Quarentena. Amor em tempos de Covid-19

por Rui Cruz,    3 Abril, 2020
Quarentena. Amor em tempos de Covid-19
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Rui Cruz é humorista, stand up comedian e um génio (palavras dele). Escreve coisas que vê e sente e tenta com isso cultivar o pedantismo intelectual que é tão bem visto na comunidade artística.

Hoje não me apetece falar do Covid-19 por si só. Podia falar de termos atingido o primeiro milhão de infectados, podia falar dos EUA terem batido o record de mortes em 24 horas ou do facto de terem aparecido os primeiros casos de contágio nos campos de refugiados da Grécia, mas não estou na disposição. E porquê? Porque estou extremamente ressacado devido a ter estado umas 3 ou 4 horas, pela madrugada adentro, a fazer facetimes com amigos e filtros nas trombas enquanto bebíamos o que tínhamos em casa, o que estando a falar de mim e dos meus amigos nunca é só uma garrafa e vinho ou uma mini que ficou ali esquecida daquele six-pack que se comprou para ver o Benfica-Aves. Não, bebeu-se muito. E é disso que eu vou falar hoje. Não da bebida em si, mas do amor em tempos de Covid.

São inúmeras as coisas horríveis que esta pandemia está a causar. Mortes, falências, a EDP fazer uma campanha solidária para angariar fundos sem baixar o preço da electricidade da casa do cidadão comum que se vê obrigado a estar fechado… tudo isto faz parte do leque de coisas dolorosas que o corona nos trouxe, mas no meio disto há uma mudança social que pode ser positiva se se mantiver quando tudo acabar: a redescoberta da amizade e das relações interpessoais. Nunca, nos 34 anos da minha vida, vi as pessoas mais atentas ou disponíveis para os amigos como agora, nunca vi tanta necessidade de conversa e genuína vontade de partilhar dores e tristezas, nunca vi tanta vontade de reactar laços perdidos, ligar àquele amigo de quem já não sabemos nada há ano e meio e que de quem quando nos lembrávamos só dizíamos “tenho de lhe ligar um dia destes”.

A quantidade de facetimes, chamadas, mensagens, zooms, whatsapps, skypes, lives, etc. que já fiz, já me fizeram e já vi postarem desde que isto começou é descomunal. Eu chego a ter dias com uma vida social mais activa agora, que estou preso em casa, do que quando podia sair! Há dias em que chego a ter de fazer horários! Se isto continua assim, vou ser amigo do Costa e combater o desemprego porque vou ter de contratar uma secretária. E porquê? Porque sem as distrações supérfluas que temos no nosso dia a dia, sem a correria e o ritmo de vida que a sociedade de hoje nos impõe, sem a necessidade de sermos os melhores/mais bem sucedidos/os mais populares ficamos com a cabeça e o coração limpos para percebermos o que é, de facto, importante: as pessoas que fazem parte da nossa história.

Combinam-se jantares e festas, passeios e viagens, encontros e reecontros sem data marcada, mas com genuína vontade que aconteçam. Contam-se os receios, fazem-se planos, criam-se projectos… Há, finalmente, um espírito de comunidade e um desejo de “estarmos juntos”, sem termos de fazer cosplay de Chernobyl. E eu acho isso bonito.

No entanto, confesso que mais do que ter medo do vírus, tenho medo que isto seja passageiro ou que tudo volte ao mesmo pouco tempo depois da quarentena acabar. “A internet aproxima-nos de quem está longe e afasta-nos de quem está perto”, é uma frase que ouvi uma vez e que repito amiúde porque, de facto, concordo com ela. E hoje estamos todos longe e é pela internet que falamos, daí o meu receio. Porque vai haver o dia em que voltamos a estar “perto” outra vez. E é nesse dia que não podemos, nem devemos, esquecer que a internet nos juntou quando o mundo nos trancou, mas que somos nós que nos afastamos quando o mundo está à nossa disposição e que somos nós que preferimos ignorá-lo para continuarmos neste culto do “longe”.

Resta-me esperar que, no meio de tanta coisa negativa, consigamos tirar meia dúzia de lições nisto do Covid e que comecemos uma nova era, mais empática, mais humanista, mais próxima. Eu pelo menos já tirei, e 2!

1- vou estar mais atento a todos amigos que tenho.

2- não volto a misturar vodka e vinho tinto no mesmo copo.

E aqui ficam as sugestões do dia.

Comédia:

Iliza Shlesinger – Elder Millennial

Música:

Banda do Casaco – Coisas do Arco da Velha

Cinema:

James Ponsoldt – The End Of The Tour

Literatura:

Ian Livingstone, Steve Jackson – Fighting Fantasy/Aventuras Fantásticas (colecção)

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