O discurso modernista e expressionista do artista Júlio Pomar

por Lucas Brandão,    3 Março, 2020
O discurso modernista e expressionista do artista Júlio Pomar
Júlio Pomar no Atelier Museu Júlio Pomar, Lisboa Fevereiro (2013) / Fotografia de Luisa Ferreira
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Júlio Pomar, nascido em Lisboa, cidade que o viu nascer a 10 de janeiro de 1926 e partir a 22 de maio de 2018, é um dos mais destacados pintores do século XX, pautado pelo modernismo artístico que Portugal muito acolheu e através do qual muito criou. Pomar não era só pintor, porém, mas sim ceramista, ilustrador, gravurista, cenógrafo, desenhista, autor de tapeçarias, para além de trabalhar com escultura e até com escrita. Pautado por um discurso avesso ao rigor do Estado Novo, procurou incutir, no seu modernismo, uma toada de neorrealismo, embora acabasse por se radicar em França, abrindo as suas trajetórias artísticas. Com um discurso muito semântico e temático, encontrou-se em diferentes palcos artísticos de nomeada, como a Fundação Calouste Gulbenkian, o Museu de Serralves e outros espaços de exposição artística nacionais e no Brasil, dando asas a um percurso de referência na contemporaneidade artística portuguesa.

O percurso pessoal e profissional

Júlio Pomar nasceu, assim, em Lisboa, no ano de 1926. O gosto pela pintura foi-lhe incutido desde cedo, quando um tio lhe ofereceu uma caixa de aguarelas. Desde então, foi experimentado com o desenho, com a pintura e com a escultura. Na sua adolescência, viria a frequentar uma escola de grande pendor artístico, a António Arroio. Foi assim que, aos 16 anos, entrou na Escola de Belas Artes, onde conviveu com alguns dos principais artistas modernistas e surrealistas portugueses. Exporia, assim, com o neorrealista gaiense Fernando Azevedo, com o surrealista Pedro Oom e com o alcochetense Marcelino Vespereira, numa mostra que lhe faria conhecer, entre outros, o açoriano António Dacosta e o consagrado artista José de Almada Negreiros, que até lhe compraria uma pintura, “Saltimbancos”. No entanto, motivações de força académica – o desgosto com a Escola de Belas Artes de Lisboa – levaram-no a ir para o Porto, dois anos depois de ter entrado na universidade. No entanto, era mesmo feitio seu, porque acabou por sair da Escola de Belas Artes do Porto em 1946, depois de ter sido alvo de um processo disciplinar, não chegando a concluir a licenciatura. Nesse período, participou nas célebres Exposições Independentes, que percorreram Porto, Coimbra e Lisboa, com a missão definida de exprimir o seu desejo pelo modernismo na criação artística. Os organizadores destas exposições foram alunos dessa Escola de Belas Artes do Porto, na qual se destacou o virtuosismo de Fernando Lanhas, pintor e arquiteto.

Olhar e sentir
por dentro do corpo a massa de que é feito o avesso dele.
Ossos músculos nervos veias
tudo o que está no corpo e mundo é
a pintura contém e depõe na tela e
se acaso aí o pintor deixou reservas
nesse sem nada o avesso do mundo se
recolhe e mostra a face.

“TRATAdoDITOeFeito” (2003)

Dedica-se, de igual modo, à escrita, onde dá destaque, no jornal “A Tarde”, no seu suplemento artístico semanal, à pintura dos muralistas do México (Diego Rivera e companhia)f, assim como a outros vultos que foram mostrando os primeiros laivos do neorrealismo na arte. Esta escrita continuou a ser desenvolvida em revistas artísticas e literárias, entre as quais se destaca a “Seara Nova” e o “Mundo Literário”. Foi, de igual modo, crescendo o seu apetite por um ativismo político que se aliou à sua criação artística. A arte deveria, assim, ser algo acessível a todos, de igual modo que se pauta por uma intervenção cumpridora da sua responsabilidade social. Após uma fugaz passagem pelo Partido Comunista, continuaria a desenvolver a sua carreira na cidade do Porto, onde pintou um célebre mural no Cine-Teatro Batalha (seria destruído pela polícia política em 1948, mas também assumir o papel de empreendedor ao ser um dos organizadores-expositores nas Exposições Gerais de Artes Plásticas, que ocorreram nas instalações da Sociedade Nacional de Belas Artes durante uma década, de 1946 a 1956. Anonimamente, eram exposições cuja preparação foi feita por uma ala do então Movimento de Unidade Democrática (MUD), de oposição ao regime ditatorial. Numa das exposições, em 1947, seriam várias as pinturas apreendidas pela PIDE, inclusive as de Pomar.

