A veia criadora e declamadora de Ary dos Santos

por Lucas Brandão,    26 Março, 2020
A veia criadora e declamadora de Ary dos Santos
Ary dos Santos
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José Carlos Ary dos Santos fez história em Portugal. Deu a voz a muita poesia portuguesa mas, e acima de tudo, compôs imensas canções que fizeram do fado ser quem é atualmente. Acima de tudo, um género musical identitário, com um repertório relativamente amplo e bem conseguido. Para este, contribuiu muito o génio criativo, que, para além de proporcionar quatro canções que representaram Portugal no Festival Eurovisão da Canção, deu o mote para o sucesso da carreira de fadistas consagrados atualmente, como Amália Rodrigues ou Carlos do Carmo. Esquecido por via da sua morte precoce, é portador de um legado que importa ser relembrado e bem louvado.

José Carlos Pereira Ary dos Santos nasceu em Lisboa, no dia 7 de dezembro de 1937. Seria nesta mesma cidade que viria a partir, aos 46 anos de idade, no dia 18 de janeiro de 1984. Nasceu numa família de raiz aristocrata, descendentes do Conde de Palmela e do Visconde de Manique, importantes figuras nobiliárquicas no século XIX. Começou a sua formação no Colégio Infante Sagres, mas o seu comportamento irrequieto e rebelde levá-lo-ia a ser expulso. Um breve período num colégio jesuíta a norte, em Santo Tirso, permitiu que regressasse a Lisboa, onde estou no Colégio São João de Brito. A morte da sua mãe e a relação distante com o pai – saiu de casa ainda adolescente – obrigou-o a procurar o seu sustento como escriturário no Casino Estoril e no ramo das vendas e da publicidade, onde usufruiu de algum sucesso criativo. Ainda chegaria a ingressar na Faculdade, em Direito e, algum tempo depois, em Letras, mas deixaria por terra os seus intentos académicos. Lançaria, porém, o seu primeiro livro em 1963, com pouco mais de vinte anos, com a coletânea de poesia “A Liturgia do Sangue”, assim como a peça “Tempo da Lenda das Amendoeiras” no ano seguinte. A poesia seria algo incentivado pela sua família desde cedo mas Ary não gostava do que escrevia, tanto que se chateou quando a sua família publicou “Asas” (1953) quando este tinha somente 14 anos. Seis anos depois, a sua vida conheceria um novo contributo ao seu caráter irascível quando se juntou à Comissão Democrática Eleitoral e ao Partido Comunista, com quem pôde usufruir de sessões de poesia que cativaram o seu gosto pela escrita e declamação.

A poesia e, a juntar a esta, a música seriam as vias pelas quais chegaria a um público cada vez mais amplo, ajudando a renovar o panorama da música portuguesa. Em muito contribuiu ter composto quatro canções bem-sucedidas para o Festival da Canção. “Desfolhada Portuguesa” (1969, interpretada por Simone de Oliveira), “Menina do Alto da Serra” (1971, na voz de Tonicha), “Tourada” (1973, cantada por Fernando Tordo), e “Portugal no Coração” (1977, dada a conhecer pela banda Os Amigos, que juntou nomes como Fernando Tordo, Paulo de Carvalho e Ana Bola) foram os quatro êxitos que compôs, com um tom ousado para então, que tocava em temas sensíveis e até tabu então. A estes, juntou-se uma relação de colaboração com Tordo que ascendeu a mais de 100 poemas para músicas. “Estrela da Tarde”, “Lisboa Menina e Moça” ou “Cavalo à Solta” são algumas das canções que viriam a advir dessa frutífera parceria, às quais se juntaram outras, como “Os Putos” ou “Quando um Homem Quiser”, aqui com a voz de Paulo de Carvalho.

