Reportagem. Encontro Audiovisual Açoriano: o futuro começa agora

por Francisco Quintas,    16 Janeiro, 2023
Reportagem. Encontro Audiovisual Açoriano: o futuro começa agora
Auditório da Madalena / Fotografia de Francisco Quintas – CCA
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No fim-de-semana de 6 a 8 de Janeiro, decorreu o primeiro Encontro Audiovisual Açoriano, no Auditório da Madalena, na ilha do Pico.

O evento, aliás, integrou a agenda da nona edição do Montanha Pico Festival, que teve início no passado dia 11 de Dezembro e se estenderá até 31 de Janeiro, com sessões de entrada livre. Trata-se de um programa cultural destinado à exibição de cinema e exposições artísticas, distribuído por pontos distintos da ilha. São estes o Auditório do Museu dos Baleeiros, o Auditório Municipal das Lajes do Pico, o Auditório da Escola de São Roque, o Bar da Gare da Madalena, o Atlântico Teahouse e o já referido Auditório da Madalena.

A iniciativa é da MiratecArts, associação que tem como “finalidade realçar o indivíduo, a equipa e a produtividade organizacional no mundo das artes. Produzir, promover e apresentar artistas, mostras e eventos abrangendo as várias disciplinas artísticas. Organizar concertos, espetáculos de dança, peças de teatro, galas, festivais e outros eventos artísticos. Realizar eventos educativos culturais para as várias gerações”. Foi fundada em 2002, em Vancouver, no Canadá, por Terry Costa. Descendente de emigrantes, Terry nasceu em Oakville, passou a adolescência nos Açores e tem atuado como produtor e diretor artístico. Até hoje, a MiratecArts apresentou mais de 700 projetos de entretenimento, priorizando a contratação de artistas nacionais junto da diáspora portuguesa. Está sediada no Pico desde 2012.

Encontro Audiovisual Açoriano / DR

O Encontro Audiovisual Açoriano, por sua vez, veio promover a comunicação entre produtores e realizadores do arquipélago, em atividade em Portugal ou no estrangeiro. Apresentaram-se currículos, anunciaram-se projetos a desenvolver e/ou em pós-produção, assim como programas de financiamento e distribuição. O fim-de-semana concentrou várias conferências, sessões de Perguntas & Respostas, uma premiação, uma masterclass e mostras de curtas e longas-metragens, tanto documentais como de ficção.

Na sexta-feira, dia 6, o evento arrancou em modo noturno. Às 21h30, decorreu a apresentação especial do documentário “Os livros que ficaram por ler de Pedro da Silveira”, seguida de uma conversa com a realizadora Sandra Cristina Sousa. O filme foi levado a cabo no âmbito das celebrações do centenário de Pedro da Silveira (1922-2003), poeta, tradutor, crítico literário e investigador nascido na ilha das Flores. Dum espólio com dezenas de trabalhos por publicar, destaca-se a Antologia da Poesia Açoriana, que lançou a pergunta que se estende à atualidade: existe ou não poesia açoriana? O documentário foi produzido pela Comunicar Atitude.

Na manhã de sábado, dia 7, os convidados, de Lisboa ou das ilhas vizinhas, aterraram no Aeroporto do Pico. Foram conduzidos numa visita guiada pelos 2,6 hectares da MiratecArts, não sem antes conhecer o centro da Madalena e os pontos de maior interesse local ou cultural. O passeio estendeu-se à paisagem da vinha, às matas, à zona costeira e a todos os cantos da propriedade. Nesta, com extensão até ao mar, estão presentes algumas exposições, construídas com material reciclado, da autoria de artistas, na sua maioria, açorianos. O edifício principal será palco duma remodelação, para a qual Terry Costa continua a procurar financiamento, destinado à montagem duma galeria e dum escritório.

Vistas as vistas, os convidados regressaram à Madalena, onde se instalaram no respetivo alojamento e partilharam a hora de almoço. Dentro de pouco tempo, iniciar-se-ia o Encontro Audiovisual Açoriano.

Às 15h, conforme a plateia do auditório ia sendo preenchida, Terry Costa começou com uma breve apresentação e a atribuição do prémio de 1.º Lugar do Concurso de Fotografia Montanha, entregue a Gabriela Pontes, por “Utopia”.

Terry Costa e Gabriela Pontes / Fotografia de Francisco Quintas – CCA

Sem mais demoras, o guionista, produtor e realizador Augusto Fraga, nascido e criado em Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel, foi o primeiro a subir ao palco. Em “Fazer Valer, Notas de Abertura”, o cineasta conversou sobre o respetivo percurso profissional, chegando a “Rabo de Peixe”, a nova série portuguesa original da Netflix.

