Entrevista. Capicua: “Ainda há espaço para combater o que parece inevitável e estou aqui para defender a democracia até quando for necessário”

por Ana Monteiro Fernandes,    24 Março, 2025
Entrevista. Capicua: “Ainda há espaço para combater o que parece inevitável e estou aqui para defender a democracia até quando for necessário”
Capicua / Fotografia de Rui André Soares – CCA
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Cinco anos após “Madrepérola” — hiato durante o qual escreveu um livro para crianças, lançou um livro de crónicas, fez a curadoria do disco de homenagem a Sérgio Godinho (“SG Gigante”), escreveu o disco “Metade-Metade” de Aldina Duarte além de outros projetos — Capicua regressa com “Um gelado antes do Fim do Mundo” para renovar os votos de esperança no meio do caos político e social atual.

Relembrando Matilde Campilho que diz que “a poesia não salva o mundo. Mas salva o minuto”, Capicua confessa que acha que este é dos seus “discos em que a poesia está mais visível, em que a palavra declamada está mais presente”, e em que reforça “mais essa ideia de que a poesia é quase uma necessidade vital e uma força de resistência em tempos como este, de niilismo, de cinismo, de falta de empatia, de esperança”. A artista sublinha também que houve uma maior vontade de experimentação na companhia de Luís Montenegro, que produziu o disco e foi essencial neste processo “muito mais experimentado, de composição, com mais instrumentos e não só na lógica da música eletrónica, como habitualmente.”. Sem esquecer as participações de Gisela João, Sopa da Pedra e Toty Sa’med. 

“Um Gelado Antes do fim do Mundo” dá-nos o alento e, ao mesmo tempo, apresenta uma caneta que escreve mais afiada do que nunca. A seu ver, se acreditarmos que o desfecho já está traçado e já não vale a pena, então não haverá quem se lance para a luta necessária. A gentrificação, as redes sociais, a atualidade política, as questões ambientais, o feminismo e sua necessidade urgente e ainda atual, tudo isto está no disco de Capicua que passa por todas estas grandes questões contemporâneas. “Tentei trazer todas estas temáticas para dentro deste disco, para falar sobre o ar dos tempos, mas não alimentando o desencantamento, a angústia e a preocupação“, revela.

A poesia precisa de falar dos pássaros mas também é necessário que as bombas cessem para os podermos ouvir, como dizem os versos do poeta palestiniano Marwan Makhoul. A rapper falou com a Comunidade Cultura e Arte (CCA) sobre tudo isto na gelataria Nivá, em Matosinhos, porque também é preciso apreciar um gelado para fazer face ao desalento e continuar a apontar para o que vai mal. Após o concerto em Lisboa, apresentar-se-á na Casa da Música, dia 27 deste mês, acompanhada por Luís Montenegro, Virtus, D-One, Inês Malheiro e Joana Raquel. 

Porquê este conceito do “Um Gelado antes do Fim do Mundo”? É como algo doce que se serve para esconder o que está mal?

Diria que é como se fosse um convite a um intervalo, a um momento de prazer e de contemplação. Neste caso, utilizo a música, a palavra — que é o que faço e no que consiste a minha proposta artística — num tempo muito complexo e angustiante. O disco fala sobre as questões do nosso tempo, sobre o que me preocupa e o que considero ser mais desafiante e angustiante nos dias que correm mas, ao mesmo tempo, pretende ser um disco esperançoso que fala sobre o encantamento como uma alternativa a esta angústia e também a este adormecimento que vamos cultivando com as redes sociais, com a dopamina rápida, com a vontade de fugir destas preocupações. Mais do que esconder, é uma proposta de renovação, de esperança e de encantamento a partir da palavra e da música. 

“Se acharmos que não vale a pena lutar por nada e estivermos sempre desencantados, vencidos e meio adormecidos, não nos atiramos para a luta nem temos esperança de que possa mudar alguma coisa.”

É servir um gelado no meio de todo este caos contemporâneo. 

