“A Ordem do Tempo”, de Carlo Rovelli: tudo o que sabemos pode estar errado

por Mário Rufino,    22 Novembro, 2018
“A Ordem do Tempo”, de Carlo Rovelli: tudo o que sabemos pode estar errado
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A reflexão sobre a condição humana é indissociável da reflexão sobre o tempo. Compreendê-lo é compreendermo-nos. A relação entre homem e tempo é familiar e íntima. Sem sabermos explicar, intuímos. Olhamos para o calendário e vemos o tempo passar. Dia após dia, mês após mês, ano após ano. No entanto, esta proximidade pode induzir conclusões erróneas.

O tempo tem sido desmistificado na literatura e na ciência. E as deduções têm sido desconcertantes para a intuição do leigo. 

“Geralmente pensamos o tempo como algo simples, fundamental, que passa uniformemente, indiferente a tudo, do passado para o futuro, medido pelos relógios. No decorrer do tempo, temos uma sucessão ordenada dos eventos do universo: passados, presentes, futuros; o passado está dado; o futuro, aberto… Pois bem, tudo isso se revelou falso”, afirma Carlo Rovelli (Verona, 1956) em “A Ordem do Tempo” (Objectiva).

O tempo existe inteiramente no presente, na nossa mente, como memória (passado) e como antecipação (futuro). As 3000 páginas de “Em Busca do Tempo Perdido” são excelente exemplo oriundo da literatura. 
Proust demonstra que a linearidade é falsa. As memórias são organizadas por acontecimentos, obedecendo a um “granulado” em detrimento de um conceito rectilíneo 

Carlo Rovelli  / Fotografia de Jamie Stoker

Rovelli, indicado como o novo Stephen Hawking, aponta para a perda de unicidade e para a existência dessa granularidade. O mundo é feito de eventos, de “grãos”, não de coisas. É no âmbito da física quântica que o autor procura compreender o tempo e a gramática elementar do mundo. 
Perceber essa gramática implica uma nova ordem no entendimento do que nos envolve e nos forma. Se algo é agradável, o tempo passa mais depressa; se algo nos é nefasto, tudo parece mais lento. Assim nos ensinou Einstein. Mas está longe de ser tudo. Baseando-se na teoria da relatividade, Rovelli afirma que o tempo passa mais depressa na montanha e mais devagar no vale. A sua estrutura é modificada quando existe desaceleração imposta pelo próprio planeta. 

“A Terra é uma grande massa e desacelera o tempo perto dela. Mais no vale e menos na montanha, porque a montanha está um pouco mais distante da Terra. Por isso o amigo do vale envelhece menos.”

Não existe um tempo único. Existem legiões de tempos, um para cada ponto do espaço. Se há mais do que um, qual deles é o verdadeiro, o normativo? 
Segundo o autor, não há um mais verdadeiro do que o outro. Há vários tempos marcados por relógios reais e diferentes. 
Essa multiplicidade de tempos e a relação entre eles são o objecto de estudo da Física. 
No século XIX e XX, a Física começou a defender que não existe diferença entre passado e futuro, entre causa e efeito. É uma questão de focagem e desfocagem. 

Capa do livro

“Muitas vezes dizemos que as causas precedem os efeitos, mas na gramática elementar das coisas não existe distinção entre «causa» e «efeito». Existem regularidades, representadas por aquilo a que chamamos leis físicas, que ligam eventos a tempos diferentes, regularidades simétricas entre futuro e passado… 

Além da influência da massa e da ausência de linearidade, há a questão de velocidade. 
As experiências e as ideias de Einstein são bem conhecidas. O cientista alemão compreendeu que o tempo também é desacelerado pela velocidade. 
Um relógio dentro de um avião atrasa em relação a um relógio que fica em terra; ou seja, um relógio em movimento marca menos segundos. O tempo é contraído. 
Assim sendo, o “tempo próprio” não depende apenas de onde se está, da proximidade ou não de massas, mas também da velocidade em que se move. É mais do que elástico; simplesmente não passa com a mesma velocidade em todo o lado. 
Lembremo-nos de Alice e do Coelho Branco: 
“Por quanto tempo é para sempre?”, pergunta Alice.  
“Às vezes, apenas um segundo.”, responde o coelho. 
A realidade de Alice é diferente por o tempo ser diferente. A visão sobre o tempo espelha-se na linguagem, no verbo, espelho de uma realidade fundamentada em ideias sobre a regência temporal. Alice vive num mundo diferente porque o tempo é visto de forma diferente. 
A perda de unicidade, direcção, independência, presente e continuidade não põe em causa, segundo Rovelli, o mundo ser uma rede de acontecimentos, não uma rede de 

“A diferença entre coisas e eventos é que as coisas permanecem no tempo. Os eventos têm duração limitada. Um protótipo de uma «coisa» é uma pedra: podemos perguntar-nos onde estará amanhã. Um beijo, por sua vez, é um «evento». Não faz sentido perguntar para onde foi o beijo amanhã. O mundo é feito de redes de beijos, não de pedras.” 

Rovelli, com ajuda das palavras de Horácio, nunca esquece o leitor, nem abandona a pedagogia, quando desmonta a nossa intuição. É uma das razões para o livro resultar tão bem: o leitor faz parte da comunicação. Não é esquecido. Outra das razões é a constante presença da literatura nas explicações de Rovelli. Principalmente a capacidade de contar histórias. Rovelli conta-nos uma história sobre a História do Tempo. Ao longo da sua narrativa não tem pudor em confessar que “não sabemos como o tempo realmente funciona. A natureza do tempo talvez seja o maior.”

“A Ordem Tempo” demonstra que as nossas ideias sobre o mundo estão ou podem estar erradas. Finda a leitura, as intuições do leitor deixam de ser as mesmas. O abalo gera incredulidade e impõe a necessidade de adequar o pensamento a uma nova gramática.

Um livro bravíssimo. 

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