Começou por descrever o processo de desenvolvimento do projeto. Admitiu a necessidade de escrever guiões para satisfazer a necessidade de os realizar. Desde um primeiro esboço a um primeiro guião, trabalhou durante o confinamento de 2020. O episódio-piloto foi, então, levado a um concurso de argumentos originais do ICA – Instituto do Cinema e Audiovisual. Demonstrado o interesse da plataforma de streaming, reuniu-se o chamado writers room, um grupo de guionistas profissionais. Durante 8 meses, Fraga colaborou com Hugo Gonçalves, Francisco Afonso Lopes, Fernando Mamede e João Tordo, alcançando um total de 60 versões.

Trata-se de um thriller “livremente inspirado em factos reais” que conta a história dum grupo de amigos “cuja vida muda para sempre com a chegada de uma tonelada de cocaína” à costa açoriana. Durante a palestra, o realizador limitou-se a resumir a premissa à conhecida expressão “Não há almoços grátis”. As rodagens foram levadas a cabo pela Ukbar Filmes, durante o verão de 2022. “Rabo de Peixe” encontra-se, neste momento, em pós-produção. A estreia está prevista para este ano.

Seguiu-se “Fomento ao turismo cinematográfico nos Açores”, apresentação de Miguel Nobre Chagas, aluno do Mestrado em Ciências Económicas e Empresariais. O estudo foi realizado sob a supervisão da Prof. Dra. Daniela Fantoni Alvares, diretora da Licenciatura de Turismo, para a Universidade dos Açores. Neste, o mestrando debruçou-se sobre o investimento no setor turístico proveniente de interesse audiovisual no arquipélago (ou a falta dele). Além de ser curto o incentivo na área da cultura na região autónoma — foram referidas a Azores Film Commission e outras entidades —, não é delineado um plano que ofereça condições que atraiam produções de projeção internacional, nem tampouco um regime turístico que delas advenha. De uma lista de exemplos, foi citado o caso de “House of the Dragon”, a série da HBO, cujas rodagens passaram por Monsanto, em Lisboa, ao leme da Sagesse Productions, fundada por Sofia Noronha.

Interrompendo o segmento mais palavrado do evento, deu-se espaço à exibição de quatro curtas-metragens, produções originais de artistas açorianos. A primeira foi “Cemitério Vermelho”, de Francisco Lacerda. O realizador não pôde estar presente, tendo gravado um breve vídeo de abertura, no qual descreveu o filme como “uma carta de amor açoriana aos spaghetti westerns”. Partindo duma premissa tradicional — dois criminosos disputam um tesouro —, Lacerda satiriza chavões do género, simulando uma fotografia analógica danificada e uma dobragem de diálogos propositadamente defeituosa. Sem desfazer o papel do humor português que, conjugado com as características técnicas estrangeiras, tantos risos despoleta. “Cemitério Vermelho” foi distinguido com o Prémio SCML – Melhor Curta Portuguesa, na última edição do festival MotelX.

A segunda foi “The Lonely Doryman”, de Noah Duarte, um romance homossexual contado, quase por inteiro, por meios audiovisuais, sem grande recurso a diálogo. A história, passada nos Açores dos anos 60, acompanha um jovem pescador encurralado numa misteriosa ilha, que “se apercebe do que realmente significa estar vivo contra todas as hipóteses”. Também Noah não pôde estar presente, pelo que foi Nuno Branco, o ator principal, quem se levantou para responder às perguntas, abordando os desafios de produção e contando episódios de rodagem. “The Lonely Doryman” foi distinguido com o prémio Platina para Melhor Direção de Arte e os prémios Prata para Melhor Curta Experimental e Melhor Realizador Estudantil, na última edição do Independent Shorts Awards, em Los Angeles.

A terceira foi “À la minute”, de Bruno Correia, produtor e realizador da RTP Açores. O sujeito retratado neste documentário (estreia exclusiva) é Mário Roberto, escritor, cineasta, pintor, escultor e ator, fundador duma pequena galeria de arte no centro de Ponta Delgada, onde expõe e vende as suas obras. Duma delicada e envolvente simplicidade, o filme acompanha a rotina e o trabalho de Mário, focando-se na relação com a mãe, que comemora 90 anos e para quem o filho tem uma oferta especial.

