Entrevista. Cavalheiro: “Vivemos progressivamente desumanizados, mais longe uns dos outros”

por Ana Isabel Fernandes,    14 Março, 2022
Entrevista. Cavalheiro: “Vivemos progressivamente desumanizados, mais longe uns dos outros”
Cavalheiro (Tiago Ferreira) / Fotografia de Miguel Saraiva
PUB

“Ilha Digital”, o recente trabalho de Cavalheiro, Tiago Ferreira, lançado a 5 de Novembro, funciona como uma distopia e, nisso, vem, exactamente, ao que diz. Na sua conceptualidade, põe-nos a pensar na busca do amor e no falhanço dessa procura, mas, essencialmente, como vivemos numa sociedade em que as ligações humanas, neste pós-mundo tecnológico, podem ser pautadas por um lado irreal, ilusório e pouco empático: “vivemos progressivamente desumanizados, progressivamente longe uns dos outros”, avisa. Assim é “Erra”, o single de avanço que, de forma curiosa, resgata o 1984 pelo romance entre duas pessoas contido no livro. Romance, esse, que, segundo as palavras de Tiago, também foi “traído pela tecnologia”. Assim também é o tema que dá o nome ao disco, Ilha Digital, onde reafirma:“Moro numa ilha digital, o mar é de plástico e a atmosfera é letal.”

Cavalheiro não olha para a sua descrença no mundo tecnológico e para o seu álbum como um vaticínio, uma bandeira ou baluarte, até porque tem a consciência de que, afinal, a geração dos nativos digitais já não é a sua. Preocupa-o, isso sim, o facto de vivermos numa sociedade feita de relações voláteis sem necessidade de olharmos para a miséria do outro, onde falha a empatia, em que tudo parece ser feito à nossa medida e onde a internet serve, antes de mais, para nos espelhar e confirmar: “As pessoas querem confirmação, não desafio, por isso é que a internet tem esse carácter moldável às tuas ideias e estéticas. Ela percebe quem tu és, do que gostas e depois dá-te isso, confirma-te, de certa forma.” Foi o que Cavalheiro contou na seguinte entrevista.

Sendo tu um cantautor de cariz mais intimista, como foi, agora, fazer este álbum mais conceptual, tendo como base outras personagens e conceitos de raiz?
Foi, relativamente, fácil. O disco tinha, desta vez, de ser um pouco mais abstracto. Era fácil encontrar um interlocutor que não se focasse em mim, no que eu fazia ou no que estava à minha volta e, assim, é mais fácil abstrair-me. Não tinha de pensar, obrigatoriamente, em coisas muito concretas. Podia divagar, completamente, e a maior parte das canções são fruto dessas divagações: coisas que me ocorriam e que não tinham de ter uma aderência muito imediata à realidade, coisas pelas quais eu podia divagar um pouco. Foi, até, mais fácil do que escrever do ponto de vista estritamente pessoal. 

Consideras que este álbum foi aquele em que saíste mais da tua zona de conforto, a nível da composição?
Foi, claramente, o disco em que saí mais da minha zona de conforto, aliás, destruí a minha zona de conforto. O disco foi, todo ele, composto sem bases de guitarra que é, digamos, o instrumento que me é mais próximo. Obrigou-me, primeiro, a nível de composição musical, a fazer coisas que nunca tinha feito, como tocar piano, sintetizadores, utilizar programações, fazer incursões por tipo de instrumentações que não são, propriamente, aquelas nas quais estou mais confortável. Depois, na parte lírica, tentei, primeiro, que o disco fosse conceptual, ou seja, que todas as canções fossem subordinadas a um tema em geral. A partir desse tema geral, tentei fazer abordagens não, estritamente, pessoais mas mais livres, mais descomprometidas. 

“Vivemos progressivamente desumanizados, progressivamente longe uns dos outros, apesar de vivermos na ilusão de que estamos, sempre, em contacto — na verdade, acho que vivemos mais isolados.”

