A cavalgada musical e artística de Richard Wagner

por Lucas Brandão,    27 Setembro, 2018
A cavalgada musical e artística de Richard Wagner
Richard Wagner / Fotografia de AP Photo/Trinquart
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Entre os grandes compositores musicais da história, está o nome de Richard Wagner. Alemão nascido e falecido no século XIX, foi mais do que um músico. Dirigiu, encenou e até escreveu, para lá de óperas, ensaios e autênticas referências para o mundo da arte, em busca do gesamtkunstwerk (a obra de arte total, conjugando música, teatro, dança, artes plásticas e canto, numa homenagem às tragédias gregas). Entre os seus leitmotivses (temas usados repetidamente no surgimento de um assunto ou de uma personagem numa passagem de uma ópera), Wagner redigiu tudo de raiz, introduzindo uma diversidade de novos conceitos musicais e convergindo um conjunto de interesses, sobre os quais deteve uma ampla influência. Num final de vida decadente, foi catapultado para uma reputação inequívoca após a sua morte, constantemente badalada e saudada para lá dos tempos em que viveu.

Nasceu em Leipzig, faleceu em Veneza. Duas cidades emblemáticas da Europa que ligaram a cronologia deste célebre compositor, que muito teve de complexo como de capaz. Mesmo vivendo parte da sua vida em fuga, mostrou-se desenvolto em toda a sua criação musical, para além de orquestrar como poucos. Dessa herança orquestral, foi o responsável pela fundação da trompa wagneriana, um instrumento de sopro composto por metal, numa mistura de trompa com tuba, usado futuramente por outros compositores musicais. Essa criação adveio no ciclo de óperas épicas “Der Ring des Nibelungen”, uma adaptação da mitologia nórdica e do poema épico medieval “A Canção dos Nibelungos”. As proporções da orquestra que preparou e que quis apresentar levaram-no a pensar em outros órgãos musicais, capazes de corresponder à sinfonia desenvolvida. Também o surgimento de um tenor imponente e resiliente, que representou as personagens míticas de Tristão, Tannhäuser e Siegfried, chega aqui com especial relevância, sendo este o heldentenor.

As óperas foram grandiosas, assim como os poemas que deram origem aos seus libretos. A encenação contou com a colaboração de algumas das principais figuras de então, como o rei Luís II da Baviera e a Bayreuth Festspielhaus, a casa de óperas usada para a apresentação das peças por parte de Wagner. Era neste lugar que se debruçava com os aspetos mais minuciosos da própria apresentação, método que o acompanhou para todo o percurso criativo. Da criação do enredo até à sua chegada à música, os detalhes apresentados e visionados pelo compositor eram, alguns deles, criados à data (“Das Rheingold” é apresentado num ato de duas horas e quarenta, com a ação a passar-se nas profundezas do rio Reno e com a presença das donzelas do Reno, dos gigantes e de demais criaturas, tendo, para isso, Wagner criado máquinas para a apresentação do cenário).  Para além disso, a ausência da orquestra e do regente do olhar do público em cada apresentação não é por acaso, com a intenção das atenções se dirigirem para o que se sucede em palco.

A perceção destas obras se tratarem de obras de arte totais (gesamtkunstwerk) é detetada nesse seguimento escrupuloso do compositor das várias etapas da peça musical. Em cruzamento com esta noção, as formas e as linguagens foram-se transformando, assim como a própria associação de personagens ou de ideias a um tema musical, que leva ao célebre conceito de leitmotiv. São motivos que levam Wagner a ser um dos vultos mais consagrados e considerados no que toca ao século XIX e no desenvolvimento de uma identidade alemã unida e reunida.

As peças

Do extenso repertório de Wagner, notabilizam-se as óperas, que começaram a ser compostas na precoce idade de 19 anos. As personagens que protagonizaram a peça inacabada de “Die Hochzeit” chegam aos três atos de “Die Feen” (1834), protagonizada pelas três fadas e pelo seu rei, num enredo de cariz metafísico e mágico. O pendor cómico também é contemplado em “Das Liebesverbot” (1836), inspirando-se no teatro de William Shakespeare; já “Rienzi” (1840) conduz a ação para uma ópera heroica que se sucede em Itália, inspirando-se na literatura britânica. Todos estes contributos não trouxeram, porém, o rasgo inovador que Wagner viria a importar para a composição musical.

Esse começa a ser saboreado com a chegada de “Der Fielgende Holländer” (1841), num conflito entre o mar que banha a Noruega e as fragilidades humanas dos seus navegadores. “Tannhäuser” (1845), na forma da sua estrutura tripartida, aborda a redenção que o amor permite saborear, por entre o sacrifício feminino na vulnerabilidade masculina, num concurso de canto. Com os três atos da ópera romântica “Lohengrin” (1848), a literatura medieval germânica é vasculhada, em especial a história de Parsival, cujo filho Lohengrin, à imagem do seu pai, é um dos cavaleiros da Távora Redonda, sendo conduzido pelos cisnes em busca da sua amada. Este é o mote para o período da grandiosidade musical apontada a Wagner, que traz “Tristan und Isolde” (1859), inspirando-se na lenda medieval de um casal destinado a um fim trágico. O uso das cores musicais e das tonalidades procura acentuar uma tensão inerente ao enredo, à boa maneira daquilo que se associa à mitologia germânica.

