“A Pandemia que abalou o Mundo”, de Zizek: será o fim do capitalismo e do cada um por si?

por Ana Isabel Fernandes,    18 Setembro, 2020
“A Pandemia que abalou o Mundo”, de Zizek: será o fim do capitalismo e do cada um por si?
Slavoj Zizek / Wiki Commons
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Slavoj Zizek, igual a si mesmo, avança naquele que foi, corajosamente, um dos primeiros livros publicados sobre a pandemia, que a única via a adoptar para se alcançar a luz ao fim do túnel é uma nova forma de comunismo. Esta crise mostrará os limites da sociedade capitalista, do mercado e do cada um por si. Ou isso ou virá a barbárie. Será que Zizek já está a acertar?

A realidade de uma pandemia não é, necessariamente, nova para a humanidade. Há, no entanto, pelo menos, três factores inéditos respeitantes ao novo coronavírus que não podem ser descartados, até porque a forma como interagem entre si pode fazer toda a diferença no nosso avanço como sociedade ou no nosso recuo a situações que pensávamos, e aqui é que reside a ironia, já ultrapassadas. Esse avanço ou recuo trata-se de uma preocupação perfeitamente legítima se atendermos à realidade internacional e, especialmente, nacional, tanto do ponto de vista social como político. Em primeiro lugar, apesar da família dos coronavírus não ser uma novidade para a comunidade científica – e sabemos que poderão existir muitos mais – a estirpe SARS-CoV-2, responsável pela doença COVID-19, constitui, sim, uma novidade. Em segundo, e por outra via, também é verdade que nunca estivemos tão bem equipados a nível de conhecimento médico e avanço científico para fazermos face a uma crise como esta. Em terceiro e por último, vivemos em plena aldeia global de McLuhan, tanto do ponto de vista da facilidade da deslocação física como na forma como absorvemos informação instantaneamente, fazendo, apenas, um parêntesis que faz toda a diferença – informação instantânea não se repercute ou não se traduz em conhecimento. Este é um ponto sério se pensarmos que a comunicação social tradicional, oficial e credenciada – tendo em conta que esta também precisa de obedecer aos parâmetros da celeridade – já não consegue depender, só e exclusivamente, da sua boa vontade para realizar um trabalho isento de incongruências, contradições ou informação que, posteriormente, se pode descobrir falsa. Esta asserção não serve para desresponsabilizar os média mas, apenas, para frisar que a confusão gerada pela informação instantânea é tal que os meios profissionais também têm os seus problemas em destrinçar o verdadeiro do falso, das verdades e das novas inverdades.

De que forma estes factores se interligam? Temos uma nova estirpe em circulação e a comunidade científica, apesar do avanço exponencial em medicina, precisa de fazer uma investigação a partir do zero para poder entendê-la e criar uma solução tanto eficaz como eficiente. Por outro lado, devido ao alarme da situação e à exigência da sociedade em geral por uma explicação, a comunicação social tenta dar essa mesma resposta de forma directa e instantânea, ao mesmo tempo que se torna difícil para a comunidade científica obedecer a esses mesmos padrões de tempo. Para o bem e para o mal, estamos a falar de duas velocidades que são e serão incompatíveis. A tudo isto, soma-se o facto da comunidade médica ter graves problemas na forma como comunica e como passa a informação a uma sociedade que precisa de consistência para acreditar e aceitar a mensagem que lhe é transmitida. Como consequência, recorde-se a quantidade de informação avançada ou de estudos que foram divulgados, desmentidos, confirmados de novo e desmentidos de novo. Após a ameaça ter sido, finalmente, reconhecida,a humanidade estava a aprender, assim como a ciência. Antever, por isso mesmo, um possível desfecho tornava-se difícil, ainda mais no início dos ‘Estados de Emergência’, quando se lia sobre as descobertas sobre a nova estirpe quase em simultâneo ao momento em que estas ocorriam. Situação, essa, que ainda não mudou.

