Entrevista. Luca Argel: “É incomum no Brasil existirem cantautores ou bandas que cantem em inglês, numa língua que não seja português”

por Comunidade Cultura e Arte,    22 Fevereiro, 2021
Entrevista. Luca Argel: “É incomum no Brasil existirem cantautores ou bandas que cantem em inglês, numa língua que não seja português”
Luca Argel / DR
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“Um sofá Uma história”  é uma conversa informal entre o diretor artístico do CLAV-Centro e Laboratório Artístico de Vermil com os convidados das Clav Live Session sobre as suas carreiras, processos de criação, arte, cultura, opiniões sociais e outros temas da sociedade, ou seja, dar a conhecer ao público um pouco mais o “ser” que esta por detrás do artista.

Luca Argel envolve o espectador em uma trama de histórias cantadas, que atravessam registos que vão da ternura ao humor. Através de uma voz suave e sempre acompanhado de sua pequena guitarra, e por vezes até de inusitados instrumentos domésticos, como a caixinha de fósforos, o repertório consiste maioritariamente em temas originais de seus dois últimos discos, Conversa de Fila e Bandeira, assim como algumas versões que estarão presentes em seu próximo álbum, Samba de Guerrilha.

Ele desarma o mundo com a sua paz. A música de Luca Argel tacteia com ternura as palavras. O seu samba seduz na doçura e singeleza, sorve o quotidiano e transforma-o. Mas essa simplicidade tem camadas. Através de guitarra e percussão com objectos de cozinha, desenha um som enxuto para destacar a arte poética das canções. Abocanha e avacalha as palavras, brinca com as rimas e enrola a língua portuguesa em temas esdrúxulos. Colhe inspiração de outros sambistas e leva-os a novos lugares — a arte de deglutir é a força criativa do seu Brasil. São canções atravessadas pelo humor e pela força lírica das minúcias do mundo: amores proibidos, conversas com desconhecidos, infâncias saudosas, natais tropicais e a gentrificação. Corriqueiro à superfície, político nas entrelinhas. Porque mesmo quando o mundo está doente, o melhor é seguir cantando e sorrindo.

Alberto Fernandes – Luca, nós começamos sempre estas conversas informais por perguntar como é que foi a tua experiência neste dia. Eu sei que foi um dia assim um bocado frio, espero bem que o resto tenha sido com mais calor.

Luca Argel – Sim foi. A única coisa chata foi o frio que fez hoje, mas tirando isso foi uma experiência incrível. Eu toquei como se tivesse a tocar em casa só que a ouvir um som muito bom, plugado, com microfones e tudo, estava muito confortável. Ainda não assisti, mas imagino que tenha sido um concerto bonito.

A. – Foi um concerto muito bonito, aliás eu tenho imensa pena que devido a esta questão pandémica a gente não possa ter publico porque eu acredito que seria para o publico o encher da alma, não só pelos temas que trouxestes mas também um bocadinho pela forma como olhaste, para a tua performance não é?! Aquele motivador, de consciência global, isso é sempre importante e é importante que o publico esteja presente para sentir isso. vamos falar um bocadinho de ti, do teu trabalho artístico. Alguma vez pensaste que poderias ser o artista que és agora? Que tivesses tido uma carreira?

L. – De certa forma sim, mas a gente nunca sabe como as coisas vão acontecer e em que tipo de artista a gente vai se tornar. Eu desde que comecei a tocar música e a me interessar por ser músico, por fazer carreira em música fazia projeções na minha cabeça do que eu queria para o futuro né?! Mas essas projeções estão sempre um pouco ao lado daquilo que é a realidade, quando os anos vão passando, o que não é uma coisa ruim, eu não encaro isso como uma coisa ruim, acho que as surpresas da vida são muito boas. Eu não imaginaria por exemplo que eu iria começar uma carreira como cantor e compositor de samba em Portugal, é uma coisa que eu tivesse que adivinhar há 15 anos atrás que isso ia acontecer, jamais imaginaria, mas por outro lado é incrível que isso tem acontecido, então eu imaginei e sempre desejei e trabalhei para que pudesse em algum momento da minha vida viver de música, das músicas que eu escrevo e das músicas que eu canto e toco, seja zinho, seja como banda. Agora isso é uma coisa muito geral. Como isso vai acontecer, que músicas vão ser essas, em que palcos, com que bandas, em que sítios? Isso é um pouco mais difícil de prever e ainda bem porque aí a gente pode sempre se surpreender.