O lado cómico do alemão regressa em “Die Meistersinger von Nürnberg” (1867), retornando à mitologia na já mencionada tetralogia “Der Ring des Nibelungen”. Nesta, incluem-se “Das Rheingold” (1854), “Die Walküre” (1856, onde está a célebre “Cavalgada das Valquírias”, e focando-se na atribulada saga dos Volsungos), “Siegfried” (1871, onde Siegfried é, à imagem da ópera anterior, alvo de protagonismo, assim como Brünnhilde) e “Götterdammerung” (1874, inspirada na guerra profetizada pelos deuses e que resulta na destruição do mundo, num cenário apocalíptico que é alegorizado nas já permanentes presenças de Siegfried e de Brünnhilde). A última grande ópera escrita é “Parsifal” (1882), concluída vinte e cinco anos depois de ser iniciada, contando a busca do protagonista pelo Santo Graal, nas colinas espanholas do Monte Salvat. Toda a reverência pela Idade Média e pela mitologia germânica é uma permanente nas diversas composições de Wagner, que se redescobre constantemente no drama musical que vai alimentando, para além de procurar repartir o protagonismo entre as vozes singulares dos cantores e o esforço colaborativo das orquestras.

Foram precisamente as orquestras que foi alimentando enquanto trabalhou como regente em diversas cidades da Europa Central, entre a França e a Itália, incluindo peças inspiradas em outros compositores, como Ludwig van Beethoven. Esta itinerância devia-se a dívidas que ia contraindo e que não conseguia liquidar, tendo sido, futuramente, pagadas pelo rei Luís II da Baviera, que patrocinou a música do alemão. O reconhecimento que vinha granjeado inspirou várias marchas nacionalistas, como a que celebrou o centenário da independência dos Estados Unidos da América, completada em 1876.

A escrita e a influência

Para além de compositor, Wagner redigia as suas peças, desde o enredo até às relações entre as personagens. No entanto, o compositor pensava para lá da música, englobando todo o mundo e a sua diversidade de temas na sua escrita. Assim, escreveu poesia e ensaios políticos e filosóficos, para além de chegar, aos dias de hoje, correspondência que foi estabelecendo com alguns dos pensadores mais notáveis do século XIX, como Friedrich Nietzsche. Entre os ensaios que redigiu, abordou o trabalho artístico futuro, para além de discutir o papel da arte numa revolução e de criticar o papel influente dos judeus na cultura alemã. Discutiu também a ópera, desde a sua teoria até à relação que estabelece com o teatro, para além daquilo que era a regência de uma orquestra, que entendia que se tratava de uma reinterpretação do trabalho musical em questão. Legou, de igual forma, a sua autobiografia, intitulada “Mein Leben” (1880).

Se tivéssemos uma verdadeira vida não teríamos necessidade de arte. A arte começa precisamente onde cessa a vida real, onde não há mais nada à nossa frente. Será que a arte não é mais do que uma confissão da nossa impotência?

A sua influência percorreu, desta feita, pelas diferentes gerações de compositores que conheceriam o século XX. Entre os nomes de Arnold Schoenberg, Claude Debussy, Hugo Wolf e Jules Massenet, juntam-se os maestros Herbert von Karajan e Hans von Bulow. Uma influência que culminou na utilização de uma apresentação mais personalizada, sem recorrer ao uso da luz nas cenas mais dramáticas, potenciando o seu silêncio visual. O conceito do leitmotiv, no cruzamento do percurso das personagens e das situações com as peças musicais, influenciou John Williams, compositor de bandas sonoras como a da saga “Star Wars”. A herança alcançou a literatura, em especial a filosofia de Nietzsche, fiel correspondente de Wagner, culminando na obra “O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música” (1872). Aqui, enunciou a música do compositor como o elemento de renascimento das sensações da intuição (Apolo) e da intoxicação (Dionísio). Também o alemão Thomas Mann e o francês Marcel Proust foram mencionando o compositor no seu percurso literário. No cinema, também várias das músicas do compositor ilustraram o rol de sensações estimuladas, como em “Apocalypse Now” (1979), de Francis Ford Coppola, no recurso à “Cavalgada das Valquírias”.

Richard Wagner marcou um passo diferente na composição musical, acentuando o dramatismo naquilo que se fazia ouvir nas grandes Óperas europeias. O uso da mitologia serviu para consolidar esse registo inovador, catapultado por diversas inovações técnicas, que serviram para construir um discurso mais sólido e identitário. O alemão surge, assim, como um teórico da prática e como um prático da teoria musical, ressoando pelo preciso dramatismo de quem conheceu e dominou a tragédia. Da arte para o mundo, Richard Wagner fez do trama real no seu sentido de drama.

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