Uma Palavra Começada por N é um convite de excelência ao imaginário único de Noiserv

por João Miguel Fernandes,    24 Setembro, 2020
<i>Uma Palavra Começada por N</i> é um convite  de excelência ao imaginário único de Noiserv
Design da capa de Nuno Sarmento
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É um dos músicos mais queridos do público português. David Santos, mais conhecido como Noiserv, encanta pela sua humildade e simplicidade, algo que se denota também na sua música, que, misturada com o seu enorme talento, resulta num projecto único em Portugal.

Já lá vão alguns anos desde que a aventura de David Santos começou. Em 2005 gravou a sua primeira demo e em 2008 lançou o seu primeiro álbum. Desde então tem tocado nos maiores palcos nacionais e no estrangeiro, editou vários álbuns, trabalhou para cinema e ainda tocou nos You Can’t Win, Charlie Brown, outra banda de excelência em Portugal. Os pontos comuns ao longo de todos estes anos? Os já referidos humildade e talento.

Fotografia de Vera Marmelo

Uma Palavra Começada por N é o novo álbum de Noiserv, com a edição marcada para o dia 25 de Setembro. Desde Dezembro que o artista tem editado uma nova canção por mês em antecipação do disco, que conta com 11 faixas, todas cantadas em Português, mas com a sonoridade já conhecida do músico. No entanto, apesar da sua identidade tão própria saltar de álbum para álbum, não se sente que seja uma repetição do que já foi feito anteriormente.

A carreira de Noiserv é feita de muita qualidade, mas também muita atenção ao detalhe e planeamento. Os lançamentos físicos dos seus discos são sempre especiais, com edições bastante originais. Este novo álbum não é excepção à regra, sendo que o lançamento em formato único acompanha o conceito das canções, oferecendo-nos um olhar diferente sobre a realidade e aquilo que captamos.

Há uma estética muito bem aprimorada e cuidada neste novo álbum, algo que já é característico da carreira do músico. As suas influências de sempre continuam presentes — passando desde a electrónica a bandas como Sigur Rós ou Radiohead — mas Noiserv é Noiserv e não há outro como ele. Apesar de terem sido lançadas na Internet separadamente, as músicas deste álbum encaixam na perfeição num modelo contínuo, com uma identidade muito forte e um uso da voz sublime. David Santos canta agora em português, mas o encanto da sua melodia é o mesmo e a qualidade exímia na forma como canta continua presente. De “Meio” para “Neutro” sentimos uma transição suave, acolhedora. Aliás, este sentimento de conforto é bastante comum nas músicas de Noiserv. Há uma certa tranquilidade que nos acalma e letras que nos fazem estar atentos. Este exercício, ou jogo de composição, é comum na criatividade de Noiserv, já que os seus álbuns possuem sempre um qualquer elemento interactivo que nos leva além álbum.

“Neste Andar” é candidata ao título de melhor música do álbum. Há toda uma mística em Uma Palavra Começada por N, elementos que coabitam em todas as faixas e nos levam de faixa em faixa de forma mágica, mas há uma certa intimidade nesta canção que a torna especial. “Parou” é uma das músicas mais intensas deste álbum, não só pela letra, mas também pela musicalidade meio melancólica. Por sua vez, “Picotado” é a mais sonhadora, muito graças ao piano que é aqui usado como elemento principal, para além da voz.

“Eram 27 Metros de Salto” foi a mais recente música a ser promovida recentemente, lançada no passado mês de Agosto. Esta é possivelmente a música mais festiva do álbum, um piscar de olhos a You Can’t Win, Charlie Brown, os seus antigos colegas. O álbum fecha assim de forma exímia, como uma perfeita viagem, mas há que destacar o formato. Noiserv tem lançado faixa após faixa separadamente, como se se tratassem de singles independentes, mas na verdade todas compõem o corpo do novo álbum. Outra característica interessante é a forma como o álbum faz todo o sentido, quer comecemos por esta ou aquela faixa. Esta incrível capacidade de composição é um piscar de olhos à sociedade em nosso redor, à forma como tudo está interligado e, de certa forna, dependente uns dos outros.

Há poucos músicos com esta capacidade de compor com a mesma qualidade em duas línguas completamente diferentes. O Português, principalmente, é uma língua complicada para se cantar, pela sua pouca musicalidade, sons abruptos e dificuldade em combinar palavras na mesma entoação. Noiserv demonstra neste álbum que nada disso é um problema para ele. Compor para piano, guitarra e xilofone, seja em inglês ou em português, é a “mesma coisa” para o músico.

É de referir ainda o excelente trabalho gráfico feito por Nuno Sarmento, que consegue transpor para algo visual a musicalidade e a mensagem de Noiserv. É basicamente um retrato de como tudo em nosso redor é absorvido por nós e das diferentes interpretações que cada um poderá ter da mesma mensagem.

Em cada álbum, David Santos convida-nos a descobrir mais um pouco do seu universo e do seu íntimo. Nós, completamente absorvidos pelo convite, partimos à descoberta uma vez mais de um álbum de excelência da música nacional. É complicado apontar algo negativo a este álbum, já que o universo de Noiserv é muito próprio: ou somos completamente captados por ele ou pode não nos transmitir nada — o que é legítimo — mas, no caso de sermos captados, a imersão é praticamente absoluta.

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