Entrevista. Bárbara Tinoco: “Na indústria da música as mulheres são as que fazem cançõezinhas de amor e quase não somos levadas a sério”

por Ana Isabel Fernandes,    14 Outubro, 2021
Entrevista. Bárbara Tinoco: “Na indústria da música as mulheres são as que fazem cançõezinhas de amor e quase não somos levadas a sério”
Bárbara Tinoco / DR
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A seguinte entrevista foi realizada no dia do concerto de Bárbara Tinoco, em Mirandela, no dia 9 de Outubro e, originalmente, publicada na página do “Jornal, Os Mirandelenses“, jornal regional da cidade. É republicada na Comunidade Cultura e Arte com a devida autorização do jornal.

Após ter vencido o “Globo de Ouro de melhor Intérprete” [a três de Outubro], Bárbara Tinoco apresentou-se no Centro Cultural de Mirandela no sábado, dia nove, para um concerto intimista mas com a sala completamente esgotada, acompanhada pela guitarra acústica de João Gaspar. Foi uma noite repleta de música mas, essencialmente, de muitas partilhas com o público, quase que num registo dialogante de “storytelling” que soube desempenhar muitíssimo bem. A música cruza-se com a própria vida e foi isso que Bárbara Tinoco, no fundo, quis exemplificar. O “Jornal, Os Mirandelenses” falou com a artista no dia do concerto e, na conversa, falou-se acerca do Globo de Ouro, do EP “Desalinhados”, dos concertos nos coliseus (em Novembro) e como, frequentemente, ainda há preconceito com as mulheres do pop: “nesta indústria, muitas vezes, as mulheres são as que fazem cançõezinhas de amor e quase não somos levadas a sério.” Afirma ainda que ideias não faltam, este foi o seu melhor ano de sempre e já está a pensar no próximo, no que irá fazer a seguir. O primeiro álbum, esse, sairá no final do mês.

Vamos começar pelos “Globos de Ouro” [a 3 de outubro], e pelo globo de melhor intérprete que ganhaste. Num texto teu, nas redes sociais, escreveste que cresceste, praticamente, sem referências femininas e que havia pouquíssimas artistas mulheres a compor. De alguma forma achas que, ainda hoje, essa ainda é uma lacuna presente? Achas que o mérito de uma mulher, na música, ainda tem de ser sempre justificado?
Acho que, cada vez mais, aparecem mulheres artistas e mulheres artistas a compor. Estamos na época da Carolina Deslandes e Luísa Sobral. Já não há uma lacuna, cada vez aparecem mais e, ainda por cima, estamos a viver numa altura cheia, em que as mulheres são as grandes compositoras da sua altura. Isso é bom!

Qual era, então, o alerta que querias deixar? O que pretendias dizer?
Acho que, muitas vezes, nesta profissão — eu e a Carolina [Deslandes], que é uma grande amiga minha, falamos muito sobre isso — estamos sempre a ser postas de lado, quase, por pertencermos ao pop. Nesta indústria, muitas vezes, as mulheres são as que fazem cançõezinhas de amor e quase não somos levadas a sério. As nossas canções são só “canções”, apenas, porque somos mulheres e porque fazemos pop. É como se o trabalho das meninas do pop e das canções de amor não fosse genuíno, tal como o trabalho de outros artistas. Ouvi disso durante três anos e, também, várias críticas de vários homens, ao longo da vida. Quando ganhei o globo ouvi-os sussurrar que não merecia aquele globo e que, obviamente, eu não era a melhor intérprete do ano. Depois, pensei, “porque é que não havia de ser a melhor intérprete do ano?”

Internacionalmente, quais são as compositoras mulheres nas quais te revês? A Jolene, por exemplo, foi escrita pela Dolly Parton.
Gosto muito da Suzanne Vega, é uma das minhas maiores referências! Gosto muito da compositora Julia Michaels que é, basicamente, uma das maiores compositoras da sua geração, do pop. Na verdade, cresci com referências de meninas mas eram todas, praticamente, estrangeiras. Cá não tínhamos muitas.

Olhas para ti como uma contadora ou cantautora de histórias? Uma boa parte das tuas letras, quer sejam mais introspectivas ou mais directas, soam a isso mesmo.
Sim, acho que já fiz mais canções que contavam histórias. Sou uma compositora que gosta de fazer vários tipos de canções com vários tipos de sonoridade, não gosto de me prender a um estilo. Acho, no entanto, que comecei por ser aquilo de quem sou filha, Miguel Araújo e Suzanne Vega. Eles são contadores de histórias.

“Antes dela dizer que sim” ou “Cartas de Guerra” contam histórias literais. No EP, por exemplo, temos a “Gisela” e até mais.
Sim, ou seja, no fundo gosto muito desse estilo de composição e de contar histórias. Gosto de fazer, também, canções que não sejam tanto contar uma história mas que, por outro lado, explorem um sentimento. Gosto das várias formas de compor.

Numa entrevista tua que vi, no youtube, falou-se do pop e de como te revês no pop. Uma das razões para isso, além da variedade do pop, prende-se com o facto das letras serem directas. Tu gostas do lado cru e directo das letras?
Identifico-me mais, no geral, com a sonoridade do pop. Gosto das melodias reconhecíveis, gosto das coisas repetidas, gosto das letras simples que a minha irmã consegue reconhecer e a minha avó também. Letras que, de alguma forma, dizem coisas às duas. Acho que isso é muito interessante na música e é das coisas que eu mais gosto na minha música. Eu sou uma menina de 22 anos e tenho relações de amor da forma que tenho. Se calhar, o meu manager, que tem 40 e tal anos, tem outras formas de olhar para o amor, outra idade, filhos e por aí fora. Às vezes, as canções tocam-lhe por outros motivos e são as mesmas palavras — acho que isso é muito interessante na música pop, aliás, em toda a música, mas neste caso estamos a falar do pop.

