Entrevista. Diana Duarte: “Tive duas editoras a convidarem-me para escrever”

por Magda Cruz,    6 Novembro, 2021
Entrevista. Diana Duarte: “Tive duas editoras a convidarem-me para escrever”
Diana Duarte é uma das vozes da comunicação portuguesa (Foto: Gustavo Carvalho)
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Ponto Final, Parágrafo é um podcast sobre literatura, conduzido por Magda Cruz, da ESCS FM em parceria com a Comunidade Cultura e Arte. Já conta com 50 episódios principais em quatro temporadas. Pode ser ouvido em todas as plataformas de áudio, como Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts e Castbox.

Hoje Diana Duarte destaca-se como locutora a autora, mas tempos houve em que queria seguir pela imprensa e abominava a ideia de aparecer em frente a uma câmara. Agora com experiência a comunicar na rádio, na televisão e nas redes sociais, partilha com o podcast Ponto Final, Parágrafo uma mão cheia de leituras edificantes, que a marcaram ao longo dos anos, num episódio gravado ao vivo no auditório da escola onde se formou.

Quando chega à Escola Superior de Comunicação Social queria imprensa, queria escrever, de maneira que não fez rádio nem televisão extracurricularmente. Foi quando foi para a CMtv que a puseram à frente de uma câmara e teve de perder os medos. Agora acha que é boa conversadora e gosta de conversar, mas foi algo “trabalhado”, conta: “Foi preciso trabalhar a baixa autoestima e a timidez”. Agora, timidez nem vê-la. Foi substituída por confiança ao microfone, seja no recém regressado “A minha geração” (na Antena 3 e RTP3), seja na Prova Oral (RTP3) e no novo programa PontEuropa, que dá a conhecer melhor os eurodeputados portugueses. Somando todos os projetos, há semanas em que Diana faz mais do que uma entrevista por dia, o que pode ser uma overdose de informação.

Neste episódio do podcast Ponto Final, Parágrafo, Diana revela o segredo das suas entrevistas, que até agora só amigos chegados sabiam: “A minha técnica é não preparar nada. O Fernando [Alvim] prepara-se bastante. Ele é a estrela do programa, como ele diz sempre. Eu sou a sidekick. A minha missão é participar, mas fazê-lo brilhar. Mas no início eu preparava-me muito. Lembro-me de na quarentena lia muito”. Diana dá o exemplo da entrevista a Dino de Santiago, de quem hoje em dia gosta muito, mas na altura não conhecia. “Então ele tinha lançado um álbum novo, fui ouvir, comecei a gostar e li tanto que cheguei ao programa e falei demasiado”. E isso ia contra a missão de ser sidekick. “Então o truque aqui é não preparar nada e usar a curiosidade natural, que, para já, dá-te uma escola de improviso que eu sinto muito e cada vez mais”, o que é natural porque todos os dias há uma entrevista para fazer na Prova Oral. Conclusão, se hoje em dia Diana se sentar num café e tiver alguém à frente, é capaz de não só conversar, como ter mil perguntas para fazer. É esta a escola do improviso. 

O primeiro livro entra na conversa depois da pergunta: “Tens medo que alguém morra antes de o entrevistares?”. A resposta que surge é Miguel Esteves Cardoso e, com ele, o livro “A causa das coisas”. Diana lembra-se de o ler num dia de aulas, no comboio, na vinda para a ESCS, e de se rir às gargalhadas enquanto lia. “O livro foi escrito em 1986 e parece que tinha sido escrito naquele dia: super atual. Ele para mim é um humorista. É genial e super divertido. É intemporal. As críticas que ele faz às pessoas, aos portugueses, mantêm-se super atuais”. Diana tem uma edição mais antiga deste livro de crónicas, mas há uma edição da Porto Editora de 2013, bem como uma deste ano, da Bertrand Editora. Para quem gostava de conhecer melhor o autor, em 2020 foi editado o “As 100 Melhores Crónicas”, onde devem figurar crónicas deste “A causa das coisas”.