Capa do livro

No meio desta informação e contra-informação, foi corajoso, portanto, por parte de Slavoj Zizek avançar com a publicação da obra ‘A pandemia que abalou o mundo’ tão cedo – a edição portuguesa por parte da Relógio D’água remonta a Maio de 2020 – e é nesse aspecto que, por duas vias, pode consistir a graça do livro (porque podemos analisar melhor, agora, alguns aspectos escritos e perceber a grande pertinência da sua reflexão) mas também o seu calcanhar de aquiles. Desde o momento em que o ensaio foi escrito até agora, muito se passou sob o ponto de vista sócio-político e científico – basta pensar na quantidade de dúvidas que a imunidade gerou. A questão é que são desenvolvimentos importantes que mereceriam constar no livro enquanto objecto finalizado, atenção, independentemente de Zizek ser dos filósofos contemporâneos mais solícitos a entrevistas e palestras, o que permite conhecermos a sua opinião há medida que os acontecimentos vão ocorrendo. A sua postura mais informal, irreverente e afecta ao popular assim o permite. Mas quando, no livro, defende que a única via para o ‘novo normal’ é o socialismo, aliás, uma ideia interessante quanto aos argumentos que usa para a defender, também seria interessante ver o filósofo contrapô-la com os grandes tumultos sociais dos últimos tempos, que vieram após, e o grande avanço, em específico, no mês de Agosto, do movimento anti-máscaras e dos negacionistas do covid-19, ambos monopolizados pela extrema-direita e movimentos afectos a teorias da conspiração.

Aqui, podemos já estabelecer uma comparação com a frase com a qual Zizek abre o capítulo 8, ‘Monitorizar e Punir? Vamos a isso!’. Inicia assim, “Vários comentadores liberais e de esquerda realçam a forma como a epidemia de coronavírus serve para justificar e legitimar medidas de controlo e regulação do povo, medidas que eram até agora impensáveis numa sociedade democrática ocidental.” E cita, para comprovar a sua ideia, as posições tomadas por Giorgio Agamben. No início dos “Estados de Emergência houve, sim, a preocupação por parte da esquerda ou de alguma esquerda quanto ao controlo das liberdades. Convém lembrar, até, que a gravidade da situação dividia médicos tanto nacional como internacionalmente. Desde a crise de 2008, a Europa nunca conseguiu livrar-se do espectro do sentimento nacionalista e do crescimento e reorganização da nova extrema-direita. A questão quanto ao encerramento das fronteiras, não só no continente europeu mas mundialmente, comportou e comporta questões éticas a serem tidas em conta (e veja-se a situação dos refugiados). Mas, surpreendentemente, quem tem feito a exploração desse maior controlo que, numa situação normal, claro está, seria incomportável numa democracia, tem sido mesmo a extrema-direita e as políticas abraçadas por Donald Trump (num primeiro momento muito mais feroz e depois com oscilações e inconsistências no seu discurso) e Bolsonaro.

Vai ser interessante, portanto, e à luz do pensamento de Zizek, ver se a consciencialização da importância da causa pública (como o reforço dos sistemas nacionais de saúde ou de apoios para os novos desempregados) vai conseguir superar ou deixar uma marca, sequer, no movimento evangélico brasileiro, com grande peso na sociedade e que suporta a base de Bolsonaro, ou se Trump poderá ser penalizado nas eleições de Novembro. No caso americano, vai ser bastante curioso, caso Trump perca mesmo, ver como os próprios democratas vão conseguir gerir o seu sistema de saúde, uma vez que o conceito estadunidense da causa pública não é o mesmo que a europeia. A questão da saúde, nas terras do Tio Sam, é a mais sensível e, como a história diz, sempre que o Partido Democrata, quando no poder, tentou efectuar modificações, por mais pequenas que fossem, ou nunca o conseguiu, ou não se livrou da grande contestação ou celeuma. Veja-se o que aconteceu com a administração Clinton nos meados dos anos 90 ou a discussão que o ‘Obamacare’ ainda consegue gerar. No geral, temos uma extrema-direita que tem dado azo às teorias da conspiração quanto a um maior controlo estatal mas que, por outro lado, ataca as pequenas aberturas que os estados vão dando, principalmente quanto à forma como lidam com a questão das fronteiras ou, então, com as minorias étnicas. Basta recordar, no caso português, a proposta de André Ventura quanto ao confinamento da comunidade cigana.

