Adeus Quino, obrigado por me teres ensinado a liberdade!

por Ana Isabel Fernandes,    1 Outubro, 2020
Adeus Quino, obrigado por me teres ensinado a liberdade!
Quino
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Estava eu a entrar na maioridade e a começar uma nova etapa na minha vida, a faculdade – algo que coincidiu porque faço anos na última quinzena de Setembro – quando decidiram mudar-me o nome por completo, como se já não bastasse o facto de ter passado a viver, pela primeira vez, numa cidade diferente para poder estudar. Foi numa inocente e benigna brincadeira de praxe – não sou defensora da prática mas sim, às vezes até que pode acontecer uma ou outra brincadeira inofensiva – quando decidiram que a partir dali eu não iria responder mais pelo nome Ana, mas sim pelo nome ‘Mafalda’, porque eu fazia lembrar a pequena de seis anos criada por ‘Quino’. Eu pensei cá para os meus botões, “ok, está bem, desde que não me chateiem mais”. Mas bem enganada estava eu se achava que era apenas uma brincadeira do momento e que, depois, tudo passaria. A questão, é que passou a ser demasiado divertido para o autor da ideia chamar-me pelo nome ‘Mafalda’ e ouvir-me dizer, a cada vez,  ‘presente’. 

Escusado será dizer que no prazo de uma semana (ainda estávamos no início das aulas numa altura em que tudo era novo) só uma colega ou duas me continuavam a tratar por Ana, e assim o fenómeno deu-se. Os colegas começaram todos a tratar-me por Mafalda, a senhora do bar do pólo da faculdade pensava até que esse era o meu nome (ainda me lembro do choque que a dona Adriana apanhou quando descobriu que me chamava Ana), mas o mais caricato foi o facto de ter chegado, até, a confundir professores. Lembro-me de uma vez, numa aula de entrega de frequências, a professora de inglês ter-me confessado que tinha passado um bom tempo a percorrer a listagem dos alunos a ver se encontrava alguma ‘Mafalda’, e de ter ficado preocupada, não tivesse alguma coisa acontecido com a frequência, porque recordava-se de me ter visto a realizá-la. Isto, só para poderem perceber as proporções que tomou. Eu já estava, de tal forma, desabituada do meu real nome que, quando regressava a casa ao fim-de-semana e só ouvia ‘Ana para aqui’ e ‘Ana para ali’, essa pequena mas jeitosinha nomenclatura de três letras, apenas, chegava até a ferir-me os ouvidos. 

Quando algo assume uma proporção que já não se consegue controlar, o que que é que uma pessoa faz? Pois é, junta-se ao fenómeno. Quer dizer, uma pessoa acaba de fazer 18 anos, pensa que é adulta e quer passar a mandar também e essas coisas, até que, pronto, acaba por ser confundida com uma personagem de BD, que ainda por cima é minorca, tal como a minha pessoa em questão (meras coincidências). Mas, no fundo, era só passar a adoptar o célebre slogan da coca-cola para os nomes – “primeiro estranha-se, depois entranha-se” – e assim aconteceu comigo. Gostaria de estar a escrever este texto com uma outra confiança, cheia de importância, cheia de mim mesma e puxar os meus galões neste artigo. Dizer que desde pequenina já conhecia bem a ‘Mafalda’, de trás para a frente e de frente para trás;  que sempre fui uma grande contestatária, inteligentíssima e sagaz, e que sempre fui habituada a isso. Mas a verdade é que não podia estar mais longe da verdade. Naquele dia em que fui batizada de novo, eu era apenas uma miúda que ainda não sabia nada, assustada por uma nova circunstância em que me dava conta que era apenas uma ‘caloira’ da vida. Lembro-me que usava uma camisola vermelha nova, simples, que, por acaso, a minha mãe me tinha oferecido há pouco – reparem só. Estava um pouco despenteada porque nesse dia o meu cabelo, negro, decidiu acordar com vontade de se exprimir e ‘voilá’, assim nasceu uma nova ‘Mafalda’, mas desta feita tímida, mas mesmo tímida ao extremo (que é para não dizer que era o cliché da ‘totozice’), sem grandes ou nenhuns atrevimentos. É vergonhoso, mas pronto, assim era a minha pessoa de 18 anos, não posso dizer que não. 

