Allen Halloween: “Há muita mentira no rap. Pessoal que vende uma imagem que não corresponde à realidade”

por Paulo André Soares,    18 Dezembro, 2018
Allen Halloween: “Há muita mentira no rap. Pessoal que vende uma imagem que não corresponde à realidade”
Allen Halloween no Zigurfest 2018 / Fotografia de Vera Marmelo
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“Halloween é Halloween”. É um fenómeno com mais de uma década, que veio quebrar barreiras musicais no panorama nacional. Autêntico, cru, sem filtros e sem censuras. Halloween capta as atenções do país com uma sonoridade que nos é estranha e que não cabe em classificações lineares. Impressiona-nos com as mensagens em bruto que expurga nas suas músicas, vindas do “dark side” da vida. Hoje, doze anos depois do seu primeiro álbum -“Projeto Mary Witch”- é sem dúvida um dos artistas mais proeminentes do Hip Hop português. Conta com um público versátil e particular, e arrasta fãs de géneros musicais distintos. Com três álbuns lançados e um álbum acústico – “Unplugueto”- em processo, faz questão de seguir um caminho individual e sem precedentes em Portugal. Após uma longa conversa, Allen só nos confirmou aquilo que já idealizávamos dele. O foco era falar principalmente sobre Arte, a dele e a que nos rodeia. O resultado superou as expectativas e ainda recebemos boas novidades. O melhor é mesmo ler:

Já passou mais de uma década desde o lançamento da música “S.O.S Mundo” e a letra continua completamente actual. Mesmo mais maduro, ainda sentes essa revolta?
A letra da música “S.O.S Mundo” é inspirada na Bíblia. Fala da visão de Cristo sobre os últimos dias. Quando a terminei eu sabia que a música era imortal, porque de certa forma, as palavras não eram minhas, eram de Deus. Hoje, com mais conhecimento e entendimento, a revolta é ainda maior. Eu sei que a resolução de certos problemas não está nas minhas mãos, nas mãos de nenhum Homem ou organização humana. Mas mesmo assim, tem sido um desafio para mim tentar segurar-me, quando vejo tanta injustiça.

Uma das sensações que mais tenho a ouvir a tua música é nostalgia. Chega-nos através da sonoridade e parece que se acentua no teu terceiro álbum: o “Híbrido”. Faz parte do plano?
Muita gente diz isso dos meus sons. É automático. É o que me surge nos momentos de escrita. Quando termino alguns sons também sinto isso. No som “Crescer”, por exemplo, eu reconheço essa nostalgia. Mas acho que quando fazes um som com o nome “Crescer”, isso tem que estar lá. Tens que falar do passado, do presente e do futuro. Desde que comecei a minha música, acho que não há muita contradição nela. Acho que quando dizes a verdade é quase impossível haver contradição na tua música, mesmo que mudes. Quando és verdadeiro, mesmo que hoje digas azul e amanhã amarelo, as pessoas vão entender que foi o teu crescimento que te fez mudar de opinião e não segundas intenções. Por isso não é nada programado, são coisas que acontecem naturalmente.

No “Unplugueto” exploras uma vertente acústica de alguns sons teus antigos e outros novos. Já pensaste em dar concertos num ambiente mais acústico, para público sentado por exemplo? Achas que fazia sentido?
Sim, faz sentido. Olha, ainda há pouco dei um concerto meio sentado, no Teatro Mosca do Cacém. Eu até estava com algum receio porque quando uma pessoa vai ver Halloween já espera um certo tipo de concerto. Mas correu bem. O pessoal acabou por me demonstrar que estava disposto a este tipo de formato. Eu também me perguntava a mim mesmo se era capaz de fazer um concerto todo sentado, ou seja, se não me sentiria cansado. Mas vi que não. Se montares o cenário e a atmosfera ideal, a coisa flui sem problema.