Sim, é como se o gelado simbolizasse essa pausa para recarregar energias e baterias, assim como o próprio compromisso com a esperança. Penso que no contexto em que estamos, com tantas preocupações, é habitual ficarmos esmagados pela dimensão dos problemas e das preocupações. Temos, desde logo, a ansiedade climática, mas também muitas outras questões preocupantes como os conflitos no mundo, o crescimento da extrema-direita e a toxicidade do debate público. Há tanta coisa na ordem do dia para nos preocuparmos que, às vezes, trata-se de ouvir um disco, ver um filme ou estarmos disponíveis para nos deixarmos impactar pela arte, pela natureza ou pelo contacto com o Belo, com B grande. É importante, até para renovarmos os votos com aquilo por que vale a pena lutar. Se acharmos que não vale a pena lutar por nada e estivermos sempre desencantados, vencidos e meio adormecidos, não nos atiramos para a luta nem temos esperança de que possa mudar alguma coisa. 

Capicua / Fotografia de Rui André Soares – CCA

No tema “Souvenir” dizes isto: “Somos os fantasmas da cidade sem memória/ os que já não pertencem/ mas que se recusam a ir embora/ Ficamos com os restos e os ratos das vielas/ ficamos com o lixo dos hotéis de cinco estrelas” De que forma achas que este excesso de gentrificação afastou os moradores da sua própria cidade? Estamos também a assistir a um processo de descaracterização destas mesmas cidades, neste caso Lisboa e Porto? 

Estamos a assistir a um processo rápido de descaracterização e à custa de muitas pessoas que têm de deixar a casa na qual moram há muitos anos, por não terem capacidade financeira de acompanhar a subida das rendas ou o valor das casas. Vemos que as pessoas estão a ser empurradas para cada vez mais longe e que a cidade está a transformar-se num cenário para grandes acontecimentos ou para visitantes desfrutarem durante alguns dias, em vez de ser um espaço de memória no sentido humano, de relações, de pessoas que se conhecem, que têm rotinas sedimentadas no tempo, que criam relações, que permanecem e que tornam a cidade um espaço vivido. Isso acaba por criar um processo de substituição da população que vive, que habita e trabalha na cidade, por pessoas que apenas passam e que não constroem memória, não criam relações e não fazem parte do tecido social que compõe o espaço urbano. As cidades não são só os edifícios, são essas relações. Temos assistido a esse processo de substituição da população, à expulsão das pessoas para cada vez mais longe e à destruição desse tecido que é, de facto, a grande alma das cidades: falo das pessoas, das suas relações, das suas rotinas, dos seus lugares de memória.

No tema “Chiaroscuro” fazes uma alusão direta às redes sociais e dizes isto: “A cada fogo-fátuo de indignação/dançamos em círculos à volta de uns fogachos de convicção”. Da forma mais direta possível, achas que através das redes sociais se consegue forjar muita indignação que, no fim, pode não ser tão real? Ou seja, indignamo-nos com um tema porque está na ordem do dia mas, depois, passa e fica esquecido? 

As redes sociais alimentam essa lógica das polémicas sucessivas que concentram toda a gente no mesmo assunto, mas rapidamente substitui-se o tema do dia por outro e há uma espécie de voragem da novidade, da polémica e da indignação. É uma espécie de montanha-russa com muitos picos de indignação, mas depois cai tudo no esquecimento e, simultaneamente, cruzam-se as coisas mais frívolas, superficiais e fúteis que há na internet, com as coisas mais preocupantes que nos deviam indignar e preocupar muito. Como é tudo posto ao mesmo nível perde-se tudo naquela voragem demasiado rápida, acabamos por nos tornar um pouco insensíveis porque as coisas banalizam-se.

A nossa capacidade de nos indignarmos e de criarmos empatia é, às vezes, muito performativa porque é mais para participarmos naquela onda trend, do que propriamente para fazermos parte da solução e da mudança de forma profunda e mobilizadora. As redes sociais, por vezes, esvaziam as lutas do seu sentido. Apesar de fazerem chegar a informação a muita gente, não sinto que tenham um poder efetivo para angariar mobilização. Só uma minoria de pessoas é que consegue sentir-se mobilizada de forma emocional e real, com um compromisso de fazer alguma coisa fora daquilo que é a espuma dos dias das redes sociais. 

A nossa capacidade de nos indignarmos e de criarmos empatia é, às vezes, muito performativa porque é mais para participarmos naquela onda trend, do que propriamente para fazermos parte da solução e da mudança de forma profunda e mobilizadora. As redes sociais, por vezes, esvaziam as lutas do seu sentido.

