Quem foi Manuel Sérgio?

Não sei que horas eram. A noite passava a fronteira da adolescência, como eu, um miúdo de 15 anos a pensar seriamente em tornar-se o melhor treinador do mundo. Até que o telemóvel me surpreendeu com uma chamada recebida fora de horas: “Está, Francisco? Daqui o Professor Manuel Sérgio!”. Levantei-me do sofá, comecei a andar às voltas pela sala, enquanto um professor catedrático quase octogenário me dava na cabeça (não há outra maneira de o dizer) por causa de erros grosseiros num trabalho que eu fizera sobre o José Mourinho. A pergunta impõe-se: como é que um professor que não era meu professor tinha em suas mãos um trabalho de um aluno que não era seu aluno? Passo a explicar.
De vez em quando, numa manifestação de rara bondade, a escola onde eu andava permitia que eu faltasse às aulas para ir à Faculdade de Motricidade Humana assistir a palestras de treinadores de futebol. Um dia, fui ouvir o Jorge Jesus, treinador do Benfica, e aquele que naquela altura era o seu principal conselheiro, o Professor Manuel Sérgio, um conhecido filósofo, outrora deputado da república, com uma extensa reputação por variadíssimas obras publicadas muito relevantes e por ser uma espécie de guru de vários dos melhores treinadores do mundo, entre os quais José Mourinho. No fim da conferência, fui ter com ele e, de mão estendida, entreguei-lhe um trabalho escolar em cujas páginas finais constavam os meus contactos. Pensei, como é normal, que iria ser ignorado, até que na noite seguinte recebia o já mencionado e inesperado telefonema.
Combinámos almoçar. Pediu-me, uns dias depois, que fosse ter com ele ao Vip Inn da Avenida de Berna, hotel que mais tarde percebi ser o seu lugar de eleição para almoços intermináveis com médicos, gente do desporto ou políticos. Timidamente, apanhei o autocarro e sentei-me à mesa, a pensar por que raio um professor medalhado quereria almoçar com um miúdo, estudante do 10.º ano e treinador adjunto dos iniciados do Sporting Clube de Linda-a-Velha; por que raio um homem que falava de cor sobre Aristóteles, Descartes, Edgar Morin, Teilhard de Chardin e Rómulo de Carvalho estaria disposto a sentar-se frente-a-frente com um miúdo que deveria estar sentado numa sala de aula? Depois, porque o tempo cura algumas das mais insanáveis feridas da curiosidade, ao finalmente frequentar um curso seu, sobre Motricidade Humana e Futebol, constatei que a interrogação era um modo de vida permanente naquele homem embalado por uma sede imensa de satisfazer as maiores e mais difíceis perguntas às quais o desejo do coração deve procurar responder. É verdade que era, como todos somos, um mosaico de contradições: padecia da vaidade dos homens cultos ao mesmo tempo que se derretia com o que os alunos lhe podiam ensinar. A evidência dessa sua inabalável inquietação foi quando, na primeira lição do curso de que falei, nos declamou como pontapé de saída o poema Reminiscência, de Fernanda de Castro, narrativa sobre a conclusão a que chega uma rapariga perigosamente sábia: “Ó mãe, eu não sei nada!”.
Fomos permanecendo a conversar, o Professor Manuel Sérgio e eu. Ele apanhava o “táxi do costume” e eu ia crescendo aos ombros daquele gigante humanista, que ouvia atentamente as minhas inquietações – já tinham sido as dele – enquanto me dava preciosos conselhos: “Francisco, assine a Brotéria”, “Francisco, leia o António Damásio, o Peter Drucker, o Lobo Antunes”, “Francisco, nunca se esqueça que quem só sabe de futebol nada sabe de futebol”. Ainda hoje guardo frases inesquecíveis que moldaram a minha visão do mundo, do desporto e do Ser Humano em movimento. E não fui a única peça de barro a edificar-se com aquelas mãos de oleiro. O Professor Manuel Sérgio marcou muitos alunos; provocou um terramoto, nomeando, com a sua tese de doutoramento, a nova Faculdade de Motricidade Humana (anterior ISEF), para choque de muitos professores de educação física; influenciou intelectuais como Tolentino Mendonça, Gonçalo M. Tavares ou Medeiros Ferreira e alastrou um pensamento moderno e singular por entre as salas do mundo académico e os balneários do mundo do desporto. Porque o Professor Manuel Sérgio era um intelectual particular: falava de futebol, lia e escrevia n’Abola, tinha sentido de humor, sabia contar histórias, educava e ensinava como poucos, não era enfadonho como muitos, desafiava algumas instituições, vivia, como fazia questão de repetir “entre Marx e Jesus Cristo”, e pretendia, nas suas aulas, deixar “uns pozinhos para depois os alunos pensarem com a própria cabeça”.
Como um verdadeiro mestre, dava-lhe um gozo imenso apostar no potencial humano de cada um dos alunos, e posso dizer que fui um dos privilegiados a testemunhar a sua paixão inimitável por ver o outro além de um simples olhar, isto é, por educar. O desporto era, para ele, uma maneira de o Homem transcender-se, e era essa a estrada que, segundo ele, os seus alunos deveriam percorrer, sem medos, barreiras ou hesitações. Penso não estar a incorrer em exageros se disser que esta mundividência foi sempre a grande responsável dos largos passos de alguém que nasceu pobre, iletrado e sem meios para estudar, tivesse a Base do Alfeite como embrião e a cátedra, a assembleia da república e os mais emblemáticos estádios de futebol como “verdadeiro lugar de nascimento”, como conta Adriano, nas memórias escritas por Yourcenar. O Professor Manuel Sérgio teve a graça e o condão de tocar ao mesmo tempo no cerne do povo e dos intelectuais. Foi diretor do Belenenses, influenciou Pedroto e Mourinho, fez parte da equipa técnica de Jorge Jesus, fundou um partido e foi eleito deputado único, escreveu obras canónicas no desporto internacional (até Guardiola o teve como referência).
Era um homem disponível e acessível. Um dia perguntei-lhe se me ajudava a conhecer o José Mourinho. À minha frente, enviou-lhe um e-mail e, à conta de um empurrão, fui parar a Cobham, o centro de estágio do Chelsea. Mais tarde, a seleção sub17 da Índia estava a estagiar em Portugal. Pensámos que aqueles miúdos deveriam conhecer o seu pensamento. Pedi-lhe, então, para ele aparecer no estágio. E lá foi ele todo contente falar do “movimento intencional da transcendência”, enquanto eu traduzia para uns quantos jogadores indianos boquiabertos com tanta energia octogenária.
O professor Manuel Sérgio e eu mantivemos um contacto regular. Sempre no mesmo hotel, sempre na mesma mesa, sempre no mesmo buffet. Embora o andar fosse agora mais lento e trémulo, manteve acesa a chama e animado o impulso de pensar, escrever e publicar. Embora, mais recentemente, se repetisse quando falava, a modernidade que portava nunca passou de moda, foi sempre contemporânea ou mesmo premonitória.
O legado humanista do Professor Manuel Sérgio carece de uma urgência nunca antes vivida: o desporto deve ser levado a sério e, para compreender melhor a existência, é preciso estudá-lo e transportar as virtudes e os defeitos nele contidos para o centro da sociedade, como coisa profundamente viva e, por isso, profundamente humana.
“Porque tudo o que é humano está no desporto”.