Do “Projecto Mary Witch” ao “Hibrido” e ao “Unplugueto”, mesmo com o carimbo Halloween, há diferenças significativas tanto na sonoridade, como na atitude e nas letras. Sentes que te direccionas para outro público agora? Não sentiste uma perda do público mais fã da atitude mais underground inicial? Por exemplo nos concertos?
Acho que não. Acho que o meu público também cresceu. Como o público do rap em geral. Eu acho que o rap deve ter capacidade de ensinar e de passar histórias de vida. Se eu fui crescendo, então a minha música reflecte isso, e acho que o público também acompanhou. Obviamente que ganhas ou perdes sempre algum. Mas eu acredito piamente que o meu público se mantém fiel do primeiro ao último álbum. Nos concertos tocamos sempre sons antigos como “Killa Me”, “Drunfos” , “Fly nigga” e “Raportagem”, por exemplo. Agora com quase 40 anos, não vou andar em “beef” ou só a rimar palavras por rimar. Com o mundo a desabar, não vou falar do beat e da tarola. Para mim o rap não é isso. Não pode ser assim tão egoísta. Na pintura por exemplo, tens os pintores que têm uma técnica brutal, que brincam com a tinta, como no rap há quem faça trocas de palavras e rimas elaboradas. Mas depois tens o Picasso, que também soube fazer as técnicas todas, mas interpretou o mundo à sua maneira e deixou a sua marca. Nunca podemos comparar um pintor com técnica – vais ao Rossio e tens 50 – com um pintor que pinte a vida. Eu sempre vi isso no rap em geral. Há mc’s que têm flow mas o que é que eles rimam? Rimam palavras. Então eu sempre tentei fugir desse egoísmo do rap e rimar a vida. Sem me renunciar a crescer.

Tu és misterioso e isso alimenta teorias da conspiração. Já tiveste algumas, mas a última tem que ver com o Kurt Cobain. É verdade que a sequência dos teus álbuns está ligada à dos álbuns dos Nirvana?
(Risos). Nem sei. Eu penso que qualquer músico deve seguir essa sequência. Mostrares uma cena hardcore e crua inicialmente, mesmo a nível instrumental, e no fim, deves mostrar ao público também a tua parte mais despida, neste caso acústica. Os Nirvana fizeram isso, eu fiz isso e outros músicos também. Se existe alguma ligação e semelhança? É possível. Eu ouvi muito Nirvana e outras bandas do género.

No futuro, vês-te a continuar como rapper durante muitos anos ou vais passar lentamente para o lado da produção? Talvez produzir outros como Maradox Primeiro (o pseudónimo de produtor)?
Sinceramente acho que não. Até hoje nunca produzi para outra pessoa, neste caso rapper. Sempre que faço um grande beat fica para mim (Risos). Já dei um ou outro beat, mas os melhores, esses são para mim. Então não seria justo como produtor. Depois há outro factor, que é a identidade na música. Não gosto de ouvir ninguém soar igual a mim, nem a ninguém.  Na minha música, sempre tive a preocupação de ter o meu cunho, a minha identidade. Hoje em dia, humildade à parte, já vi alguns mc’s a tentar copiar algumas dicas minhas, por exemplo. Tu sentes isso, sabes quando estão a copiar algo teu. Depois vês quem é o mau copiador e o bom copiador. O mau é aquele que copia a tua rima e facilmente é apanhado. O bom copiador é aquele que copia a tua essência – a tua fórmula para fazer música. Normalmente sacam a tua essência, mas retiram aquilo que acham que é mau. Isso aconteceu com os Nirvana por exemplo. Quando rebentaram, a Indústria lançou logo mais uns quantos “Kurt Cobains”, mas tiraram a droga e as roupas sujas para venderem ao público com muito açúcar. Com canções lindas e vazias de amor, e roupas brilhantes para encantar adolescentes. Ainda me lembro de algumas dessas bandas, como os Bush, os Silverchair e outros… O problema é que passados 30 anos, só nos lembramos do original, o Kurt Cobain. Por isso, podem copiar Halloween e tirar as drogas, o crime e a faceta mais social. Vão ter fãs na mesma, mas daqui a 20 anos provavelmente só se falará de Halloween e não deles. A verdade é que acabam por estar a trabalhar para mim. Antigamente, copiar era razão para vergonha, se fosses apanhado, se calhar já nem saías à rua. Hoje em dia, infelizmente, é algo normal. Inspirares-te em alguém é bom, copiar não. Mas o tempo faz a sua justiça.

