Terapia de Divã. Quais os efeitos psicológicos dos internamentos hospitalares prolongados?

por Ana Isabel Fernandes,    4 Junho, 2020
Terapia de Divã. Quais os efeitos psicológicos dos internamentos hospitalares prolongados?
Ilustração de Simone Roberto/CCA
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(‘Terapia de Divã’ é a rubrica da Comunidade Cultura e Arte dedicada à psicologia. Semanalmente, temos todos um encontro marcado neste divã para, com o auxílio dos especialistas, discutirmos e entendermos melhor os mais variados assuntos — desde a sociedade até à criatividade — à luz do enquadramento psicológico. A partir de hoje daremos início a uma nova estrutura. Até aqui temos publicado, semanalmente, entrevistas aos especialistas contactados. Vamos abrir o leque, doravante, e utilizar, também, o género texto de opinião.  

Para cada assunto visado haverá, primeiro, um texto opinativo de preparação, como o que se segue, com vista a contextualizar e preparar o tema que será abordado, posteriormente, com o respectivo especialista, em entrevista.  Assim, damos-te também tempo para contribuíres com uma questão, que poderá ser seleccionada por nós, caso a queiras ver respondida por quem sabe. O tema em análise é “os efeitos psicológicos dos internamentos hospitalares prolongados”. Quais são esses efeitos? Como é que se pode lidar com os casos mais difíceis? Se quiseres saber, lê o texto e aguarda pelas entrevistas das próximas semanas. Para este tema em particular, como tem várias cambiantes, iremos abordar, para a semana, com uma especialista, o caso concreto dos internamentos em crianças e adolescentes. A seguir, iremos abordar os casos dos internamentos nos adultos, com outro especialista. Fica atento.)

Há uns anos tive uma crise pulmonar, mais concretamente na pleura — a membrana que reveste o pulmão. A condição clínica que tive chama-se pneumotórax e, consequentemente, tive de ser internada três vezes porque o problema acabou por reincidir — a terceira vez correspondeu ao internamento da operação a que fui submetida. Já sabia, da primeira vez, que se houvesse uma recidiva, ou seja, caso o pneumotórax se repetisse, tinha de ser operada. É verdade que já aqui escrevi uma crónica sobre esse período e fi-lo — pelo menos foi essa a minha intenção — porque essa altura ajudou-me a sair do meu próprio centro e a pensar com mais profundidade ainda no significado da fragilidade da condição humana. Sim, escusado será dizer que essa experiência também eu a estava a viver — estava a experienciar dor a sério pela primeira vez na vida e, para uma jovem que pensa em todas as coisas habituais de uma jovem, tal acaba sempre por ser impactante. E sim, passei pelos meus momentos de ansiedade, porque pensava a todo o minuto, mesmo após a operação, que tudo se podia voltar a repetir. A tudo isto, juntou-se o facto de ser, na altura, ainda imatura — apesar dos títulos dos livros que já sabia citar de cor — para lidar com mais dignidade com a situação.

Foi uma experiência totalmente interna, auto-centrada, mas, em contra-mão, foi o que me obrigou a pensar mais nos outros e a sair do centro de mim — se calhar porque estava a tentar dar um sentido àquilo que estava a viver, provavelmente. Mas, fosse pelo que fosse, não podia deixar de observar,também, nos outros, as suas dores e a forma como encaravam e viviam os seus internamentos. Eram frágeis, afinal, como eu. Muito frágeis. Como é que se perdoa um corpo doente? Teremos, mesmo, essa capacidade? Como é que se lida com o facto de estarmos uma noite inteira a escutar os nossos ais e, simultaneamente, os ais das pessoas das camas ao lado? Como é que se lida com o facto de haver sol, vida, interesses e tempo a decorrer lá fora, enquanto estamos estagnados numa cama de hospital? Acima de tudo, a principal questão é esta, o que é que acontece ao tempo? O que é acontece às horas? Como é que enfrentamos os minutos? Como é que nos enfrentamos a nós próprios no próprio corpo?

