Entrevista. Madnixa e Proflow: “No rap, se não disseres de onde vens, a tua validade fica comprometida”

por Romão Rodrigues,    27 Outubro, 2022
Entrevista. Madnixa e Proflow: “No rap, se não disseres de onde vens, a tua validade fica comprometida”
Madnixa e Proflow / DR
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Para eles, só existe uma forma de encarar o hip-hop com humanidade: ser melhor a cada rima, a cada música e a cada produção. As raízes do projeto Tostadoz Crew remontam às ruas de São Martinho do Campo e às brincadeiras com os restantes membros do núcleo duro e coeso, como afirmam. Versatilidade e autodidatismo acompanham-nos desde o berço. “Onde todos ajudam, nada custa” é adágio seguido e cultivado. Foi assim que foi construída A Cozinha. E foi de lá que, até à data, saíram oito receitas musicais enformadas em poesia de rua.

Expliquem lá a quem não vos conhece quem são os Tostadoz Crew e como é que o projeto surge.
Madnixa. É um grupo de amigos. Acima de tudo. Posso dizer-te que eu e este gajo [ProfLow] estamos juntos desde o infantário. Somos aqui todos desta zona: São Martinho do Campo, São Mamede de Negrelos, São Salvador do Campo. Andamos todos juntos na escola, jogamos futebol juntos. Desde o berço.

Proflow. Sempre fomos um grupo de amigos muito coeso. Éramos 8 sempre para todo o lado. Quase 24/7. E o nome surgiu numa noite longa noite que passamos juntos, como era costume. Foi uma coisa puramente random. Foi o Machadinho — um amigo nosso — que nos apelidou assim e nem sabia que tinha sido ele: durante esse mesmo jantar, andava sempre a dizer “ó puto, estás todo tostadinho”; tiramos uma foto a todos, no final, com essa descrição. E acabou por ficar… Hoje em dia, os Tostadoz Crew são um coletivo criativo. É aquilo que nós chamamos.

Quem é que integra os Tostadoz Crew?
Madnixa. Eu, o ProfLow, o Vareta, o Moleiro, o Jota, o Berto, o Edgar e o Fernando. Fernando Ferramenta (risos). Há uma razão para nós dizermos que somos um coletivo criativo: tudo o que está aqui no estúdio foi construído por nós, pelos Tostadoz. Cada um faz um bocadinho, cada um dá de si para a causa. Por exemplo, o Vareta ajudou-nos a construir esta mesa que temos aqui no estúdio. O ProfLow mistura as músicas e está a começar a produzir beats agora. O Edgar grava os vídeos. Todos têm uma função ou contribuem de alguma maneira. E, se calhar, é isso que faz de nós um verdadeiro grupo. Ainda há pouco, organizamos o Monta Nelas 3.0 e nisso já entrou o Berto e o Moleiro, por exemplo.

Proflow. Não são oito gajos que rimam nem oito gajos a produzir, mas cada um ajuda à sua maneira.

Se chegarem a patamares mais elevados, como a participação num festival ou dar um concerto num pavilhão, eles vão acompanhar-vos.
Madnixa. Uma pessoa nem precisa de dizer que os vai levar. E nem precisamos de estar a falar em concertos. Podia ser em qualquer coisa. O pessoal está sempre junto.

Proflow. Claro. Precisamos muito deles lá e não faz sentido eles não estarem lá! Não precisam de estar em cima do palco, como é óbvio, mas claro que a presença deles é fundamental. Além disso, somos um grupo com gostos muito semelhantes. Eu e o Nixa é que estamos virados para a música. Não sei se depois vais perguntar…

De que forma é que a música atraca neste vosso grupo?
Madnixa. Pá, foi em mais uma noite de destruição. Eu comecei a ouvir RAP por causa de um ex-namorado da minha irmã. Introduziu-me os Dealema, os Gatos do Beco, Quartel 469, Mind Da Gap, sobretudo rap nortenho. Depois, numa noite, impelido por esse estado de espírito, pedi um beat e comecei a improvisar. Claro que muito fatela, mas foi assim que tudo começou.