A quarta foi “Fake Plastic Flower”, da Alga Viva Produções. Consequente duma residência artística, a realizadora Sara Leal relatou que a curta-metragem teve como ponto de partida uma pergunta: “Se pudesse conhecer alguma personalidade, da esfera pública, que já morreu, quem seria?”. Graças às técnicas enganadoras da montagem, que colam e descolam trechos duma entrevista televisiva, Sara dialoga com a escritora brasileira, nascida na Ucrânia, Clarice Lispector. Intervalada com planos da natureza ou de espaços domésticos, a “conversa” disserta sobre o processo criativo, através de uma linguagem experimental.

“Isto é o início daquilo que queremos mostrar no futuro.”

Terry Costa

De volta às conferências, foi a vez de Miguel Dias, que veio falar sobre “Promoção, Vendas e Distribuição Internacional”, com foco na sua experiência de fundador e diretor da Agência da Curta-Metragem e do Curtas Vila do Conde – International Film Festival. Uma vez que Dias se manteve mais aberto a esclarecer dúvidas, sobre o seu trabalho e a sua perspetiva sobre o panorama audiovisual, a palestra revelou-se breve, dando lugar, então, à próxima convidada.

Foi esta Susana Costa Pereira, coordenadora executiva do CIEC – Centro Informação Europa Criativa, o programa da União Europeia de apoio ao setor cultural e criativo. “Financiamento Europeu para o Setor Audiovisual”, portanto, consistiu numa ponderada e minuciosa sessão de esclarecimento sobre os objetivos do programa: orçamento, critérios de elegibilidade e avaliação dos concursos, processo de candidatura, entre outros. Serviu a apresentação, ainda, para clarificar conceitos, propor novas designações, expandir horizontes e agilizar uma benéfica relação de produção nacional e transnacional. Com planos previstos para venda e distribuição, o projeto destina-se a curtas e longas-metragens, desde o documental, à ficção e à animação. O suporte digital da palestra pode ser consultado aqui.

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Dando por terminada a primeira tarde de bate-papo e filmes, iniciou-se a espera pelas 21h30, para a apresentação especial de “Lobo e Cão” (2022), a longa-metragem de Cláudia Varejão. O filme, que teve estreia global no passado Festival de Veneza, acompanha Ana, uma adolescente dum grupo de amigos LGBTQI+, nascida e criada em São Miguel, ilha marcada por religião e tradições. Interpretada por Ana Cabral, a protagonista vive entre casa, escola e trabalho, com o irmão, a mãe, a avó, o melhor amigo Luís, “que gosta tanto de saias como de calças”, e Cloé, uma rapariga recém-chegada do Canadá.

“Apaixonei-me pela paisagem humana.”

Cláudia Varejão

Com o auditório a recuperar compostura, procedeu-se a uma breve apresentação por parte da cineasta, natural do Porto, sobre o seu percurso e o afeto que mantém pelo arquipélago. As primeiras ideias para “Lobo e Cão” surgiram em 2016, aquando de uma residência artística precisamente em São Miguel. Contou o episódio do “choque de realidades” a que assistiu: um encontro entre os pescadores tradicionais e um grupo de miúdas transgénero, filhas, sobrinhas, primas desses mesmos trabalhadores.

Ao visionamento de “Lobo e Cão” seguiu-se uma sessão de perguntas e respostas, marcada por aplausos, curiosidades e agradecimentos. Roçando a meia-noite, o dia terminou.

Para diversificar o esqueleto da agenda, a manhã de domingo, dia 8, foi palco duma masterclass de Caracterização e Maquilhagem, conduzida por Sofia Frazão. Com início às 10h, decorreu também no Auditório da Madalena, terminando por volta das 13h.

Em preparativos doutra tarde, a ordem dos convidados foi ligeiramente alterada, devido à própria agenda dos palestrantes e a alguns problemas técnicos, prolongando para além das 15h o início do evento. Sendo assim, o estreante do palanque e do microfone foi Pedro Cota, presidente do conselho de administração da Azores Film Commission, fundada em 2008 e dedicada à promoção e implementação de produções audiovisuais no arquipélago.

Após o debate que marcou o dia anterior do Encontro Audiovisual Açoriano, em que Pedro Cota também esteve presente, foi com naturalidade que se passou à colocação de perguntas relativas ao tema que mais se queria ver debatido. Afinal, a que se deve a falta de investimento em audiovisual nos Açores? Quem são os responsáveis? Os órgãos culturais e artísticos designados para a região autónoma? Ou será ainda mais afetado o contexto açoriano por estar amarrado às conhecidas e pré-existentes carências do panorama nacional?

