O artista Chico

por Lucas Brandão,    18 Junho, 2019
O artista Chico
Chico Buarque
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Dos nomes mais notáveis e consagrados da música brasileira, denota-se o de Chico Buarque de Holanda. Cantor, autor, dramaturgo, ator, é o vencedor do Prémio Camões de 2019, que reconhece a obra literária lusófona de um autor com essas origens. Contando com uma discografia com quase 80 trabalhos, é um dos rostos da Música Popular Brasileira (MPB); mas também um dos mais consagrados autores de romances no virar do século XX para o XXI. Viveu sempre rodeado de artistas e, incontornavelmente, tornou-se um. Do seu trabalho e da sua influência perseverante nos dias que correm, é alguém cujo percurso continua em franca expansão e em notável dimensão.

Francisco Buarque de Hollanda nasceu a 19 de junho de 1944 no Rio de Janeiro. Filho do consagrado historiador Sérgio Buarque de Hollanda e da artista Maria Amélia Cesário Alvim, mudou-se com a família para São Paulo com dois anos de idade. O pai tinha-se tornado no diretor do Museu do Ipiranga e obrigara a esta mudança de ares, que se tornou fundamental para a apetência artística de Francisco. A mãe, pintora e pianista, havia alimentado o seu gosto pela música, que se fez sentir ainda mais após conhecer o ilustre compositor Vinicius de Moraes, assim como o também compositor Paulo Vanzolini. Com 9 anos de idade, e após o pai ser convidado para dar aulas na Universidade do Roma, a família volta a acompanhá-lo e passa a viver em Itália. Francisco vai entrar em contacto com dois outros idiomas para além do português, sendo eles o inglês, nas aulas, e o italiano, no resto do dia-a-dia. É nesta fase que começa a compor, nomeadamente pequenas marchas de Carnaval, celebração tão típica no seu país de origem. “Canção dos Olhos”, de 1959, ficaria célebre como a sua primeira composição musical.

Aos 16 anos, em 1960, está de regresso ao Brasil, já com maturidade suficiente para preparar algumas crónicas que seriam publicadas no ano seguinte, no jornal “Verbâmidas”. No entanto, o caricato seria o facto de isto não ser a sua primeira aparição na imprensa, visto que havia aparecido anteriormente por ele e um amigo terem furtado um carro. Em 1963, entra na universidade, no curso de Arquitetura da Universidade de São Paulo, curso que interromperia dois anos depois. A carreira artística chamava por ele, assim como o novo fôlego de que a MPB precisava. “Sonho de um Carnaval” vem nesse ano, ao abrigo do I Festival Nacional da Música Popular Brasileira. O tema do Carnaval era algo muito presente no seu arranque artístico, tendo a sua primeira gravação sido uma outra marcha, a “Marcha para um Dia de Sol” (1964). No ano a seguir, conheceu Elis Regina, que tinha ganho a edição de 1965 do festival mencionado, e com quem estaria a postos para gravar uma música. No entanto, era notória a timidez do recém-músico, algo que impediu de que a gravação se concretizasse. Este embaraço seria de curta duração pois viria a ganhar o tal famigerado festival no ano seguinte ao de Elis, em 1966, com “A Banda”, composição interpretada pela cantora Nara Leão; em aparente igualdade com “Disparada”, composta por Geraldo Vandré e verbalizada por Jair Rodrigues, mas cujo desempate levou ao desbloquear da carreira do agora “Chico” Buarque.

A alcunha vinha de Millôr Fernandes, um célebre autor brasileiro que se tornou conhecido pelo seu feliz sentido de humor. Chico casar-se-ia, entretanto, com a atriz Marieta Severo em 1966, sendo pai de Sílvia, Luísa e Helena, e, de futuro, viria a ter cinco netos. São as suas origens (aos seus avós e bisavós) aquelas que começam por ser a base lírica das suas canções, assim como o aspeto social das mais pequenas comunidades do Brasil. “Ela e sua Janela”, “Januária” e “Carolina” são algumas das que vão revelando estes aspetos em Buarque, que bebe de cantores influentes e populares, como Noel Rosa ou Ismael Silva. São, assim, várias as músicas que vai produzindo e lançando, tanto a solo, como em colaborações, como “Roda Vida” – com o grupo MPB-4 – e “Sabiá” – com Tom Jobim; para além de serem muitas as músicas que ia dando para outros artistas consagrados interpretarem. Vencedor do Festival Internacional da Canção em 1968, da TV Globo, deslocava-se em paralelo das fragrâncias que a bossa nova emitia, procurando mais os tiques e os toques de samba e da MPB.

