‘Assume Form’: James Blake deixou o amor compor

por Tiago Mendes,    23 Janeiro, 2019
‘Assume Form’: James Blake deixou o amor compor
Capa do disco
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Um encontro. Foi por meio de um encontro que James Blake se encontrou. O músico inglês que ao longo desta década cruzou os caminhos da electrónica, da pop e do R&B – e que acabou por marcar o panorama dos anos 2010 – sempre espelhou no seu som o aperto e a claustrofobia de emoções emaranhadas, frequentemente contidas; sons pintados de dúvidas, desilusões, incapacidades e lugares escuros. Um percurso que ao fim de três álbuns nos apertava o peito – com muita beleza à mistura. A última canção de The Colour in Anything, o disco editado em 2016, era um tema a capella que pisava a ténue linha entre a esperança e o assombro; e em que ouvíamos Blake cantar, desdobrado em meia-dúzia de vozes: i’ll meet you the maze. Vou encontrar-te no labirinto. E encontrou. E foi por meio desse encontro que se encontrou a si mesmo.

O novo álbum, que nasce nos alvores do último ano da década, tem por título Assume Form. Na capa, James leva as mãos à cabeça e afasta a franja da testa, estabelecendo connosco contacto visual. Ou consigo próprio, se estiver em frente a um espelho. Parece estupefacto (já vamos entender porquê). O álbum inicia-se com um manifesto: «I will assume form, I’ll leave the ether / I will assume form, I’ll be out of my head this time / I will be touchable by her, I will be reachable». O piano que alavanca a canção percorre caminhos pouco óbvios, a melodia vocal também não é linear, e a certa altura entra um conjunto orquestral de cordas a puxar noutra direcção. O piano reage, e muda de timbre, passa a ecoar mais, e torna-se sample de natureza frágil, em repetição. É um momento incrível, uma transformação emocionante. E não é que seja surpresa – a mestria da arte dos teclados é característica transversal à obra de Blake – mas aqui assistimos, no seio de uma mesma música, a uma alteração na vocação do instrumento. Desse ponto até ao fim a canção passa a alternar apenas dois acordes. Simplifica-se. Assume uma forma.

‘I love her’, partilhava Blake no Twitter como legenda a esta fotografia (2018)

Antes de prosseguirmos conheçamos a causa da estupefacção, da forma e da paz. Jameela Jamil está longe de ser uma desconhecida – modelo, actriz (que nos últimos tempos se tornou célebre  na série The Good Place), activista, e em tempos apresentadora na BBC Radio 1. Momento de pura especulação: é provável que tenha sido na rádio que se cruzou com James Blake. Ao longo dos anos Blake foi sendo presença na BBC, fazendo residências artísticas e participando em diversos programas. Mas indepentemente da curva do labirinto onde se encontraram, Jameela tornou-se pivot de uma nova vida. O homem perdido e deprimido encontrou no humor e na pessoa de Jameela um fonte revitalizante. Apaixonou-se, e a vida ganhou brilho. Pelo que dá a entender nas entrevistas em que falou sobre o assunto, Jameela foi rota para uma nova perspectiva de vida, para um investimento na saúde mental, para uma nova filosofia.

Assume Form é um reflexo desta viragem de noventa graus. Pulsa energia. Transpira esperança. Emana paixão. Paixão quase pirosa – como o são sempre as paixões intensas. Que o atestem, a título de exemplo, duas das canções mais bonitas de todo o álbum. “I’ll Come Too” constrói-se a partir de uma base cinematográfica, que usa por sample a banda sonora de um filme dos anos 60, adornada a cordas melodramáticas. Neste cenário amplo a melodia passeia-se, meio tonta, com palavras devotas e românticas capazes de criar um sorriso de orelha a orelha. Já a vertiginosa introdução de “Into The Red” parte de uma série de metaformoses tonais, com a pequena orquestra de câmara ao comando da sequência improvável de acordes luminosos. Após uma quebra súbita, o tema começa a crescer progressivamente; numa primeira fase, muito pontilhado, para em seguida – mais precisamente ao minuto 2:29 (estas coisas têm de ser localizadas ao pormenor, merecem) – entrar um sintetizador com a temperatura equivalente à de lareira numa noite de inverno. Não vos chega para o clímax? Então escutem com atenção: sim, a voz de Blake ao fundo, a aproximar-se em deslize, numa vogal aberta que é presença e deslumbre transformados em som. «She was the gold rush / she was the gold rush / she was the gold rush». Se não é o momento mais bonito de Assume Form, estará lá muito perto.