Alguma das vossas músicas atuais datam desses momentos ou foi tudo reinventado?
Proflow. Ficou, ficou. Esta Mixtape ainda não está acabada, mas as primeiras músicas têm oito anos ou mais! Da faixa 1 até à 8, está retratada a progressão do Nixa enquanto letrista e a minha enquanto produtor, mistura e masterização. Isto sucedeu por necessidade. Eu disse “Nixa, vamos gravar, mas não vamos pagar a ninguém!”. Reunimos e fomos pela chamada tentativa-erro. Ouves “Anomalia Psíquica” e sabes que tens ali uma letra característica e diferente porque a música não tem refrão. É uma rima básica! Fazíamos isso e depois íamos fumar uma canhota, estás a ver?

Madnixa. Não foi a primeira música que escrevi [Anomalia Psíquica] porque, quando comecei a improvisar, já escrevia. Fiquei com o bichinho e, mal chegava a casa, pegava num caderno. Só que às vezes não acontecia nada. Aquela lembro-me de a escrever no secundário. Tinha 16 barras escritas. Ainda estudávamos em Santo Tirso. Estava eu, o Vareta, o Moleiro e o Edgar. Lembro-me de lhes mostrar a letra numa boa e de eles ficarem muito entusiasmados. Fui super motivado para casa para continuar. A música é curta porque eu queria lançá-la cá par fora no imediato. É a primeira música da Mixtape. Foi escrita em 2013, 2014.

Proflow. Temos 20 tropas que sabem esta música de cor. Ainda nem tínhamos material de gravação e o pessoal já cantava a música. É uma música básica, é. A cultura hip-hop foi criada assim, na rua. E o nosso projeto também. Em noites fortes, a Anomalia Psíquica chegava sempre. Não falhava. Mal ele começava a cantar, o pessoal seguia todo. A voz dele quase nem se ouvia.

Em algumas músicas, tu rimas já dentro da própria frase. E verso com verso, claramente.
Madnixa. No início, preocupava-me em rimar bem e queria que aquilo soasse bem. E claro, a letra. Queria transmitir alguma coisa. Musicalmente, foi educado assim. Nas primeiras músicas, as minhas rimas são mais simples. A partir do momento em que consegui ficar mais à vontade a escrever e mais solto — a manobrar as palavras para tornar a rima mais interessante — fui elaborando mais e fui fazendo cenas mais complexas, nomeadamente entre as frases e tal. O meu objetivo era (e é) que cada música que eu escrevo seja melhor do que a anterior. Com uma métrica porreira e com um sistema rimático bom. Mas nunca esquecendo a letra e a mensagem que quero passar.

Madnixa e Proflow / DR

A música Caminho… estão situados?
Madnixa. Espera aí…

Proflow. Eu vou explicar. Pelo nome não dá…

Madnixa. Essas músicas são muito antigas. Existiu alguma dificuldade porque tivemos de fazer adaptações desde mudar o beat original e as próprias letras. Mesmo no próprio título: nós tínhamos músicas sem nome!

Proflow. Eu lembro-me que uma se chamava “Tou Ocupado”.

Madnixa. Olha, o Edgar chamava à música A Receita a rima que ele mais curtia. (risos).

“Obrigado, Fuse, não sou mestre, sou discípulo!”. Começa assim o Caminho. Trata-se de uma homenagem a um ídolo do mundo do hip-hop?
Madnixa. Os Dealema são o meu grupo favorito de hip-hop/rap. Não há volta a dar. Sem dúvida que o Fuse, dos Dealema — se calhar, numa fase mais inicial — era aquele com quem eu mais me identificava. Depois, mais com o Maze também, em algumas etapas da minha vida. Mas o Fuse é o Fuse. É um monstro! Na música, essa frase é uma homenagem ao Fuse, mas não só. Sempre me revi naquelas palavras. O que eu quero dizer é que estou aqui sobretudo para aprender com aquilo que vejo todos os dias, quer por vontade própria ou não. E claro, com aquilo que me transmitem. Claro, também gosto de poder ajudar ou servir de inspiração para alguém, isso é muito bom.

Sempre fui um gajo mais retraído. Naqueles momentos relaxados de que já falamos. Às vezes, o pessoal queria que eu rimasse e adiava isso mais um bocadinho. Uma vez, o Berto disse-me uma frase que me ficou na memória. “Se te fizessem uma proposta para ir atuar a “x” evento ias? Eu disse-lhe que não que não era o meu género de público que quase, ou até mesmo ninguém ia entender”. Ele respondeu “se calhar, em 100 pessoas, 99 não querem saber, mas uma está atenta”. É esse o pensamento.