É fácil para um artista criar a ilusão de que as redes sociais lhe proporcionam o controlo total do seu trabalho? Num texto teu também dizes que os seguidores não pertencem ao artista, pertencem às redes sociais.

Penso que os artistas nunca sentem que estão no controlo daquilo que se passa nas redes sociais. Os artistas tentam divulgar o seu trabalho a partir das redes sociais, muitas vezes jogando um jogo perverso que passa, muitas vezes, por terem de criar uma fan base para si próprios, para depois as pessoas criarem interesse no seu trabalho. É um bocado ao contrário do que acho que deveria ser. Considero, simultaneamente, que vivemos sob a ditadura do algoritmo e, portanto, aquilo que tem alcance, muitas vezes, quase nunca está sob o nosso controlo. Não só é perverso dentro do âmbito das redes sociais — andamos ali naquela rodinha de rato a tentar que as pessoas prestem atenção ao que, por vezes, custou anos a criar porque, de facto, o tempo da arte está muito distante do tempo do mercado e o mercado, hoje, é o mercado das redes sociais — como o que é mais preocupante é a lógica das programações dos espetáculos e até dos festivais, que também vivem muito do que é a lógica do algoritmo. 

A lógica do algoritmo passa para a atividade fora das redes sociais. Isso é preocupante porque os artistas dependem dessa programação e ficam escravos da necessidade de dinamizarem essa rodinha de rato das redes sociais para conseguirem ter trabalho e chegarem ao público. Já por não dizer que ficamos um pouco órfãos de alternativas, uma vez que praticamente desapareceram as rubricas e as plataformas de divulgação de cultura nos media tradicionais. Para quem trabalha com cultura, é quase obrigatório estar nas redes sociais e jogar esse jogo, porque não há muitas outras formas de chegar ao público. Se um trabalho não estiver nas redes sociais, é como se não existisse na vida real e, claro, queremos que as pessoas ouçam a nossa música, leiam os nossos livros, ou vão aos nossos espetáculos. Vemo-nos obrigadas a participar nesse jogo que, às vezes, é muito injusto e perverso. 

“Se um trabalho não estiver nas redes sociais, é como se não existisse na vida real e, claro, queremos que as pessoas ouçam a nossa música, leiam os nossos livros, ou vão aos nossos espetáculos.”

Tens sentido que ao longo dos anos os media tradicionais têm diminuído o seu espaço para a divulgação cultural? 

Sem dúvida. Notei isso, principalmente, nos anos pós-crise da Troika, quando muitas redações foram centralizadas e as equipas diminuíram de tamanho. Perderam-se algumas  equipas, nomeadamente nas áreas em que se podia cortar, e a cultura, já sabes, é a primeira a ir. Senti isso, também, na altura da pandemia porque, como tivemos quase dois anos sem grandes eventos culturais, muitas dessas equipas diluíram-se em outras secções, digamos assim. Estava a falar da informação, mas isso também é muito percetível nos programas de entretenimento: é muito raro o programa que tenha música ao vivo, por exemplo.

Tens muitos mais programas de talentos em que as pessoas interpretam músicas alheias, do que programas em que os próprios artistas apresentam a sua própria música. É mesmo muito raro existir esse espaço nos canais de televisão, por exemplo. Mesmo na imprensa escrita, muitas publicações de cultura transformaram-se em publicações online, e mesmo os jornais semanários e as revistas foram diminuindo, ao longo do tempo, o espaço, o número de páginas que tinham para a divulgação de cultura. Penso que este é um processo que está a acontecer em paralelo com alguma falta de liquidez dos meios de comunicação que estão em crise, como sabemos, infelizmente. Consequentemente, vão cortando naquilo que podem. A cultura, de facto, não tem sido uma grande prioridade. 

Capicua / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Mas em relação às redes sociais, há também o problema de serem dominadas por multimilionários, por grandes grupos que podem monopolizar muito rapidamente as opiniões das grandes massas. 

