‘Psychedelics’ de Aldous Huxley: haverá outra maneira de vermos a realidade?

por José Malta,    19 Dezembro, 2017
‘Psychedelics’ de Aldous Huxley: haverá outra maneira de vermos a realidade?
PUB

Uma das maiores obras literárias do escritor inglês Aldous Huxley relata as suas experiências com a mescalina tendo, durante os trabalhos exploratórios, a assistência permanente de um investigador e da sua esposa. The Doors of Perception (As Portas da Percepção) é o título da obra publicada em 1954 que apresenta o relato das sensações do escritor perante os efeitos de tal droga, utilizando-se a si mesmo como cobaia. O texto original fora editado pela primeira vez em 2017 pela mão da editora inglesa Penguin Books através de uma colecção de pequenos livros denominada por Vintage Minis. Psychedelics seria assim o nome inicial do texto integral de The Doors of Perception antes das alterações feitas um ano depois, no seu lançamento. No entanto, Aldous Huxley preferiu dar-lhe um nome de cariz mais atractivo e até poético, baseando-se nos versos do poeta inglês William Blake: “If the doors of perception were cleansed everything would appear to man as it is, infinite”. Assim, as portas da percepção foram abertas através das experiências que Aldous Huxley tivera com a substância aluciogénica da moda e que inspirou não só Huxley nas escrita, mas também uma enorme variante de artistas e pensadores.

A molécula que de acordo nomenclatura da IUPAC é denominada por 3,4,5-trimetoxifeniletilamina, e que dada a sua complexidade fora baptizada pela gíria por mescalina, trata-se de uma substância alucinogénica de origem natural que pode ser obtida pela sua extracção da espécie vegetal Lophophora williamsii, um cacto vulgarmente designado por Peiote. A mescalina tornou-se numa das substâncias ilícitas mais famosas dos anos 60 e 70, dada a sua origem natural e fácil acesso. Aldous Huxley conta que ao longo dos anos a química evoluiu de tal modo que esta substância de origem natural fosse obtida sinteticamente em laboratório, fazendo o próprio questão de citar artigos de algumas das mais prestigiadas revistas científicas da época. A obra baseia-se numa intensiva experiência sobre os efeitos da mescalina na qual Huxley relata as observações e sensações que perduram após a sua ingestão. Segundo o próprio tais efeitos podem ser descritos em quatro principais conclusões retiradas ao longo dos diversos ensaios:

(1) As capacidades de lembrar e raciocinar correctamente não sofrem reduções perceptíveis;

(2) As percepções visuais intensificam-se gradualmente, reduzindo-se a descrição conceptual automática e o interesse por uma actividade espacial;

(3) Existe uma redução da inquietação e da actividade motora voluntária;

(4) Ocorrem percepções sucessivas e simultâneas ao mundo exterior e interior do próprio individuo

Para além de uma enorme reflexão sobre a realidade e a percepção do mundo que nos rodeia, o autor descreve as sensações obtidas ao observar obras de pintores como Cézanne, Matisse, Magritte e no modo como as cores e alguns dos elementos se modificam. Existe uma descrição exímia da alteração das cores nas flores dos vasos da sala e da forma de objectos simples como cadeiras ou secretárias adquirem outro formato. Procurando explicar os efeitos da mescalina no cérebro, Huxley afirma que a mescalina tem a propriedade de reduzir a quantidade de açúcar presente no cérebro tendo deste modo uma influência directa na actividade enzimática. Algumas dessas enzimas visam a regular o fluxo de glicose destinado a alimentar as células cerebrais. A mescalina, inibindo a produção dessas enzimas, diminui a quantidade de glicose à disposição deste órgão que tem uma carência especial pelos hidratos de carbono. Aldous Huxley faz assim um ensaio intenso dos efeitos da mescalina evocando mais do que fundamentos e questões científicas, questões filosóficas e até religiosas, nomeadamente de cariz Budista. No entanto a grande questão que se coloca é mesmo a da percepção da realidade. Até que ponto é que determinadas substâncias nos abrem as portas para um mundo completamente diferente, àquele em que Aldous Huxley baptizou com o famoso verso do poeta inglês William Blake? Lá por drogas como a mescalina serem ilícitas devido aos seus efeitos, será que outras que conseguem produzir efeitos semelhantes mas que são submetidas a um controlo e postos à venda ao público, poderão ser um modo da sociedade cortar as portas aos indivíduos que tentem atingir esta percepção? Estará a verdadeira realidade presente nas portas que nos conduzem para este mundo admirável? Ou serão as alucinações que nos transportam para o que de mais verdadeiro há na realidade apesar de ser algo que é, à partida, verosímil ao irreal?

Apesar deste texto integral ainda não se encontrar traduzido em português, Psychedelics trata-se de quase um artigo científico com uma linguagem técnica de um escritor que teve um fascínio enorme pela ciência e que fora obrigado a abandonar o curso de medicina devido a problemas de visão, envergando pelas humanidades. Passados mais de 60 anos, as portas da percepção continuam abertas a um mundo cada vez mais assustadoramente admirável, mundo esse que apesar de se querer assumir como renegado às substâncias ilícitas permite outras de fácil acesso e com um controlo que convém às grandes empresas e a uma sociedade cada vez mais sinistra. Passados mais de sessenta anos a química farmacêutica e a química orgânica ganharam novas vertentes assim como a indústria que visa produzir fármacos, o que poderia arranjar maneira de criar chaves que abrissem por completo estas portas. Só que para Huxley, estas portas permanecem entreabertas para uma própria protecção do indivíduo, havendo assim algo que iniba a sua abertura total. No entanto a tendência de se escancararem a si mesmas aumenta gradualmente, levando-nos a um mundo que nos pode mostrar o que há existe para além da nossa realidade.

Psychedelics é assim um texto em formato de artigo científico no que diz respeito à linguagem e aos termos utilizados. Por estar na língua inglesa faz com que, mais do que um ensaio e uma reflexão profunda, seja também uma peça de estudo por parte de várias vertentes científicas começando na fisiologia ou nas neuro-ciências e acabando na filosofia e na psicologia propriamente dita. Apesar da obra As Portas da Percepção já estar publicada na língua portuguesa pela editora Antigona, não deixa de ser obrigatória a leitura deste manuscrito de apenas sessenta páginas mas que vislumbra um caminho muito maior do que as páginas que o compõem, abrindo portas para uma misteriosa percepção que tende aumentar de tamanho incorporando novas formas neste admirável mundo que nos rodeia.

PUB

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.

Artigos Relacionados