A. – Ótimo. Estás a residir aqui em Portugal à aproximadamente 8 anos e qualquer coisa. Acabaste de falar que nunca pensaste, ou seja, que iniciaste a tua carreira aqui em Portugal. Antes de vires para Portugal, profissionalmente o que é que fazias no Brasil?

L. – Eu no Brasil fiz a minha licenciatura em música e comecei a dar aulas de música ainda na faculdade e foi essa profissão que eu segui assim com mais regularidade durante todos os anos até à data que eu vim para Portugal e tinha alguns projetos musicais paralelos, cantei em alguns grupos vocais, toquei em algumas bandas, mas nada como os projetos musicais que eu tinha aqui, que isso não era nem a minha fonte de rendimento, nem a minha principal ocupação. Nos últimos anos que vivi no Brasil muito mais voltado para educação, para dar aulas de musica e dei aulas de musica em espaços mais diversos, em ongs, em escolas, aulas particulares. As últimas turmas que eu tive foram numa escola municipal no Rio de Janeiro e que eu abandonei para vir viver para Portugal, mas sem ideia que o meu caminho ia voltar para a música de outra forma.

Fotografia de Kristallenia Batziou

A. – Vieste para Portugal, começaste a estudar a fazer o teu mestrado em literatura. A literatura e a música complementam-se muito bem no teu ponto de vista?

L. – Sim sim. Muitas vezes caminham juntas, nem sempre, não é uma coisa que eu junte necessariamente, mas, eu me interesso muito pelas duas coisas. Então em alguns momentos especiais elas convergem sem que eu preciso de fazer muita força para isso mas elas no meu processo criativo elas estão sempre a se ajudar uma outra porque às vezes eu vou buscar a inspiração ou ideias ou mesmo soluções para problemas enquanto estou escrevendo uma canção por exemplo, ou pensando no guião de um concerto ou de um álbum, e a literatura ajuda, alimenta essa busca por ideias e é um caminho de mão dupla, quando eu estou escrevendo também às vezes a música e a minha vivência de música ajuda a encontrar assuntos, a encontrar palavras, a encontrar expressões, frases, ideias…

A. – No teu processo criativo partindo do princípio que tu és um cidadão português de origem brasileira, a tua arte, a tua música, falam muito sobre a tua terra de origem, o Brasil. Como é que é um Português-Brasileiro? Como é compor em Portugal falando do Brasil? Ou seja, aquilo que é Portugal também influencia a forma como tu vês o Brasil?

L. – Eu acho que ter vindo para Portugal deu uma perspetiva muito especial para enxergar o Brasil, mas tem que quando a gente sai de um sítio a gente ganha muita perspetiva né?! Porque a gente descobre mais elementos de comparação. E eu também estou me habituando a dizer que sou português também, agora já sou português, mas tem aquela coisa que quando a gente ouve alguém falando mal de uma coisa que é nossa, seja nosso país, seja nossa família, nossos amigos, a gente fica muito nervoso mas nós podemos falar mal mas só nós porque aquilo nosso e eu ainda não me atrevo, ainda não me sinto completamente confortável para falar por exemplo de Portugal da forma como eu falo do Brasil, com a visão crítica que eu tenho do Brasil até porque eu moro há 8 anos em Portugal mas antes disso vivi mais de 20 no Brasil. Ainda é uma experiência ainda muito mais profunda que eu tive no Brasil e eu vejo muitas coisas aqui de Portugal semelhantes, muitas origens de comportamento, de traços da cultura brasileira que é muito natural, não é?! porque são países que dividem muita história em comum, mas ainda acho que há coisas que um país pode aprender com o outro. O Brasil tem coisas que existem na cultura popular que são absolutamente fascinantes e que eu acho que podem ser interessantes de se observar em Portugal. E quanto muito se conhecer. Eu acho que Portugal, os portugueses até têm alguma atenção, compreendem um pouco melhor o Brasil do que o contrário. A gente ate estava a conversando sobre isso mais cedo, de como é a visão de um brasileiro no Brasil sobre Portugal. Eu acho que é muito mais pobre do que a de um português em Portugal olhando para o Brasil.

A. – Acabaste de alar da Música popular brasileira que é um bocadinho também o teu género, portanto acho que se chama MPB não é?

