‘O Teu Rosto Amanhã I’: Javier Marías e o que escondemos dos outros

por Miguel Fernandes Duarte,    16 Novembro, 2017
‘O Teu Rosto Amanhã I’: Javier Marías e o que escondemos dos outros
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Ao longo dos seus já treze romances (e outros tantos livros de contos e colectâneas de crónicas e artigos), o narrador de Javier Marías parece ser sempre o mesmo. Com as devidas variações de um livro para o outro, o seu trabalho incide sempre em algo que lide com interpretar o outro, seja através de traduções ou subtextos, ou sendo um escritor fantasma (vulgo ghostwriter) ou até mesmo um intérprete de ópera. Acima de tudo, o narrador de um livro de Javier Marías parece-se com o próprio, como se, no fundo, cada romance fosse sempre narrado pelo autor (até pela similitude dos temas de livro para livro), que vai variando os traços biográficos do narrador ficcionado, mas que os mantém sempre próximos uns dos outros e, consequentemente, de si mesmo, numa mistura entre ficção e biografia que o autor nos engana.

Em O Teu Rosto Amanhã, uma das principais obras do escritor espanhol, o narrador é Jacques Deza, espanhol a viver em Londres, agora que se separou da sua mulher e dos seus filhos, que se mantêm ao abrigo desta em Madrid. Dividida em três partes, da qual a primeira, Febre e Lança, chega agora a português pelas mãos da editora Alfaguara (a segunda, Dança e Sonho, e a terceira, Veneno e Sombra e Adeus, estão também já editadas), a obra surpreende pela ausência. Se normalmente Javier Marías começa os livros com um acontecimento chocante – em Coração Tão Branco o suicídio de uma mulher enquanto decorre um almoço de família, em Amanhã na Batalha Pensa em Mim a morte de uma mulher nos instantes antes de consumar, com o narrador, uma traição ao marido – em O Teu Rosto Amanhã o autor dispensa este método para lançar a narrativa, talvez também porque, destas três obras, este é a que dedica à narrativa menos atenção, que aliás nunca é o principal foco de Marías. Como o próprio explica em entrevista à Paris Review, em 2006 (tradução livre):

“Nos meus livros não há só acção, as personagens, a história e por aí fora; há também reflexão, e frequentemente a acção pára. O narrador faz depois uma série de considerações e meditações. Há uma tradição no romance, quase esquecida agora, que encarna aquilo que chamo pensamento literário ou reflexão literária. É uma forma de pensamento que apenas se dá na literatura – as coisas que nunca pensas ou que não chegam a não ser que estejas a escrever ficção. Ao contrário do pensamento filosófico, que exige um argumento sem falhas lógicas nem contradições, o pensamento literário permite-te contradizeres-te”

É deste pensamento literário que o livro está repleto, e no caso deste O Teu Rosto Amanhã, a questão que ocupa maioritariamente a cabeça do autor é a da capacidade de cada um em perceber o que o outro contém dentro de si próprio, para além das aparências, para além dos actos. O narrador conta-nos acerca do seu pai, que, tendo sido anti-franquista, é denunciado às autoridades pelo seu melhor amigo, acabando por ir preso, e dá por si a questionar-se acerca de como pôde, o seu pai, não prever que o amigo o trairia dessa forma:

“Como pode não se ver no longo tempo que quem acabará e acaba por nos perder nos vai perder? Não se intuir nem se adivinhar a sua trama, a sua maquinação e a sua dança em círculo, não farejar a sua aversão ou respirar a sua desdita, não captar a sua vagarosa vigilância e a lentíssima e languescente espera, e a consequente impaciência que quem sabia durante quantos anos teria tido que conter? Como posso não conhecer hoje o teu rosto amanhã, o que já está ou se forja sob a cara que mostras ou sob a máscara que trazes, e que me mostrarás somente quando não o esperar?”

É esta obsessão que transporta o livro, que acaba por ser, acima de tudo, uma belíssima dissertação acerca do tema, da forma como todos escondemos algo, mas também de como todos esses sinais lá estarão, à nossa vista, mas invisíveis para nós. Jacques Deza é um desses que tem, em si, uma capacidade extraordinária de ler os outros: de, com base nas suas acções, perceber o seu interior e o que escondem.

Javier Marías / Fotografia de Cordon Press

Num livro que decorre, essencialmente, ao longo de um serão que começa com uma festa em casa do seu amigo Peter Wheeler, professor jubilado em Oxford, e acaba no dia seguinte com uma conversa entre os dois antes de almoço, tudo é como uma espécie de entrevista de emprego em que Wheeler, que foi anteriormente membro dos Serviços Secretos Britânicos, se quer certificar da competência de Deza para um trabalho que é, essencialmente, o de “intérprete de vidas”. O próprio explica:

“Seria melhor deixá-lo em tradutor ou intérprete das pessoas: das suas condutas e reacções, das suas inclinações e caracteres e das suas capacidades de encaixe; da sua maleabilidade e submissão, das suas vontades desmaiadas ou firmes, das suas inconstâncias, dos seus limites, das suas inocências, da sua falta de escrúpulos e resistência; dos seus possíveis graus de lealdade ou vileza, e dos seus calculáveis preços e venenos e tentações; e também das suas deduzíveis histórias, não passadas mas vindouras, as que ainda não tinham acontecido e podiam, por conseguinte, impedir-se. Ou então podiam forjar-se.”

Deza julga ser, ao contrário do seu pai, alguém capaz de prever o comportamento futuro dos outros, no mínimo aquilo do qual serão capazes. Não suportaria não o saber, mas na realidade também ele ignora factos acerca dos outros que julga tão bem conhecer. Ainda que a dimensão do carácter de alguém nos esteja acessível sem sabermos que eventos marcaram a sua vida, o próprio Deza julga conhecer os outros melhor do que realmente conhece.

Ao longo das conversas entre Wheeler e Deza, a narração toma, claro, diversos desvios, quer através da própria narração quer através de Wheeler, que é várias vezes referido como alguém que, independentemente das interrupções, nunca se esquece do que estava a dizer nem perde a sua linha de raciocínio. Tal como ele, o próprio Marías leva-nos, ao longo das quatrocentas páginas deste primeiro volume, numa linha perfeitamente encadeada do dito pensamento literário. Nunca se esquece de onde vai, e ao longo da narrativa, leva-nos a visitar temas como a Guerra Civil Espanhola, as políticas internas do Reino Unido durante a 2ª Guerra Mundial, ou os policiais de Ian Fleming, autor de James Bond.

No fundo, a espionagem e, principalmente, o engano, a ilusão (‘to deceive’), são o foco deste romance que, não se focando numa narrativa labiríntica e cheia de volte-faces como é próprio dos policiais ou romances de espionagem, incide antes na parte reflexiva do tema, virando-se para dentro e explorando a natureza das aparências e a forma como tudo, desde a linguagem à voz, se torna cúmplice dessas, culminando tantas vezes em ilusões e em desilusões. Não se julgue, no entanto, que por isso esta é uma obra densa, massiva. Não há como sê-lo quando a prosa é de tão elevado grau de qualidade como a de Javier Marías.

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