Os álbuns que mais se destacariam, assim, no percurso discográfico de Chico Buarque seriam: “Chico Buarque de Hollanda” (1966), o primeiríssimo álbum, onde se sentem as influências de João Gilberto, mas também da literatura do autor João Guimarães Rosa. Algumas das faixas, com mensagens sociais e políticas (como a remota “Pedro Pedreiro”), levantam a ponta do véu da contestação ao regime militar vigente, que procurava usar as suas músicas com significados propagandísticos. No entanto, nunca permitiu que algum trabalho seu fosse usado para esse fim. Entretanto, trata-se de um disco marcante no sentido em que o aproxima da literatura, do teatro e do cinema, que vincaria este confronto com o palco político. “Construção”, de 1971, é outro dos registos que mais marca a carreira de Buarque, sendo posterior ao exílio a que se compromete em Itália. O lirismo cruza-se com um sentido crónico e com a apetência pela proximidade com a vida operária, que o levou a ser olhado com vista ainda mais grossa pelo Estado. Segue-se “Chico Canta/Calabar”, datado de 1973, numa colaboração com o dramaturgo Ruy Guerra, interpretando a peça deste “Calabar – O Elogio da Traição”. Um mulato, de seu nome Domingos Fernandes Calabar, toma partido pelos holandeses perante a coroa portuguesa é condenado à morte, sendo uma narrativa que, real, sente muita correspondência com o estado das coisas nessa contemporaneidade brasileira. O regime cerrava fileiras ao ponto da capa do álbum ter de se tornar totalmente branca. O investimento nesta peça viria a ser obstado pelo regime, que proibiu a peça na qual se inspirou o disco.

Três anos depois, “Meus Caros Amigos” (1976) é uma coleção de trabalhos feitos para peças de teatro e filmes, vindo depois de uma repressão ainda mais forçada que o levou a assumir o pseudónimo de Julinho de Adelaide (destaca-se a música “Jorge Maravilha” deste seu alter-ego). Procura, de igual forma, aqui, dar voz à perspetiva feminina naquela sociedade, e também visar alguns dos seus colegas, que se encontravam exilados em Portugal ou em outros países americanos. A perspetiva desse eu lírico feminino foi uma das linhas diferenciadoras da música do cantautor (“O Cio da Terra”, de 1977, música composta com Milton Nascimento, é outro exemplo dessa postura), compondo algumas músicas para algumas das mais ilustres vozes femininas, como Nara Leão (“Com Açúcar, com Afeto”), Maria Bethânia (“Olhos nos Olhos” e “Teresinha”), Elis Regina (“Atrás da Porta”) e Gal Costa (“Folhetim”). 1978 traz um álbum homónimo de Chico Buarque e uma nota de crescimento no seu potencial lírico, que joga com as palavras e com as simbologias para formar mensagens de confrontação ao regime. Canções proibidas, como “Apesar de Você” ou “Cálice”, conhecem aqui a sua edição discográfica. Já nos anos 90, “Paratodos” (1993) chega como uma retrospetiva introspetiva, que reflete na sua rebeldia e na sua vida subversiva, mas também na sua ligação ao seu país, à arte e às expressões do tempo. É mais a literatura que começa a dominar os dias de Chico, assim como as suas peladinhas de futebol, hábito que começou ainda na sua mocidade. “Chico” (2011) expressa essa fadiga de uma carreira musical intensa e repleta de trabalho(s), mas que revaloriza a importância do amor em várias tonalidades, nomeadamente com a ajuda da valsinha e do choro.

