A excelência do funky soul de Tim Maia

por Ana Isabel Fernandes,    18 Maio, 2020
A excelência do funky soul de Tim Maia
Tim Maia / Ilustração de Marta Nunes – CCA (@martanunesilustra)
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De voz reverberante e bem encorpada, o estilo de Tim Maia é inconfundível. No entanto, embora o timbre da sua voz seja mais do que único, para a história, ficaram as batidas incríveis das suas músicas — batidas essas das quais era bastante cioso no seu cumprimento — e, acima de tudo, os seus arranjos perfeitos. Tinha a consciência máxima e precisa do que queria para a sua música e como explorar os instrumentos para esse efeito. Na altura em que a ‘Jovem Guarda’ — correspondente no Brasil ao movimento Ié Ié — explodia, foi responsável pela introdução do puro funk, do estilo soul e por aquilo que tão bem caracteriza o som ‘Motown’ na música popular brasileira. Tim Maia é groovy, é funky, é a irreverência com grandes doses de ironia, rebeldia e inteligência, mas o que sabemos ao certo é que é impossível não abanarmos o corpo quando a sua batida começa e não sentirmos uma energia que, independentemente de tudo, nos faz sentir apenas bem enquanto mexemos os ombros e tentamos dançar. Porque os Mestres nunca morrem, importa recordar mais uma vez o génio de Tim Maia. 

“Get up, get on up”, Sebastião Rodrigues Maia

Segundo o que o próprio dizia em entrevistas, os seus pais —  muito pobres mas honrados — personificavam o romantismo. Tanto assim era que mesmo após a morte do seu pai, em 1959, quando Sebastião Maia tinha 16 anos, a sua mãe permaneceu sempre apaixonada por ele. Nascido em 1942, no bairro da Tijuca, Rua Afonso Pena, no Rio de Janeiro, os tempos não eram fáceis. Foi o 18º filho, mas permaneceu como o ‘caçula’ [o mais novo], uma vez que a irmã que nasceu posteriormente perdeu a vida ainda bebé. O trabalho era a palavra de ordem e assim começou na labuta ao distribuir marmitas, refeições porta-a-porta — o negócio da família — ainda criança. Mais tarde, todos os seus irmãos e irmãs conseguiriam formar-se ou manter uma vida estável. Segundo o que o seu filho, Leo Maia, explica na comunicação social, “o que mais deu para maluquinho foi o meu pai e virou um génio da música popular brasileira.” 

Os anos 50 estavam à porta e trariam na bagagem o Rock & Roll aliado ao soul e ao Rhythm & Blues (R&B), que, ao longo dos anos, foi tendo mais variações. Contudo, essencialmente o que marca o seu estilo são os seus tempos e ritmos bem demarcados e constantes. Little Richard, então, personificava o expoente máximo dessa altura e de todas essas sonoridades. Por isso mesmo, é tido como uma das primeiríssimas grandes influências de Tim Maia. Tanto assim era que nos ‘Sputniks’, banda que formou em 1957, e na qual tinha Roberto Carlos como parceiro, tocava grandes temas como ‘Long Tall Sally’. Com essa mesma banda, ainda haveria de conseguir actuar na TV Tupi. 

Pouquíssimo tempo depois, dos 17 aos 22 anos, trocaria o país da Bossa-Nova de João Gilberto e Jobim pelos Estados Unidos da América. Entraria, então, em contacto directo e em primeiríssima mão com a música negro-urbana americana e com o período inicial do tal som característico da Motown, pautado por uma fusão característica entre o soul e o R&B. Esses anos foram primordiais para Tim fomentar a sua identidade musical mas, também, para sedimentar a sua rebeldia e a fama de desobediente. Como Nelson Motta, jornalista, compositor e produtor de Elis Regina, explicaria, foi onde aprendeu todos os seus vícios. Por essa mesma razão,  seria deportado das terras norte-americanas e regressaria ao Brasil com 22 anos. Nesse período, mesmo assim, frequentaria alguns workshops da Universidade de Nova Iorque como, por exemplo, televisão. 