Músicas como “Fado do Campo Grande”, “Um Homem na Cidade”, “Namorados de Lisboa” ou “Fado Varina” dariam um contributo forte para a consolidação do fado como género musical e fariam parte de uma compilação de outra voz bem conhecida, a do fadista Carlos do Carmo, num álbum de seu nome “Um Homem na Cidade” (1977, toda ela com composições de Ary dos Santos). A particularidade da sua composição passava por um registo leve mas cuidado, atento àquilo que seria, para si, a voz de um povo e o que este merecia. “Ary Por Si Próprio” (1970) e, já depois da queda do Estado Novo, “Poesia Política (1974) e “Ary por Ary” (1979) exemplificam essa voracidade. A sua criação fora da música também merecia alguma atenção por parte da televisão, como a representação de “Azul Existe” no Teatro Tivoli a ser transmitida na RTP. A notoriedade que conseguiu fez com que se movimentasse muito dentro do país, recitando poesia e envolvendo-se em eventos protagonizados com outros cantores de intervenção, como Zeca Afonso ou José Mário Branco.

Nesta fase, já havia chegado o 25 de abril, que marcou o fim do regime ditatorial e o início da democracia, que abriu portas à afirmação da esquerda, à qual Ary dos Santos procurou emprestar a sua voz e, por vezes, a sua presença em manifestações e até assaltos de forças mais radicais. Tinha sido visado pela Censura, nomeadamente com a publicação de livros de poesia como “Adereços, Endereços” (1965), “Insofrimento in Sofrimento” (1969) e “Fotos-grafias” (1971), revendo os ganhos de abril com “As Portas que Abril Ganhou” (1975).  Cada vez mais se foi tornando numa figura incontornável da cultura portuguesa enquanto foi redigindo mais centenas de poemas e gravando inúmeras declamações, tanto de prosa como de poesia, com nomes consagrados da música nacional, como José Mário Branco ou até António Victorino d’Almeida, e os intérpretes Amália Rodrigues (destaque para “Cantigas de Amigos, álbum de 1971 que também contou com a participação da autora Natália Correia) e Tony de Matos. Um dos destaques a solo desta senda discográfica foi a leitura de “O Sermão de Santo António aos Peixes”, do Padre António Vieira, uma das obras de referência do barroco português. Antes da sua morte se fazer chegar, prepararia uma antologia dos últimos quinze anos da sua carreira lírica com “As Palavras das Cantigas” (lançado postumamente em 1984) e não chegaria a concluir a sua autobiografia, mais romanceada que meramente fictícia, em “Estrada da Luz – Rua da Saudade”.

Seria vítima dos seus vícios, do tabaco e, especialmente, do álcool e de gim, tendo sido vítima de uma cirrose no início do ano de 1984. Foi uma perda inconsolável para a cidade de Lisboa e para Portugal, mas a capital do país sentiu-a como ninguém deste seu filho, que, mesmo sendo um choque para a falange mais conservadora do país – era homossexual -, granjeou um estatuto marcante para a cultura popular. Em Alfama, foi dado o seu nome a um largo e foi homenageada a sua residência de longa data, na Rua da Saudade – rua que iria dar nome ao seu retrato literário. As homenagens por parte de ex-colegas seus tornaram-se incontáveis, sendo vários os discos de homenagem ao seu trabalho e à sua pessoa, nomeadamente de Fernando Tordo ou de Carlos do Carmo. O “poeta do povo” chegaria à honra de grande-oficial da Ordem do Infante D. Henrique em 2004, no meio de todas essas considerações.

Ary dos Santos permanece, ainda hoje, como uma referência na composição musical em Portugal nos meados do século XX. Influenciou a música popular, desde as típicas baladas até ao fado, para além de se esforçar por aproximar a poesia do povo. O seu envolvimento político e social é disso exemplo, socorrendo-se dos seus dotes criativos para criar e entoar a poesia como música, com uma pujança que ressoava na voz estridente de Ary. A sua memória, por mais que esquecido seja o seu nome, permanece bem viva, ainda ao som dos atuais fadistas, mas também de outros artistas lusófonos, admiradores da sua veia lírica. Uma veia que criou e declamou com a força de poucos e com a virtude de ainda menos.

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