L. – É, no Brasil é um gênero MPB. É um género impossível de definir porque cabe tudo dentro dele.

 A. – Nós em Portugal valorizamos muito a nossa música tradicional. Diz-me uma coisa, daquilo que tu conheces em Portugal de música de raiz portuguesa, pelo menos mais popular portuguesa, existe assim uma diferença muito grande entre a vossa música popular tradicional e a nossa?

L. – Eu acho que existe até uma diferença conceitual que é a música… é engraçado que a gente tem MPB mas dentro da MPB não está contida por exemplo música folclórica, música de domínio público, de autor anónimo, coisas de tradição oral que são transmitidas de geração para geração. Isso no Brasil fica muito pelo lado da música folclórica, porém ela tem muita influência sobre a música popular também sobre a MPB, e aqui em Portugal apesar de não ter um nome que diferencia é o que é a música popular não folclórica pode ser tradicional também mas não é de autoria anonima, não é de domínio público mas, são duas esferas que aqui em Portugal ainda se comunicam eu acho que no Brasil se comunicam mais ainda do que aqui em Portugal e essa seria uma diferença porque eu sinto que a música tradicional, folclórica como  gente chama no Brasil, eu sinto ela mais viva, sinto ela com mais poder de influência sobre o que é, sobre os compositores que a gente ouve aí de música popular. Aqui em Portugal isso existe também mas acho que é um pouco mais restrito e eu não sei muito bem explicar porquê ainda mas talvez não sei, é só uma hipótese só que eu levanto que a música portuguesa ela tem uma abertura maior para receber influências de fora de Portugal também, para absorver também influências estrangeiras que o Brasil tem de uma forma um pouco diferente. Por exemplo, é muito incomum no Brasil existir cantautores ou bandas que cantem em inglês, em uma língua que não seja português. E isso aqui em Portugal é uma coisa relativamente comum. Quando cheguei aqui estranhei muito, então porque é que não se canta assim em português? Às vezes até achava que talvez a pessoa seja, sei lá, nascida em outro país e veio para Portugal, mas não. Tem muitas bandas, muitos cantores portugueses que cantam em inglês e eu achava isso estranho, tinha até um certo preconceito com isso até começar a entender que isso faz sentido dentro do contexto português. É um país muito menor que o Brasil e que tem talvez por causa disso mais necessidade de ultrapassar as fronteiras de Portugal e de penetrar em mercados fora de Portugal que não fala português. E a partir do momento que eu percebi isso começou a fazer mais sentido e comecei a achar que tem uma mais-valia sim na música portuguesa de ter essa variedade interna.

A. – Acabaste de falar do mercado, a questão da necessidade que nós portugueses temos provavelmente de atingir um mercado fora de Portugal. O português fala-se em imensos países, portanto, e com uma abrangência de alguns milhões de pessoas que falam português. Como tu sabes nós em Portugal consumimos muita música brasileira e eu sinto que o Brasil não consome muita música portuguesa. Tens alguma teoria para isso?

L. – Só teorias, explicação não mas eu acho que o mercado brasileiro Ele tem uma postura muito, muito alto centrada e quando ele se abre ele se abre muito seletivamente para o que vem de fora, que vem de fora basicamente é o que vem dos Estados Unidos que de música anglófona de uma forma geral. Essa é quase que a única tolerância que assim no mainstream do mercado de música estrangeira porque a música brasileira é tão vasta e o mercado tão grande tem tanta gente, é um país gigante e ele quase se basta entra num certo ciclo autofágico, ele produz para si próprio o que é uma poder muito grande, poder de autonomia que é interessante para o lado mas por outro lado cega um pouco para coisas maravilhosas que possam estar sendo feitas fora inclusive coisas em português que seriam completamente acessíveis para um brasileiro mas o mercado no Brasil não presta atenção, acho que esse é um fator essa tendência de ser muito voltado para si próprio porque a música brasileira é muito muito rica e tem muita qualidade mas acho que isso não invalida a que se desse mais atenção a, por exemplo, o que se faz em Portugal. Acho que é uma perda, acho que os brasileiros só perdem em não conhecer um pouco mais.

A. – Partindo desse princípio, do princípio que tu achas que há boa música em Portugal, que podia perfeitamente passar no Brasil e quando falo no Brasil falo em outros países também têm de língua portuguesa. O que é que nós portugueses, nós o estado, podemos fazer para que isso aconteça? Achas que que era preciso investir, promover a arte, a música, o teatro, o cinema nos países de língua portuguesa, achas que isso podia ser o papel fundamental? O mercado existe portanto, é um mercado de milhões portanto um mercado que provavelmente financeiramente podia trazer boas contrapartidas.