O auditório ficou a par da iniciativa na génese da empresa e da corrente situação financeira, assim como das assumidas fragilidades do departamento de comunicação. A Azores Film Commission, com participação maioritariamente privada e sem fins lucrativos, organiza um plano de ação anual em conjunto com o ICA. Não é surpresa para plateias açorianas, como não é para continentais, que o audiovisual na região não descole por falta de incentivo financeiro.

“A única maneira de uma film commission funcionar e produzir resultados é passar para a esfera pública.”

Pedro Cota

Não obstante, Cota mantém “a teimosia e a carolice”, denunciando o abandono por parte do governo regional e sublinhando a importância do movimento, em favor doutros setores fundamentais à economia do arquipélago, como a cultura e o turismo.

Antes de subir o orador seguinte, Terry Costa dedicou um curto tempo à exibição dum showreel da Cão de Fila Produções, “empresa constituída por jovens açorianos que trabalham na área da multimédia”.

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Seguiu-se “Filmes Publicitários à Ficção”, apresentação de Rui Vieira, realizador, designer gráfico e diretor criativo. Um autoproclamado outsider, é natural do Faial e mudou-se para Lisboa para estudar em Belas-Artes. Engolindo o duro comentário dum professor que lhe recomendou “dedicar-se à pesca”, juntou-se à Playground em 2015, dedicada a fotografia e audiovisual. Exibiu, então, um showreel comemorativo dos 10 anos da produtora, que conta atualmente com uma equipa diversa e prestadora de serviços a variadas marcas, artistas e eventos.

Para terminar, Rui Vieira partilhou a paixão por cinema e revelou os planos de “No Sangue”, a sua primeira longa-metragem de ficção. Exibindo um teaser rodado no Pico no verão de 2020, com apoio do ICA, explicou que o projeto se encontra, neste momento, em busca de financiamento, nomeadamente de coproduções internacionais. Foi descrito, ainda, que o filme, livremente inspirado em histórias reais, se concentra na relação entre um pai e um filho, baleeiros açorianos do fim dos anos 50.

Seguiu-se Pedro Parreira, arqueólogo de formação, membro da Direção Regional dos Assuntos Culturais que, na ausência do respetivo presidente, se viu incluído no espírito de questões e apreciações acerca da ação (ou da falta dela) no audiovisual no arquipélago. Com isto, rematou uma introdução breve e sucinta, na qual descreveu os propósitos da entidade e a situação logística corrente, para passar à conversa que todos, mais uma vez, queriam fomentar. “Estou cá essencialmente para vos ouvir”, disse.

Eis que se chega a mais uma mostra. Foi a vez de “Cine Esperança” (2020), de Francisco Rosas, produzido pela Palco de Ilusões. O documentário “espelha as paixões e os pontos de vista de diferentes intervenientes em relação ao cinema”, através de entrevistas a espetadores, projecionistas e profissionais — “quem fez acontecer o cinema na ilha de São Miguel” —, em particular o consagrado ator, músico, compositor e realizador Zeca Medeiros.

Não deve ser esquecido que, antes da exibição de “Cine Esperança”, Terry Costa esteve em chamada com o próprio Zeca Medeiros, a propósito da atribuição do Prémio Atlante.

“Hoje estamos aqui com um grupo de trinta pessoas, todas têm muito respeito por si, pelo artista que é Zeca Medeiros”, começou por comunicar. “É com muito agrado que lhe dedicamos este símbolo, que vai com a nossa mascote Atlante, que simboliza persistência e ousadia no mundo das artes. Não podíamos deixar passar este evento histórico, o primeiro Encontro Audiovisual Açoriano, sem o atribuir à pessoa que, para todos nós, é a maior referência quando se fala de filmes e minisséries para a televisão açoriana, e não só. Por isso, amigo Zeca, porque é um amigo para todos nós, receba este prémio que vai com muito carinho da MiratecArts e, do fundo do coração, em nome de muitos artistas que lhe respeitam pelo vasto corpo de trabalho produzido durante quatro décadas e picos. Desejamos-lhe tudo de melhor, saúde e força, para que consiga fazer muito mais e continue a inspirar-nos para sermos melhor. Obrigado por tudo e sempre em frente.”