Se tivessem que descrever um dos vossos mestres [Fuse] numa palavra, qual utilizariam?
Proflow. Isso agora…

Madnixa. É muito difícil.

Proflow. O que me vem logo à cabeça é “Inspetor Mórbido”. Se calhar, utilizava mórbido, mas no bom sentido. A escrita dele é fora de série. Se ouvires os primeiros álbuns de Dealema, quando o Fuse entra, parte tudo. A colocação da voz, a postura…

Madnixa. O Fuse é complexo. Podia dizer que, para mim, tem duas faces. Uma mais negra, mórbida e agressiva. Outra mais altruísta e introspetiva, um ser humano de outra dimensão. Talvez “equilíbrio” seja a palavra que descreva o Fuse.

https://www.youtube.com/watch?v=6QEYBWeBAdw

Tudo é política. Mas a política, naquele sentido que é comummente conhecida, está muito enraizada nas vossas músicas. Vocês dirigem-se muitas vezes à elite política e aos dirigentes dos mais altos cargos da nação. São eles que querem e continuam a rezar a missa a quem sabe ler a Bíblia?
Madnixa. A primeira música que fizemos. Anomalia Psíquica tem esse verso. Não era diretamente para a política. Eu fiz aí umas rimas numa fase mais recente, que essas sim podem ser dirigidas diretamente para políticos. Mas outras são dirigidas para pseudo-rappers e para pessoas responsáveis pela entrada do hip-hop num mainstream negativo. Algumas pessoas que me faziam confusão e tal. No início, bem no início, as minhas punchs eram mesmo pura preocupação estética. Gostava de fazer rimas que tivessem duplo ou triplo significado. Para pôr o pessoal a pensar…

Social e culturalmente, os políticos também rezam muito a missa a quem tenha a lição estudada?
Proflow. Sim, claro. Hoje aplica-se inteiramente e tem uma associação muito forte a esse estigma.

Neste mundo do hip-hop, quem são essas pessoas que vos fazem comichão?

Madnixa. Se tivermos dois olhos na cara, conseguimos perceber perfeitamente quem são esse tipo de pessoas.

Proflow. Sem colocar nomes, quem não está aqui com os mesmos valores com que nós e outros estamos, por exemplo.

Madnixa. Mas respeitando esse pessoal.

Proflow. Sim. Há espaço para todos no hip-hop! Enquanto existir pessoal a ouvir os sons e tal, tens sempre espaço. Não vou dizer que determinada pessoa não pode fazer rap se é ouvida e se tem sucesso, seja lá o que isso signifique. Não sou o dono da razão nem da música. É nessa perspetiva. Eu levo essa rima para aqueles gajos que não têm os mesmos princípios do que nós. Hoje em dia, é muito fácil e muito fixe fazer umas rimas, pôr um cap na cabeça e intitular-se como rapper. Felizmente, não é tão simples como parece. Dá para perceber que existem rappers que não são reais e as pessoas que não o são fazem-me comichão. Se eu notar que alguém está comigo para o levar às cavalitas de maneira que ele atinja o que quer…

Madnixa. É o show-off também. Nada contra trappers, já agora. Numa rima eu digo “rimo sem traps e caps” e, se calhar, houve um momento em que tinha esse estereótipo. Mas reconheço que existe trap com qualidade, como toda a música feita nos mais diversos estilos. Refiro-me sobretudo a quem utiliza o rap como rampa de lançamento para ter fama/protagonismo e com isso alcançar algum tipo de regalias. É mesmo assim, sem tirar nem pôr.

Proflow. Só para rematar este assunto: já disse a muitas pessoas que o Sam The Kid é a prova real do que é viver para a cultura e não viver da cultura. Nós estamos nisto de alma e coração, porque queremos ser cada vez melhores a fazer isto e contribuir para que esta arte seja levada a sério.