Quando regressou, em 1965, deparou-se com uma outra realidade artística no Brasil, “a jovem guarda”, movimento do qual resultariam Roberto Carlos —  que Tim já conhecia —  e Erasmo Esteves, proveniente do mesmo bairro do pai da soul e funk no Brasil, o Bairro da Tijuca. Essencialmente, esta ‘jovem guarda’, no seu início, era pautada pelo Rock & Roll e o Rockabilly influenciado por Elvis Presley, Chuck Berry e Little Richard. Mas, para entendermos melhor este movimento musical que actuou, sobretudo, como tendência cultural jovem, há que fazer um contexto prévio. 

Em 1963, a ‘Beatlemania’ começaria com a canção ‘She Loves You’, muito por causa do seu refrão icónico e orelhudo, “she loves you, yeah, yeah, yeah”. Aqui está, portanto, o exemplo de uma canção rock bastante simples, com uma estrutura nada complexa, despreocupada, feliz e leve, tal como é a juventude. Por causa desse refrão que ficou no ouvido de quase toda a população mundial, começaria o movimento yeah, yeah, yeah [denominação internacional]  —  numa clara referência ao refrão da canção —  também ele um movimento leve, despreocupado e feliz mas variado, que poderia ir do rock&roll até com uma ambiência mais surf, até ao pop adocicado e inocente. 

Em França, por exemplo, um dos seus expoentes foi Françoise Hardy; já em Portugal, o movimento começaria com o conjunto ‘Os Conchas’ e Daniel Bacelar. No nosso país, a ligação ao rock estaria mais vincada, na altura, pelos então denominados ‘conjuntos’, não bandas, liderados por adolescentes ou jovens numa fase prévia da ida à tropa. Por se tratar de um movimento juvenil, despreocupado e não contestatário (embora falemos aqui de rock), o Estado Novo incentivou numa fase inicial o movimento com concursos — assim os jovens estariam afastados da política. Acabaria, no entanto, com ele, por causa da tropa obrigatória e a convocatória dos jovens para a Guerra Colonial.  Quem quiser saber mais acerca do caso específico do Ié, Ié [denominação nacional] em Portugal, pode adquirir o livro do jornalista Luís Pinheiro Almeida, ‘Biografia do Ié Ié’. No entanto, e antes de se avançar, o que há a reter é que a denominada ‘Jovem Guarda’ seria, então, a variante brasileira do movimento Yeah, Yeah internacional.

Se escutarmos, por exemplo, músicas como ‘O Calhambeque’, de 1966, de Roberto Carlos, ou ‘Quero que vá tudo para o Inferno’, de 1965, do álbum justamente chamado ‘Jovem Guarda’, veremos que se adequam muito bem a esta descrição. Rock despreocupado e livre, pautado por, também, órgãos ou sintetizadores. O Brasil vivia, igualmente, numa então ditadura e o rock contestatário não tinha grande margem para prosperar. Sabemos que os grandes artistas dessa década e da década posterior, que tentaram fazer da sua música um protesto, partiram para o exílio. Portanto, dentro dos limites do território brasileiro, esta seria uma via plausível. 

Quando Tim Maia finalmente chegou ao seu país e tentou erguer-se, porque estava num período em que teria de recomeçar tudo de novo, já tinha na sua bagagem referências como James Brown, Marvin Gaye, que, por exemplo, tinha já iniciado a sua carreira com álbuns seus, e Barry White (o seu artista preferido), que se iniciaria nas gravações a título próprio no início dos anos 70. Tinha já incorporado o som da Motown e, portanto, adaptou essa sonoridade soul, funky e na senda do R&B, o seu groove aos elementos da MPB. Foi exactamente neste contexto em que, algum tempo depois, Nelson Motta, na altura produtor de Elis Regina, mostraria à ‘Pimentinha’, então à procura de uma nova sonoridade, alguns temas da Tim Maia, entre os quais ‘These are the songs’. Elis adorou logo a canção, tanto que a gravou com o próprio Tim Maia e a incorporou no seu próximo álbum. Após o sucesso do tema, seriam feitas pressões para se apressar a gravação do primeiro álbum de Tim, justamente, Tim Maia, de 1970, pela Polydor, com os sucessos ‘Primavera’ e ‘Azul da cor do mar’. A partir desse momento, já não haveria retorno possível, o impulso estava dado e o sucesso mais do que garantido. 

