O que Franz Kafka e Albert Camus nos ensinaram

por Lucas Brandão,    1 Dezembro, 2016
O que Franz Kafka e Albert Camus nos ensinaram
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Franz Kafka foi um daqueles que viu mais longe. Não foi dos poucos mas foi um distinto. Tão distinto que até o seu nome virou adjetivo. Tudo aquilo que se liga ao absurdo, ao estapafúrdio, ao insólito, diz respeito ao que Kafka deslindou na sua literatura. Neste caso, parece que não foi o autor que se adaptou à sociedade mas a sociedade a Kafka.

Isto tornou-se habitual em todas as gerações que se foram inspirando nas linhas e nos preceitos deste e daquele autor. Por si, o disparate da existência humana conheceu uma retumbância impressionante e horripilante nos conflitos mundiais que se abateram no pós-Kafka. Tudo isto para além dos sonegados e ignorados atritos entre muitos outros. O mundo tornou-se kafkiano de forma paulatina mas imparável. Não houve metamorfose que acorresse em salvação da história da humanidade. Arrastou-se num moroso e atribulado caminho perante a complexificação do ser humano. A ciência ajudou para que tudo se tornasse mais anónimo e estranho para as gerações que foram subsistindo. Para aquele que assiste ao longe, tudo parece tão distante. Assim foi.

O mundo continua kafkiano. Continuamos entregues a rotas sem fim de burocracia e de um método que nos deixa tão desgastados. O lazer torna-se necessário e é cada vez mais pertinente reivindicá-lo. A ciência surge como uma oportunidade mas também como uma ameaça perante a existência de uma máquina que vai sabendo cada vez mais. Perdendo as medidas à megalomania, quiçá o que poderá ser desta para além do potencial destrutivo que já demonstrou possuir.

Vamos lendo e percebendo no que nos metemos. Deixamo-nos ir, deixamo-nos entregar a realidades que confirmam algumas das mais recônditas distopias. Quem dera a todos que se tratassem das utopias. Não é o caso. Somos também vítimas daquilo que outros foram galgando e, no ápice das suas delegações, foram apregoando. Direta ou indiretamente, ninguém se escapou a esta direção. De tudo isto se formulou um procedimento que se foi arrastando pela burocracia denunciada e apontada por Kafka. O mundo foi sendo kafkiano. Sem que muitos dessem conta, tornou-se assim. Sem pedir licença.

Por sua vez, Albert Camus bem vinha apontando o absurdo da existência. Não se cansou de militar em discursos filosóficos para sustentar a tese que lhe valeu um Nobel. Todas as reflexões são poucas para comprovar aquilo em que nos fomos metendo. A filosofia parece parca numa tentativa de resposta autêntica e assertiva sobre o estado das coisas. A vida tornou-se cada vez mais absurda nesta abundância de mecanização e de mercantilização das almas e dos talentos. Até da religião se fez negócio. Tornou-se tudo cada vez mais absurdo. Porém, e como asseverado, o suicídio não é a solução.

Fomos crescendo sem ligar muito a isto. Fomos indo e vendo. Alguns dos mais acérrimos críticos colocaram isto e aquilo numa equação disposta a ser falível. É aqui se une a razão e a alma, a filosofia e a ciência. Questionar a realidade a partir da experimentação, da observação direta e de uma constante averiguação daquilo que é o mundo. As divagações tornaram-se cada vez mais experiências científicas. Tudo isto para aquele que se dispôs a tentar formular respostas e teorias para toda a dinâmica que vem dominando desde cedo.

A literatura é um argumento valioso no debate daquilo que é o mundo. Nada surge num acaso ou numa perspetiva de ocaso. Tudo tem um rumo plenamente definido e não se desvirtua daquilo que de facto existe. Talvez seja absurdo mas é preciso perceber porquê e dar-lhe um mote de compreensão. Não a deixar como incógnita sem resolução à vista. O mundo vai rodando e efetua a sua translação com questões eternas por serem respondidas. Entra o subjetivismo da ótica de cada um, com interpretações várias daquilo que lê e daquilo que se admira. Por vezes, geram-se as falaciosas ondas de fanatismo e de populismo. É fácil cair nesses desígnios, especialmente quando a razão já não tem paciência para mais desta fanfarronice. Tempo de um fôlego que, apesar de criativo, traga os resultados solicitados pela investigação científica.

Franz Kafka e Albert Camus convergem aqui nesta necessidade de visualizar o mundo como um caminho cada vez mais burocratizado e intrigado. O absurdo previsto por um é corroborado por outro. Ninguém até à data trouxe uma proposta de resposta, um modelo para questionar tudo aquilo que foi escrito. Talvez por sombras se tenha pensado nisto e naquilo da história, nisto e naquilo deste ou daquele caso mais pessoal. O egoísmo da humanidade foi muitas vezes um empecilho para se completar essa visão global do mundo. O ser humano confirmou as expectativas que o absurdo continha em si. Não foram isoladas mas suscitadas por uma história recessiva na ilusão de uma estrutura progressiva. Simplificou-se a prática quotidiana mas pouco mais. O absurdo permaneceu na intenção, na desmesura do consumo e do desejo de possuir, de ter, de ostentar. Só isso acabou por aprofundar aquilo que tanto um como outro tentaram abordar e explicar. Muitos não perceberam e deixaram-se andar. Caminharam para um abismo cujo limite está guardado para o futuro. Como será? Não são muitos aqueles que se arriscam em prognósticos para aquilo que reserva o que está por vir. Todavia, eis uma certeza. Tanto Kafka como Camus não estão aí para detetar o que se passa nem para propor o que seja. Cabe àqueles que observam a conjuntura de acordo com os seus princípios, ideais e crenças, dentro de um prisma de atuação equilibrado e que a todos beneficie.

A conclusão é simples: o mundo está kafkiano. Todos nós caímos este espartilho no qual estamos oprimidos por uma burocracia silenciosa, na qual a tessitura de toda a política e de todo o negócio é difuso e se distancia do comum civil. Estamos longe dos lugares de controlo e do poder das influências. Poucos conhecem qual é este jogo. Porém, fomos avisados. Isto não é novo nem divergente do que fora previamente anunciado. A literatura, essa visionária mas alucinante e mirabolante modalidade artística, deu às asas e contou umas coisas engraçadas. A malta levou aquilo como interessante para repensar isto e aquilo mas pouco mais. Entregou-se às lendas e aos ádagios que saltam em tempo de debates ou de comentários de aparentes percebidos. Para mostrar quem sabe, para exibir laivos de cultura. Contudo, haverá um pensamento crítico realmente consistente e fundamentado nas obras dos mais excêntricos? Existirá coragem? Pois bem, o suicídio volta a não ser solução. Não há volta a dar ao absurdo da existência porque não temos mesmo cura. Podemos ir diminuindo o impacto de todo este caráter rebuscado e crescer um bocadinho mas não chega. Franz Kafka e Albert Camus bem tentaram advertir o caminho que fomos seguindo e são estes os atuais detentores da razão. Quem tem as bombas nas mãos somos nós, cabendo a nós saber detoná-las. Que se traga um tal rasgo de uma irreverente mas consciente diplomacia, sendo para nós mesmos, para os outros e para aqueles que bem nos avisaram.

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