Madnixa. Sempre quis fazer música primeiro para mim, como uma forma de expressão pessoal! É claro que depois tendo certezas e noção daquilo que queria e defendia, viria o escrever para quem me quiser ouvir e encontrar nas minhas letras, força, motivação, orgulho ou simplesmente identificar-se com aquilo que digo. Eu quis sempre fazer uma rima melhor do que a anterior. Uma métrica mais arranjada, uma punch melhor, tudo melhor. Nós fazemos música com esse intuito. Na música e na vida.

https://www.youtube.com/watch?v=U-jyNmHXG48

Se pudessem entrar com uma só música em palco, para o resto da vida, qual seria? E porquê?
Madnixa. É muito difícil. Tenho uma que queria cantar sempre. A Desempenho por aquilo que significa para mim e pela própria estética, pela maneira como está escrita e produzida. Eu fui evoluindo em estúdio porque nunca tinha gravado uma música. Ninguém me ensinou a falar para o microfone. Quando o microfone chegou, ligamos ali e ali e este aqui disse “Ó Nixa, esta merda está avariada”. Eu a pensar que tinha gasto cento e tal euros num mic, mais cento e tal numa interface para vir tudo estragado. Foi de rir. Era o cabo, estás a ver? Nunca ninguém nos explicou isso. Chegar à Desempenho, a evolução que tivemos até aí e aquilo soar mesmo bem foi um prazer enorme mesmo.

Proflow. O que se passou com ele na escrita passou-se comigo na mistura. Ouvi a Desempenho a primeira vez e disse “é mesmo isto, não mexe mais”. Ainda esta semana ouvi quatro ou cinco vezes e disse-lhe que já não consigo ouvir a voz dele porque são centenas e centenas de vezes. Se calhar, pelas mesmas razões do Nixa, levávamos essa para o palco.

Madnixa. Agora, se fores falar da que o pessoal gosta mais e parte tudo, tens a Anomalia e tens a 4795. Uma dessas duas. A 4795 mais pelo refrão, a Anomalia é de início ao fim mesmo.

Proflow. Um gajo não precisa de cantar sequer. Mas ainda não saiu a última, essa vai mesmo partir a tasca toda.

Qual é última? Temos curiosidade…
Madnixa. Está a caminho, mais ainda estamos a trabalhar nela. Está tudo encaminhado.

Proflow. É 100% nossa. Vai ser a minha primeira produção também. Isto é uma mixtape. Nas primeiras sete músicas, as letras surgiram de instrumentais de músicas retiradas de pessoal que para nós é referência — Jake One, Mr. Green, Apollo G, Marco Polo e outros. Na oitava, como temos uma letra muito forte, quisemos fazer uma cena original. É uma história bonita. A originalidade não podia falhar.

Mas quem é que ia fazer o beat? O Nixa já tinha criado a letra num beat muito forte do Kanye West, um beat monstruoso. Mas queríamos um original a toda a força e estávamos a perder a esperança. Eu ainda não bulia muito. Perguntamos à MOBB BEAT, uma comunidade criada pelo Evolute Eles fazem desafios semanais, os produtores fazem todos um beat com os samples. Tem uma comunidade que nos ajuda a crescer. Então, nós falamos com o Evolute. Lancei lá um desafio e disse que ele tinha em mãos o a capella para os produtores fazerem os beats. Mais do que um, todos igualmente incríveis. Mas ainda não era aquela cena. Um dia estava aqui no estúdio com um álbum da Diana Warwick que eu gosto muito. No B Side, tinha lá um sample que olhei para ele e disse “é isto”. Vim a correr para estúdio para trabalhar sobre ele, liguei ao Nixa e ele veio disparado também.

Madnixa. É um projeto fixe. Temos falado nisso nas últimas semanas. Nós trabalhamos e temos as nossas, cenas temos que ir passo a passo. Temos de terminar este pesado fardo que é a mixtape. Estamos a fazê-la desde 2020 e temos grande responsabilidade nesta última música. Temos também o objetivo de fazer a versão física da mixtape, ou seja, dar formato visual às nossas músicas com o nosso Edgar e o nosso Rui Machado. Queremos lançar a nova música e, passado algumas semanas, dar uma festa do lançamento da mixtape Tostadoz. Nem vai ser preciso chamar, para ser sincero. O pessoal sabe que uma pessoa anda aí a cantar em becos e, quando perceber que vamos finalmente dar um concerto do nosso projeto, que é também o deles, vai sair à rua.

Na vossa poesia e consequente música, existe muito aquele sentimento de não esquecer as raízes e os momentos passados na rua. Este projeto só faz sentido assim?
Madnixa. Creio que sim. Eu rimo aquilo que vejo e o que vejo passa-se onde andava e ando, nesses tempos andamos muito na rua admito. Além disso, existe uma união enorme entre nós, como já dissemos. Ficamos aqui neste nosso estúdio até de madrugada, muitas vezes, tal como na rua e é aí que vai morrer.