Nessa ocasião, já demonstrava uma grande aptidão para guiar todos os processos do que queria para a sua música. É necessário destacar que, além de um sentido de tempo e de ritmo invejáveis, Tim Maia também tinha um enorme talento para arranjos e a noção da execução de vários instrumentos — daí guiava ou tinha sempre algo a dizer em quase todos os processos da gravação dos seus álbuns. Se alguém fizesse a batida [levada] da música de forma diferente do que ele tinha estipulado, não havia forma de disfarçar porque o seu ouvido logo dava conta.

Apesar da sua fama de rebelde e de indisciplinado, essa indisciplina não tinha lugar na música, para a qual tinha um foco e uma atenção extrema. A influência de James Brown era bastante notória na batida do seu funk, no seu groove. Será normal ou compreensível tentar fazer-se uma comparação à voz extremamente grave de Barry White, especialmente nos seus últimos trabalhos. Aliás, até porque a sua admiração por Barry era conhecida, uma vez que o tinha, como referido, por artista preferido. A sua voz extremamente bem encorpada e de timbre sonante, no entanto, entoava uma harmonia muito melodiosa enquanto cantava, principalmente numa fase mais jovem. Em muitos temas, além de vibratos característicos, nota-se uma muito maior extensão vocal, com muita capacidade aguda, até para fazer falsetes. A fase mais grave que paira na ideia geral dos seus fãs assumiria uma fase marcante, sem dúvida, nos trabalhos mais tardios, mas o melodioso da voz não deixa de marcar presença. 

Um exemplo da sua excelência enquanto músico também se vê como consegue sustentar com o ritmo, a batida e outros arranjos, um tema que, na sua estrutura base, toca-se só com um acorde, neste caso o dó, como o faz com ‘Sossego’, do álbum ‘Tim Maia Disco Club, de 1978. Independentemente da simplicidade da estrutura, esse tema, com a tal ‘levada’ criada e o restante preenchimento, consegue ser a expressão máxima do funk. Como Tim diria, “aí é que está o barato”.

https://www.youtube.com/watch?v=ZD8LutCHI80

A fase racional: O “Universo em Desencanto”

Depois do primeiro álbum e de sucesso após sucesso responsáveis por moldar a soul brasileira, em meados dos anos 70 viria, assim, a tão mística fase racional pautada por três volumes gravados entre 1975 e 1976 ‘Tim Maia Racional, Vol.1’, ‘Tim Maia Racional, Vol.2’, e ‘Tim Maia Racional, Vol.3’. O volume 3 deste período foi gravado em 1976 mas não seria lançado. O álbum permaneceu inédito até 2011, ano em que, finalmente, foi dado a conhecer aos fãs. O curioso é que, na época, a imprensa desvalorizou e não deu a cobertura devida a esta fase de Tim Maia em termos musicais. Foi deste período, no entanto,  que resultariam temas épicos como ‘Que Beleza’, ‘Bom Senso’, ‘Rational Culture’, ‘Paz Interior’ e o ‘Caminho do Bem.’

A questão pela qual não houve interesse pelas rádios, imprensa e até pelas editoras (o Vol.1 e Vol.2 foram lançados por Tim Maia de forma independente) prende-se com a influência esotérica e mística da seita Racional que Tim Maia seguia e que tinha, como base, o livro ‘Universo em Desencanto’. Este projecto foi encarado publicamente como uma espécie de pregação moralista de Maia. Em termos muitíssimo gerais, a seita defendia que os extraterrestres andam entre nós e que o ser humano tem de passar por um período de imunização racional que implica largar todos os vícios. Tim Maia assim o fez, cortou o cabelo, largou a bebida e as drogas e foi o período em que se manteve mais sóbrio.

Mais tarde, no entanto, o artista largaria a seita e, por isso mesmo, o Vol.3 não seria lançado por ele e outros dois volumes seriam retirados de circulação do mercado. Por essa mesma razão, por ter sido o período, em termos musicais, mais desconhecido por parte dos fãs, transformou-se, também, no mais cobiçado. Recentemente, além do lançamento do Vol.3, os dois primeiros volumes foram disponibilizados para quem os quisesse ouvir, nas plataformas digitais.

Em linhas básicas, mesmo que algumas música já existissem antes de Tim Maia aderir à seita, como ‘Que Beleza’, foram adaptada a nível da letra para fazerem uma ponte com os ensinamentos racionais. As letras tinham um carácter esotérico, místico, e tinham o objectivo de levarem o indivíduo a seguir o tal ‘Caminho do Bem’ como diz a canção. Já em termos musicais, foi a época em que Tim atingiu a maturidade musical e experimentou ser mais versátil na linha dos arranjos. A forma como o músico utilizou o soul e o funk no Brasil de então, neste período, foi considerando muito moderno. Mais uma vez, em ‘Que Beleza’, quase que adivinhamos, numa mescla soul o uso do reggae.