Quanto à confusão a nível de informação científica, o filósofo aborda, a dada altura, o caso dos reinfectados como um dado real. Esses casos de reinfecção iniciais foram depois desmentidos como sendo, apenas, falsos positivos por ainda estarem presentes vestígios do vírus no trato respiratório superior. O primeiro caso de reinfecção só foi confirmado recentemente, em Agosto, e segundo o que a OMS explicou então, não são comuns. Zizek estava certo, portanto, quanto à possibilidade de reinfecção, mas a base para essa asserção na altura, revelou-se errada. Por último, seria, também, muito bem vinda no livro (falo do livro em si) a análise de Zizek à forma como o desconfinamento tem vindo a ser feito, não obstante o perigo não ter passado, e como contraporia isso à ideia que defende quanto ao socialismo. Recentemente, os novos casos têm aumentado e teme-se como iremos ultrapassar uma segunda vaga já à porta, sem comprometer mais a economia. No caso português, embora o país vá estar em novo Estado Contingência, com novas regras de ajuntamentos e de horários laborais, António Costa já reforçou como o país não iria suportar um novo confinamento.

Politicamente temos, então, três vias: a via das teorias da conspiração; aqueles que olham com primazia para a sobrevivência económica e os que tentam encontrar um equilíbrio entre a segurança pública, a autoridade estatal, a questão económica e da empregabilidade. Para quem conheça Zizek, o filósofo foi igual a si mesmo. O seu ensaio parte da análise da pandemia à luz da psicanálise lacaniana, do pensamento hegeliano e da defesa do comunismo como solução. Além destes vértices fundamentais para o entendimento de Slavoj Zizek, o filósofo fez ainda menções extremamente oportunas a Byung-Chul Han, entendendo e confrontando ao mesmo tempo o seu pensamento – o que só enriquece a discussão filosófica – estabelecendo um paralelismo com a cultura cinematográfica, sem esquecer a menção ao filme ‘Contágio’, de 2011.

Embora Zizek tenha frisado, mais do que uma vez, a forma como foi ridicularizado, inclusive por Byung-Chul Han, os seus argumentos são, de forma surpreendente, bastante lúcidos. E, claro, embora a ideia possa parecer utópica, Zizek sabe como defendê-la. Segundo o filósofo, já há provas contundentes de como a pandemia já está a mostrar os limites da sociedade capitalista, os limites do nacionalismo e de como já há o reconhecimento de que os ideais socialistas são a solução para o bom desfecho desta crise. Para sustentar a sua hipótese, o filósofo dá exemplos de como Trump tem vindo a implementar medidas que vão contra a sua própria linha ideológica e o discurso que lhe é característico, por exemplo.

“Quando recentemente sugeri que esta crise poderia ser solucionada adotando uma forma de «comunismo», fui amplamente enxovalhado. Mas agora lemos: «Trump anuncia propostas para assumir o controlo do sector privado.» Será possível sequer imaginar uma manchete destas antes da epidemia? E isto é só o princípio: serão necessárias muitas mais medidas deste tipo, bem como uma auto-organização local das comunidades, se os sistemas de saúde cederem à pressão.” E acrescenta, “como se costuma dizer, numa crise somos todos socialistas. Até Trump está agora a considerar uma forma de Rendimento Básico Incondicional – um cheque de mil dólares para cada cidadão adulto.” Aqui, convinha contrapor com a notícia avançada já em finais de Abril, que advertia que os cheques estavam a ser enviados para moradas de cidadão já mortos e que o porta-voz dos democratas no Senado iria propor um diploma para proibir que qualquer pacote de ajuda federal seja assinado pelo presidente ou vice-presidente. Há questão demagógica das eleições estarem muito perto.”

No entanto, Zizek não deixou de completar como Trump foi forçado a invocar a Lei de Produção de Defesa para conceder ao governo autoridade para se registar o aumento de produtos médicos de emergência. O que o autor esloveno quis com estas provas de acção não foi, claro está, uma defesa mas, antes, provar como situações difíceis pedem uma clara tomada de posição estatal, o reforço do sentido de entre-ajuda e dos aparelhos do Estado que têm por obrigação assegurar o bem-estar de todos. Falamos de um estado que se sobreponha ao privado, no sentido de confiscar equipamentos em situações limite, caso seja necessário, mas que também tenha a noção de cooperação e interdependência internacional. Zizek não fala, assim, de proteccionismo ou do ‘orgulhosamente só do ‘America First’. Na sua ideia,

