A vergonha tem de mudar de lado

por Patrícia Portela,    25 Fevereiro, 2025
A vergonha tem de mudar de lado
PUB

“A vergonha tem de mudar de lado” trata-se de uma troca de correspondência pública entre as escritoras Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela. Cartas que pretendem colocar questões sobre a actualidade e reflectir em conjunto com os leitores. Sempre às terças na Comunidade Cultura e Arte. 

Querida Chéu,

Tens toda a razão, como pude ser tão leviana ao colocar aquela questão sem considerar todas as suas possíveis leituras. Quando perguntava porque continuamos a preferir o marido inativo no sofá sabendo que não faz mais companhia do que um eletrodoméstico amigo, referia-me naturalmente, aos milhares de casamentos que são mantidos em banho-maria, equilibrados num tipo de violência silenciosa suficientemente tolerável para não valer a pena colocar em causa e suficientemente sufocante para aniquilar qualquer vontade de mudança de cônjuges ou de pares ou de estilo de vida.

Sem dúvida, são muitas as vezes em que não reconhecemos as situações de abuso ou agressão que vivemos, ou se as reconhecemos, somos incapazes de deslindar quem são os responsáveis ou quais os padrões do nosso comportamento que nos levam a cair nestas ciladas. Tal acontece tanto na família como no trabalho. E no trabalho os processos adquirem tantas vezes contornos tortuosos e profundamente tóxicos enquanto se apresentam como aceitáveis e até irrecusáveis para quem sonha com um futuro cheio de sucessos e atenção.

O trabalho artístico, por ser precário e sem regulamentação em Portugal, é com frequência o palco perfeito para espetáculos pouco agradáveis de assistir ou participar. Aparentemente obedecendo a modelos mais horizontais e em nome de um alegado respeito por este mistério de seu nome inspiração, múltiplos abusos são permitidos em nome do ato criativo. Directores artísticos que fazem pedidos duvidosos e invasivos em audições para encontrar a pessoa perfeita para um determinado papel, companhias de teatro que se dizem coletivas mas tratam a equipa técnica e de produção que para eles trabalha (ou mesmo os seus pares artísticos) como se fossem escravos, artistas sem rede que se sentem obrigados a aceitar (e a colecionar) residências artísticas como co-produções e apoios pagos em géneros de estruturas culturais que vivem de apoios estatais bojudos, graças ao currículo dos artistas que acolhem (mas não pagam!); programadores que nos dizem que é uma oportunidade única apresentarmos o nosso trabalho neste ou naquele festival e por isso aceitável recebermos dez vezes menos do que uma companhia estrangeira que vem com o selo do festival X e Y e da rede de apoios europeia W e Z; contratos que defendem a instituição mas raramente defendem o criador das obras que acolhem e que exigem acordos absurdos em cláusulas que exigem que: em caso de doença ou morte, o artista deve substituir-se (garanto-te que já discuti esta questão com afinco e hoje, felizmente, esta alínea já saiu dos contratos desta empresa de contratação pública – e gosto de pensar que fui uma das que contribuiu para a sua eliminação após ter tido um acidente de carro mesmo antes de uma récita – mas a sua substituição não é muito melhor), diretoras financeiras de teatros que nos dizem que vão cortar no orçamento porque não aceitam substituições de atrizes por doença sem o aval do teatro e que após longa discussão, se confirma que essa possibilidade está prevista em contrato, essa mesma diretora comenta: pois é, temos de mudar os contratos! (e, acredita, querida Chéu, mudaram!); encenadores que te chamam à parte para te dizerem que não podes continuar a trabalhar nesta companhia (apesar do declarado sucesso do teu trabalho e da inegável dedicação ao projeto) porque não ficas para jantar todos os dias e não concordas sempre com o mestre! Diretoras artísticas que já não são diretoras artísticas de teatros onde tu trabalhas, mas que ainda assim têm sempre a última palavra sobre o que fazes e te avisam que vais ser despedida porque trabalhadores (que não sabes quem são e ela te diz que não te vai dizer quais nem vai mostrar as queixas a ninguém) estão descontentes com a tua prestação e que o melhor é saíres de fininho, e que não te preocupes que mais ninguém vai saber de nada, até podes inventar tu uma desculpa para a tua saída, enquanto deixas, já agora, a programação fechada. Pessoas que acumulam salários em cargos de influência em várias regiões do país enquanto falam em nome da descentralização, pessoas emprateleiradas no seu trabalho por superiores numa estratégia de desgaste físico e moral para te levarem a sair (ou à loucura) e evitar assim indemnizações ou despedimentos ilegais.