Mas como foi essa adaptação ao piano e sintetizadores?
Foi forçada porque, basicamente, tentei não utilizar nenhum dos recursos que eu já dominava, mais ou menos, bem. Se o fizesse, estaria a repetir-me, estaria a maçar-me e iria maçar a pessoa que me ajudou no disco, o Vítor Barros, que é, obviamente, muito mais versátil nestas coisas. No momento de criação, quanto aos instrumentos, utilizaram-se sintetizadores novos, antigos, que utilizávamos, às vezes, de uma forma pouco profissional, digamos. Ia procurando algumas coisas até encontrar algumas bases e, a partir daí, expandia, o que não tem nada a ver com a forma como eu fazia nos discos anteriores.

Mas a nível dos arranjos também quiseste alargar o leque instrumental.
Sim! Não alarguei mais ainda porque estas coisas dos discos são complicadas para arranjar — é preciso encontrar músicos e, depois, os recursos. 

Quanto ao “Erra”, o single de avanço, consideras que funciona como uma espécie de revisitação ao passado daquelas pessoas?
O “Erra” é uma canção bastante straightforward, uma canção sobre pessoas que tentam, desenfreadamente, encontrar o amor, de várias formas, mas, no fim, não encontram. Basicamente, o que o videoclip transpõe, é alguém que procura e que, depois, acaba por desencontrar o amor. 

E tens, também, a influência do “1984”, pelo lado do romance em si. Quando se fala desse livro, não é muito usual colocar-se a parte do romance que tem, na linha da frente. 
Quando li o “1984” fiquei surpreendido por várias razões mas, sobretudo, por haver dentro dele uma história de amor. Pensava que era um livro muito asséptico e desumanizado mas, no fundo, há, ali, uma grande história de amor. No final da história tudo aquilo cai por terra, eles também acabam por falhar no amor porque estão a ser espiados por um quadro. Aquilo parece um quadro, mas não é — é uma câmara onde o “Big Brother” os está a espiar. Quando estava a escrever recordei-me de mais um falhanço do amor e, ainda por cima, este disco é uma espécie de desilusão com a tecnologia. No “1984”, o romance também é traído pela tecnologia, pareceu-me, por isso, apropriado fazer essa alusão. 

Precisamente pela questão do mundo digital — já lá vamos — há um tema que tenho curiosidade em saber como o enquadras, o “Sonial”. Começa, primeiro, pela palavra e seu significado.
Sonial é uma palavra que remete para tudo o que tenha a ver com sonhos. Esse tema é mais rebuscado, é um tema sobre delírios oníricos, sonhos bizarros. Aliás, o que lá está é toda uma reconstrução, recortes de sonhos que eu tenho. Achei curioso porque o sonho é, também, uma espécie de transposição daquilo que nós vivemos hoje em dia, ou seja, não é que sonhemos com o que nos acontece, mas o que nos acontece ou acontece a outras pessoas é de tal forma bizarro e é, de tal forma, estranho: os líderes mundiais, o clima, os reality shows e por aí fora. É tudo tão bizarro que existir ou não existir já não é, particularmente, interessante. A verdade e o não ser verdade já não é, particularmente, interessante a partir do momento em que haja uma história. Os sonhos interessam-me só por isto: a ser verdade ou não ser verdade, o que quero saber é se foi importante durante algum tempo. 

“As pessoas querem confirmação, não desafio, por isso é que a internet tem esse carácter moldável às tuas ideias e estéticas. Ela percebe quem tu és, do que gostas e depois dá-te isso, confirma-te, de certa forma.”

Achas que vivemos numa sociedade de abstracção?
Sim, totalmente. E de desumanização, isso preocupa-me imenso. Essa é a verdadeira motivação para este disco. Eu próprio, também, sou um corpo estranho nesta sociedade, eu próprio sinto isso. Vivemos progressivamente desumanizados, progressivamente longe uns dos outros, apesar de vivermos na ilusão de que estamos, sempre, em contacto — na verdade, acho que vivemos mais isolados. 

