 e até 70 em Portugal, quando não era crime bater na mulher e nos filhos. Depois do 25 de Abril, as coisas começaram a mudar, mas muito devagarinho, sem urgência. Já viste que só há vinte e cinco anos é que Portugal considerou a violência contra as mulheres um crime público, ou seja, no ano 2000? Isto foi ontem. Quando olhamos para os números do presente é assustador, continuam a aumentar, o número de mulheres assassinadas no contexto de violência doméstica continua a crescer todos os anos e ainda não há praticamente medidas adequadas. A Comissão para a Igualdade de Género (CIG) indica que entre Janeiro e Setembro de 2024 ocorreram dezoito homicídios (quinze mulheres e três homens), e este ano, sendo que ainda só estamos em Fevereiro, os números são quatro mulheres, uma criança e um homem. Tudo isto dentro do contexto da família, na segurança fictícia do lar. Daí a pertinência desta petição, que peço que assines e que te juntes ao Nuno Markl, Isabel Abreu, Joana Seixas, João Reis, Ana Bacalhau, Miguel Raposo, Marisa Liz, Paula Cosme Pinto, Miguel Costa, Joana Azevedo, Manuela Couto, Francisca Salgado, Sofia Ribeiro, Luana Piovani, Sónia Tavares, Paulo Furtado, Carolina Deslandes, Patrícia Reis, Sofia Arruda, Albano Jerónimo, entre muitos outros, para que ainda este ano sejam legisladas medidas mais adequadas.
Querida Patrícia, monopolizei a carta com este tema. E só aflorei questões que dizem respeito ao contexto português. Ambas sabemos que há lugares ainda mais sórdidos e sombrios para se ser mulher. Há pouco, antes de te escrever a carta, Lisboa foi abalada por um sismo de magnitude 4.7 na escala de Richter. Tive medo. Senti a força da Terra, como em Agosto passado que me fez tremer a cama e despertar durante a noite. Hoje vi o vaso em cima da mesa da sala tremer durante seis segundos. Pus-me debaixo da ombreira, pensei na minha filha na escola. Fiquei a tremer muito tempo depois da terra ter parado de se agitar, alertando para o seu poder e força. É um som que impõe respeito. O som da Terra, a mãe natureza a dar um sinal claro da sua existência e a fazer-nos sentir pequeninos, como somos e deveríamos nunca esquecer. Já disse que tive medo? Quase tanto como quando fui agredida por alguém que dizia amar-me ou quando vi alguém que amo ser agredido. A pergunta que te deixo é íntima e colectiva, que torna fracos os que se deixam enrodilhar nela, como eu, há muitos anos — como perder o medo do medo?