“O que continua a predominar é a atitude do «cada país por si»:«há medidas nacionais de proibição de exportações de produtos essenciais, como medicamentos, com países a basearem-se na sua própria análise da crise, no meio de carências localizadas e abordagens primitivas e casuísticas ao confinamento». A epidemia de coronavírus não se limita a sinalizar os limites da globalização de mercado, sinaliza também os limites ainda mais fatais do populismo nacionalista , que insiste na absoluta soberania do Estado: é o fim do «América (ou seja lá o que for) primeiro!», uma vez que a América só se pode salvar através da coordenação e da colaboração globais. Não estou aqui a ser utópico, não estou a apelar a uma solidariedade idealizada entre os povos – pelo contrário, a actual crise é a prova inequívoca de como a solidariedade e a cooperação globais são do interesse de todos e de cada um de nós, de como essa é a única coisa egoísta e racional a fazer.”

É quando Zizek aborda a empregabilidade e as suas novas vias que traz à liça a sociedade do cansaço de Byung-Chul Han e avança com a sua crítica ao filósofo sul-coreano. Em primeiro lugar, e segundo o Esloveno, a pressão social actual e o politicamente correcto, do qual Zizek é crítico, são a prova de como “as limitações e as restrições não são definitivamente apenas internas.” Em segundo, quanto à noção de sermos, ao mesmo tempo, “senhores e escravos de nós mesmo, em simultâneo”, Zizek relembra não a substituição, mas uma terceirização do sistema fordista, do qual beneficiam empresas como a Microsoft ou a Apple. “Muito se tem escrito sobre a forma como a velha linha de montagem fordista está a ser substituída por um novo modo de trabalho cooperativo que deixa uma margem muito maior para a criatividade individual. Contudo, o que está efectivamente a acontecer é não tanto uma substituição, como que uma terceirização: o trabalho para a Microsoft ou para a Apple pode muito bem estar a ser organizado de uma maneira mais cooperativa, mas depois os seus produtos finais são montados na China ou na Indonésia de forma bastante fordista -o trabalho de linha de montagem é simplesmente terceirizado. Temos, portanto, uma nova divisão de trabalho: trabalhadores independentes e que se exploram a si mesmos (tal como é descrito por Han) no Ocidente desenvolvido, trabalho de linha de montagem debilitante no Terceiro Mundo, mais o crescente domínio de prestadores de cuidados humanos em todas as suas formas (cuidadores, empregados de mesas …), onde a exploração também abunda. Só o primeiro grupo (trabalhadores independentes, as mais das vezes precários) encaixa na descrição de Han.” Na sua visão, portanto, a questão das classes ainda é visível e pode sofrer um agravamento neste período.

Em plena pandemia torna-se, portanto, pertinente esta lembrança, uma vez que quando se advoga o ficar em casa, é preciso recordar que nem todos desempenham profissões que se adequam a tal. Segundo o filósofo, só trabalhadores intelectuais precários e gestores que colaborem via e-mail ou teleconferência é que o podem fazer sem grande transtorno. Mas há os outros empregos, os trabalhos do exterior essenciais para a manutenção do nosso dia-a-dia e sem os quais poderíamos estar ou até fazer a nosso confinamento no coforto do lar. Todos nós pudemos constatar isso, e Zizek relembra a importância, neste tempo específico, da apologia do trabalho em prol da comunidade, não em prol de uma subida de se ser bem-sucedido no mercado.

Relembrado os incêndios que assolaram o Campo Moria bem há pouco tempo, e a crise paralela que a Europa atravessa no realojamento dos refugiados, podemos fazer, aqui, uma ponte com a tempestade em três frentes que, de facto, o continente atravessa, tal como Zizek relembre. São esses factores a questão do vírus em si, a estagnação económica que já se vê no novo número de desempregados, e a própria guerra da Síria de Assad, que serve como palco de confronto entre Erdogan e Putin. Tendo em conta que a Turquia estabelece a porta de entrada de refugiados para a Europa, este é um problema que ganha novas repercussões e importância actualmente. Interessante notar que quando o livro foi publicado os incêndios ainda não haviam ocorrido, mas é algo a ter em conta se não queremos que esta parte da população que só quer um futuro melhor seja entregue à sua própria sorte num momento tão difícil.