Qual é a tua relação com as redes sociais? Não achas que, além dessa desumanização, não podem contribuir também, por um lado contrário, para um maior sentimento de união? Podemos aceder a coisas que, de outra forma, não poderíamos aceder. 
Depois, a partir daqui, poderemos, eventualmente, seguir dois caminhos — há um optimista e outro pessimista. Fui pai há pouco tempo e acho que tenho de seguir o caminho optimista. Tenho alguma dificuldade em lidar com a realidade e sinto-me um pouco excluído da própria realidade. Penso, por isso mesmo, que ela é bizarra, abstracta e desumana. Na verdade, não é nada disso, ela é, simplesmente, diferente. Isto, aqui, é uma espécie de clash geracional, da mesma maneira que toda a gente acha que a geração seguinte vai destruir o mundo, por isso, se calhar, isto sou eu a ficar velho, mais nada. A verdade é que os miúdos, apesar de passarem o dia na internet, a jogar consola e a falarem uns com os outros online, e apesar de eu pensar que vão dar pessoas, profundamente, infelizes e desumanizadas — se calhar, não, está tudo bem — isto é uma questão de perspectiva. Agora, que eu ache que as coisas estão a correr muito bem, não, acho que vivemos num mundo materialista e desumanizado. Mas acho, também, que isto tem volta. 

Mas seria difícil encontrar um ponto de retorno agora, ou não?
Lá está, mais uma vez, depende da perspectiva. Também é preciso perceber se as pessoas estão, efectivamente, descontentes. Existe a arte, felizmente, para pessoas como eu que têm a sorte de se poderem exprimir. Há, também, pessoas que acham que o mundo está extraordinário. É, simplesmente, um repositório de angústias e questionamentos que eu tenho sobre a contemporaneidade, não é um vaticínio, nem acho que seja um baluarte. Vem por acréscimo. Na verdade, é isso mesmo, um repositório de angústias e de questionamentos. 

Mas achas que há um sentimento de solidão muito próprio, nestas novas gerações? 
Não sei, olho para eles e penso o seguinte: “se eu vivesse a vossa vida, seria profundamente miserável.” Mas isso é da minha parte. Eles jogam, se calhar, 10 horas de computador por dia ou ficam, eternamente, à espera da Black Friday ou, então, publicam todos os seus pensamentos sobre todas as coisas nas redes sociais e vivem satisfeitos com isso. 

Mas achas que o dividir o espaço real com alguém, mesmo que fortuitamente, dá-nos um outro contexto, um outro enquadramento, sobre o comportamento que posso ter com alguém? Obriga-me a um maior compromisso e empatia, pelo menos? Se digo algo online, eu não sei o impacto imediato que isso vai ter na outra pessoa, nem sei o contexto dessa pessoa, mas, na realidade, não só vou saber, como vou ser obrigada a lidar com isso no momento — há mais comprometimento, portanto. Essa questão, no online, pode levar à tal desumanização de que falas! 
É difícil saber isso, mas creio que sim. Quando as coisas ficam demasiado complexas na vida, e isso é cada vez mais comum, o que interessa é o amor que temos uns pelos outros. É esse o refúgio último de cada um de nós. Apesar de muita gente se apaixonar por projeções em ecrãs, continuo a acreditar que o amor tem que ser presencial, posso estar enganado. Sabes, eu sou a última geração que cresceu sem internet, serei no futuro uma espécie de fóssil, por isso a minha opinião será, certamente, desatualizada em breve, se já não for.

Talvez seja um sentimento de colectividade que se esteja a extinguir.
De falta de empatia pelas outras pessoas, essencialmente. É tão fácil viver uma vida confortável, hoje em dia, que é muito fácil ter-me de deixar de preocupar com os outros. Se eu fizer, simplesmente, aquilo que me é pedido, é muito fácil eu não querer saber, e é muito fácil eu viver super confortável com o meu comando na mão, com o meu gelado, com o sabor que eu decidi — quando era puto havia só de morango e chocolate — agora é tudo feito para mim, como uma espécie de um milhão de alfaiates a trabalharem para fazerem uma realidade há minha medida. Também é muito fácil eu deixar-me de preocupar com os outros, de me deixar de preocupar com o ambiente, de me deixar de preocupar com a igualdade e a justiça. 

