“Jesus Is King”, de Kanye West: fé na religião mas não na música

por Miguel de Almeida Santos,    15 Novembro, 2019
“Jesus Is King”, de Kanye West: fé na religião mas não na música
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Kanye West renasceu. O rapper e produtor norte-americano encontrou uma nova vida na religião que já era sua e desta vez decidiu mostrar essa sua nova faceta num álbum dedicado ao catolicismo. Alguns torceram o nariz a esta nova etapa. O egocentrismo inerente à sua personalidade – e, consequentemente, à sua carreira – torna difícil acreditar neste renascimento. Estamos a falar de um homem que se proclamou um deus há meros cinco anos. Independentemente da aparente heresia e das suas múltiplas e muito noticiadas excentricidades, ao longo de toda a carreira de West a música conseguiu sempre soar mais alto. 

O seu ouvido para a sample certa, para as batidas excelentemente produzidas, para a capacidade que tem de se rodear de pessoas talentosas que enaltecem a sua ideia inicial e conseguem transformá-la em temas profundos, tudo isso falou mais alto que a pessoa por trás. É um rapper pouco destro nas barras mas emocionalmente experiente, empático e perto do coração do ouvinte. E nesta nova fase da sua vida e da sua carreira notava-se empenho: desde o início do ano que o artista tem organizado sunday services, auxiliado pelo grupo de gospel com o mesmo nome fundado por West, que culminou no lançamento do álbum Jesus Is King. Mas agora que ouvimos o álbum, é difícil imaginar um seguimento musical tão radiante como a fé redescoberta do artista. 

Kanye West num Sunday Service / Fotografia de Rich Fury

O álbum é inteiramente composto por temas de louvor a Deus mas não é por isso que desaponta. West já demonstrou algumas das suas músicas mais poderosas abraçando essa temática, seja a já clássica “Jesus Walks” ou, mais recentemente, a magnífica “Ultralight Beam”. O que falta a Jesus is King é organização e ideias completamente formadas. Com apenas 27 minutos divididos em 11 músicas (duas delas interlúdios) não há muito que se diga sobre o projecto. É verdade que mais nem sempre é melhor e West provou-o ao lado de Kid Cudi em Kids See Ghosts e almejando a produção de Daytona de Pusha T, álbuns lançados o ano passado e que muito devem à sua visão. Mas quando se nota claramente que as músicas beneficiariam de mais tempo de maturação a história é outra. 

Há boas apostas, e o álbum arranca com um exemplo disso. Depois de uma introdução vocal esperançosa cortesia dos Sunday Service, “Selah” abre o álbum de forma estrondosa. A primeira estrofe é gritada do topo de um monte, e os bombos trovejantes dão lugar a vozes unidas em adoração absolutamente épicas e que arrepiam até o mais inconformado dos ateus. West está revigorado, citando a Bíblia e várias referências religiosas para se mostrar mais seguro do que nunca na sua “nova” pele. Mas logo a seguir, há uma boa ideia que nunca se converte verdadeiramente numa música: “Follow God” tem tudo para ser um excelente banger. É uma batida típica de Kanye West, acompanhada por um sample orelhudo e um flow fanfarrão, tudo isto desperdiçado numa amostra de música que se repete incessantemente em pouco mais de minuto e meio. Acaba com uma “fita” ao estilo do artista, é um tema que mostra simultaneamente o melhor e o pior de West. 

Robert Kamau/GC Images

O que não resulta mesmo é “On God”. Com pouco mais de dois minutos, a música é um desabafo de fazer revirar olhos, onde ouvimos West a atropelar-se num verso sem grande sentido e com algumas barras constrangedoras (“I can’t be out here dancin’ with the stars”) em que justifica de forma desastrosa os altos preços que cobra pelos produtos que vende ao som de uma melodia epiléptica que depressa se torna inaudível. Em “On God” o problema não é o que Kanye diz, mas a maneira como o diz: a sua prestação deixa muito a desejar, arranhada e esforçada, uma melodia claramente fora da sua zona de conforto vocal e que a certa altura é engolfada por 808’s bizarros e sem grande propósito naquela que é a música em que West mais venera Deus. Essa dicotomia entre o hedonismo do trap e a purificação católica é melhor explorada em “Everything We Need”, o feel good anthem deste álbum. Mas, mais uma vez, é uma ideia que nunca chega a marcar verdadeiramente, e que se resume a um refrão harmonioso cortesia de Ty Dolla $ign e duas estrofes pobres sem grande conteúdo. 

West guarda para o final a melhor música do projecto: “Use This Gospel” é o principal destaque do álbum, com uma melodia tensa e profunda circundada por vozes transfiguradas que lembram Bon Iver e que se tornam progressivamente mais claras e distintas até culminarem no solo de saxofone de Kenny G, que dá lugar a uma batida de batalha muito bem executada. O tema é um palco para confissões e para reuniões: Pusha T e o irmão No Malice voltam a vestir a pele de Clipse, o duo de hip hop que fez furor na primeira década do século XXI, e apresentam duas estrofes curtas e eficazes que abrem o apetite para uma reunião futura. É West no seu melhor, ainda que a maioria do que o precede não o mostre. 

Esperávamos o álbum Yandhi mas acabámos por ter Jesus is King, e isso diz muito sobre a mente do artista e sobre uma volatilidade que na maioria dos casos não beneficia o seu produto final. West não é pessoal na sua mensagem, não vai para além da adoração sem subjectividade, não mostra a sua adoração, e é pela sua personalidade que vale a pena ouvir as músicas que faz. Mas neste caso só se vê essa personalidade em pequenos pormenores e pequenos apontamentos. Ao sétimo dia, Deus descansou. Ao primeiro dia da sua transformação, Kanye West desiludiu. 

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