Sem dúvida. Um dos riscos das redes sociais é a imensa desinformação. O facto de, muitas vezes, as pessoas viverem em bolhas criadas por esse algoritmo e ficarem expostas a um número de narrativas que, muitas vezes, nem têm validade científica e que passam a ser verdade nesta era da desinformação, da pós-verdade e das fake news. Este disco, “Um Gelado Antes do Fim do Mundo”, fala muito sobre estas questões. Não só tem a ver com esta temática das redes sociais e dos seus perigos — não só para a nossa saúde mental e individual, mas também para a saúde das nossas democracias e com os problemas mais amplos e coletivos — mas também a ver com este espírito da época, sobre estas contradições de que falávamos. Há uma espécie de sensação de fim do mundo, que a história se repete tragicamente.

Nunca, como hoje, tivemos acesso à informação e àquilo que é a ciência, que está muito evoluída nos dias de hoje. Mas parece, depois, que isso não tem uma grande capacidade preventiva face ao crescimento das fake news, das teorias da conspiração e da própria distribuição das nossas democracias. Parece que, apesar de termos muita informação disponível e acesso à ciência, isso não tem impacto na valorização da verdade, digamos assim.

Consegues fazer a ligação entre estes tempos conturbados em que vivemos e o excesso de redes sociais e o individualismo que perpetuam? 

Penso que as redes sociais representam uma das dimensões das grandes questões, há, no entanto, bastantes outras. Mas é claro que passamos muitas horas por dia expostos às redes sociais e nas redes sociais.

Não só nos relacionamos com os outros — e muitas vezes de forma mediada pela tecnologia, já não presencialmente — como também nos relacionamos com a informação. Temos a ilusão de exercer cidadania. Portanto, desde o ponto de vista individual até ao ponto de vista político e coletivo, as redes sociais impactam de muitas formas diferentes a nossa vida.

De facto, esta é uma das grandes dimensões deste tal espírito da época, a que mais tem um grande impacto no que é o espírito da época, mas claro que há outras questões que têm a ver com a degradação do Estado Social, com alguma desesperança em relação ao futuro e as questões das alterações climáticas, que também trazem muita angústia e incerteza. Acho que a pandemia também teve um grande impacto no acelerar de todas estas dinâmicas, como o crescimento da extrema-direita, dos populismos e a toxicidade do debate público.

Tudo isso tem a ver com as redes sociais, mas também com muitos outros fatores que estão, de forma complexa, muito relacionados. Tentei trazer todas estas temáticas para dentro deste disco, para falar sobre o ar dos tempos, mas não alimentando o desencantamento, a angústia e a preocupação. Tentei, em vez disso, aguçar o espírito crítico e simultaneamente propor outros atalhos, outras formas de cultivar a esperança, a proatividade e a possibilidade de nos mobilizarmos e de criar novas utopias. Acho que é uma coisa que faz muita falta neste contexto.

No disco, fazes uma referência ao tema “Estrela da Tarde”. Achei curiosa a escolha deste tema, porque num documentário o Fernando Tordo disse que o Ary dos Santos queria uma música em que pudesse colocar lá muitas palavras à vontade. Neste disco, tens também muitas declamações, ou seja, só a palavra falada. Foi intencional o facto de deixares bem marcado neste álbum que os poetas e as palavras importam e têm de estar vivos e presentes? 

Sem dúvida. Acho que este é dos meus discos em que a poesia está mais visível, em que a palavra declamada está mais presente e em que reforço mais essa ideia de que a poesia é quase uma necessidade vital e uma força de resistência em tempos como este, de atomização, de niilismo, de cinismo, de falta de empatia, de falta de ironia, de esperança. O olhar poético pode ser, de facto, um antídoto para todo este deslaçamento e atomização.

Renovar os votos com a poesia é como renovar os votos com a humanidade. Na era da inteligência artificial, o humano, o falho, portanto, o poético ou aquilo que nos distingue das máquinas é, de facto, essa capacidade de criar sentidos, ambivalências, beleza, espaço de encantamento a partir da realidade. Considero que isso se faz a partir da poesia, no meu caso, a poesia na música. Este disco é muito sobre essa capacidade de cultivarmos a poesia num mundo cada vez mais prosaico e robotizado.

Falaste da versão da “Estrela da Tarde” e, realmente, a minha ideia foi homenagear o Ary dos Santos e a sua escrita, provando que ela é, de facto, muito rapável: a letra é super rápida, tem muita sofisticação métrica, está cheia de aliterações e senti que, além de ser muito fã dessa música, a poderia transformar num rap. Não só houve espaço para muitas palavras, como houve a maestria de lhes dar muito ritmo e muita poesia, obviamente. 