Proflow. No rap, se não disseres de onde vens, a tua validade fica comprometida. Somos muito ligados à nossa terra e ao seu povo. Faz parte de nós.

https://www.youtube.com/watch?v=GUdMWaXOBr4

Vocês participaram num concurso do Super Bock Super Rock. Contem-nos tudo o que se passou.
Madnixa. Esse concurso não é novo. Já fizeram para rock e para mais estilos musicais. Uma altura, estava no Instagram e vi a publicidade. No ano passado, acho eu, abriu o concurso para rap/ hip-hop e óbvio que me quis inscrever de imediato. Faltavam quatro/cinco dias para o fim das inscrições. E eu pensei “vou pôr aqui uma letra de uma cena solta que tenho a ver no que dá”. Depois, reverti tudo aquilo. “Não, vou mas é escrever a melhor letra para isto”. Tinha feito uma letra há pouco tempo [Que Me Inspire]. Para mim, é a melhor letra que eu tenho. Tem muitas referencias: desde escritores a personagens históricas, com passagem por filósofos. Falei com o Proflow e ele aceitou. Até tinha pensado em ir a estúdio para gravar videoclipe e tal. Isto foi feito em tempo recorde. Até no último dia gravamos cenas, tenho de fazer uma vénia ao Ed (Edgar), fez um trabalho do outro mundo, foi incansável como sempre. Por desconfiar que ia haver o tipo de música a que estamos habituados agora, quisemos meter muita letra, muita informação, muitas referências. Lançamos aquilo na descontração pura.

Um dia, estava a trabalhar e este mano ligou-me. “Nixa, ficamos nos 10 finalistas”. Fiquei super contente. Com os recursos que tínhamos, acho que aquilo ficou porreiro: um telemóvel, um microfone, ele a masterizar a música e a dar uns toques aqui e ali.

Proflow. O resto pode resumir-se na imundície que é a indústria da música. O concurso foi sujo. O vencedor era selecionado por número de gostos e comentários. Nos primeiros dias, nós estávamos a liderar com uma diferença enorme.

Madnixa. Foi aí que eu tive a noção do feedback dado pela música. Eu nunca fui aquela pessoa que repostava posts e essas cenas. Odeio isso. Muito pessoal partilhou o nosso vídeo e fiquei mesmo orgulhoso, pessoal que eu nem conhecia. Curtiram da música e diziam nos comentários “vamos pôr S. Martinho no mapa”. Começaram-se a aproximar aos poucos, mas estávamos bem encaminhados. Mas no último dia, ou dois dias, um gajo que estava em quinto ou sexto lugar, salta para primeiro. Nós tínhamos 300 gostos, por aí, o gajo passou para 5000. Outro, de repente, já está nos 10 000.

Proflow. É o chamado fator indiano. Conhecem?

Madnixa. Aquilo era só bots. Muitas pessoas reclamaram com os moldes em que o concurso estava feito. Aquilo estava minado. Nos comentários, principalmente. Houve polémica. Lembro-me que o resultado estava previsto para dia 10 e só saiu no dia 12/13. Quando foi adiado, até pensei que fossem reverter aquilo, mas não aconteceu. Essas pessoas tinham o mérito delas por estar lá. Mas nós estamos de consciência tranquila porque não houve trafulhices ou ajudas connosco. No júri para os 10 finalistas, estava o Valete, Sensei, Keso, o diretor da rádio da Super Bock. Ter essas três pessoas, que percebem de música, a escolherem o nosso projeto já foi uma vitória. A partir daí são “os likes” que contam, para nós passam ao lado!

Mesmo perdendo essa oportunidade, deu-se um passo em frente?
Madnixa. A par disso, é ter tido o feedback do pessoal da terra. Principalmente daqueles que não nos conheciam ou não conheciam o que andávamos a fazer. E claro, se lhe juntares o facto de seres apreciado por pessoas que consideras como referências de trabalho, ainda melhor. Íamos ao café e toda a gente perguntava se já tinha saído o resultado, se tínhamos ganho, foi incrível o apoio.

Proflow. Mesmo alguns clientes me perguntavam isso e diziam que já tinham partilhado o nosso vídeo, vincavam aquilo mesmo. eu nem sabia que alguns conseguiam chegar ao Youtube.

