E tu? Ias para a frente de batalha?

por Rui Maciel,    19 Março, 2025
E tu? Ias para a frente de batalha?
DR
PUB

A guerra em grande escala voltou há três anos à Europa. Desde aí, o sentimento bélico ascende galopantemente na agenda política. Desde o final da Guerra Fria, nunca se discutiu tanto o rearmamento dos países europeus, o regresso do serviço militar obrigatório, e os recursos disponíveis para financiar esforços militares. Num mundo, onde a Europa é abandonada pelos EUA e no qual é obrigada a pôr tropas suas no terreno, pergunto: irias para a frente de batalha?

A guerra da Ucrânia, embora tenha começado como um guerra territorial, transformou-se num momento de revolução diplomática. Não estava no meu bingo assistir aos EUA votarem ao lado da Coreia do Norte, nas Nações Unidas, e não condenarem a invasão russa. Assistimos a um realinhamento diplomático, no qual os Estados Unidos usam o seu poder para fazer uma diplomacia transacional (como garantir a defesa da Ucrânia em troca de terras raras), deixando uma parte à Rússia, numa política de dividir para reinar. Além disso, J.D. Vance no seu discurso na conferência de Munique ataca os países europeus, dizendo que a liberdade de expressão na Europa “está em retirada”. A geopolítica do mundo, no qual a minha geração, nasceu está a olhos vistos a desmoronar-se. 

Atualmente, as autocracias e as democracias “híbridas” crescem em detrimento das democracias. Tem de haver um debate sobre o porquê das democracias existirem e o que é a Europa e a União Europeia. Os anos de bonança do pós-guerra fria deixaram a Europa adormecida. Fomos vítimas do sonho do pós Segunda Guerra Mundial no qual confrontos bélicos deste nível estavam reduzidos a páginas de histórias. Ao aceitarmos o subsídio de defesa dos Estados Unidos, renunciámos à nossa própria política externa. Agora a maior guerra em solo europeu depois da Segunda Guerra Mundial não é decidida pelos Europeus, mas sim pelos norte-americanos. A falta de pensamento sobre o que deveria ser a Europa deixou-nos neste estado: não sabemos o que somos, nem para onde vamos. Num momento em que se discutem acordos de paz, nos quais a presença de tropas europeias em solo ucraniano é cada vez uma maior realidade, sinto a falta de um debate maior.

Nos debates sobre a defesa da Europa, fico perplexo por ver somente discussões sobre quantos milhões vão para a defesa. Não que o armamento não seja importante, mas existe um debate muito mais urgente: mas para que é que lutamos?

Há uma necessidade de fazermos uma introspecção dos nossos valores em sociedade. Estamos dispostos a lutar por aquilo que acreditamos? Serão os recursos financeiros que ditarão as nossas ações diplomáticas? Em que é que acreditamos sequer? Como reagiríamos se a Rússia, após anexar parte da Ucrânia, invadisse um país aliado de Portugal como, por exemplo, a Estónia? Infelizmente este não é um cenário improvável. A guerra na Ucrânia abriu um precedente muito perigoso e pouco abordado. A guerra tradicional voltou a ser uma arma diplomática. 

E que como é individualmente reagiríamos a isto? Se uma guerra em grande escala acontecesse ou em Portugal ou na Europa, acho que a resposta mais fácil é sempre que uma pessoa fugiria. Contudo, após uma maior introspecção, eu não sei se seria tão linear. Como é que me sentiria se a minha casa fosse ocupada ou bombardeada por estranhos? Porque eu poderia fugir, mas o que aconteceria aos meus familiares de idade avançada que não seriam capazes de fugir? Que sentiria ao ver a minha cidade a ser destruída, no conforto de um sofá num país estranho? E mais que isso, que sentimento de culpa teria por estar fora e ter deixado a minha família, os meus amigos, e a minha vida para trás? 

Pode parecer um pensamento muito adiante. Porém, julgo importante estarmos preparados para o que vem aí. A guerra na Ucrânia é só o início de um novo mundo e exigem-se respostas quer a nível individual, quer a nível politico. Por exemplo, nas próximas legislativas queremos mesmo estar a debater a idoneidade do primeiro ministro em vez de discutir o posicionamento de Portugal num mundo pós-Nato? Não que a vida profissional do primeiro ministro não seja importante, mas ao focarmo-nos exclusivamente na integridade de um indivíduo, esquecemo-nos que o mundo continua.

Por fim, é sempre importante relembrar, na Ucrânia não só se luta a história e o futuro da geopolítica internacional. E esse é o maior problema, esquecemo-nos que:

A tragédia é de uma dimensão tal, que os números são demasiado grandes para se compreender. Como se diz por aí: uma morte é uma tragédia, mas a morte de milhões é estatística. Embora este texto seja uma reflexão sobre o que as consequências da guerra, ponho-te na situação que muitos ucranianos enfrentaram no momento da invasão em larga escala russa: ias para a frente de batalha?

Sugestões do cronista:

Para compreender melhor a guerra da Ucrânia há dois documentários que recomendo. O primeiro é o documentário “Winter on Fire” da Netflix, disponibilizado gratuitamente no Youtube, que relata os acontecimentos que levaram à revolução ucraniana de 2014, e que, como consequência, levou a Rússia tomar a Crimeia e começar o conflito no Donbass. Para todos os europeístas convictos, este é um documentário obrigatório porque vemos manifestantes a marchar sobre fortes disparos policiais, enquanto erguem a bandeira da União Europeia.

O segundo é o documentário vencedor de Óscar “20 days in Mariupol”, que nos dá a perspetiva do que é sobreviver numa cidade que está a ser vítima de uma invasão em larga escala. Também está disponível online gratuitamente. É um documentário cru que nos faz ver em direto os horrores da guerra e questionar como no século XXI é possível o ser humano não ter aprendido nada com os erros das guerras do passado.

Campanha pela Ucrânia:

O autor desta crónica está a organizar uma campanha de recolha de fundos pela Ucrânia. Para mais informações contactar o autor pelo seu instagram @ruimaciell.

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.