Nada disto beliscou a atividade artística do pintor que, depois de expor pela primeira vez a solo na Galeria Portugália, seria preso durante quatro meses, após descobrirem a sua ligação à direção da juventude do MUD. Este fator contribuiria para que fosse afastado do cargo de professor de desenho, que havia assumido entretanto, logo após assumir a participação na candidatura de Norton de Matos à presidência. Na década de 1950, continuaria a realizar exposições individuais e, no ano de 1953, veria uma das suas obras ser comprada pelo Museu Nacional de Arte Contemporânea. Juntar-se-ia ao comité de criação da Cooperativa Gravura, destinada a fazer exposições itinerantes de gravuras por todo o país, colocando os seus artistas em colaboração. Na segunda metade dessa década, participaria nas Exposições de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, nas quais seria premiado; de igual modo, foi um dos organizadores-expositores da exposição 50 Artistas Independentes, que ocorreu em 1959, e, como o próprio nome indica, procurava assumir um caminho de rutura e de independência em relação à política cultural do governo.

O seu nome vai ganhando peso lá fora consoante vai viajando, estando em Madrid e em Paris, cidade onde viria a passar alguns anos da sua vida. Chegaria em definitivo a Paris em junho de 1963, procurando assinalar o seu distanciamento do regime político português. Será uma vida, até à data da sua morte, feita em itinerância entre Paris e Lisboa, tendo um atelier nas duas cidades. Vai, assim, expondo enquanto vai experimentando outros percursos artísticos, como as assemblages (colagens feitas com diversos materiais). Vive o maio de 1968 bem de perto, chegando a produzir séries deste tipo de obras sobre esse período fervoroso que se viveu em Paris e um pouco por toda a França. Em Portugal, assume uma relação de colaboração com a Galeria 111, criada pelo galerista Manuel de Brito em 1964, em Lisboa, tendo aberto uma segunda no Porto, já em 1971. Curiosamente, encontra-se em Lisboa quando ocorre a Revolução dos Cravos, onde ficaria alguns meses. A sua carreira, que já havia assumido contornos internacionais, reforça-os quando participa em diferentes mostras, como a Bienal de São Paulo, no ano de 1976, enquanto também se dedica à escrita de poesia. Dentro das exposições que adquirem grande repercussão, destaca-se “Tauromachies” (1964, na Galerie Lacloche), “Le Bain Turc” (1971) e “Tigres” (1981, na Galerie de Bellechasse).

“Maio 68 (CRS-SS)” (1969)

De igual modo, ganha prestígio nacional, quando efetua exposições individuais de retrospetiva do seu percurso, tanto na Fundação Calouste Gulbenkian, como no Museu Nacional Soares dos Reis, no ano de 1978. O seu modernismo funde-se com um expressionismo que nasce desse caudal artístico e, como tal, vai encontrando palcos onde se cruza com talentos emergentes portugueses e brasileiros em outros espaços, como o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, a Culturgest e até o Centro de Arte Contemporânea de Macau. O Brasil é um país que, de facto, marca a sua carreira, inspirando a veia neorrealista que não havia ficado esquecida, expondo as séries “Os Mascarados de Pirenópolis” e “Os Índios”. Viria também a expor em Nova Iorque, em 200, com “La Chasse au Snark”, inspirado no livro homónimo de Lewis Carroll.

Já nos anos 2000, arrecadaria o Prémio Amadeo de Souza Cardoso, em 2003, tendo recebido uma outra retrospetiva em “Pomar/Autobiografia”, exposta no Museu de Arte Moderna, para além de “A Comédia Humana”, uma antologia recebida no Centro Cultural de Belém. De igual modo, Serralves receberia um conjunto de assemblages em 2008, na mostra “Cadeia da Relação”. Foi uma fase em que redigiu livros técnicos – “Da Cegueira dos Pintores” (1986) a “Então e a Pintura?” (2003) – e lançou as suas coleções de poemas – “Alguns Eventos” (1992) e “TRATAdoDITOeFeito” (2003). No ano de 2013, a Fundação com o seu nome criaria o seu Atelier-Museu Júlio Pomar na Rua do Vale, em colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa, num edifício que seria intervencionado pelo arquiteto Siza Vieira. Neste espaço, reúne-se um vasto acervo de trabalhos artísticos que o pintor doou à sua Fundação.

