Entrevista. Paulo Moura: “Gostava que os meus livros fossem uma espécie de fóruns de reflexão”

por Magda Cruz,    30 Abril, 2021
Entrevista. Paulo Moura: “Gostava que os meus livros fossem uma espécie de fóruns de reflexão”
Foto cedida por Paulo Moura
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Jornalista muitíssimo premiado, escritor muitíssimo publicado e professor universitário muitíssimo capacitado, Paulo Moura tem um novo livro a sair em maio. Convidado do podcast Ponto Final, Parágrafo, falou-nos de três livros que devemos ler para conhecer melhor o Jornalismo Literário e de Viagem, que segue.

Começou no Jornalismo pela imprensa escrita à qual foi sempre fiel. Foi um dos estagiários que fundaram o jornal Público, há 31 anos, altura em que ditava as peças jornalísticas pelo telefone. O tempo e o trabalho trouxeram prémios, e falamos por exemplo de prémios como o UNESCO, Gazeta, AMI, Clube Português de imprensa, FLAD, e entre muitos outros. Como escritor, venceu há dois anos, a primeira edição do Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga com o livro “Extremo Ocidental: Uma viagem de moto pela costa portuguesa, de caminha a monte gordo”. É autor de cerca de uma dezena de livros de não ficção e um de ficção, “Hipnose”, publicado em 2020 – sobre o qual falamos neste episódio. Está também nomeado para o Prémio Livro do Ano Bertrand, na categoria de melhor livro de ficção lusófona, com esse mesmo livro. 

Nascido no Porto, quando era pequeno ia para a praia ler Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade e José Gomes Ferreira. Estudou História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em 1984. Cinco anos depois estava a terminar o curso de Comunicação Social na Escola Superior de Jornalismo do Porto. Chegou a dar aulas de História e Português ao Ensino Secundário. 

Ficamos a saber que esteve numa banda, a dupla “Magrinhos e Feios” com o Pedro Abrunhosa, e que dormiu no estábulo dos cavalos em Mossul Ocidental, como conta no livro “Uma Casa em Mossul”, publicado em 2018, pela Objetiva. Antes deste livro publicou muitos outros livros de Jornalismo Literário, como “Longe do mar”, um livro da coleção de retratos da Fundação Francisco Manuel dos Santos. O livro é de 2014 e retrata as histórias das pessoas que conheceu durante uma viagem pela um dia muito usada estrada nacional 2. Hoje é professor na Escola Superior de Comunicação Social e quer cada vez mais afirmar-se como escritor e fazer trabalhos com mais profundidade. O melhor suporte para isso, diz, são os livros. 

“O que me vejo a fazer, se me deixarem, é fazer livros de não ficção, de viagem também me interessa-me muito fazer, apesar de ser difícil, claro, e é caro. Não se consegue financiar facilmente. Eu tenho conseguido até agora”, conta. E enquanto conseguir fazer isso teremos livros de literatura de viagem assinados por Paulo Moura. “Cada vez gosto mais de livros de viagens – até de ler”. 

“E depois interessa-me muito investigar o mundo. Gostava de fazer livros de investigação de temas. Não no sentido policial de investigar um grande escândalo, mas desenvolver um tema, explorá-lo até às últimas consequências. Gosto de investigação, da parte do trabalho do terreno, de falar com pessoas e escrever sobre isso”. É isto que Paulo Moura quer continuar a fazer, mas também escrever livros de ficção: “E nos livros de ficção quero explorar géneros mais populares. Gostava de escrever um thriller puro. A minha intenção não é revolucionar a literatura.”

Então qual é a intenção do escritor? “O que me interessa é chegar às pessoas. (…) Quero ser lido, ser entendido e cativar as pessoas, como sempre fiz no Jornalismo. Ou seja, vejo um pouco a forma literária como um veículo, um meio, não um objetivo em si mesmo, para veicular ideias ou informações. E na ficção vejo da mesma forma. Gostava que os meus livros fossem uma espécie de fóruns de reflexão, em que se refletisse. Gosto muito dessa literatura. Nos anos 60, 70, havia na Europa muito uma literatura…se pensarmos em Jean-Paul Sartre ou mesmo Camus, esses escritores existencialistas, que usavam os livros como forma de reflexão filosófica e de como deve ser o nosso papel na sociedade e no meio contemporâneo. Os romances eram uma forma de pôr as personagens a refletir – e os leitores também, a refletir através do romance. Gosto muito dessa ideia. Se pudesse fazer isso, é o meu sonho: ter romances a refletir sobre o mundo e não exercícios estéticos apenas, a arte pela arte. 

Aproveitando os muitos anos de experiência como repórter freelance, tem feito reportagens em zonas de crise por todo o mundo: assistiu, em 1991, à emergência dos primeiros jovens fundamentalistas islâmicos, e esteve nas praças ocupadas durante as Primaveras Árabes, em 2011. Cobriu conflitos no Kosovo, Afeganistão, Iraque, Angola, Turquia, Sudão e muitas outras regiões.

No início de maio sai um novo livro chamado “Cidades do Sol – Em busca de utopias nas grandes metrópoles da Ásia”, uma narrativa de viagem e o relato de uma aventura e investigação sobre os sonhos da classe média do oriente. É a junção de duas viagens que totalizam três meses de viagem e a passagem por seis países, um deles a China. Foram viagens feitas há dois anos, imediatamente antes da pandemia. “A ideia foi visitar grandes cidades à procura da nova classe média asiática. A Ásia é a zona do mundo onde a classe média mais cresceu. A classe média na Ásia vai ser mais numerosa do que no Ocidente, dentro de poucos anos”, conta Paulo Moura. 

“Essas pessoas, a classe média, é no mundo quem define os padrões de consumo. Os produtos que são vendidos são pensados na classe média, os estilos de vida, a cultura popular, a música que se faz. São eles que compram discos, que consomem. Se essa classe média”, explica, “vai passar a ser maioritariamente asiática, isso eventualmente implicar uma grande mudança no mundo. O meu objetivo era este: encontrar a nova classe média asiática e saber o que é que eles [que a ela pertencem] sonham. Quais são as utopias? O que sonham individualmente (porque sonham com uma vida melhor, por exemplo em vez de ter um carro ter dois), mas para além disso não sonham mais nada? O passo seguinte para uma pessoa, enfim, bem formada, quando tem mais ou menos satisfeitas as condições básicas, o seu bem-estar material individualmente, tende a pensar na própria comunidade: «como é que vou melhorar o mundo?»” Para responder a estas perguntas, o autor falou com cidadãos, escritores e filósofos, por exemplo. O livro está nas bancas dia 3 de maio, pela Editora Objetiva.

Ponto Final, Parágrafo é um podcast sobre literatura, conduzido por Magda Cruz, da ESCS FM em parceria com a Comunidade Cultura e Arte. Já conta com 43 episódios principais em três temporadas. Pode ser ouvido em todas as plataformas de áudio.

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