Quarentena. A ditadura é fixe!

por Rui Cruz,    27 Abril, 2020
Quarentena. A ditadura é fixe!
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Rui Cruz é humorista, stand up comedian e um génio (palavras dele). Escreve coisas que vê e sente e tenta com isso cultivar o pedantismo intelectual que é tão bem visto na comunidade artística.

Desde que estamos todos (ou quase) fechados em casa que as interacções sociais que temos resumem-se às redes sociais. Sabemos como está a moral do país pelo que lemos nas timelines, sabemos o que anda a malta a ver pelos posts que fazem, sabemos o que está a bater pelas hastags que chegam a trend… As redes sociais substituíram o bar ou o jantar de grupo em que debatemos algum tema, em que nos recomendam uma série ou onde conhecemos alguém. Hoje é tudo por aqui. O problema é que ir às redes e não sair com uma depressão ou um esgotamento está cada vez mais difícil, pelo menos para mim.

Desde que tenho redes sociais que sempre tentei manter uma timeline pluralista (também pela profissão que tenho), onde pululam várias crenças, etnias, ideais, orientações sexuais e clubes, uns mais representados do que outros, é certo, devido ao gosto pessoal de quem me segue, especialmente no Facebook, mas bastante equilibrada nas pessoas que eu escolho seguir na rede social que mais utilizo, o Twitter. Do Pinto-Coelho do PNR ao Mamadou Ba do SOS Racismo, da Fox News à CNN, do Papa aos Cradle of Filth, do Vlachodimos ao Francisco J. Marques, da Câncio ao Nuno Melo, sigo tudo. E faço-o para assim tentar não criar uma bolha que seja apenas a ressonância da minha própria opinião e para ser confrontado com outras opiniões e visões do mundo. Acontece que, mesmo assim, acabo sempre por ter uma noção limitada da sociedade, a amostra que possuo é grande, mas não cobre tudo e eu não estava preparado para o aumento de utilizadores ou da frequência de posts que tivemos desde que foi decretada a quarentena. E o que tenho visto e que, sinceramente, não esperava, mais do que estupefacto, tem-me deixado apreensivo e triste.

Que nos últimos anos a política se transformou num jogo de futebol não é surpresa para ninguém, todos sabemos que os apoiantes da direita e da esquerda nas redes tornaram-se, na sua maioria, hooligans que gritam, insultam e desrespeitam o adversário e são incapazes de fazer autocrítica. Até aí tudo bem, é patético, mas é o que é. No entanto, uma coisa que me tinha escapado até aqui, talvez devido a estarem ocupados com saídas, namoros, copos e aulas e agora terem mais tempo para estarem nas redes, é a quantidade de jovens que no twitter defendem e quase clamam por ditaduras, sejam elas de esquerda ou de direita. E atenção, quando digo jovens… são mesmo jovens, com idades entre os 16 e os 26! Desde liberachos a defenderem Salazar e Ventura, a dizerem que Bolsonaro devia era instalar uma ditadura militar no Brasil para meter aquilo na ordem e que o Trump é vítima de uma cabala mundial que o quer mandar abaixo porque ele está a defender o povo americano do marxismo cultural e devia era ficar lá para sempre, até esquerdalhos a elogiarem o regime da Coreia do Norte e da Venezuela e a dizerem que todos os que não apoiaram o fuzilamento de gente em praça pública no PREC e não apoiaram o golpe de 25 de Novembro são reacionários fascistas, passando pela total criação de dogmas mais apertados do que muitas religiões, já vi de tudo. E se há muitos liberachos que o fazem porque estão já a preparar o lugar na Jota de direita mais próxima ou porque alguém do Observador pode ler e o papá pedir para publicarem “a opinião muito disruptiva” do Martinzinho nas crónicas e se há, igualmente, muitos esquerdalhos que o fazem para ver se papam meia dúzia de alternas e ganham aquele selo de pseudo-intelectual que tão bem fica com o cheiro do tabaco de enrolar naquelas noites de spoken word com 5 pessoas, num colectivo de artes que é, basicamente, só um sítio para fumar erva e beber barato porque a casa foi herança da família rica que a directora esconde, outros há que estão mesmo a falar a sério. “As ditaduras do meu lado político são tão fixes que nem são ditaduras”.

Não sei se é por não terem vivido nem um minuto numa ditadura, não sei se é porque ouvem os pais a queixarem-se em casa, não sei se é por ignorância, se é por maldade ou se é porque romantizam os seus ideais, o que sei é que o número de putos que pensa e se manifesta assim é assustador. Quase tanto como a desonestidade intelectual dos miúdos que o fazem, porque não é incomum assistir a discussões onde pequenos gebos liberachos dizem coisas como “temos de acabar com a esquerda, a esquerda quer acabar com a liberdade individual, isto precisa é de um Salazar outra vez, com ele havia cofres cheios!” e pequenos burgessos esquerdalhos respondem com “liberdade? Sabes lá o que é liberdade! Em Cuba são todos médicos e na Coreia do Norte não se pagam casas. Com Salazar não podias estar aqui a escrever!”, isto quando não acabam com coisas como “o nazismo é esquerda! Era nacional socialismo! A esquerda é nazi!” ou “os lideres comunistas foram todos corrompidos pelo imperialismo americano. O comunismo nunca foi aplicado porque não deram tempos aos líderes! Só morreram as maçãs podres, o resto são mitos capitalistas!”

E é por isto que se torna difícil ir às redes agora, porque ver a próxima geração, a que vai mandar nisto em pouco tempo, com ideias e ideais tão extremados e errados, assusta. Assusta e prova que a democracia, ou pelo menos esta democracia, falhou. Anos e anos de políticos profissionais, de elitização da classe governante, de compadrios, corrupção e tráfico de influências, de romantização da história e de mau ensino da mesma afastaram uma grande fatia da população jovem do processo democrático e de perceberem, inclusivamente, a sua importância, transformando-a numa massa de miúdos irritada e irritante que vê no ódio e na aniquilação do adversário a única resposta. Numa geração que é assim e que, para além disso, foi criada a arranjar todas as desculpas para os seus insucessos pessoais, é muito fácil aparecer alguém que crie um inimigo falso, aquele que é culpado de tudo (os judeus, os intelectuais, os imperialistas, os muçulmanos, etc., etc.), e que, falando alto, assuma ter todas as respostas, o “líder”. E o maior problema é que esses líderes já começam a aparecer e quando lá chegarem, nos braços desta canalha, vamos todos perguntar como é que isto aconteceu, mas só na pausa do Big Brother Vintage- O Regresso do Zé Maria.

E aqui ficam as sugestões do dia.

Patrice O’Neal – Elephant In The Room

Música:

Recoil – Unsound Methods

Cinema:

Alex Proyas – The Crow

Literatura:

Arthur Conan Doyle – O Mundo Perdido

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