Se estão à espera de um livro escrito pela Diana Duarte, terão de esperar mais. Não está nos planos de Diana, que não deixa de explicar que tem imenso material apontado seja nas notas dos telemóveis, seja em vários cadernos ou no computador. E com isto chegamos ao “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa e o heterónimo Bernardo Soares. “Se alguém se der ao trabalho de reunir tudo, acho que tenho um Livro do Desassossego já pronto”, brinca Diana. Este livro foi editado em 1892, quase meio século após a morte de Pessoa. “É um livro inacabado. É uma espécie de diário, reflexões e coisas espalhadas…Ele morreu e o livro ficou por completar”, explica Diana. 

A primeira memória que Diana tem da leitura é de ler e reler as revistas do salão de cabeleireiro onde a mãe ia todas as semanas. Foi um encontro com a leitura, que se foi consolidando. “Lia tudo, tudo, tudo. Li as revistas todas e fiquei com o vício da leitura. E acho que é o mais importante para uma criança: passares o vício da leitura. Uma vez viciado, vais à procura de coisas melhores”. 

Foi na ESCS que o professor Jorge Trindade lhe deu a conhecer, nas aulas, o livro “Húmus”, de Raul Brandão. Trata-se do livro que Diana disse, durante muitos anos, que era o seu favorito. “É um livro muito existencialista. É prosa, mas é poesia ao mesmo tempo. Quem está a ler e gosta de poesia — eu adoro poesia — é poesia por extenso. É muito o sentido da existência, o absurdo…Tem frases absolutamente incríveis”. O “Livro do Desassossego” é muito parecido porque também é um diário, tem datas é existencialista, mas foi escrito depois. Quando li isto [Húmus], não tinha a noção de que tinha sido escrito tanto tempo antes. O estilo não foi Pessoa que o inaugurou. Se houver um inaugurador deste estilo foi o Raul Brandão, que é um autor muito pouco conhecido em Portugal”, diz Diana, que explica que já se celebraram os 150 anos do autor. “É brilhante. Se este livro não tivesse sido escrito em português, era vendido internacionalmente”, conclui Diana. No episódio, Diana ainda compara o livro com o “A Metamorfose”, de Kafka.

Sobre O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, Diana destaca logo a filosofia presente no livro. “O Oscar Wilde é um dos meus escritores preferidos. (…) Ele tem tiradas absolutamente geniais. É super sarcástico. É muito sofisticado literariamente na construção das frases”. Numa ânsia de consumir melhor o livro, Diana comprou um caderno só para apontar citações do livro, mas não era suficiente. “Eu achava aquilo tão genial que precisava que aquilo estivesse num sítio que fosse só meu. E todo o livro para além de ser muito bem escrito, a história é incrível. O argumento é muito bom — tanto que há muitos filmes sobre este livro e nenhum livro vale a pena, comparado com o livro”. Mas voltando à filosofia: “É muito filosófica a forma como ele expõe certas ideias e põe filosofia numa narrativa. É o único romance que ele tem. E o Lord [Henry Wotton] que há no livro é um vilão inesquecível. É o vilão mais sofisticado que me lembro de ler num livro. É super manipulador”. Diana passa a explicar que o Lord manipula o Dorian Gray, mas até o leitor se sente manipulado de tão boa que é a maneira de falar do vilão. Diana acha que a mensagem final é muito boa para um adolescente, que foi quando ela o leu. “Quando me perguntam que livro é que lhes aconselho, qualquer pessoa, de qualquer idade, digo sempre este livro”. 