Madnixa. Além disso, saber que deixei os meus pais orgulhosos. O meu pai também associa o rap a esse tal estereótipo que muita gente tem na mente: criminalidade e drogas, para ser sucinto. Ele viu que um gajo está a fazer cenas com qualidade e que não está associado a esse tipo de coisas foi motivo de orgulho para ele. Foram dois ou três passos em frente.

“Trabalho é palavra de ordem!”. Tens isto numa música. Outra palavra que habita o imaginário das vossas canções é “revolucionário”. Luaty, MFA, Saramago, Gandhi, Descartes, Salvador Dalí, Manoel de Oliveira, António Gedeão são personagens da música “Que Me Inspire”. São pessoas que vos inspiram pelo trabalho e obra ou pelas minis revoluções que desencadearam nas diversas áreas?
Madnixa. De tudo. São muitas as referências. Não posso dizer que Saramago me inspirou por ser comunista, mas posso dizer que me inspirou pelos seus escritos, por aquilo que li dele. O Luaty já me influenciou pelo aspeto revolucionário, pela greve de fome, pela prisão, o ser contra o sistema implementado. A poesia de António Gedeão, pela cultura, pelos seus posicionamentos. Eu também falo de imperadores romanos. Às vezes, para rimar, é preciso arranjar estratégias. Não quer dizer que me inspirem, mas têm fundamento e fazem sentido para a letra. Apoio-me um bocado nisso. A revolução vem da educação do rap que tenho. O chamado rap de “pé na porta”.

https://www.youtube.com/watch?v=rvtXAULXLLM

No espetro político, como se situam?
Proflow. Não temos partidos nem filiações. Mas somos de esquerda. Para nós, só faz sentido assim. As ideologias são de esquerda. Mas tento sempre formular na minha cabeça aquilo que é certo e aquilo que é errado.

Estes senhores todos, acima de qualquer obra, eram livres. Pensavam pela própria cabeça. E, quando encararam problemas, tentaram contorná-lo de acordo com essa liberdade e com a postura que lhes era característica. Foi isso que os elevou. Lembro-me perfeitamente de irmos, desde putos, para todo lado a ouvir Quartel 469 e de adorarmos aquilo. Abriu-nos horizontes para esse espírito revolucionário. O rap é também isso. É intervenção, a todos os níveis.

Madnixa. Quis usar essas tais referências para dar conteúdo à letra, para mostrar que o rap também pode ser uma música bem escrita e bem cantada.

Proflow. Não é só isso. Também é, mas não só. O rap pode ser aquilo que tu quiseres fazer dele. Por exemplo, para mim, um artista que tem no seu reportório músicas dentro de um mesmo tema. Para mim, isso pode querer dizer duas coisas: ou que ele é fingido como artista ou que não passa daquilo e não consegue contribuir para a arte de outra maneira. O rap necessita de ser interventivo, não que tenhas de escrever sobre intervenção nas mais diversas formas ou ter aquele boom bap agressivo. Costumo dizer que não temos de ser Mind Da Gap, mas também temos de ser um bocadinho.

Madnixa. Ser versátil, acima de tudo. Acho que as minhas letras até o são porque não falo sempre da mesma coisa. Também tenho canções de amor e desabafos pessoais sobre isso.

O Sam The Kid também tem letras que encaixam nesse tópico que estamos a falar, por exemplo.
Madnixa. O Sam The Kid tem letras sobre tudo e mais alguma coisa. Mas acima disso, é um artista real. Escreve e debita o que lhe vai na alma. Por isso é que tem o respeito que merece. Se eu vejo notícias quando acordo de pessoas que passam fome em África ou que roubam dinheiro em Portugal, provavelmente vou pensar nisso e transpor para o papel. Porque aquilo me toca verdadeiramente. Isto é só um exemplo. Se calhar, se estiver numa relação com uma rapariga e aquilo estiver a correr muito bem ou muito mal, vou transpor isso para o papel. Eu escrevo sobre muitos assuntos ao mesmo tempo e acaba por ser um trabalho de complementaridade porque vou acrescentando à medida que me lembro. Tudo o que eu faço revela o meu estado de espírito. Era um bocadinho aquilo que o Proflow dizia também. Por exemplo, não vou ouvir uma pessoa que só fala de ganzas nas músicas dele, ou de ostentação. A música até pode ser engraçada, quando é ouvida pela primeira vez, mas depois aborrece. Parece que a pessoa não está a sentir o que diz, eu noto isso.