“Se escolhermos empatizar, continuar sensíveis, continuar atentos, continuar com o espírito crítico, continuar a exercer o nosso direito de dizer, de cantar e de escrever, já por si só é um acto de resistência.”

“Para escrever um poema que não seja político, devo escutar os pássaros. Mas, para escutar os pássaros, é preciso que cesse o bombardeamento”. Utilizas no disco estes versos do poeta palestiniano Marwan Makhoul. A poesia tem este lado que aponta para a realidade e mostra o que está a acontecer, muitas vezes de forma até ácida, esmagadora. Por outro prisma, também tem o lado que oferece encantamento, como o observar do céu, das estrelas, dos pássaros. Para ti, quando é que faz sentido oferecer o lado da realidade e o lado do encantamento? 

Penso que é algo subjetivo do poeta, pôr o foco no lado do belo ou daquilo que ele acha que é preciso denunciar. No meu caso, acho que este poema faz muito sentido e, de certa forma, diz muito sobre o espírito deste disco porque considero que, muitas vezes, se pede aos artistas que exerçam só o entretenimento, que nos distraiam. Mas acho que, num mundo como o de hoje, tão complexo e com tantos temas ensurdecedores, estar aqui só para entreter seria um grande desperdício de oportunidade. Seria só frívolo e até perverso. No meu caso, enquanto houver o ruído dos bombardeamentos, como diz o Marwan Makhoul, temos de falar sobre isso, não podemos falar só sobre os pássaros.

Temos de falar um pouco sobre os pássaros e um pouco sobre os bombardeamentos. Nesse sentido, acho que tem de haver espaço para que a poesia se espalhe pela realidade e a realidade contém essas coisas todas. No dia em que vivermos só no canto dos pássaros, aí podemos falar só sobre o canto dos pássaros. Até lá, acho mesmo que não falar sobre o bombardeamento ia ser ainda mais ensurdecedor do que o seu ruído. 

Mas à medida que o poeta vai afiando a sua caneta, também não seria bom que tivesse esta preocupação de oferecer uma espécie de salvação através do encantamento? 

A Matilde Campilho diz que “a poesia não salva o mundo. Mas salva o minuto”. Às vezes é muito isso. Seria demasiado ambicioso dizermos que a partir da música podemos salvar alguém, salvar a situação ou salvar o mundo, mas pelo menos damos ali uma oportunidade, uma lufada de ar para conseguirmos dar mais um passo. Isso já faz muita diferença, porque tudo neste tempo nos convoca para o adormecimento, para a desistência, para o escapismo, para a alienação. Se escolhermos empatizar, continuar sensíveis, continuar atentos, continuar com o espírito crítico, continuar a exercer o nosso direito de dizer, de cantar e de escrever, já por si só é um acto de resistência e isso faz, nem que seja naquele minuto, a diferença. É um bocado por isso também que acho que, de facto, a cultura pode ser um bálsamo no nosso tempo e tem a grande capacidade de nos fazer sentir o que é estar no lugar do outro. Isso também tem a ver com o exercício da empatia. Num contexto de grande atomização, de grande individualismo, de grande cinismo, de grande falta de empatia, acho que a cultura pode fazer a diferença, nem que seja naquele minuto. 

Sendo uma feminista assumida, como é que respondes às críticas que dizem que hoje em dia o feminismo dentro do contexto da nossa sociedade já não faz tanto sentido?

Num país que tem uma taxa de violência doméstica como o nosso, a diferença salarial que o nosso tem, já para não falar do número de horas que as mulheres trabalham a mais por dia na chamada economia do cuidado, são tantos os indicadores estatísticos, ou seja, factos, coisas inegáveis, que nem sequer devia ser preciso responder a essa pergunta.

Enquanto não vivermos num mundo em que não haja um único país em desigualdade de direitos e oportunidades, é óbvio que é preciso continuar a lutar pelos direitos das mulheres e é isso que faz o feminismo. 

Capicua / Fotografia de Rui André Soares – CCA

No primeiro skit do álbum focas, claramente, o 25 de abril. Como é que olhas para o futuro, tendo em conta a conjuntura atual e a subida da extrema-direita? Ainda há escapatória?

