Francis Ford Coppola diz que “Agora todos os filmes têm as mesmas cenas. E não é por culpa dos realizadores”

por Rui André Soares,    18 Fevereiro, 2022
Francis Ford Coppola diz que “Agora todos os filmes têm as mesmas cenas. E não é por culpa dos realizadores”
“The Godfather” (1972), filme de Francis Ford Coppola / Paramount Pictures
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Francis Ford Coppola é um dos realizadores mais consagrados do cinema e deu uma longa entrevista à revista GQ no contexto dos 50 anos de “The Godfather” e que foi lançado em Portugal a 24 de Outubro de 1972.

Na entrevista conduzida por Zach Baron, Coppola, para além de assumir que está a investir 100 milhões de dólares do seu próprio bolso para fazer o seu mega projecto “Megalopolis” (que ainda não tem data de estreia), falou de vários temas, entre os quais: a sua vida e obra e a lógica comercial dos blockbusters. Sobre “The Godfather” Coppola revelou que o filme lhe complicou a vida como realizador uma vez que “ele [“The Godfather”] fez tanto sucesso que tudo o que fazia era comparado com ele“, situação idêntica a Orson Welles com “Citizen Kane”.

No que toca ao assunto da Marvel o realizador voltou a criticar os estúdios da Disney: “Costumavam existir filmes de estúdio. Agora existem filmes da Marvel. E o que é um filme da Marvel? Um filme da Marvel é um protótipo de filme que é feito de novo, de novo e de novo para parecer que é diferente”, assumiu Coppola que disse ainda que “Agora todos os filmes têm as mesmas cenas. E não é por culpa dos realizadores, porque eles têm que colocar essas cenas nos filmes se quiserem justificar o orçamento que pedem aos estúdios. E estou a falar de diretores talentosos” e deu o exemplo dos realizadores de “Dune” e “No Time to Die”: “Até mesmo pessoas talentosas como Denis Villeneuve e Cary Fukunaga, se analisarmos os dois filmes [“Dune” e “No Time to Die”] poderíamos juntar duas cenas sequência diferentes, as cenas de carros a baterem, por exemplo, e juntando tudo daria o mesmo filme.“, acrescentou o cineasta à GQ.

“No Time To Die” / Fotografia de Nicola Dove – DANJAQ, LLC e MGM

Em 2017, e num artigo de opinião ao The Hollywood Reporter, Martim Scorsese assumia também que “Ao longo dos últimos 20 anos, muitas coisas mudaram no cinema. Essas mudanças ocorreram a todos os níveis, desde a maneira como os filmes são feitos ou até na forma como são vistos e discutidos” (…) “bons filmes, de verdadeiros cineastas, não são feitos para serem cotados, consumidos ou compreendidos instantaneamente” escreveu Scorsese.

Francis Ford Coppola também comentou o tema em 2019, depois de Scorsese, e disse que os filmes da Marvel eram “desprezíveis”: “Quando Martin [Scorsese] diz que a Marvel não faz cinema, ele está certo porque nós esperamos aprender algo com o cinema, algum tipo de conhecimento, iluminação, inspiração. Não conheço ninguém que tire algo disso ao ver o mesmo tipo de filme várias e várias vezes seguidas. Martin até não criticou muito os filmes da Marvel ao dizer que os filmes não são cinema, pois, eu acho que são desprezíveis”, disse Coppola aos jornalistas na cerimónia de entrega do prestigiado Prémio Lumière nesse ano.

“O Homem que Matou Dom Quixote” / Fotografia de Diego Lopez Calvin

No mesmo ano, em 2019, Terry Gilliam, um dos membros dos icónicos Monty Python e realizador de filmes como “Brazil”, “Twelve Monkeys”, “Monty Python and the Holy Grail “ e “O Homem que Matou D. Quixote” (que estreia esta semana em Portugal) também juntou a sua voz ao grupo de pessoas que criticam os filmes da Marvel, que foi adquirida pela Disney em 2009, e disse, em entrevista à Indiewire, que a Disney, com os seus enormes recursos, devia trabalhar mais no mundo real: “se és assim tão poderoso, devias lidar mais com a realidade.”, disse o cineasta que foi ainda mais longe dizendo mesmo que aquilo que não gosta é o facto de todos terem de ser super-heróis para fazerem algo de importante: “Isso leva-me à loucura. É isso que estes filmes estão a dizer aos jovens. Para mim isso não é confrontar a realidade da condição humana. Saber o que que é ser um humano normal a ultrapassar situações difíceis, resolvendo-as, sobrevivendo. Não os posso criticar pelo puro espectáculo, com a excepção de ser repetitivo. Continuas a ter de rebentar uma cidade.”, disse Gilliam.

Já em 2020, e em entrevista à Variety, no podcast “The Big Ticket”, o realizador sul coreano Bong Joon Ho, autor do multi-premiado “Parasitas”, foi questionado sobre a possibilidade de dirigir um filme da Marvel a que este respondeu: “Acho que a Marvel nunca iria querer um director como eu”, disse o cineasta que acrescentou ainda que “Não espero ofertas deles. Desses filmes, gostei do “Guardians of the Galaxy” e do “Logan”, ambos de James Mangold, e acho que existem grandes directores que podem lidar com grandes projectos como esses. A indústria cinematográfica parece complicada, mas acho que é bastante simples para alguns. De facto, é melhor dedicares-te no que realmente és bom. E eu realmente não acho que a Marvel e eu sejamos adequados um para o outro. Isso é algo que sinto intuitivamente”, disse ainda Bong Joon Ho.

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