Proflow. Às vezes, ouvimos pessoal que está a surgir neste mundo (como nós) e trocamos impressões. Mandamos as músicas um ao outro e tal. Ouvimos a primeira vez e a segunda e gostamos. Passados uns tempos, quando já temos mais conhecimento, ouvimos de novo e sentimos que é forçado. Não é que sejam letras más ou músicas más. Mas é forçado porque muita gente vê na música uma rampa e agora está a esgotar esse recurso até ao limite. Aliás, nem consegue sair dele. Não consegue escrever de outra forma. Ou exprimir-se.

Não se deve contar a mesma piada da mesma maneira ao mesmo público duas ou mais vezes porque podemos desgastá-lo e desgastá-la. É um bocadinho isso?
Proflow. Exatamente!

Madnixa. Claro! E depois tens a agravante do público e sua exigência. Por exemplo, não vamos fazer uma música a exultar a ideologia de direita e, mais tarde, fazer outra a exultar a ideologia de esquerda, não é? Também te estás a contradizer. Eu acho que o público gosta de um leque diversificado daquilo que é o teu trabalho. E, se o trabalho tiver esse tal cariz diverso e versátil, acabamos também por chegar a mais gente e a gente mais diversa.

Proflow. Naturalidade acima de tudo.

A escrita surge quando começas a fazer as primeiras letras ou tem uma história mais antiga? Contactavas com a leitura antes de escreveres?
Madnixa. Posso dizer-te que noutros tempos não fui um gajo muito devoto à leitura, até comecei a ler mais depois de começar a escrever, afim de procurar mais conteúdo por exemplo. Novas fontes de inspiração. Na escola, nunca fui um às na escrita. Depois, tudo veio com a música e com o hip-hop. A certa altura pensei “se eu consigo trabalhar no improviso, deixa-me trabalhar na preparação e numa cena pensada”. A primeira música da mixtape é a primeira música publicada, não é o meu primeiro trabalho. Tenho mais letras antes dessa. Foram rascunhos. Sempre gostei de fazer trocadilhos e de brincar com as palavras. Lembro-me que tinha um caderno laranja onde eu escrevi “hip-hop”, que era o nome que queria que o meu álbum tivesse, isto há mesmo muito tempo. Esse “HIP HOP” era a sigla para Homenagem Imensa Para Homens OmniPresentes! Acho que é bom para um puto de 14 anos. Já estava na cena de falar sobre os Tostadoz Na altura, já andávamos todos juntos e éramos amigos. Ainda hoje procuro o caderno e não o consigo encontrar. Esse caderno tinha letras muito básicas.

Proflow. Desde que o conheço, a música está nele. Está sempre a bater com as mãos e a produzir sons. Não se trata de um talento ou coisa parecida. Está nele. Ele pega numa guitarra e, se tiver um contratempo ou deixar cair a palheta, consegue recuperar sempre. não precisa de pauta. Tem ritmo.

Madnixa. Lembro-me de ser puto e à sexta o meu pai ir ao café ou assim, e eu ficava com a minha mãe em casa, já agora ela canta no rancho de São Martinho, e ela punha sempre o mesmo CD, todas as sextas!! Ela arrumava e eu jogava playstation, mas sempre no repeat. Não sei se isso ajudou. Mas o certo é que ajudou com o ritmo. Os meus pais foram pessoas ligadas à música. Eu tenho uma rima que diz “veia poética vem do folclore”. A minha mãe, até à pandemia, na altura de reis, entusiasmava-se só a escrever as quadras. Se calhar, vem daí. Depois, é o querer aperfeiçoar a coisa. Ultimamente, até tenho escrito para mim. Desabafos. A faculdade também me ajudou nisso. Andei em Letras e tive muito contacto com malta que adorava escrever. Isso fez-me evoluir também.

Agora com o Proflow. Como é que surgiu esse fascínio e essa vontade de explorares o mundo do DJing?
Proflow. Por incrível que pareça, nunca pensei nisto para acompanhar o Nixa. Aliás, eu comecei nisto antes de começarmos a gravar juntos. Pouco falávamos nisso. Eu comprei as cenas primeiro e tudo. Simplesmente, como temos gostos semelhantes, a coisa deu-se. Mas isto surge porque eu queria fazer Scratch. Sempre tive muito interesse. Na altura do secundário, a minha lista trouxe os Quartel 469 a uma discoteca aqui em S. Martinho. Eu estava na frontline e vejo o DJ Filipe a arranhar e pensei “eu quero fazer muito isto!”. Começou aí. Comecei a entrar no mundo, comprei o material e lancei-me. Eu levo o DJing muito a sério. Sei quem é pessoal real e quem são os wannabees. Sei quem faz a cena por gosto e quem faz por fazer.