Mas chegou a altura em que finalmente disse para mim mesma, “ai é?, então já que tenho fama hei-de ter o proveito. Uma pessoa também tem que se pôr ‘fina’ para a vida.” Claro que sabia quem era a Mafalda mas não conhecia a obra de Quino, que é muito mais do que ‘Mafalda’ há que dizê-lo. Lá juntei uns trocos, fui de propósito à livraria do Shopping e pus-me à procura de algum livro relacionado com a contestatária de 6 anos. Aqui, já começava a gostar mais da ideia de estar associada a uma personagem arisca que gostava de pôr todos de cabelos em pé, com as suas respostas. O objectivo foi cumprido, encontrei o livro que queria – o que estava disponível era o que mostrava o Guille na capa com a sua ‘chucha on the rocks’ – e eis que a revolução começa. E o que é que uma rapariga faz quando quer começar a sua própria revolução? Isso mesmo, enfia-se no quarto debaixo dos cobertores a estudar a década de ‘60’, para não esquecer e se recordar do que já tinha dado no liceu. O que mais poderia ser? 

‘Quino’ e a sua ‘Mafalda’ acompanharam-me na fase mais importante, a fase de transição para uma mulher adulta ainda a saber lidar com as suas inseguranças. Ter como presente estar ligada a um nome como ‘Mafalda’, mesmo que, obviamente, não o mereça, é ter uma chave para uma libertação. Uma libertação para começar ganhar mais consciência, que antes era diminuta. Uma libertação para começar a ousar a exigir a liberdade necessária para o mundo adulto. Uma libertação para o questionamento, para a assertividade e para a garantia que a liberdade individual dos que me rodeiam era assegurada. Fez-me pensar enquanto mulher e fez-me pensar no mundo, já que ler Mafalda, até pela década que retrata, é estudar como as bases da nossa sociedade contemporânea se formaram e estruturam. Para mim, a arte só faz sentido assim, se oferecer uma espécie de libertação, e enquanto uma jovem tímida, estarei imensamente grata ao mestre por me oferecer essa liberdade através da sua ´filha’.

Nunca poderei agradecer o suficiente a Quino pelo impacto que Mafalda teve em mim, o seu nome. São incríveis todos os mundos que cabem dentro de um lápis, como diria Guille, mas mais incrível ainda o lápis se torna quando é utilizado para despertar consciências. Quino acordou a minha e hoje, para mim, morreu não um herói, mas ‘o’ herói. Sinto-me mais órfã porque é como se uma parte da minha juventude tivesse partido com ele também, mas reclamo a autoridade de o  chamar de pai ou avô, porque uma parte do que sou devo-o a ele. Que posso fazer? Ele acordou-me e educou-me. Sei que muitas pessoas mais sentirão esse mesmo carinho e sentimento de orfandade.

Se Quino era só ‘Mafalda’? Claro que não. Poderíamos recordar ‘Mundo Quino’, por exemplo, que era o total oposto. Não havia diálogos, o traço era mais técnico – embora o próprio tivesse confessado várias vezes que o lado técnico do desenho não era o seu forte – e embora a crítica social estivesse sempre lá, dava-lhe gozo explorar o lado mais absurdo e surreal da actualidade. Quando uma personagem marcante fica conotada ao seu criador, segue-se sempre o cliché de se pensar que esse mesmo criador passa a odiar essa mesma personagem. Isso, independentemente do que se possa ler, nunca aconteceu com Quino e a sua ‘Mafalda’, por quem nutria carinho. A única razão pela qual o cartunista deixou de a publicar foi muito simples, não queria que se repetisse ou que passasse a ser elaborada como uma espécie de linha de montagem. Ao contrário do que aconteceu com os Peanuts e a própria Mónica, por exemplo, queria ter o controlo de todo o aspecto criativo. Mas, de forma curiosa, foi precisamente esse discernimento de saber a altura certa para terminar, que permitiu que ‘Mafalda’ ganhasse uma lufada de ar fresco sempre eterno. E sim, Quino amava-a porque sabia e sempre reconheceu que aquela menina, mesmo que já não fosse impressa, nunca deixaria de tocar no nervo da realidade.

Agora Mestre, permite-me que me dirija a ti na primeira pessoa. Partes um dia depois do aniversário da tua querida e sagaz filha, numa ocasião em que o mundo está em convulsão. Como dirias, no meio de tanta evolução aparente o mundo parece que não avança e evolui – tudo permanece igual. Mas não te preocupes, a tua ‘Mafalda’ está aqui e continuará a despertar novos mundos e novas ideias, tal como fez comigo. E será sempre necessária – uma e outra vez, as vezes que forem precisas – principalmente quando, em plena democracia, a própria PSP portuguesa sente necessidade de adulterar uma tira tua. A luta continua sempre, a luta nunca terminará, e estarei sempre ao teu lado.

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