Isso fez-me lembrar nesta questão. Por um lado, pode parecer que as redes sociais e a internet, em geral, nos dão acesso a mais coisas, por outro lado oferecerem um filtro, o tal algoritmo, que sabe a que publicidade estou mais susceptível e sabe, até, os opinion makers que gosto de ouvir. Isto, de certa forma, cria uma ilha, a tal ilha digital. O que vem ter, primeiro, comigo, é o que o mundo digital acha que eu gosto e constitui o meu interesse. Isso pode enviesar a minha percepção da realidade ou não? Pensas nisso?
Eu acho, essencialmente, que a internet é um espelho. Se tu para lá fores procurar algo que te eleve, que satisfaça uma curiosidade, que te aproxime de alguma coisa ou de alguém, perfeito! Não me posso esquecer, nunca, que a internet, enquanto ferramenta, é uma coisa absolutamente inacreditável. Mas, por outro lado, se tu fores para a internet procurar invejas, frivolidades, violência, egoísmo, a coisa pode correr mal muito depressa. Por outro lado ainda, as pessoas querem confirmação, não desafio, por isso é que a internet tem esse carácter moldável às tuas ideias e estéticas. Ela percebe quem tu és, do que gostas e depois dá-te isso, confirma-te, de certa forma.

Mas é curioso o momento em que este disco foi lançado. A pandemia levou-te a pensar mais neste conceito de mundo digital?
Não. Fiquei desiludido porque pode parecer que, de certa forma, este é um disco oportunista e que está a cavalgar uma onda. Não é isso. Este disco está na minha cabeça há muito mais tempo. A pandemia só obviou aquilo que eu já achava que era este isolamento. Por força das circunstâncias, tínhamos de estar mais longe uns dos outros. E, então, mais isolados, ficamos nas nossas ilhazinhas digitais. Não foi um disco inspirado na pandemia, na minha cabeça, foi um disco confirmado pela pandemia.

Podes explicar o conceito da capa? Remete para as placas de localidade! É curioso porque ilha digital remete para um lugar. Um lugar distópico, mas um lugar.
Ainda no outro dia estava a ouvir Jorge Ben, um músico que toda a gente conhece, e eu faço uma recriação do tema: “Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, mas que beleza.” Eu fiz a transposição para: “Moro numa ilha digital, o mar é de plástico e a atmosfera é letal”. A Ilha Digital é uma espécie de antítese total do país tropical — no sentido de estar tudo bem, as pessoas, e por aí fora. A capa é, basicamente, a recreação das placas de fim de localidade que se vêm nas estradas nacionais, porque ilha digital é um não local, por isso tem essa coisa meia meta, de dizer isto é o fim.

É, literalmente, uma distopia, portanto. 
Exactamente!

E quanto ao facto das redes sociais aliciarem as pessoas a serem marcas pessoais? Pensas nisso, também?
Tenho ainda alguma dificuldade em perceber o alcance das redes sociais e das suas repercussões nas vidas das pessoas. Mas creio são apenas uma ferramenta. Um martelo pode pregar pregos ou esmagar crânios, é o que tu fazes com ele que interessa.

E a costela da música romântica, continua? 
Posso-te dizer que, há tempos, passei o dia todo a assobiar a canção “Nathalie” do Júlio Iglesias, por isso, sim, continuo. Essas minhas referências e essa minha costela de música romântica continua.  A música romântica constitui um fio da navalha muito fino. É muito fácil uma pessoa perder-se e deixar de fazer música romântica e começar a fazer música lamechas. Essa costela está cá e vai estar. Está e estará.

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.

Artigos Relacionados