Sandra Cristina Sousa, Bruno Correia, Sara Leal e Luís Filipe Borges / Fotografia de Francisco Quintas – CCA

Para terminar a tarde, deu-se início àquele que era, discutivelmente, o segmento mais esperado do fim-de-semana. “Produzir nos Açores – Provocações e Tribulações” juntou em palco os já referidos Sandra Cristina Sousa, Bruno Correia, Sara Leal e o ator, humorista, apresentador e produtor Luís Filipe Borges, natural da Terceira. Moderado por Terry Costa, o debate reforçou os pontos da discussão permanente ao longo das conferências que no Auditório da Madalena tiveram lugar. Partilharam-se histórias, propuseram-se soluções e, no fim, em prol da necessária união dos profissionais do arquipélago, foi feita uma listagem de nomes dispostos a criar uma associação de produtores açorianos.

Com a tarde a chegar ao fim, restava apenas, planeada para as 21h30, a apresentação especial de “A Alma de um Ciclista” (2020), a primeira obra de Nuno Tavares. Com uma equipa técnica minúscula e um orçamento quase inexistente, o micaelense conduziu, desde Setembro de 2018 até Fevereiro de 2020, uma série de entrevistas a apaixonados pelo ciclismo, portugueses e estrangeiros, moderados e aficionados, dos mais velhos aos mais novos.

“Através de um grupo de ciclistas “clássicos” e do seu interesse comum pela bicicleta clássica”, descobre-se “valores que se vão perdendo na nossa sociedade moderna, como a importância da amizade, da ecologia, da valorização do antigo, da rejeição ao consumismo e de outras premissas importantes para atingir uma vida mais feliz, mais simples e mais preenchida com o que realmente importa. Tal como na vida, neste documentário, as bicicletas transportam-nos na nossa descoberta, na nossa reflexão.”

O filme teve uma grande repercussão internacional, com estreia em festivais da Península Ibérica, do Reino Unido, do Canadá, dos Estados Unidos da América, da América Latina, da Rússia, entre muitos outros. Esta foi a sua segunda exibição consecutiva no Montanha Pico Festival. Apesar de encontrar um público “religioso e garantido” com facilidade, o realizador descreveu “A Alma de um Ciclista” como “um filme para quem não liga a ciclistas nem a ciclismo”, mas que acredita que promove “uma ode à relação social”.

“O espetador sente que assistiu a algo genuíno.”

Nuno Tavares

Sobre as fraquezas do investimento em cultura e no audiovisual açorianos, Nuno Tavares destacou a infeliz tendência de muitos profissionais (o próprio incluído) terem de “vencer lá fora para serem conhecidos cá dentro”.

O Encontro Audiovisual Açoriano encontrou, assim, um firme arranque para o estabelecimento de relações entre profissionais das nove ilhas, assim como de açorianos residentes fora da região, que mediram esforços para traçar um plano de ação, apelando à união de colegas e grupos de trabalho.

“Foi muito bom sentir que há uma vontade de concretizar e de desenvolver”, admite Sara Leal, da Alga Viva Produções. “Este encontro foi um primeiro passo importantíssimo no sentido de criarmos uma relação entre agentes e um sentido de comunidade”, acrescenta.

Terry Costa e Nuno Tavares / Fotografia de Francisco Quintas – CCA

“No Encontro Audiovisual Açoriano, encontrou-se um caminho, um primeiro passo para a mudança de paradigma, nomeadamente a criação de uma Associação de Produtores que represente os profissionais e empresas junto dos decisores políticos com o objetivo de transformar um sector frágil e subvalorizado, numa verdadeira indústria audiovisual com importante retorno económico e cultural para a região”, diz Bruno Correia, realizador de “À la minute”.

Terry Costa anunciou ainda a criação do Prémio Curta Pico. “Realizadores e produtores vão ter a oportunidade de apresentar uma ideia para filmar na ilha do Pico. Ao projeto vencedor é garantido apoio logístico na ilha. A obra final recebe estreia no Montanha Pico Festival e ainda apoio para candidatar-se a festivais além dos Açores. O vencedor recebe um apoio financeiro, para o qual a MiratecArts procura parceiro estratégico para um investimento de compromisso, no mínimo de seis anos, e não programas de candidaturas, para financiar o prémio.” 

Espera-se que o Encontro Audiovisual Açoriano regresse para o próximo ano e que se torça para semelhantes iniciativas nascerem dentro do arquipélago e fora dele, em prol, como sempre, de um mercado audiovisual nacional mais saudável, próspero e aliciante a quem nele ambiciona vingar.

A Comunidade Cultura e Arte viajou a convite da MiratecArts para fazer a cobertura deste evento.
Este artigo foi editado a 17 de Janeiro para corrigir alguma informação.

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