E falaste, justamente, da poetisa Adília Lopes
Sim, ela é a minha poetisa preferida.

Por causa desse pendor directo que ela tem nos poemas.
Sim, ela é a minha poetisa preferida porque os poemas são muito directos. Não gosto muito de metáforas, nunca foi um recurso expressivo que eu apreciasse por aí além — e ela usa pouco ou nada, portanto, adoramos.

Mas como foi, no “Desalinhados”, navegar entre vários géneros? Foi um desafio para ti? De certa forma, tiveste de te adaptar ao estilo de cada artista com quem colaboraste. Todos eles são muito diferentes entre si.
Sim, na verdade é disso de que gosto. Antes de querer ser artista, queria ser compositora e nunca me quis fechar numa caixinha e dizer — eu sou isto — porque as pessoas não são uma só coisa. Nunca quis ser só uma coisa, nem nunca quis fazer só um tipo de música. Queria fazer músicas, como tal, umas são mais para a minha idade, já outras são para todas as gerações. Umas têm uma sonoridade mais antiga, outras têm uma sonoridade mais moderna, e eu gosto sempre de trabalhar com pessoas novas porque nos fazem sair da nossa caixinha, obrigatoriamente.

Penso que uma das tuas maiores qualidades enquanto compositora é a forma como fazes o encaixe da métrica das palavras nas composições. Tens atenção a isso? Faz sentido para ti?
A forma como coloco as palavras nas canções, na verdade, é algo que vim a descobrir que é estranha. As pessoas têm dificuldade em cantar porque não percebem muito bem como é que acentuo e onde é que eu acentuo. Não é o mais directo, se calhar, mas, para mim, quando escrevo, aquilo é o mais intuitivo. Na verdade, alguns tipos de melodia não dão para encaixar todo o tipo de letras, mas eu gosto de pensar que todas as melodias dão para encaixar a letra. Gosto, portanto, de palavras e a letra, para mim, é a coisa mais importante numa canção. Esta é a minha opinião pessoal. Se calhar, há pessoas que gostam mais da melodia, eu ouço mais a letra e, portanto, sim, a minha preocupação é fazer uma letra da qual tenha orgulho e, claro, ela ficar bonita numa melodia.

Pode-se dizer que, no “Desalinhados”, “Estrelas” é o tema que tem um estado de espírito mais particular, com mais tensão. Queres falar um pouco sobre o tema?
É uma canção que comecei a escrever depois de ter tido uma discussão com um amigo. Estava a passar por uma rua e havia um smile com uma carinha triste. Era um semáforo que tinha emojis e nunca mais voltei a ver esse semáforo — se calhar imaginei — mas vi e pensei que o universo estava a ser muito engraçado porque até a rua me estava a dizer que estava triste por ter discutido com um amigo. Não era um namorado, era um amigo e, às vezes, nós pensamos que só se escrevem canções de desgosto só para os namorados, mas não é nada verdade, para os amigos também se escreve. Comecei, depois, a escrever esse poema com essa ideia das estrelas e do universo, que é algo a que acho piada. Gosto das palavras, de brincar com as palavras e do que elas dizem e, assim, escrevi o poema todo. É uma canção, de facto, triste e, se calhar, é a canção mais diferente que escrevi a nível da própria música — como construí o refrão e o facto da temática toda ser das estrelas. Pronto, eu adoro essa canção e demonstra bem o que estava a sentir — estava a sentir-me triste.

A construção da letra de “Advogado” está interessante porque oferece as duas visões. Acaba por funcionar como uma resposta e contra-resposta.
Sim, o Carlão, quando lhe mostrei a canção, não quis muito fazer parte. Escolhi-o, entre muitos factores, por ser talentoso e eu ser fã a crescer a ouvir Carlão — tudo isso. Uma das coisas que queria para a música era que quem escolhesse fosse do hip hop e queria, também, que o rapper fosse mais velho para fazer sentido com a letra, embora ele não goste que eu diga esta parte. Ele disse, “olha Bárbara, eu não consigo, soa um bocado estranho porque nunca fui este homem de gostar de miúdas mais novas, isto faz-me confusão, não sou esta pessoa!” Eu respondi, “então diz que é tudo da minha cabeça!” Ele aceitou, “ok, vou experimentar!”. A verdade é que se encaixou mesmo bem e fez o papel dele próprio, no fundo foi ele próprio.

Vamos ter os concertos nos coliseus, dias 13 e 14 de Novembro, em Lisboa e, dia 20, no Porto. Vamos ter, ainda, o lançamento do teu primeiro álbum, no final deste mês (Outubro).
É o culminar de três anos de trabalho, dedicação e de entrega total do que era um sonho  que, agora, é só a minha vida. No fundo, para mim, o coliseu é uma celebração das minhas origens, quem eu sou enquanto pessoa, enquanto compositora, aquilo que eu estive a fazer durante três anos. Espero, no fundo, que seja um bom espectáculo.

Dadas as contingências do momento actual, este foi um óptimo ano para ti!
Não, não! Tive o melhor ano de sempre, o mais atarefado! Lancei, praticamente, dois álbuns no mesmo ano. Apesar do EP, com mais duas canções ou uma, ter sido um álbum, deu o mesmo trabalho de um álbum e, portanto, para mim, este ano foi um ano cheio, foi um ano cheio de coisas. Já estou a pensar no próximo e no que quero fazer a seguir.

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