Mãe

Hoje fazes 63 anos: o sol brilha mais, as compotas ficam mais doces e as formiguinhas vestem-se a rigor. Quando se escreve a uma mãe nunca se sabe o que se escreve.
Nasci. Fui direto para o teu colo: seguras-me nos teus olhos de mãe: bicudos, meigos, espelhados numa boca marota que não chega a abrir. Amparas-me nas tuas mãos, feitas de pão de ló, e respiro pela primeira vez amor. Mãe, nasci: sou teu.
Cresço: acompanhas-me nas angústias de quem se apercebe de que foi atirado ao mundo. Qual mãe-navio, socorres-me do sensível, ensinas-me a brincar com ele, habituas-me a mim.
Mãe, o céu que nos protegeu nas noites alentejanas é o céu que hoje nos beija. Mãe, o dourado das batatas do café é o mesmo do ouro de que és feita. Mãe, sem ti seria alma esfarrapada, lixo que se limpa, espanador sujo com o pau rachado.
«(Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos)»
Mãe, quando te fores, que te vais, todos os dias serão menos bonitos. Nunca mais brincarei com os cães da mesma maneira, a luz lembrar-me-á sempre de ti e a cor será sempre menos colorida.
Mãe, se não fosse como és — ratinho do campo, malandra-malandreca, espertó-doce — não seria como sou. Mãe, tudo o que sou te respira, te ama, te é.
Enganas-te, Mãe: quando penso em ti não sinto um nó na garganta, mas um coração picadinho que te entrego de mãos estendidas como se fosse mais um segredo nosso.
Mãe, conheço-te as lutas e reconheço-te a altitude de espírito. É amor que se chama a esse teu desprendimento, a essa tua bem-querença-acima-de-ti-própria. Esse exemplo, Mãe, está cabalmente dado — e para sempre ficará.
És a Ritinha do cabelo encaracolado, gaiteira-chic, que me sorri e abraça. Cujo calor me faz sentir um bezerrinho, cujo beijo sabe a jasmim, cujo abraço me abafa a inquietação.
Mãe, não foram só os passeios em que rebentávamos flores que faziam barulho. Também não foram só as histórias que me contavas para adormecer (em que sorrateiramente te piravas quando achavas que já dormia). Não foram só as tardes em Ponte de Lima, tal como não foi só o brinquedo que nos trazias invariavelmente depois da escola.
Claro que também foi isso, claro que também é isso, claro que a estrutura de hoje jamais seria tão forte sem isso. Mas sabes, Mãe, o que gosto mais em nós é não sermos uma memória de infância, mas um organismo vivo, com plantinhas e bichinhos, que apanha sol e chuva, que ora está verde ora está dourado.
O que mais gosto em nós, Mãe, é tu não seres passado. Não seres apenas a Mãe que foi boa e deu amor suficiente aos filhos, mas uma companheiraça de vida e com vida. Atenta, nunca submissa e sempre, sempre amiga. Ainda és: a alegria de uma garrafa de champagne que se abre e sai tudo; a certeza das cerejas em maio; e sobretudo: o amparo de uma conversa na cozinha.
Mãe, agradeço-te: a amizade, o carinho, a atenção, a educação, o amor, o colo, a comida, as lareiras, as viagens, as batatas fritas, as Playstations, os livros. Por tudo isso te agradeço, mas mais: agradeço-te, sobretudo, por sempre — inequivocamente, irrevogavelmente, na matéria e no espírito — me teres dado liberdade para ser como sou. Por teres sido rampa e não bloqueio; água e não gelo; calor e não frio. Por me ensinares que chorar «limpa a alma», por alimentares o meu gosto pelas letras, por me teres empurrado para mais perto de mim.
Em suma, por me ensinares a viver — que só vale a pena quando se tem uma mãe assim.
«Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.»
Teu, sempre
Henrique
Guimarães, 24 de dezembro de 2024