O percurso artístico

Júlio Pomar fez carreira numa fase em que o modernismo já se havia solidificado em Portugal. Assim, dando os primeiros passos na década de 1940, procura fundir o percurso da modernidade pictórica e visual com um sentido social que o neorrealismo conseguia conferir. A obra “Gadanheiro” (1945) seria uma referência nesse diálogo entre um instinto de revolução e de intervenção social, abarcando a corrente do realismo social, com as novas linguagens estéticas modernistas. De igual modo seria fundamental “O Almoço do Trolha” (1947), marcada pela denúncia da precariedade da vida do operariado e dos campesinos, com alguma influência no expressionismo vigoroso, mas também com pendor social e neorrealista, do brasileiro Candido Portinari. No entanto, abraça traços do cubismo e aceita linguagens com maior flexibilidade em termos da cor e da forma, capaz de experimentar e de, ao mesmo, indagar em dúvidas que só se veriam esclarecidas no amadurecer do seu trabalho. Talvez por isso se sinta interessado por experimentar a ilustração, a cerâmica e a olaria, visando o encontro do humor. Acaba, porém, por se consolidar na linguagem neorrealista, em especial com “Ciclo do Arroz” (1953), um percurso artístico feito depois da experiência nos arrozais ribatejanos, partilhando experiências com o autor Alves Redol, também ele neorrealista, mas também com o autor nortenho Soeiro Pereira Gomes. Também “Maria da Fonte” (1957) aceita ainda alguma experimentação, contando com alguma influência da própria pintura do espanhol Goyá, enquanto vai deixando os seus últimos condimentos neorrealistas.

“O Almoço do Trolha” (1950)

Antes de partir para Paris, ainda viaja durante algum tempo fora do país e vai descobrindo outras estéticas, embora vá perdendo as linhas enfáticas do seu discurso, deixando as formas arrefecerem sem terem sido totalmente cozinhadas. A verdade é que, em Paris, não seria contagiado com a febre política, tornando-se cada vez mais alheado dessa vertente, procurando, sim, experimentar e explorar o desenho e abandonar os cânones da pintura. Porém, é, mais uma vez, convidado a mudar a sua forma de pintar e de se reger pela geometria. De igual modo, aceita, na sua obra, as temáticas políticas. Em simultâneo, começa a desenvolver as assemblages, resultado de um conjunto de materiais muito diversos entre si que ia encontrando. Este percurso neste tipo de esculturas também ajuda Pomar a achar-se de outras maneiras na pintura, vendo a possibilidade de fragmentar as cores e as formas com agrado. Quando chegam os anos 1970, já atravessa uma fase em que deixa que a cor preencha e cubra as incidências da peça de arte. Aceita-se a sexualidade das formas, que se vão confrontando num equilíbrio de forças que é denotado e pautado com a conjugação dessas mesmas formas, que se articulam numa linguagem plástica muito particular. Exemplo desse crescente expressionismo abstrato é atestado por “O Banho Turco” (1971).

“O Banho Turco” (1971)

O desenho é, também ele, uma prática artística rotineira em Júlio Pomar (fez intervenções plásticas na estação de metro Alto dos Moinhos, em Lisboa, com retratos de Fernando Pessoa, de Luís de Camões, de Bocage e de Almada Negreiros), assumindo o retrato cada vez como uma forma de se exprimir artisticamente. Procura, assim, fazer o retrato de várias figuras que lhe são próximas, especialmente do núcleo de amigos e de influências artísticas, para além de outras, como de Mário Soares enquanto presidente da República, embora recorrendo a um vasto conjunto de formas abstratas e de outras formas que, embora isoladas, se conseguem reconhecer. Os próprios retratos fazem parte de um percurso repleto de transformações, que divergem entre o expressionismo neorrealista e o mais abstrato, fazendo uso da dualidade entre cor e forma, em que um vai dando lugar ao protagonismo do outro. Misturam-se as linguagens do surrealismo e do expressionismo abstrato, que também convidam a um conjunto de temas e de assuntos a serem exprimidos a partir destes idiomas, entre outros a mitologia e a literatura. Exposições como “Pomer et la Littérature” (1991), “Fables et Portraits” (1994), “O Paraíso e Outras Histórias” (1996) e “Os Três Efes – Fábulas, Farsas e Fintas” (2002), para além de “Nouvelles Aventures de Don Quixote et Trois Tristes Tigres” (2009) e “Atirar a Albarda ao Ar” (2012-13, na Cooperativa Árvore, no Porto) exemplificam isso mesmo. Por isso é que se tornam recorrentes as séries de trabalhos, procurando explorar ao máximo o tema abordado e aprofundar o prazer de pintar e de, em suma, fazer arte.

“A Tartaruga” (2003)

Júlio Pomar é um dos nomes de destacada referência quando se aborda a arte moderna em Portugal, não só pela sua dimensão artística, mas também pelo dinamismo que concedeu às iniciativas em que esteve envolvido, em especial exposições e outros certames. Fez parte de vários catálogos da arte que se criou neste fértil século XX, assim como constou em diferentes obras da História da Arte portuguesa, em especial as da autoria de José-Augusto França. Outros, como Eduardo Lourenço, António Lobo Antunes ou Vasco Graça Moura, eram adeptos confessos da sua obra, tanto que a abordaram nos seus escritos. Sendo referência em diferentes coleções de arte públicas e privadas, o autêntico pomar de obras que Júlio Pomar cultivou referencia, assim, os seus frutos como dos mais ricos e suculentos da arte portuguesa.

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