A abrangência artística de Chico Buarque é, assim, desdobrada pela sua participação em direções artísticas e musicais de alguns filmes, como “Quando o Carnaval Chegar” (1972), “Os Saltimbancos Trapalhões” (1981); tal como pelas canções-temas que deu a “Bye Bye Brasil” (1979) e “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976, aqui com a atriz Sónia Braga). Conheceu, também, duas adaptações de romances seus na grande tela, com “Benjamin” (2003) e “Budapeste” (2009). Aliás, é dessa literatura que também é feito grande parte do percurso de carreira de Buarque, dando origem a peças de teatro e a obras. Para o palco, escreveu “Roda Viva” (1967, protagonizado por um cantor que decide mudar de nome para o agrado do público e da indústria musical vigente nos anos 60, foi uma peça que marcou a resistência ao regime opressor), “Gota d’Água” (1975, em co-autoria com Paulo Pontes, uma tragédia familiar numa favela do Rio de Janeiro, envolvendo um compositor popular que se vê forçado a entregar-se ao empresário em prol da sua carreira, deixando a sua família), e “Calabar – O Elogio da Traição” (1973, aludindo ao trabalho feito com Ruy Guerra.

Isto para além d’”A Ópera do Malandro (1978, uma adaptação da Ópera dos Mendigos, de John Gray, e uma da Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht; uma narrativa na década de 40 que ilustre o peso do jogo, do contrabando e da prostituição na vida de um cafetão e da sua esposa). Ainda foi o responsável pela composição musical, ao lado de Edu Lobo, da peça “O Grande Circo Místico” (1983), tendo, como inspiração, a poesia de Jorge de Lima. Antes, havia musicado, para a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o poema “Morte e Vida Severina”, do autor João Cabral Melo. Os romances chegam nomeadamente nos anos 90, com “Estorvo” (1991, uma obra com caraterísticas existencialistas e que fazem repensar as estruturas sociais de um indivíduo), “Budapeste” (2003, narrado por um homem que é responsável por escrever cartas, crónicas, discursos e livros para terceiros, mantendo-se anónimo até ao momento em que é forçado a ir a Budapeste, mudando toda a sua vida), e “Leite Derramado” (2009, numa visão retrospetiva e geracional desde as linhagens portuguesas até ao momento do leito da morte de um homem, traçando a história do Brasil a partir dessa genealogia). É um caminho que começa cedo, mas que culmina nestes anos, arrecadando o Prémio Jabuti em 2004 e em 2010, para Livro do Ano (gerou polémica por nem ter sido nomeado para o Prémio de Romance do Ano), e o Prémio Camões em 2019.

“De tanto me devotar ao meu ofício, escrevendo e reescrevendo, corrigindo e depurando textos, mimando cada palavra que punha no papel, não me sobravam boas palavras para ela.”

Budapeste (2009)

Algumas das polémicas com as quais se foi deparando nos anos mais recentes são uma pequena gota no lago de problemas com as quais se deparou no início da sua carreira. Um feitio decidido levou-o a deixar de participar em programas televisivos, ao ponto de nem sequer ser referido e usado nos programas da TV Globo. Eventualmente esta tensão arrefeceria, juntando-se a Caetano Veloso em alguns programas, já bem distantes da década de 70. Muito também por conta do que doutrinava as agendas das indústrias televisivas, pautadas pelo regime militar, com o qual Buarque nunca teve a melhor das relações. No seu autoexílio em Itália, atuou ao lado de Toquinho e procurou proteger-se a partir do seu pseudónimo, Julinho de Andrade, enquanto não deixava de denunciar as condições socioeconómicas do seu país. Julinho de Andrade chegou a ser tão levado a sério que tinha cédula de identidade e dava entrevistas à imprensa. As suas amizades com Caetano Veloso e a irmã deste Maria Bethânia colocavam-no, de igual modo, na linha da frente da oposição ao regime.

Chico Buarque de Holanda continua a ser um dos vultos mais marcantes da cultura brasileira, extravasando as barreiras impostas por cada género artístico. Entre músicas que compôs e interpretou, emprestou outras tantas a várias das vozes mais consagradas do país e apresentou enredos e argumentos nos palcos e fora deles, no conforto desassossegado do romance. De um rol extenso de trabalho que foi brotando das suas raízes brasileiras, continua a estendê-las em prol das gerações sucessivas de artistas que o Brasil vai sabendo produzir. Da memória, ninguém apaga a história que Chico soube compor e que vai compondo ao longo de uma eternidade que parece real e mesmo sem final.

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