Zizek referiu que, até então, tinha sido um aspecto positivo o facto de não se inculcar a responsabilidade da transmissão do vírus a imigrantes e refugiados, ressalvando o aspecto da tomada de consciência da importância da cooperação internacional. O futuro recente o dirá, quando virmos a forma como integração dos vitimados do Campo da Moria irá ser feita. Esse tipo de racismo por etnias ou imigrantes, por responsabilização de um maior contágio, começou pela forma como o vírus começou, popularmente, a ser tratado, como o “vírus chinês.” É interessante constatarmos como nos últimos anos a cultura oriental tem vindo a ganhar força. Não só pelo peso económico da China, mas pela cultura japonesa ou sul-coreana. Há, no entanto, simultaneamente, um acréscimo de desconfiança cada vez mais latente face à população chinesa que não tem, propriamente, só a ver com o regime. Claro que, e mais uma vez, esta observação é independente dos tumultos recentes que tiveram as questões raciais como pano de fundo.

Zizek não vê esta pandemia como um aviso, um castigo, como muitos creram e ainda creem. Algo “dotado de um significado mais profundo” pela nossa exploração de recursos e de outras espécies. Poderia ser, até mais tranquilizador, pela nossa necessidade de significado.Mas o vírus trata-se, apenas, de um origanismo que, independentemente dessas considerações ideológicas, se limita a fazer o seu trabalho, que é replicar-se em outros organismo vivos. Procurar um significado metafísico que vá mais além, comportaria outros riscos desastrosos como, por exemplo, acreditar que os fins justificam os meios. O filósofo, por sua vez, não deixou de frisar em todo o livro como o regresso ao novo normal será impossível, não só económica como ecologicamente. A solução não passará, por tanto, em solucionar os nossos próprios problemas enquanto espécie independente de outros organismos. Um maior reforço dos bens públicos não funcionará caso não tenhamos em causa a ecologia – “a natureza no seu todo.” Ou seja, enquanto não passarmos a olhar para o todo que nos rodeia e que está à nossa volta. Mais do que uma culpabilização e responsabilização actual, como tem sido o hábito, temos de passar a olhar para estas questões,para as suas soluções, como políticas. Ou será isso ou a barbárie. Na visão do filósofo, talvez não uma barbárie apocalíptica, mas uma “barbárie de rosto humano” que poderá culminar com a pedra basialar das nossas democracias, o apoio e a segurança dos mais frágeis, doentes e idosos. De alguma forma, já podemos englobar aqui a forma como a crise pandémica nos fez olhar para a realidade dos lares e como estas instituições sofreram e continuam a sofrer com os surtos continuados.

A solução é e será política e, por isso mesmo, Zizek chega a ser bastante assertivo nas suas asserções, para evitarmos o forte desastre que ainda pode vir, tanto a nível económico como humano – principalmente. É verdade que Trump, embora com desconfiança, está a ser obrigado a rever o seu discurso, tal como Boris Johnson – outro exemplo que aponta – com o controlo, a título de exemplo, da ferrovia. Se olharmos o contexto global, é bom sinal a forte oposição popular, que tem vindo a crescer, a Lukashenko, ou o confronto mais aberto de jovens pró-democracia à monarquia tailandesa. Mas há também o outro lado, os interesses económicos e do mercado podem marcar a sua posição e continuarmos num novo normal muito igual ao antigo. As democracias tentam conduzir a situação de forma a manter a segurança e evitar o desastre económico, ao mesmo tempo que têm de mostrar que conseguem fazê-lo sem adoptar os métodos do regime da China.O problema é que lidam atualmente com o cansaço da população que respira por vida. Isso notou-se na forma como no Verão o desconfinamento se deu e como acabou por causar uma falsa segurança nas pessoas. ‘A pandemia que abalou o mundo’ é essencial, escrito de forma simples e assertivo, mas necessita de mais complemento, essa é a sua falha. Seria necessário um volume II. No entanto, fica a ideia,

“Toda a gente está agora a dizer que teremos de mudar o nosso sistema económico e social . Mas como Thomas Piketty observou num comentário recente na Nouvel Observateur, o que realmente importa é como vamos mudá-lo, em que direção, que medidas são necessárias. Um lugar-comum agora em circulação é que, uma vez que estamos todos juntos nesta crise, devemos esquecer a política e limitar-nos a trabalhar em uníssono para nos salvarmos. Esta ideia é falsa: é agora que que precisamos de verdadeira política – as decisões sobre solidariedade são eminentemente políticas.”

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