L. – Sem duvida.  E poderia até trazer contrapartida de não só de exportar música, mas de estabelecer relações culturais mais estreitas, de fomentar a criação de movimentos de grupos, de festivais, enfim. Eu acho que o mercado, a indústria da música, assim como qualquer outra indústria numa sociedade capitalista, ela vai ter sempre uma tendência a desvalorizar aquilo que não dá um lucro imediato e alto. Tudo que precisa de um investimento que é muito a longo prazo é desprezado e cultura é uma coisa de investimento a longo prazo. Arte, cultura, não é uma coisa que vai ter uma resposta imediata uma coisa que precisar amadurecer, precisa se espalhar pela sociedade, criar interesse, criar público e a indústria não vai fazer isso pela música portuguesa. É preciso como se diz, é preciso de um programa, de estratégias que venham do estado para estimular essa exportação mas não, talvez pode não ser que seja uma palavra um pouco capitalista de mais, mas estimular aqui a música portuguesa primeiro que ela seja feita em Portugal com condições, que já é uma coisa muito difícil, e dizer viver de música sem nem querer sair de Portugal só estando aqui dentro já é muito difícil quanto mais exportar para fora e exportar coisas que sejam variadas, que não esteja só o estereótipo que o exterior já tem da música portuguesa, que novas expressões da música portuguesa consigam ser ouvidas fora. É preciso que haja um movimento por parte do estado, seja em qual instancia for, não precisa ser necessariamente de um governo nacional mas podem ser iniciativas regionais, iniciativa de câmaras, não sei, uma série de ideias que a gente poderia lançar para lá mas o ponto central é que se a gente deixar para só a indústria e o mercado esse ser meio intangível que é um mercado, agir ele não vai fazer muito pelo o que eu acho que é a música portuguesa na variedade que hoje eu sei que ela possui merece.

A. – Muito bem, eu sei que trouxeste dois livros da tua autoria se não estou em erro.

L. – Só um. Era para trazer só um, mas acabei por trazer dois porque não queria trazer só o meu, achei que podia ser um pouco arrogante de mais. Já vim dar um concerto, pede para trazer um livro, trago um livro meu quando era para indicar um livro então trouxe dois para equilibrar.

A. – Queres falar um bocadinho sobre ele? Também és escritor não é? Portanto também fazia sentido e faz todo sentido falarmos um bocadinho não só do teu trabalho enquanto escritor, portanto mostra-nos aí o que é que tu tens.

L. – Então, o que eu tenho aqui, primeiro o livro meu que eu trouxe é um livro que eu lancei em 2019 chama-se “Fui ao inferno e lembrei de você”, essa é a edição brasileira, a portuguesa é “fui ao inferno e lembrei-me de ti” eu não trouxe o livro da edição portuguesa. É um livro de poemas, é um livro que tem 33 poemas foi a última coisa que eu produzir.

A. – O teu livro, poemas. Poesia, fala do quê? De amor?

L. – Ele fala do inferno literalmente. É uma viagem ao inferno em poesia, a poesia já viajou ao inferno diversas vezes não é?! Um dos mais espetaculares de poesia da história da humanidade é “Divina comédia” que é uma passagem pelo inferno, não só, é uma passagem depois passa para outros lugares também mas o inferno é um lugar no imaginário da literatura que já teve várias formas e habitado por muitos personagens e todo mundo tem uma certa, todo mundo tem o seu próprio inferno de certa forma dentro da cabeça, e esse foi um exercício de construir o meu inferno. O que é um inferno para mim ou que ele poderia ser mas de uma forma muito bem humorada, de uma forma diferente, tem algumas referencias ao brasil, tem algumas referencias a Portugal também, mas é uma reflecção sobre um lugar imaginário mas que ao mesmo tempo a gente consegue reconhecer muitas coisas do nosso mundo real, presente, verdadeiro, que poderiam ter lugar num inferno caso ele exista.

A. – E com muito amor brasileiro não é isso? Com aquele espírito de alegria, espírito samba, não é?

L. – Sim, mas olha que o espírito português também sabe ter muito bom humor, só que é um pouco diferente do brasileiro, mas tem.

