Terapia de Divã: os sonhos com o neurologista Alexandre Castro Caldas

por Ana Isabel Fernandes,    2 Maio, 2020
Terapia de Divã: os sonhos com o neurologista Alexandre Castro Caldas
Ilustração de Simone Roberto/CCA
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(‘Terapia de Divã’ é a nova rubrica da Comunidade Cultura e Arte dedicada à psicologia. Semanalmente, temos todos um encontro marcado neste divã, para, com o auxílio dos especialistas, discutirmos e entendermos melhor os mais variados assuntos – desde a sociedade até à criatividade – à luz do enquadramento psicológico. Os sonhos são o nosso ponto de partida).

Se há algo intrigante nos sonhos, é a sua relação intrincada com a nossa memória. Na verdade, tal como o neurologista Alexandre Castro Caldas – director do Instituto de Ciências de Saúde da Universidade Católica Portuguesa e ex-professor catedrático de Neurologia da Faculdade de Medicina de Lisboa e director do Serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria de Lisboa – me confirmou, o sonho é fundamental para o processo de construção das nossas memórias. É essa a sua função. Embora os sinais do hipocampo e a memória episódica estejam travados enquanto dormimos, a verdade é que conseguimos aceder às recordações dos objectos, espaços e pessoas em geral.

A par disso, os nossos processos emocionais estão activados, por isso é que podemos acordar em sobressalto, alegres ou preocupados com taquicardia. Mas, o mais interessante é que na fase REM [Rapid Eye Movement], a última fase do sono, movemos muito rápido os olhos, tal como se estivéssemos a ver um filme. Essa actividade está ligada ao córtex sensorial e, também, às imagens visuais, daí a dúvida que ficou: a actividade onírica pode contribuir para o desenvolvimento e ampliação daquilo que a nós chamamos de memória fotográfica? Embora o neurologista tenha afirmado não ter conhecimento de nenhum estudo experimental sobre essa hipótese, explicou-nos, na entrevista que se segue, o que se passa no nosso cérebro quando sonhamos e a relação do sonho com a memória.

Alexandre Castro Caldas / UCP

Quando se abordam os sonhos destaca-se, geralmente, a fase REM [Rapid Eye Movement] como a fase do sono em que estes acontecem. Mas também podem existir sonhos em outras fases do sono, não podem?

Bom, a experiência que há é que, de facto, se acordarmos a pessoa na fase REM, temos a garantia de que há sonho. Se a acordarmos nas outras poderá haver ou não. Nem sempre existe, mas pode existir. Portanto, não é obrigatório que ele exista, mas a fase REM é que é, francamente, o pico da actividade onírica. 

Exacto! Mas nas outras fases do sono torna-se mais difícil termos consciência desses sonhos.

Vai havendo sonhos, assim aos bocados, muito provavelmente. É sempre muito difícil termos certezas acerca do que se passa quando estamos a dormir porque não temos forma de ter informação consciente das pessoas. Mas, a experiência que há a partir dos vários acordares das pessoas, se forem acordadas fora do período REM, é que existe alguma actividade onírica. Não é constante, no entanto.

Sempre me interessou muito a possível relação do sonho com a memória. Mas a questão que lhe vou colocar é bem específica. Há alguma relação entre o sonho, o exercício de nos recordarmos dele, e a possível ampliação ou desenvolvimento daquilo a que, comumente, chamamos de memória fotográfica?

Não tenho conhecimento de nenhum trabalho experimental que demonstre isso. Sem dúvida, o sonho tem muito a ver com memória, é uma actividade de memorização. Há várias fases do sono, geralmente são 4 ou 5 períodos quando a noite é inteira. O que acontece é que, quando chegamos ao primeiro período do sono, há como que um segmentar da informação toda do que aconteceu durante o dia, há o reviver dessa informação. Essa informação é segmentada aos bocadinhos para poder encontrar formas de se ligar ao que já existe dentro dos nossos arquivos. O sonho é exatamente isso, é o ir ao arquivo e fazer o confronto, a associação desses fragmentos que metemos lá para dentro.