Num internamento, a questão do tempo é crucial e, quem já por lá passou, conhece bem como se pode experienciar, em primeira mão, a teoria da relatividade a nível psicológico — ela é real. Pode-se dizer, e é muito comum ouvirmos, que os momentos interessantes e que nos cativam fazem o tempo voar, enquanto que os de tédio, tal e qual uma aula aborrecida, fazem o tempo perdurar ad eternum. Bem, nem tudo é tão simples e, num internamento hospitalar, essa noção é muito mais complexa. Enquanto estamos em dor é verdade, sim, que a nossa mente está muito mais desperta e, como biologicamente sabemos que estamos em perigo, há a propensão para tentarmos memorizar cada segundo, cada momento. Estamos em estado de alerta porque nos sentimos numa situação de ameaça e, por conseguinte, estamos muito mais conscientes de todo o espaço em volta. Mesmo que, à medida que os anos passem, a memória nos pregue partidas, naquele momento, esse estado de alerta é real e faz com que o tempo nos pareça infinito — isto porque estamos com mais atenção àquilo que acontece numa fracção de segundos.

Em palavras mais simples, estamos mesmo absorvidos no momento e isso dá a impressão de que o tempo passa mais devagar para podermos apreender tudo. Daí, quando estamos em dor, termos a noção de que esta se perpetua sem chegar ao seu fim e, como os estímulos se aguçam mais durante a noite, aí está a razão pela qual dormir num hospital custa tanto. Mas isso, embora seja verdade, é só uma pequena parte da equação, e é aqui que tudo se torna mais complexo. O que acontece, quase que de forma misteriosa e em contra-mão, é que, quando chegamos ao fim do dia, numa percepção mais alargada e geral do tempo, tudo parece que passou rápido de mais. Ao olhar para o relógio ou para o monitor do telemóvel, para seguirmos e sabermos que horas são e quantos minutos faltam para o comprimido seguinte, quase que nos esquecemos do quanto se pode fazer numa tarde ou numa manhã. Quase que o doente se sente um Sísifo, ao mesmo tempo que vê tudo a avançar e o corpo sem conseguir acompanhar o avanço dos minutos. É o sentimento da vida a escapar, vida essa que passa a correr.

Em linhas muito gerais, a teoria da relatividade também visa que o tempo passa mais devagar para quem anda mais depressa, e mais depressa para quem anda mais devagar. Curioso que esta percepção, o contrário do que geralmente se percepciona, vai ao encontro de uma breve passagem do livro ‘Montanha Mágica’, de Thomas Mann, que, por retratar a doença e a estadia prolongada do jovem Hans Castorp num sanatório, aborda, como muitos poucos livros, a questão do tempo,

Com respeito à natureza do tédio encontram-se frequentemente conceitos erróneos. Crê-se em geral que a novidade e o carácter interessante do seu conteúdo fazem passar o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e o vazio estorvam e retardam o seu curso. Mas não é absolutamente exacto. O vazio e monotonia alargam por vezes o instante ou a hora e tornam-nos aborrecidos; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada. Um conteúdo interessante é, pelo contrário, capaz de abreviar uma hora ou até mesmo o dia mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de tal maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, que são varridos pelo vento e voam.”

A alteração da percepção do tempo, a ansiedade e a estimulação sensitiva ou sensorial em excesso são, de facto, consequências dos efeitos psicológicas num internamento, quanto mais num internamento prolongado. Torna-nos, admito, mais rabugentos, mais difíceis, mais complicados e se, por momentos, conseguimos ter o filtro necessário para nos comportarmos, noutros já é a revolta e a ansiedade inconsciente a falar por nós. Isso tanto pode ser a resposta ao lado sensorial que está mais activo e nos descontrola ou, então, a inconformidade do que nos está a acontecer. Se o aleatório, por si só, pode ser bom porque nos livra de um tipo de determinismo, por outro lado assusta, porque significa que há, igualmente, algo que está sempre a escapar ao nosso controlo.