Em todos os teus álbuns fazes apenas três referências. Todas de uma forma diferente. Um verso, uma música dedicada e um cover. Falo do General D, do Zeca Afonso e do Sérgio Godinho. Tens as tuas referências vincadas desde a adolescência ou foram mudando significativamente com a maturidade e gosto musical?
Para mim há dois tipos de visão: a visão musical e a do ser humano em si. Há artistas que admiro musicalmente mas como pessoas nem por isso. Quando faço referência a alguém na minha música, faço-o depois de observar muito. Quando faço referência ao General D por exemplo, tenho que ter noção de como ele é, se calhar até conhecer pessoas que o conhecem. Assim diminuis o risco de te desiludires depois. Ainda há pouco houve um caso assim no panorama português… Eu até aqui tive sorte nisso, como observo bastante primeiro, raramente me enganei. O Sérgio Godinho é alguém muito querido por exemplo, nunca ouvi ninguém a apontar-lhe um dedo, pelo contrário, é um senhor. Acaba por ser até – como muita gente diz – se calhar o primeiro rapper português. Em termos musicais comecei a dar-lhe valor à medida que fui crescendo. Para mim é um senhor e espero que nunca me desiluda. O General D é outro. Sempre senti que ele era diferente dos outros. Quando General entrava era outro respeito. Mesmo pelo que as pessoas que o conheciam me diziam, eu sentia a mensagem dele de outra forma. Depois há o Zeca Afonso. Para esse nem é preciso palavras… E é isso. Quando penso fazer uma referência, não ligo ao bonito e ao fácil. Prefiro sempre algo mais profundo. Na altura até pensei primeiro em fazer um som do José Carlos Schwarz, também um artista com densidade, mas depois optei pelo Sérgio Godinho.

Alguns dos maiores elogios que ouvi em relação à tua obra, tem que ver com as tuas letras. As letras sólidas, com muito conteúdo e características do rap, já não são obrigação nem paradigma. Achas que isso lhe tira a essência? No teu caso, dás-lhes máxima importância ou também gostas de dar, por vezes, mais atenção ao som, apenas?
Acaba por ser a mistura dos dois, mas em primeiro lugar está sempre a letra. Não sou assim tão velho mas já vi o nascimento e a morte de algumas culturas. Vou falar do Grunge que segui de perto. Supostamente começou por aqueles miúdos madeireiros – aquela ilusão que se tem – que falavam de problemas daquela geração como a droga e a solidão. Depois vieram os “paraquedistas” e tiraram-lhe a essência. Às vezes ouço álbuns mais tardios de grunge e às vezes não é nada mais que poesia bonita. E quando isso acontece, o movimento morre. O rap é igual. Eu imagino o início do rap como uma reunião de escravos fugidos que se encontraram num barracão, e cada um começou a contar a sua experiência de vida. Mas a seguir, vieram outra vez os “paraquedistas” e a indústria, que pegam numa força natural e lapidam-na. Hoje em dia, como te disse, metade do rap é só rimar palavras. Toda a gente diz que o rap está no auge, estamos nos festivais e a vender bem, mas se calhar está é a morrer, a perder a essência, a perder o sal. Como aconteceu na queda de Babilónia. Depois também há muita mentira no rap. Pessoal que vende uma imagem que não corresponde à realidade. Eu considero as letras como filosofia, como algo sentido e pensado. O freestyle, por exemplo, é bom inicialmente para estimular e criar atalhos mentais para rimas, mas quando cresces não faz sentido. Eu nunca entraria agora numa battle de mc’s, onde muitos falam das mães e assim. Para mim não faz sentido porque para mim a palavra não é mentira. Só que infelizmente o rap vende cada vez mais mentira e entretenimento. Há um provérbio que diz: “A vida e a morte estão no poder da palavra, aqueles que a sabem usar, colherão os seus frutos”. Eu acho que qualquer pessoa que trabalhe com palavras, seja jornalista ou poeta, tem que ter isso em mente. Tu colhes os frutos do que dizes. Toda a gente tem que ter o direito da liberdade de expressão, mas muitas vezes o que dizes afecta a vida de outras pessoas e pode trazer consequências. É por isso que não acho que o rap deve ser mentira ou só um jogo de palavras. Quando um movimento se torna só um jogo de palavras, o movimento morre. Seja o punk, o grunge ou o rap. E quando chegam ao mainstream, às vezes já chegam mortos. Essa é a minha visão, não quer dizer que seja a correta.