Massey Hall, Toronto, 7 de Outubro de 2016. Fotografia: Brendan Albert/Aesthetic Magazine

É difícil nomear o melhor álbum de algumas bandas. Pensemos nos Beatles, por exemplo: cinco pessoas responderão cinco álbuns diferentes. O mesmo com os Animal Collective; ou os Beach House. Três bandas que em comum têm vários álbuns que se equiparam em qualidade dentro de contexto de cada discografia. Estou em crer que James Blake já constitui um fenómeno semelhante. Different strokes for different folks – eu não acho que Assume Form seja o melhor álbum de James Blake, mas ao nível da produção é o meu preferido. A acumulação de experiência também o justifica. Kendrick Lamar, Beyoncé, Frank Ocean: três dos titãs da música contemporânea que já se entregaram à produção de Blake nos seus últimos trabalhos. (Podia rematar aqui o tema com um “E está tudo dito”, mas quero desenvolver a ideia).

Não é que a obra anterior de Blake fosse monolítica, mas o trabalho de Assume Form acentua os relevos, abre o espaço. O som expande-se, soa mais orgânico, e abraça o ouvinte. Há mais dinâmica, camadas e pormenores. E estas coisas acontecem sem colocar de parte o risco, e algumas opções mais discutíveis. Um exemplo simples disto: em “Where’s the Catch?” ouvimos o mítico rapper André 3000 interpretar uma série de rimas que deslizam como manteiga. O segmento de rap, que é imediatamente precedido de uma secção instrumental mais caótica e experimental, é acompanhado de um beat muito simples. Mais eis que ao minuto 1:59 o chão nos escapa, e de forma inesperada se ergue como que uma pirâmide de vozes por cima de André 3000, que fica à sombra daquela construção. É uma opção arriscada em termos de produção, mas, na minha opinião, um remate emocionalmente eficaz e muito original.

Um outro exemplo de produção absolutamente bem sucedida: “Can’t Believe The Way We Flow”. E este conduz-nos ao reconhecimento da arte de bem samplar. Flashback para Jersey City, em 1977. Os The Manhattans, banda soul relativamente desconhecida mas com um vasto catálogo editado entre os anos 60 e 80, lançam o single “It Feels So Good To Be Loved So Bad”. A história poderia tê-la arrumado e confinado à sua própria condição. Mas a canção – gota de água no crescente mar de música arquivada pela humanidade – teve o condão de inspirar alguém capaz da arte de bem samplar. Sorte a nossa! Um verso discreto, ao minuto 3:06, torna-se base de trabalho para uma excelente nova criação de Blake. O início de “Can’t Believe The Way We Flow” é reminiscente de “Sparks”, dos Beach House: recorte, sobreposição, efeitos, ritmo quebrado. Mas eis que de uma forma quase trapalhona Blake lhe altera o tempo e o timbre. Há outros momentos como este no álbum; opções de produção não muito óbvias, mas que encontram uma identidade própria e funcional.

Breve apontamento para mais um elogio merecido: um bom criador sabe rodear-se de criativos com quem pode catalisar o seu talento. A segunda e a terceira faixa são a maior surpresa do disco, à primeira audição: de repente estamos em território do trap. Não é que Blake não tivesse já anteriormente feito a ponte com o mundo do hip hop, mas aqui a coisa assume uma natureza mais radical. À primeira estranhei. Mas “Mile High” entranha-se. Tiro o chapéu a Travis Scott e Metro Boomin por se terem fundido no mundo do músico britânico. “Barefoot in the Park” é explosão de cor, na companhia da catalã Rosalía – fusão tão bonita. Já “Tell Them” (com Moses Sumney) e “Where’s The Catch?” (que já atrás referimos) não me dizem tanto; e juntamente com “Are You In Love”, considero-as as faixas mais mornas de Assume Form. Mas não quero tirar-lhes o mérito – só não lhes senti tanto pulso.

A noite já vai longa. Mas estou como o James: “I don’t wanna go home / Shall we drive from zone to zone?”. Permitam-me uma última incursão neste quarteirão. No final do álbum, “Power On” e “Don’t Miss It” fazem companhia à faixa-título na síntese desta nova pessoa. Testemunhos líricos poderosos de alguém que ultrapassou uma fase muito difícil e, graças a um encontro, saiu por cima. Há muitos palcos possíveis para palavras tão bonitas – a música é um deles, e James Blake compôs em Assume Form um manifesto admirável de luz e esperança. Um trabalho que vive no limbo entre o material e o transcendente, entre a sensação e o pensamento. É difícil ficar-se indiferente à beleza. A voz de Blake no outro de “Lullaby For My Insomniac” é manta soporífera que cria tempo e espaço para repousarmos e podermos recomeçar. Façamos deste álbum, desta interpelação musical, uma oportunidade para também nós nos deixarmos encontrar. Desde já, pela música de Blake. E depois, quem sabe, no labirinto…

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