Os problemas de saúde acontecem independentemente da idade, condição social ou habilitações literárias. Claro que, se conseguirmos manter, ao longo da nossa vida, comportamentos de saúde adequados e tivermos acesso a condições básicas às quais todos nós deveríamos ter acesso, esses factores são primordiais e podem fazer a diferença. Há sempre, no entanto, o lado imprevisível que escapa ao controlo do nosso comportamento e da actuação dos médicos. As negligências são reais, é verdade, a medicina deveria ser mais humana — é verdade e nunca é demais lembrar isso. Há, no entanto, um meio termo que é extremamente difícil de compreender — quando a doença nos toma e há a falha dos tratamentos, mas, mesmo assim, não podemos compreender a razão e não podemos apontar o dedo a ninguém. Lá está, não podemos dar sentido ao que nos está a acontecer. Claro que, numa conversa casual entre amigos, isto pode ser fácil de entender, mas não quando passamos por uma situação idêntica. É por esta razão que o carácter aleatório das coisas pode assustar e pode chegar a ser cruel — não é tão fácil lidar-se com ele quanto parece e, por vezes, é por isso que vemos nas notícias, como aconteceu no início deste ano, tantos casos de incompreensão, tanto de médicos para doentes, como de doentes para com médicos. Negligências ou falhas da medicina à parte, ambos lidam, constantemente, com a fragilidade humana, algo que nunca é 100% controlável.

No que diz respeito à forma como os profissionais de saúde — auxiliares, enfermeiros e médicos, já eles muitas vezes esgotados por falta de recursos humanos que estejam bem distribuídos no nosso SNS — lidam com o paciente em dificuldade psicológica, notei que ainda há muitas lacunas que precisam de ser preenchidas. Não quer dizer que haja má intenção deliberada, mas muitas vezes nota-se uma falta de preparação. Quando um problema mais acentuado que escape à normalidade acontece, assiste-se a uma cena deveras penosa — é o profissional de saúde a tentar chamar o paciente à razão ou a tentar, por vezes, chegar à comunicação com ele, e o paciente, em vez de se acalmar, exalta-se muito mais.

Lembro-me de, no meu primeiro internamento, assistir à forma como os enfermeiros tentavam lidar com um paciente idoso que não tinha noção do espaço em que estava e queria, a toda a força, levantar-se da cama. Não era uma situação fácil, mas actuavam conforme o  improviso do momento, dizendo sempre a mesma coisa: “não se levante, não se levante!” Claro que tal era inútil porque a pessoa em questão estava numa realidade à parte, não na realidade que os profissionais de saúde eram capazes de apreender. Como resultado, o idoso levou uma injecção que o pôs a dormir instantaneamente para não se colocar em risco. Mas não foi a única situação que observei. Vi como pacientes choravam incessantemente porque estavam internadas há mais um mês e a saturação já se tornava bastante visível, ou porque descobriam, por exemplo, que tinham de tomar injecções de insulina para toda a vida e nem as palavras da médica, que tentava por bem acalmar, serviam de consolo nesse instante.

Os efeitos psicológicos dos internamentos hospitalares prolongados será o tema em análise nas próximas duas entrevistas desta rubrica. Como é um assunto com várias cambiantes a ter em conta, iremos abordar, com uma especialista, o caso concreto dos internamentos em crianças e adolescentes, para a semana, e, a seguir, iremos abordar os casos dos internamentos nos adultos, com outro especialista. Vamos querer saber, em específico, quais as consequências psicológicas de um internamento consoante as várias idades, quais as respostas que existem e se estão acessíveis para todos; como é que essas consequências psicológicas se podem prolongar após o internamento e como devemos actuar nessas situações. Se quiseres, podes contribuir com uma pergunta e a Comunidade Cultura e Arte poderá seleccioná-la para constar nas entrevistas das próximas duas semanas. Se o tema te interessa, fica atento.

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