A cena da produção surge mais tarde. Comecei com as misturas e com a masterização por necessidade. Depois, dei o toque ao Nixa e convenci-o a experimentar o material em conjunto. Só tenho isto aqui e vamos trabalhar com isto. Mais tarde, fascinado por aquilo que conhecia e conseguia fazer, quis fazer beats e samplar.

Une-vos uma espécie de autodidatismo. Já pensaram que os projetos — que num primeiro momento eram pessoais – se fundiram nessa característica que partilham e que vos é comum?
Proflow. Sem dúvida.

Madnixa. Os Tostadoz no fundo, são isso. Esse autodidatismo em muitas áreas.

Os vossos pais sempre demonstraram apoio? Ou pensaram “porquê rap e não outro estilo?”
Madnixa. A minha mãe nem sonhava que eu escrevia e que cantava. Lembro-me que uma vez lhe foram dizer isso lá a casa e que ela ficou bastante admirada. Quando sentiram esse impacto, deram-me muita força. Na altura da Anomalia Psíquica. Podem não dar incentivo e não demonstrar, mas sentem muito orgulho em mim.

Proflow. No meu caso, porque ainda preciso de mais material, os meus pais foram incansáveis. Sem eles, não era possível. Este nosso estúdio está na casa da minha avó. Mal eu disse aos meus pais que queria construí-lo, eles arranjaram logo maneira e ajudaram-me a tirar as cenas daqui, porque era um quarto de arrumações.

Madnixa. Proflow. Como é que surgem estes nomes artísticos?
Madnixa. Chamo-me José Ferreira e o “nixa” surge de um amigo nosso, o Ricardinho. Parávamos num café e havia lá um fulano que era o Zé Nixa. Brincadeiras e fiquei marcado. Antes, era o MC Nixa. Depois, num jantar em Santo Tirso, eu levei um casacão que era do meu pai. Olhei-me ao espelho antes de sair de casa, mas levei aquilo na mesma. Este gajo, vendo-me naqueles preparos, saiu-se com “ei, madnixa!”. E ficou!

Proflow. O meu nome provém da minha postura no mundo do DJing. A minha postura neste mundo é educativa. Daí o prof. Porque faço a ligação entre sets. Depois, eu gosto de fazer as cenas para mim e estar no meu canto. Não sou introvertido, mas não gosto muito de exposição. Daí o low. Depois juntei e saiu aquilo.

Sei que ainda são novatos em entrevistas, mas estou a gostar do vosso Desempenho. O que é sentir o tempo que passa e que vem?
Madnixa. Quando escrevi essa música, estava no meu primeiro emprego. Estava muito naquela fase de questionar tudo e de perguntar se era aquilo que eu queria. Os meus amigos falavam comigo e diziam-me que eu podia ter entrado na faculdade. A minha vida estava a entrar num rumo estranho e que não era aquele que eu queria alcançar. Eu trabalhava, ia para a noite e pouco mais. Estava a ver o tempo a passar, mas queria sair dali e ver o tempo que se avizinhava. Tinha de reagir. Esse foi um ano que pus as fixas em jogo. Despedi-me da empresa. Entretanto, o meu avô tinha falecido. Ainda jogava futebol, no meio disto tudo. Ainda tinha explicações. Essa rima é muito sentida.

A Desempenho é uma música muito pessoal. Depois, foi uma altura em que me apercebi que muitos das minhas referências criticavam a minha geração — com a sua razão — mas na qual eu não me revia. É uma revolta pessoal também.

Não consideras que as críticas de que falas têm razão de ser?
Madnixa. Sim. Há um pouco de tudo. Todas as gerações têm as suas fraquezas e impotências. Nessa música, eu quero afirmar que nas gerações mais novas também há pessoal que sabe o que está a fazer. Eu sei que eles sabem isso. Eles dizem aquilo que pensam. Eu escrevi isso em 2017 e a mentalidade era outra. