Entrevista. Catarina Gomes: “Todos podemos tornar-nos loucos no sentido patológico”

por Magda Cruz,    26 Maio, 2021
Entrevista. Catarina Gomes: “Todos podemos tornar-nos loucos no sentido patológico”
Foto cedida por Catarina Gomes, de Daniel Rocha
PUB

Catarina Gomes é jornalista e aquilo de que mais gosta de escrever são histórias de vida. Talvez por isso é autora de vários livros que se podem considerar de Jornalismo literário, porque a sua escrita eleva as histórias que procura e encontra. 

O mais recente livro de Catarina chama-se “Coisas de Loucos” (ler crítica), uma edição da Tinta-da-China que conta a história de oito pessoas e dos objetos que deixaram no manicómio, neste caso o Miguel Bombarda, em Lisboa.

Para este episódio do podcast Ponto Final, Parágrafo Catarina sugere que conheçamos “O deserto dos tártaros”, de Dino Buzzati, “Em tudo havia beleza, de Manuel Vilas e “A balada de Iza”, de Magda Szabó, que vamos conhecer melhor. 

Mas para já conheçamos melhor Catarina Gomes. 

Jornalista, licenciada em Comunicação Social, pela Católica e com um mestrado em Media and Communication na London School of Economics and Political Science, lançou o primeiro livro, “Pai, tiveste medo?”, em 2014, pela Matéria Prima, sobre a experiência da Guerra Colonial vista por filhos de ex-combatentes. Nessa pesquisa percebeu que existiam filhos que alguns ex-militares tiveram com mulheres africanas e que deixaram para trás — e é essa a história do livro seguinte “Furriel não é nome de pai”, que publicou em 2018 pela Tinta da China. 

Como jornalista, recebeu vários prémios, como prémio Gazeta Multimédia e o Prémio Internacional de Jornalismo Rei de Espanha, sendo que foi duas vezes finalista do Prémio de Jornalismo Gabriel García Márquez.

O livro mais recente de Catarina Gomes foi muito bem recebido pelos leitores. Chama-se “Coisas de Loucos — o que eles deixaram no manicómio” e é uma edição Tinta da China, que saiu em 2020.

A ironia começa no título do mais recente livro: Coisas de loucos, um livro sobre o que os pacientes do Miguel Bombarda deixaram no manicómio, mas que é tudo menos sobre pessoas loucas. A partir de objetos, como um bilhete de identidade cosido à mão, várias fotos e dos registos do hospital, Catarina conta as histórias de por exemplo Leopoldina, Noé e Simão, que estiveram no Miguel Bombarda, que viu passar por ele 66 mil pacientes desde a abertura ao fecho. Pacientes que se vestiam de uniformes às riscas, sem qualquer acessório, e que não podiam ver-se ao espelho.

Foi também co-argumentista, com o irmão, do documentário “Natália, a Diva Tragicómica” (da RTP2), que teve origem num artigo que escreveu sobre uma mulher que se convenceu de que era uma grande diva do canto lírico, mas que afinal não era. 

Neste que é o 44º episódio do podcast de literatura Ponto Final, Parágrafo, a primeira pergunta era provocatória, que queria desenlaçar a conversa e de perceber a ironia no título: “Somos todos loucos de alguma forma?” A isto Catarina responde que “não no sentido destes loucos sobre os quais eu escrevi. De facto, quando me lancei na pesquisa achei que ia encontrar daquelas situações — que houve muitas, obviamente — de pessoas que eram internadas por razões sociais…às vezes mulheres porque tinham comportamentos que não eram socialmente admissíveis na altura, e então verdadeiramente não eram loucos no sentido patológico da palavra”: Uma resposta justa, a que a jornalista acrescentou: “Neste caso, maior parte deles eram-no, mas a questão é que a própria evolução do que era doença mental foi evoluindo. O que então era loucura hoje não é. Mas no sentido de “todos somos loucos”, eu dividiria: todos podemos ser loucos. Todos podemos tornar-nos loucos no sentido patológico. Porque essa ideia de «ah, a loucura e a genialidade e a arte» é uma coisa um bocado romanceada. Para mim, quase que minora o verdadeiro sofrimento associado à doença mental, que é real e não é vivida por toda a gente. Nem todos padecemos de doença mental grave, que é disso que se trata: esquizofrenia, de doença bipolar. Há pessoas que têm verdadeiramente as suas vidas muito dificultadas por doenças mentais que são evidentes — também hoje.

Para a pesquisa para as reportagens e para o que viria a ser o livro, que apesar de serem sobre pessoas que já morreram, Catarina quis “fazer a ponte com o presente” e para isso ia a reuniões e chegou a ser confundida com os doentes. Perguntava-se “que vidas teriam estas pessoas hoje”. “E então”, explica a jornalista, “a pesquisa foi feita no hospital Júlio de Matos. Eu assisti a grupos terapêuticos, fui por exemplo a um grupos terapêutico de pessoas que viviam na rua, de pessoas em situação de sem abrigo, que se reuniam todas as quintas-feiras no ginásio do Júlio de Matos, mas também no serviço de reabilitação, todas as quintas-feiras…era um grupo de pessoas que estava a tentar sair e ter uma vida mais normal possível, que se reuniam em torno de um moderador. Neste caso de um enfermeiro, que as ajudava a pensar sobre as suas vidas. E eu participava nisso. E ao contrário destes doentes sobre os quais eu escrevo, estes doentes de hoje não têm nada que os distinga fisicamente. Não usam farda, não estão despidos de si. Algumas pessoas, nomeadamente doentes crónicos, já medicados durante muitos anos, têm às vezes os seus movimentos lentificados. Às vezes nota-se de alguma forma, mas as pessoas com quem eu estava eram pessoas como eu e houve um dia de facto em que houve uma pessoa de fora, era um visitante…eu percebi pelo olhar que ele achou que eu também era uma doente. 

E continua: “E o olhar dele foi muito…e essa descoberta foi muito…surpreendentemente magoou-me. Eu achei que ser-me-ia indiferente porque de facto passava lá muito tempo, mas não foi nada indiferente porque eu lembro-me que eu estava a certa altura a despedir-me do psicólogo, e eu tenho às vezes um bocado abrupta de me despedir das pessoas: «então, doutor, adeus, adeus!», ou seja, um bocado frenética [risos]. E para quem ache que eu sou louca, aquele comportamento frenético meu encaixava que nem uma luva — e isso é o que acontece quando a pessoa tem o rótulo. Ou seja, todos os nossos comportamentos normais, à luz de um rótulo, encaixam-nos. Como quem diz «esta de facto é mesmo maluquinha. Tem gestos exuberantes e abre muitos os olhos…» Eu abro muito os olhos e tenho gestos exuberantes, mas à partida, neste momento, não me encontro doente. 

Mas o que eu percebi é que aquelas pessoas sobre as quais eu escrevi (…) é que o próprio hospital psiquiátrico tem o poder de encaixotar as pessoas, de colocar o rótulo e de tirar depois toda a naturalidade à realidade. É uma espécie de presunção da culpa. Tudo o que fazes é usado contra ti. Tudo o que fazes encaixa no perfil do que a pessoa imagina que é um louco. E depois a pessoa poderá pensar: «ele é maluco, mas de que doença padecerá?». Mas foi uma coisa muito informativa, e no meu caso aquilo demorou um instante e remoeu comigo de tal forma que decidi incluí-la no livro. É como se tivesse sido uma espécie de um relance do estigma que as pessoas hoje continuam a sofrer”. 

Em 2011, Catarina acompanhou o encerramento do Miguel Bombarda e descobriu a caixa onde vinham os objetos que figuram no livro e a partir dos quais busca as identidades dos donos. “A ideia de escrever sobre o passado do Miguel Bombarda ou, de alguma forma, sobre o passado da psiquiatria, já me acompanhava há muitos anos porque eu escrevia sobre saúde mental no Público. Ia a conferências, fazia reportagem, conversava com doentes no hospital Júlio de Matos – quando podia. Interessava-me muito [o passado da saúde mental] e o que eu sabia era se calhar o que toda a gente sabe. Tinha visto o “Voando sobre um ninho de cucos”, tinha lido aquele livro muito interessante, “Doida não e não”, da Manuela Gonzaga que é uma biografia sobre mulher que não era louca e foi efetivamente internada. É espetacular o livro e a história é fascinante.”

Para escrever “Coisas de loucos”, Catarina seguia para pesquisa, nos dias de folga do jornal, e ia por exemplo ao Júlio de Matos. “Eu lembro-me de quando passava no Júlio de Matos, ia a conferências, e lembro-me que num cantinho havia uma biblioteca. E eu cheirava, adoro o cheiro a papel antigo, e eu sonhava sempre em escrever sobre aquele passado”. 

Ponto Final, Parágrafo é um podcast sobre literatura, conduzido por Magda Cruz, da ESCS FM em parceria com a Comunidade Cultura e Arte. Já conta com 45 episódios principais em três temporadas. Pode ser ouvido em todas as plataformas de áudio.

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.

Artigos Relacionados