Hoje em dia tens público que nem sequer gosta de rap. Público que diz que “Halloween é Halloween”. Tens o reconhecimento que procuraste? Achas que chegaste à tal receita de “Sopa de Pedra” que referiste numa entrevista?
Sinceramente acho que tenho o reconhecimento que procurei. Editoras e rappers já me demonstraram esse reconhecimento por exemplo. Se me associasse a certas pessoas acredito que pudesse ter mais, mas não faz parte de mim. Não vou fazer algo com alguém por interesse. Mas claro que não me importava de ter mais dinheiro (Risos). Na minha música há algo que sempre tentei fazer. Sempre tentei fazer música sem tempo, música que representasse algo intemporal. Se houver um caso de bullying conhecido em Portugal, eu não vou falar sobre esse caso em específico, mas sim do bullying em geral, que acontece desde sempre e vai continuar a acontecer. Tento escrever de uma forma que eu sei que daqui a 100 anos pode continuar a fazer sentido. Isso já me dá frutos. Há músicas que fiz em 2006 que ainda hoje têm um certo impacto. Eu aprendi isso se calhar com o Peter Tosh, numa entrevista onde ele diz que “não devemos fazer música mortal”. A música intemporal também deve ser feita com instrumentos intemporais e da forma mais simples possível. Existem músicas dos anos 60 que hoje continuam a ser actuais porque foram feitas dessa forma. Eu tentei fazer isso no “Unplugueto”, fazer algo que não seja obsoleto daqui a uns anos. Podemos até fazer uma relação com a moda. Alguém que usasse há cem anos uma camisa branca e uma calça preta, hoje não estaria fora de moda. Mas aqueles que estavam no topo da moda há cem anos, hoje iam destoar.

Não pensas noutros projecto para além da música? Um livro, poesia, vídeo ou então mostrar ao país os teus dotes de desenho?! Acho que ainda há muita gente que não sabe do teu talento nas artes plásticas.
Sim, claro. Há um projecto de um livro a decorrer onde vão estar todas as minhas letras e alguns pensamentos compilados. Depois, há outro projecto com o Vhils. Estamos a pensar fazer uma exposição sobre criminosos. Muitos daqueles que foram considerados criminosos no seu tempo, hoje em dia são considerados heróis. O próprio Jesus Cristo, o Amílcar Cabral, o Che Guevara … Nós nunca vamos saber bem algumas verdades, mas a exposição é para mostrar essa dicotomia. Os valores de bem e mal mudam consoante os tempos, os momentos e os poderes – da época e das épocas que os interpretam mais tarde. Se vivesses na Alemanha Nazi, se soubesses que haviam judeus num sótão e se fosses uma “pessoa de bem” segundo esses valores, ias denunciar às SS (à policia nazi). Se escondesses essas pessoas, por outro lado, eras considerado um criminoso. Mas a exposição não vai ter como objectivo julgar. É simplesmente sobre criminosos. Vamos ver como fica.

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