A. – Ótimo. Como é que a gente pode adquirir esse teu livro?

L. – Olha esse livro, essa edição aqui em Portugal tem que ser diretamente comigo porque essa é a edição brasileira dele, mas tanto essa como a edição portuguesa, entrando no meu site que é Lucarangel.com tem uma secção do site que é a loja e lá na minha lojinha tem esse livro e tem os outros livros que eu tenho e tem os CDs, vinis, tem toda a coleção.

A. – Ótimo, fica esta nota para o publico. E o outro livro que trouxeste?

L. – Olha o outro livro que eu trouxe é uma recomendação de um livro que eu li no ano passado, não é um livro muito recente, é um livro que já tem, acabei de ver aqui que já está na 8ª edição, a primeira edição estou procurando aqui qual é o ano talvez 2015, acho que 2015, já tem aí portanto 6 anos que é “O caderno de memórias coloniais” da Isabela Figueiredo. Esse livro foi uma descoberta muito muito bonita, apesar de ser um livro muito duro é um livro de memórias de uma mulher, uma menina que nasceu em Moçambique ainda durante Moçambique era colónia portuguesa e ela cresceu em Moçambique e estabeleceu a relação afetiva dela com aquele lugar, com aquelas pessoas e, em determinado momento acontece o 25 de Abril e a família dela tem que voltar, a história de inúmeras famílias portuguesas mas é muito interessante o ponto de vista dessa menina e daí a gente vai acompanhando o crescimento dessa menina e as contradições com que ela se depara durante a vida dela que é, por um lado ela tem uma família branca de colonos mas ela enxerga os abusos, enxerga o sofrimento, enxerga as injustiças e as desigualdades que aquele regime promovia mas ao mesmo tempo ela tem a dificuldade de se identificar porque ela, é aquela coisa de identidade partida, de estar do lado pelo menos na família, do lado do colonizador mas se identificar com colonizado e esse livro fala sobre isso de uma forma muito, muito frontal, assumindo essas contradições que fazem parte da personalidade dela e chamando atenção também para particularidades que dizem respeito a ela ser uma mulher nessa sociedade, nessa sociedade colonial, e ser uma mulher retornado para Portugal também dentro da sociedade portuguesa enfim. Eu não vou dar muitos detalhes senão eu estrago o livro, mas é uma leitura muito interessante.

A. – Sabes que o meu pai foi militar em Moçambique na altura da guerra colonial portanto, um rapaz crescido aqui na zona norte diz ele que ficou surpreendido quando chegou lá, diz ele que nunca viu tanta, ou seja, aquilo que eu lhe disse e aquilo que ele vai partilhando é que aquilo era mais desenvolvido Portugal, ele dizia que era muito mais à frente do que a metrópole que era Lisboa. Efetivamente ele esteve lá na guerra, não foi por querer, pelo contrário e ele admite e assumiu perfeitamente e assume perfeitamente que nós portugueses, os colonos portugueses, porque ele não era colono, não é?! efetivamente tratamos muito mal aquela gente, tratamos muito mal. Portanto eu acho que seria importante ter essa visão e o pessoal ler esse livro porque provavelmente terá uma visão completamente diferente daquilo que nos deram ou pelo menos tentaram transmitir e provavelmente podemos chegar à conclusão que o erro foi nosso.

L. – Pois, ou pelo menos chegar a uma conclusão seja lá qual for mas tendo ouvido os relatos em primeira pessoa, de quem esteve lá e testemunhou aquelas coisas e para mim pelo menos ter lido esse livro foi assim muito muito interessante até porque eu como brasileiro nunca no Brasil estudei ou li ou conhecia muito bem sobre as histórias das outras colônias portuguesas que têm uma história completamente diferente da do Brasil foi muito interessante e recomendo fortemente que todos leiam este livro.

A. – Ok, acabo esta conversa agradecendo a tua vinda, a tua passagem por aqui.

L. – Eu é que agradeço foi um prazer.

A. – Para nós também foi um prazer e é um prazer ter sempre aqui connosco artistas e deixamos sempre esta nossa vontade, sempre que quiseres sempre que puderes e precisares tens estas portas abertas porque é aquilo que nós somos, somos uma porta aberta para o mundo. 

L.- Muito obrigado, eu é que agradeço e espero voltar aqui e se tudo der certo voltar e ver essa sala com público que seria ainda mais bonito.

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