Publicações D. Quixote criam Prémio de Poesia Nuno Júdice nos 60 anos da editora

por Lusa,    31 Março, 2025
Publicações D. Quixote criam Prémio de Poesia Nuno Júdice nos 60 anos da editora
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As Publicações D. Quixote completam na terça-feira 60 anos que celebram com uma antologia, uma obra sobre a sua fundadora, Snu Abecassis, a criação do Prémio Nuno Júdice e a manutenção do seu compromisso com a liberdade.

As iniciativas dos 60 anos da D. Quixote incluem ainda o regresso, em edição especial, de seis títulos “marcantes na história da ficção universal”, de Gabriel García Márquez, Han Kang, Mário Vargas Llosa, Milan Kundera, Sándor Marai e Salman Rushdie, a criação de uma identidade gráfica para o género policial e a identificação da “Página 60”, de um livro de cada autor português, com uma ilustração alusiva à “liberdade editorial, de pensamento e de expressão”, na base da criação da editora, atualmente parte do Grupo Leya.

As Publicações D. Quixote abriram portas em 01 de abril de 1965, por iniciativa de Snu Abecassis. Desde o início, a editora desafiou as autoridades da ditadura e os seus dogmas, ao publicar títulos sobre temas tão distintos como controlo da natalidade, a guerra do Vietname, a crise da Igreja e a abertura aos problemas sociais, a Primavera de Praga e o apartheid na África do Sul, e autores como Jean-Paul Sartre, Andre Robbe-Grillet, Noam Chomsky, Miguel Angel Astúrias, Andrei Sakharov, Vassilis Vassilikos, Vladimir Maiakovski, Yevgeni Yevtushenko.

O Prémio Nuno Júdice, que toma o nome de um dos principais autores da Dom Quixote, tem por objetivo “dar à poesia a importância que merece, e homenagear Nuno Júdice (1949-2024)”, indica o comunicado da editora enviado à agência Lusa.

“O Prémio de Poesia Nuno Júdice, cujo regulamento, constituição do júri e valor monetário serão revelados em breve, destina-se a livros inéditos e está aberto a todos os candidatos. O livro vencedor será depois editado e publicado pela Dom Quixote em março, mês da poesia, do ano seguinte”.

As candidaturas à primeira edição do prémio, a atribuir no próximo ano, abrem no próximo dia 29 de abril, data de aniversário de Nuno Júdice.

A edição do livro “Snu e a Vida Privada com Sá Carneiro”, da jornalista Cândida Pinto, está também no plano da Dom Quixote, mas já para este ano, enquanto a publicação da antologia “60 Anos, 60 Poemas”, culminará as seis décadas de atividade da editora em março de 2026.

Para os próximos meses, está anunciada a reedição de seis livros “marcantes na história da ficção universal”, traduzidos e publicados pela primeira vez em Portugal com o ‘selo’ da Dom Quixote, a surgirem agora numa “edição especial”: “O Amor nos Tempos de Cólera”, de Gabriel García Márquez (1927-2014), a publicar em maio próximo, “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera (1929-2023), em junho, “As Velas Ardem Até ao Fim”, de Sándor Marai (1900-1989), em julho, “Os Filhos da Meia-Noite”, de Salman Rushdie, em agosto, “As Travessuras da Menina Má”, de Mario Vargas Llosa, em setembro, e “A Vegetariana”, de Han Kang, em outubro.

Ainda no plano editorial, “todos os livros de género policial, o ‘noir’, passam a ter uma nova identidade gráfica, que será acompanhada pela criação de novas páginas de redes sociais, exclusivas para esta coleção, ‘DQ Noir'”.

A Dom Quixote conta com mais de 100 títulos de autores de policiais e visa, com esta nova coleção, “aproximar-se mais dos leitores e amantes de livros deste género literário”.

A “página 60” é outra iniciativa com a qual a Dom Quixote pretende “agradecer aos seus autores a confiança que nela depositam e reconhece a sua importância, decisiva para o sucesso da editora”.

Assim, “um livro de cada autor português será tornado exemplar único com a inserção, na página 60, de uma ilustração da autoria de Bárbara Assis Pacheco – uma ave que alude à liberdade que as Publicações Dom Quixote orgulhosamente ostentam desde a sua fundação”.

A editora dinamarquesa Ebba Merete Seidenfaden (1940-1980), conhecida como Snu Abecassis pelo seu casamento, em 1961, com Alberto Vasco Abecassis, fixou-se em Portugal em 1962, fundando a editora três anos mais tarde, com Vasco Abecassis e António Neves Pedro.

“Foi precisa muita coragem para, em nome da liberdade de expressão, ter a ousadia de publicar o que não podia ser publicado, desafiando e afrontando os poderes e as normas então vigentes”, escreve a Dom Quixote sobre a sua primeira responsável, no comunicado hoje divulgado.

Ainda nos anos 1960, os quatro primeiros livros da coleção Cadernos Dom Quixote, dedicados ao conflito israelo-árabe, à situação na América Latina, às lutas anti-segregação nos Estados Unidos e ao regresso da Grécia ao autoritarismo, foram apreendidos pela PIDE, polícia política da ditadura do Estado Novo.

O confronto com as autoridades agudizaram-se a partir de 1967, quando o poeta soviético Yevgeni Yevtushenko visitou Lisboa a convite da editora, “acabando perseguido pela polícia política”.

Mais tarde, nos anos 1980, já depois da queda da ditadura e da morte da sua fundadora, a Dom Quixote não hesitou em publicar “Os Versículos Satânicos”, de Salman Rushdie, quando “foi decretada a pena de morte pelo aiatola Khomeini [fundador da República Islâmica do Irão]”, ao escritor, “que colocou em risco de vida editores e tradutores do livro, um pouco por todo o mundo”, recorda a editora.

Hoje, passados 60 anos, a Dom Quixote afirma-se “determinada a manter o compromisso e os princípios que estiveram presentes desde a sua fundação”: “Liberdade editorial, de pensamento e de expressão”.

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