Enfim, poderia preencher páginas e páginas de situações irregulares, todas elas possíveis de acordo com a LEI (essa palavra que se parece colar à boca de quem comete uma ilegalidade) mas de caracter ético bastante duvidoso e garanto-te que todos os leitores e leitoras se reconheceriam em pelo menos um dos cenários descritos. E porque deixamos nós que isto nos aconteça? Porque o #metoo, tão importante e central em tantos países, não parece ter chegado ainda com a devida força a Portugal sem ser aos corredores e à mesa do café? Porque temos todas tanto medo do medo que temos? O medo de perder o pouco que temos, o medo de estarmos erradas, o medo de não encontrar melhor, o medo de sofrer mais ainda, o medo de não estarmos a ver bem, o medo do que digam de nós, o medo da retaliação, temos mais medo de que não gostem de nós do que da nossa própria destruição em nome da defesa de quem nos maltrata. Talvez porque, ao enfrentarmos estas situações, nos encontramos irremediavelmente sozinhas. Sim, quantas vezes estas histórias, infelizmente banais, não se viraram contra nós quando as confessamos abertamente, gritando por ajuda? Quantas vezes foste despedida de trabalhos que adoravas e fazias com dedicação porque não admiravas o encenador ou o realizador tanto quanto ele o desejaria e a tua vida tornou-se num inferno a partir do momento em que isso se tornou no problema central durante os ensaios? Quantas vezes ouviste: Não tens perfil para a política, ou para a vida pública ou para cargos de poder porque não tens jogo de cintura, porque não sabes fazer concessões (resta saber que concessões? E não serão favores, aquilo a que chamam concessões?) porque não aguentas todos os reparos que recebes diariamente, porque não aceitas as palmadinhas nas costas como paga pelo esforço em vez de um aumento no salário, porque não engoles todos os sapos que deves engolir e quando engoles não dizes: está delicioso, tal como todos os outros que ali estão.

Em suma, porque te recusas a aceitar uma metodologia que consideras injusta e ainda te atreves a apresentar soluções, ou pior: a quereres ir-te embora e provares assim que é possível interromper a cadeia do “tens de compreender, é assim”. Quantas vezes ouviste: sabes, Patrícia, estes são homens de outros tempos, pensam de outra maneira, tens de ser mais generosa… Quantas vezes ouviste: estás a ser rancorosa, extremista, escreves isso porque te sentes frustrada. Estás a ficar amarga, louca, excessiva, toma atenção senão vais acabar como as outras (as outras?)…

Quantas vezes terminaste o dia numa mesa de café onde alguém te disse com ares de amigo que te quer bem e que só quer ajudar, e te avisa que é mais aceitável ser um filho da puta do que sempre a subir até à direção de um departamento de um teatro, de uma universidade ou de uma empresa do que alguém que se despede de um cargo numa empresa na qual já não acredita? Ou porque simplesmente não deseja “crescer” naquele ambiente? Não quer ser promovida para um cargo? Quantas vezes a tua coragem de não aceitar que te maltratem é vista como uma desistência, uma incapacidade de lutar por aquele lugar no quadro (aguenta, aguenta, que só faltam mais dois anos e depois podes pedir um empréstimo para a casa, para o carro, para a vida dos sonhos de toda a gente menos dos teus? Porque é mais nobre ser uma esposa sem emprego de um CEO rico de uma empresa que faz tudo em outsourcing do que de um varredor de lixo que mantêm as nossas ruas limpas e trabalha 12 horas por dia? Porque se considera uma mulher que vive com a sua filha uma mulher que vive sozinha e um homem que vive sozinho e não toma conta dos filhos um playboy, um boémio, um bon-vivant? E porque seria essa realidade, de viver com uma filha, algo indesejável quando tão cheio de cumplicidade e frescura, bem mais do que quando se vivia em permanente tensão e tristeza contida?

Porque se normaliza o que está enfermo, caduco, equivocado, e como se corrige essa anomalia projetando a vergonha para o outro lado da barricada? Porque nos calamos e não partilhamos mais destas histórias tão comuns, tão mesquinhas, tão desnecessárias no nosso quotidiano?

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.