Logo no início do episódio, Diana diz que não está nos seus planos escrever um livro e que é melhor leitora do que escritora, mas, mais à frente no episódio revela que duas editoras já se chegaram à frente com propostas. “Mas foi na altura em que eu estava a sair da SIC para o Observador, e aí cheguei a trabalhar 16 horas por dia, e não tinha tempo. Mas eram encomendas: “temos esta ideia e gostávamos que fosses tu [a escrever]”, explica. E podemos saber quais eram as ideias? “A primeira era…tenho tanta coisa que podia escrever um livro de poesia”. Nesse sentido, Diana lembra tarefas de escrita de aulas na ESCS, de aulas do já mencionado professor Jorge Trindade, e de como não se via capaz de escrever um conto: “Eu gosto de escrever, mas é memórias, reflexões, coisas que vi, análises…Um conto é ficção, é inventar uma coisa que não existe e eu não sou capaz de inventar coisas que não existem”. Nessa altura conseguiu trocar para a tarefa de fazer uma recensão crítica do livro “Uma história da leitura”, de Alberto Manguel (agora recentemente reeditado pela Tinta-da-China). O livro é difícil, cheio de referências a outros livros, a filosofia e mitologia, para além da própria história da relação dos humanos com os livros. Não é surpresa, mas Diana saiu-se muito bem na recensão.

Diana Duarte entrevistada por Magda Cruz (Foto: Gustavo Carvalho)

Chegamos então a um livro que é uma bíblia para muitos: “Os Maias”, de Eça de Queiroz. Diana leu o livro em dois dias. Na altura estava ainda no ensino secundário e, com o fantasma de um teste a surgir na segunda-feira, comprou o livro na sexta-feira anterior e passou o fim de semana com as personagens. “Ler «Os Maias» em dois dias é uma experiência da qual nunca me vou esquecer. O que fiz foi: sábado acordei às oito, ler, ler, ler, almoçar. Depois ler, ler, ler, jantar. E depois ler, ler, ler, dormir.” No dia seguinte foi repetir a fórmula. “Mas foi incrível. É como ver um filme”. Ler o livro em tão pouco tempo e seguido permitiu a Diana conviver com as personagens, relembrar bem os lugares, as descrições e a narrativa. Escusado será dizer que teve quase nota máxima no teste. Tinha tudo dentro da cabeça.

De seguida falamos de Flaubert e do seu “Madame Bovary”. Para Diana, Flaubert é um prosador por excelência: “As frases dele são tão descritivas — e não é como no Ramalhete, que é um bocado exaustivo [em «Os Maias»]. É descritivo ao ponto de tu estares a ver aquilo. Ele faz ver. A forma como ele escreve é um dom”. E depois, claro, há a singularidade da personagem principal. “É um caso onde a personagem se tornou maior do que o próprio autor. Toda a gente que gosta de livros sabe quem é a Madame Bovary. Talvez só não saiba quem é o autor.” 

O último livro de que falamos é “Filósofos e o Amor – Amar, de Sócrates a Simone de Beauvoir”, de Marie Lemonnier e Aude Lancelin, uma edição da Tinta-da-China que Diana comprou, admite, também pela capa, que é vermelha e com a mancha gráfica a fazer um coração. Diana, que se apercebe agora do quão romântica é, tem o livro sempre no carro, mas para este episódio do podcast trouxe-o a dar uma volta. Diana leu na capa a quantidade de filósofos que estavam incluídos (Platão, Lucrécio, Montaigne, Rousseau, Kant, Schopenhauer, Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, Arendt, Sartre, Beauvoir) e não resistiu. “Vi este livro pela primeira vez há uns anos na minha livraria preferida em Leiria, a Arquivo, e na altura pensei «este livro deve ser do caraças para oferecer». Não o comprei na altura, mas fiquei com ele na cabeça”. Até ao dia em que finalmente o comprou: “É muito engraçado porque pensamos sempre que os filósofos escreveram sempre sobre coisas como a liberdade, a paz, a ética, mas não sobre o amor. As autoras, então, quiseram comprovar que eles escreveram sobre amor. Então há uma data de perspetivas sobre o que é o amor”. De todos os autores, Diana destaca Schopenhauer, com que se ria imenso. 

Diana ainda nos dá a conhecer as referências dela na rádio e a que autores devemos estar atentos.

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