“À Porta da Eternidade”, de Julian Schnabel: na mente de Van Gogh

por Comunidade Cultura e Arte,    3 Fevereiro, 2019
“À Porta da Eternidade”, de Julian Schnabel: na mente de Van Gogh
Willem Dafoe como Vincent Van Gogh
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Todos nós conhecemos a obra de Vincent Van Gogh, mas quem era realmente este homem? Porque é que ele pintava desta forma tão característica? O que se passava na sua mente? Como é que ele via o mundo? É sobre estas questões que Julian Schnabel reflete neste autêntico poema audiovisual sobre a vida de um dos pintores mais reconhecidos da nossa atualidade. Com uma sensibilidade e intimidade intensa, somos envolvidos uma figura e um mundo de cores fortes e transportados para dentro da mente que nunca foi reconhecida durante a sua vida, e é-nos também oferecida uma luz diferente sobre a sua história.

Willem Dafoe como Vincent Van Gogh

Willem Dafoe interpreta Van Gogh com imensa mestria, incorporando todos os seus aspetos, no que é, seguramente, um dos seus melhores papéis. Observamo-lo em vários momentos: quando passeia pela Natureza, envolto na beleza do mundo natural, e quando está em diálogo e contacto com a humanidade, que não o compreende. Todos estes momentos possuem uma cinematografia deslumbrante, em que cada plano, cada cor, cada movimento de câmara, possui um tremendo poder emocional. À Porta da Eternidade é filmado de uma forma extremamente íntima, quebrando qualquer barreira de distanciamento entre o público e o filme, fazendo com que o espectador saia da sua zona de conforto. Isto é acentuado com close-ups extremos das caras dos atores, com o olhar fixo na câmara, havendo uma certa quebra da “quarta parede”. No entanto, invés de repelir, o que esta intimidade faz é absorver o espectador no filme, tornando-o numa parte do mesmo. É como se o que estamos a ver fosse retirado diretamente das memórias de Van Gogh.

Outro grande detalhe do filme é o facto de estar sempre presente ao longo do filme uma ideia de instabilidade mental, cada vez mais agravada, refletindo o estado psicológico de Van Gogh. Através do uso de cores garridas, que também imitam o seu estilo, vemos o mundo muito próximo de como ele o pintou. Isto ainda é mais acentuado através de um uso instável da câmara e o uso de planos desfocados. Através destas técnicas, Julian Schnabel consegue com uma mestria transportar-nos para dentro da mente do seu protagonista e, deste modo, fazer com que tenhamos uma nova visão da sua vida e obra. Para além disso, somos envolvidos por uma banda sonora belíssima, composta por Tatiana Lisovkaia, que retrata musicalmente o ambiente emocional dentro de Van Gogh.

Willem Dafoe como Vincent Van Gogh / Fotografia de Lily Gavin

Estes dois componentes, o visual e o musical, fazem com que este filme seja um perfeito poema audiovisual de celebração da vida de um génio artístico inigualável. Através da sua forma não convencional, À Porta da Eternidade é uma análise poética de uma vida com diálogos que nos fazem refletir sobre o legado deste grande artista. Um dos pontos fortes deste filme é também a forma como nos incentiva a pensar a figura de Van Gogh, não dando julgamentos ou ideias já feitas ao espectador, respeitando a sua autonomia.

À Porta da Eternidade é uma belíssima celebração de um artista que nasceu fora do seu tempo e que pintou para pessoas que ainda não tinham nascido. É uma jornada reflexiva sobre a arte, a natureza, o legado, a vida e a morte, em que Julian Schnabel e Willem Dafoe capturam na perfeição a essência deste grande artista que foi Vincent Van Gogh.

Artigo escrito por Jasmim Bettencourt
Nascido em 1998 e natural de Sintra, Jasmim Bettencourt está atualmente a fazer a Licenciatura em Estudos Gerais na FLUL e tem ambições de se tornar cineasta e dedicar a sua vida à sétima arte, que é a sua grande paixão.

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