Nessa fase, o que se passa é que desligamos a actividade motora, desligamos a memória e não fica nada a não ser essa actividade rapidíssima de andarmos com os nossos arquivos todos a tentar introduzir informação e colar as coisas que lá estão. O que acontece é que, muitas vezes, nós acordamos ainda em cima da fase do sono. Portanto, não existe, exactamente, um período em que acabamos de dormir e acordamos. Há uma certa sobreposição, por isso mesmo, apanhamos os “rabinhos” dessa operação, que se deve passar a uma velocidade enorme, dado que a fase REM é uma fase relativamente pequena em termos de tempo. E com esse restinho de memória, com esse restinho de informação da nossa memória –  porque, nessa altura, quando acordamos, activamos a nossa memória -, construímos uma história muito rapidamente. De tal forma que, muitas vezes, pensamos que estamos a dormir, não damos muita importância e não recontamos a história a nós próprios e, daí a um bocadinho, já não fazemos ideia do que é que era o sonho. Desapareceu, completamente.

Portanto, a única coisa que está ligada durante o período onírico são os movimentos do olhar que estão ligados ao córtex sensorial e, também, às imagens visuais – por isso é que nós movemos os olhos, é como se estivéssemos a ver as coisas, é passado muito rapidamente. Os estudos demonstram, de facto, que se fizermos um teste de memória com um intervalo de 8 horas durante o dia, portanto, aprender a uma hora e daí a oito horas irmos fazer o teste para ver de quantas coisas nos lembramos, lembramo-nos menos do que nos lembraríamos se estivéssemos a dormir as oito horas a seguir. Por isso, o sono consolida as memórias, tem um efeito sobre as memórias. Depois, o que nós temos ainda a dizer sobre o valor dos significados. Se fizermos um teste de memória de coisas más que põem em risco o nosso bem estar, ou de coisas boas, nós decoramos melhor as coisas más do que as coisas boas. É um mecanismo de defesa, muito provavelmente, e nós temos é que sobreviver. Portanto, com mais facilidade guardamos as memórias do que nos pode pôr em risco, decoramos melhor essas coisas. 

Pegando numa deixa da sua resposta (o recontar a nós próprios ou a mais alguém o sonho), que importância ou que processos esse recontar – mesmo que possa ser ligeiramente diferente – vai desencadear? Posso, então, concluir que pode ser uma fase primordial para a sedimentação da memória?

Essas memórias ficam registadas não como memória episódica mas como memória do sonho e não parece que possam ser de utilidade para a nossa vida. 

Num artigo sobre os sonhos que saiu numa edição da revista ‘Courrier’, já de 2018 (artigo traduzido da New Scientist), pode-se ler o seguinte, “as recordações das experiências vividas – a memória dita “episódica” – são armazenadas numa parte do nosso cérebro que se chama hipocampo. Ora, durante o período do sono paradoxal, os sinais provenientes do nosso hipocampo ficam bloqueados. Dito de outra forma: enquanto sonhamos, não temos acesso às recordações específicas do que aconteceu no passado, mas acedemos às recordações gerais das pessoas e dos lugares, elementos que formam o esqueleto dos nossos sonhos” Por essa razão, por não termos acesso a essa memória episódica e pelos sinais do hipocampo estarem bloqueados, é que os sonhos são fantasistas e há uma transfiguração do real que vivemos? 

Exactamente. O exemplo que lhe posso dar é este: imagine que lhe atirava as fichas de um arquivo todas ao ar. É aquilo que se está a passar no sonho. Vendo as fichas, encontro uma forma aleatória de eu contar uma história disparatada, que não faz sentido. São as fichas que estão todas no ar e estão todas desarrumadas. É o que acontece no sonho, mas como eu acordo nessa altura, arranjo maneira de lhe dar um sentido. Dou-lhe um sentido muito construído. Se eu a acordar e se, imediatamente, me disser o que está a sonhar, vai ser diferente do que me vai contar daí a cinco minutos porque, depois, fantasiamos coisas. 