O período racional, no entanto, acabaria e Tim Maia irá referir-se a ele como uma necessidade mística que acalentava na altura, até porque tinha e sentia a necessidade de largar alguns dos seus vícios. Mais tarde, segundo o próprio, o ser humano, por volta dos 30 ou perto dessa idade, tem a tendência ou a necessidade de atravessar essa tal fase mais transcendente e chegaria a afirmar que qualquer experiência religiosa que mirre e que constrinja o ser humano é prejudicial, ao inverso do extravasamento, “dançar, pular, cantar”.

 Tim Maia nos anos 90 e as versões de vários clássicos

Versátil enquanto músico e cantor, isso também se reflectiu nas versões que fez de clássicos, principalmente nos anos 90. Além do seu disco sound, tão bem expresso no álbum ‘disco club’, mesmo assim não deixou de ser curioso pela bossa-nova, pelo tropicalismo e por todas as manifestações musicais brasileiras. Exemplo disso mesmo é o álbum ‘Tim Maia interpreta clássicos da Bossa Nova’, de 1990, que contém temas como ‘A rã’, de Caetano Veloso mas gravado pela primeira vez por Gal Costa em 1974; ou o grande clássico ‘Garota de Ipanema’, de Jobim e Vinicius. 

Mas não foi, no entanto, o único caso. Dessa época, são várias as composições que constam nos seus álbuns de então, de Tom Jobim e Vinicius, por exemplo, e Djavan, entre outros. São exemplos disso os álbuns ‘Tim Maia & Os Cariocas: Amigos do Rei’; ‘Pro Meu Grande Amor’, com temas de Chico Buarque, por exemplo; ou ‘Só Você (Para Ouvir e Dançar)’. Dessa época é também o disco ‘What a Wonderful World’, que contém clássicos da década de 1950 a 1970 que o influenciaram, partido de artistas como Leon Carr e Earl Shuman a Claude Johnson, Curtis Williams e Charles Cooke. Só para se fazer um contexto, a produção, nesta década, foi tal, que chegou a lançar mais do que um álbum por ano. A discografia de Tim Maia é, assim, extremamente longa, contrastando com a sua curta vida. Ao todo, são 29 álbuns de estúdio, em nome próprio, já sem contar com álbuns ao vivo, EPs, tributos ou compilações.

Das suas versões que fizeram história, de certo não poderemos deixar de mencionar ‘Sozinho’, de Peninha. Caetano Veloso já tinha ouvido na rádio a versão de Sandra de Sá, mas quando soube que Tim Maia tinha também uma versão, foi quando se resolveu a fazer a sua também — o sucesso foi tremendo e, mesmo actualmente, o tema é indissociável de Caetano.

Há um filme da Rede Globo acerca da sua vida, sendo este “Tim Maia” (2014), realizado por Mauro Lima, apesar das questões de nível contencioso e da relação de afastamento que o órgão de comunicação manteve com Tim enquanto este era vivo. O resultado do filme não agradou à família do artista, uma vez que se centrava no lado mais selvagem da sua vida, apresentando-o como muito arrogante e extremamente desagradável. Léo Maia, seu filho, alerta também para a questão de o filme estar errado em muitas coisas acerca da carreira de Tim. Léo Maia, aliás, que apesar de confessar que o pai não era um santo, ajuda a divulgar o lado mais humano de Sebastião Maia, diferente do Tim Maia construído publicamente. Lembra-o como alguém que lhe ensinou o lado humilde da vida e a importância e a honra do trabalho. Até porque Tim Maia provinha de origens muito humildes.

De facto, Tim Maia fez-se a si mesmo. Quando assim é erra-se, acerta-se, cai-se e volta-se a levantar na procura de um lugar ao sol, mas com amor, seja qual for a perspectiva que se tenha desta palavra. Não se pode negar que o artista responsável pela introdução do Soul e do Funk no Brasil não tenha tentado tudo isso. Infelizmente o pai do Soul e do Funk no Brasil morreu prematuramente, em 1998, aos 55 anos. As música, essas, ficaram.

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