“Tudo Pode Mudar”, de Naomi Klein: livro bem documentado sobre as alterações climáticas e a sustentabilidade

por Pedro Fernandes,    7 Agosto, 2022
“Tudo Pode Mudar”, de Naomi Klein: livro bem documentado sobre as alterações climáticas e a sustentabilidade
Capa do livro “Tudo pode mudar: capitalismo versus clima”, de Naomi Klein
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Naomi Klein é uma escritora e jornalista que ficou conhecida pelo seu ativismo ambiental e pelas suas críticas à globalização e ao capitalismo. Galardoada e autora de vários bestsellers internacionais, Naomi ficou conhecida por livros como ”A doutrina do choque”, “No logo” e “Tudo pode mudar”, a obra que motiva o presente artigo. Natural do Canadá, ganhou prémios como o Sydney Peace Prize ou o Hilary Weston Writers’ Trust Prize for Nonfiction. Publicou ainda imensos artigos em várias revistas e é cofundadora da organização ambientalista The Leap.

Um grande foco da sua obra é analisar a mudança climática que o mundo tem vindo a enfrentar há muito anos e que continuará por mau caminho caso não sejam tomadas medidas sérias. A sua maior obra sobre este tema é “Tudo Pode mudar: Capitalismo Versus Clima”, publicada em 2014 e que foi bestseller do New York Times e livro do ano para o Observer. É muito comum ver esta obra nas listas de livros recomendados sobre temas como as alterações climáticas ou a sustentabilidade do nosso planeta. Neste livro, Naomi tenta explicar com exemplos históricos e estudos científicos, como as alterações climáticas estão a mudar o mundo e qual o papel do capitalismo como sua força motriz. O trajeto histórico do livro vai desde os primeiros inícios deste movimento de alerta sobre o que estamos a fazer ao mundo, até aos dias de hoje e é um breve olhar sobre os caminhos que podemos ter que enfrentar em função de qual seja a nossa atitude como civilização para como solucionar este problema.

A autora alerta como ainda existem muitos negacionista e pessoas que veem os esforços de alerta para o aquecimento global como uma ameaça comunista para controlar a sociedade. Estudos demostraram que os negacionistas são mais comuns em países onde uma visão mais individualista e a hierárquica do mundo está mais bem vista. O primeiro encontro internacional com objetivo de reduzir as emissões que provam o aquecimento global aconteceu em 1988, em Toronto, contando com mais de 300 cientistas e políticos de 46 países diferentes. Neste encontro acordaram reduzir 20% das emissões até 2005. Acontece que nada disso foi cumprido e como tal o desafio que herdamos é muito pior. Temos vindo a adiar e ignorar o problema, a piorá-lo para as gerações seguintes. 

Vários acontecimentos levaram à degradação das alterações climáticas. Um deles muito destacado no livro é a globalização, ou seja, o abrir fronteiras a todo o tipo de mercancia e a economia global onde os produtos são feitos em diferentes países e transportados para todo o lado. Não só pelo óbvio crescimento de emissões a que isso leva, mas também porque do ponto de vista de reportar dados, o que permitiu a alguns países dizerem que tinham estabilizados as suas emissões quando, na realidade, estavam a não incluir as emissões dos transportes que levavam produtos a outros lugares do mundo. Como os países são responsáveis pelas emissões geradas dentro das suas fronteiras, as outras emissões ficavam “debaixo do tapete”. 

Em 2007, a China era já responsável por dois terços do aumento das emissões. Aqui neste ponto, é onde surge uma questão fundamental que é o da culpa pelas consequências das emissões. Vejamos o seguinte: alguns países estão a sofrer maiores consequências com o aquecimento global do que outros e a culpa pertence aos países que mais contribuem para esse aquecimento global. Por exemplo, se um país pequeno pouco desenvolvido e que poucas emissões tem, de repente, sofre com cheias que destroem casas e lugares públicos, vai ser o contribuinte desse país a pagar pelas reparações, quando essas cheias foram maioritariamente consequência das emissões dos maiores poluidores, como a China ou os Estados Unidos. Isto gera uma injustiça social e económica global que leva Naomi a defender uma política de “o poluidor paga”.

Outro fator fundamental é a necessidade de termos políticas de longo prazo que defendam uma economia sustentável para o meio ambiente, capaz de dizer não a grandes empresas. A autora dá exemplos de como não podemos depender da boa vontade de grandes empresas e de grandes empresários, já que, muitas vezes, certas iniciativas que apresentam ser verdes, estão a esconder algo pior ou a encobrir um aumento de emissões. O livro apresenta ainda como algumas empresas fintaram completamente as leis contra emissões com esquemas que, em alguns casos, permitiam aumentar emissões e ainda lucrar com isso, escândalos reais difíceis de acreditar.

Olhando para o futuro, para que as pessoas possam acreditar, é preciso que elas vejam alternativas reais e concretas e evitar o típico discurso opaco de que a tecnologia nos vai salvar de tudo. Precisamos de uma solução global que tenha em conta dois fatores: a responsabilidade histórica que cada país teve nas emissões e a capacidade que cada tem para contribuir (com base no seu nível de desenvolvimento). Esta mudança levará grandes empresas a perderem triliões de euros, mas não há custo maior para todos do que dar cabo do nosso próprio planeta… A autora defende ainda a visão de que resolver este problema ambiental é uma oportunidade enorme para, ao mesmo tempo, reduzir a desigualdade económica que há no mundo. Segundo Naomi, o que o mundo precisa é de se concentrar na utilização dos recursos pela humanidade, ou em outras palavras, o sistema planetário está em guerra com o nosso sistema económico.

Estamos perante um bom livro, muito documentado, sobre aquela que talvez seja a maior questão do mundo, as alterações climáticas e a sustentabilidade do nosso planeta.

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