E o ser humano tem sempre aquela necessidade de dar sentido ao que lhe acontece. 

Exactamente. Tem de haver uma relação causal, por que é que isto aconteceu. Daí nós atribuirmos isso a coisas que são do passado ou coisas que são do futuro, e construirmos esses sinais com um significado que, naturalmente, não possuem

Nesse mesmo artigo, explica que as regiões do cérebro associadas aos processos emocionais estão activadas durante o sonho. Isso, também, pode estar relacionado com as reacções físicas que temos face ao sonho? Por exemplo, o acordarmos mais assustados, a transpirar ou, por outro lado, contentes e a sorrir?

Estão, estão. O sistema nervoso vegetativo funciona. O sistema nervoso vegetativo é muito mais primitivo e, depois, a emoção é uma coisa que o corpo sente e nós lemos, não é uma coisa que nós lemos e depois o corpo sente. Portanto, é ao contrário. Eu estou a chorar, por isso devo estar triste, é assim que funciona. Todo esse aspecto emocional acontece porque nós podemos ter um pesadelo e o pesadelo é um resposta a esse sistema vegetativo. A certa altura, eu recorri a algumas gavetas que estavam associadas a coisas mais emocionais. Por isso, nessa ocasião, é que o meu corpo reage e eu acordo em sobressalto, com taquicardia ou outras reacções. 

Mas se esses processos emocionais estão ligados, então podem ir à gaveta das experiências emocionais que estão associadas àquilo que receamos, amamos ou temos medo, certo? O sonho poder fazer a ponte com os nossos anseios mais íntimos? Sei que já estamos a ir para outro campo mas, talvez por isso mesmo, seja ainda mais interessante ouvir a opinião de um neurologista.

Penso que nós é que interpretamos a reacção física do corpo desencadeada durante o sonho como aquilo que nos pode preocupar. 

A neurologia já pode afirmar o porquê de sonharmos? Qual a função do sonho?

A explicação é o processo de memorização. Essa é que é a explicação. É o processo de construção das nossas memórias. A memória não é um processo estático, é um processo muito dinâmico que está, constantemente, em modificação. Nós estamos, sempre, a mudar as nossas memórias. Sou capaz de dizer com toda a tranquilidade, “ai, gostava tanto de ir para aquela praia quando era pequenino.” Depois, quando se pergunta, “então quantas vezes foi?” A resposta é, “ai, ia para lá imensas vezes!” Mas, se calhar, só foi lá uma vez ou duas. Correu bem, no entanto, e por isso mesmo dou mais força a esse passado. Essa modificação vamos sempre fazendo-a e moldando-a. É muito difícil que a memória se mantenha constante toda a vida. Por isso é que os depoimentos de pessoas maltratadas são sempre difíceis de garantir – as memórias ficam um bocadinho alteradas.

O sonho tem imensas abordagens, desde Freud a Jung. Isso leva-nos, impreterivelmente, à noção do inconsciente. A neurologia, no entanto, já tem uma posição diferente face a este conceito. 

Não existe inconsciente. Não, não. Trata-se de uma construção muito interessante, aliás, o próprio Freud achava que tudo isto tinha de ser provado. Mas, de facto, não há nenhuma evidência dessa perspectiva. O modelo era interessante na altura, hoje já não. Aliás, o Allan Hobson, que é o homem que tem trabalhado mais o sonho, era psicanalista. Ele próprio era psicanalista! Uma vez em que esteve cá em Portugal, contudo, sugeri que fizesse uma discussão com outro psicanalista. Hobson respondeu de imediato, “não quero ver mais psicanalistas à frente, já estou farto dessa conversa.” Portanto, acho que é um assunto que está completamente arrumado, neste momento.             

Como o tema é bastante vasto, com diversas perspectivas, o ‘Terapia de Divã’ da próxima semana irá dar continuidade ao tema Sonhos, desta vez com a perspectiva do psicólogo clínico João Furtado, que irá abordar o processo de análise de um sonho à luz da psicologia analítica. Fiquem atentos!

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