Olho para o futuro com preocupação e há uma frase que diz isso, que não há quem não sinta este cheiro a anos 30 no ar. Isso tem, de facto, de ser preocupante para todas as pessoas que se consideram democratas e que sabem o quão importante é viver em liberdade e num Estado de direito, digamos assim. Mesmo que as democracias sejam imperfeitas, ainda não se encontrou nada melhor e, portanto, estamos aqui para defendê-las.

Mas penso que, ao mesmo tempo, o acreditar que a profecia já está cumprida e não há nada a fazer, também é perigoso porque aí não vale a pena lutar. Considero que ainda temos muito espaço para combater aquilo que parece inevitável e, portanto, estou aqui para defender a democracia e a liberdade até que seja necessário. 

Achas que o aproximar da cultura da população em geral ainda pode fazer a diferença?

A cultura é sempre importante, tal como a educação, o acesso à saúde e à habitação. É quase como aquela checklist do Sérgio Godinho na música Liberdade: paz, pão, habitação, saúde e educação. Acho que a cultura também está nessa checklist e, de facto, se não pode mudar o mundo por si só, muda muitas vezes as mentalidades e isso é importante porque é o pensamento que começa tudo, sobretudo a mudança e essa capacidade de nos mobilizarmos ou, pelo menos, de criarmos empatia com o próximo, de nos tornarmos mais humanos. A cultura, aliás, é o que nos distingue dos animais.

“Enquanto não vivermos num mundo em que não haja um único país em desigualdade de direitos e oportunidades, é óbvio que é preciso continuar a lutar pelos direitos das mulheres e é isso que faz o feminismo.”

Fizeste este álbum porque sentiste a necessidade de dar uma resposta face ao que está a acontecer atualmente ou tiveste, primeiro, de maturar bem as ideias e tentar perceber o que é que se está a passar? 

As duas coisas. Este disco é lançado cinco anos depois do disco anterior. Claro que, neste hiato, fiz várias coisas: o segundo disco dos “Mão Verde”, um projeto de música para crianças; escrevi o disco da Aldina Duarte, o “Metade-Metade”; fiz um livro de crónicas; um livro para crianças; fiz a curadoria do disco de homenagem ao Sérgio Godinho, “SG Gigante”; e escrevi letras para outras pessoas. Andei sempre em atividade, mas houve um hiato, digamos assim, nos meus discos, para o meu público habituado, que durou cinco anos. Nesses cinco anos a vida mudou muito. Houve uma pandemia, o mundo complexificou-se, as coisas aceleraram e houve um aumento de tensão.

Senti que precisava deste tempo para perceber qual poderia ser o meu contributo, o que é que se estava a desenhar ao meu redor, digamos assim. E também senti que saía um bocado do olho do furacão da pandemia para perceber para onde é que caminhava o mundo. Portanto, sim, precisei desse tempo. Quanto à segunda pergunta, em que perguntavas se esperei este tempo para ter coisas para dizer: sim, claro. 

Os discos são um retrato de uma época e durante este tempo nunca estive ausente da realidade. Continuei a absorver o que se passa à minha volta, a apontar ideias, a refletir sobre o mundo e, portanto, este disco é o resultado desse processo e, simultaneamente, também da minha vontade de fazer música, de compor. Aliás, teve a produção do Luís Montenegro — não é o primeiro-ministro [risos] — que me acompanha já há muitos anos nos concertos como membro da minha banda, mas que neste disco foi o meu grande cúmplice num processo muito mais experimentado, de composição, com mais instrumentos e não só na lógica da música eletrónica, como habitualmente.

Não foi só, portanto, uma necessidade de dizer coisas ao mundo depois deste período de reflexão, mas também uma necessidade de cumprir a minha vida artística, de experimentar outras formas de transformar a poesia em música, de fluir entre o registo do rap, mas também da palavra beat e da palavra cantada, que é uma coisa que faço muito neste disco, com vários contributos de beatmakers diferentes, de instrumentos diferentes e convidados como a Gisela João, Sopa da Pedra e Toty Sa’med. Não só há um conjunto de temas que  achava que eram urgentes colocar em música, mas também uma grande vontade de criar e de compor com estas pessoas. É quase um renovado voto, também, com a criação. Estou muito feliz de chegar agora aqui com um disco e de renovar também o repertório dos concertos e recomeçar um ciclo no palco.

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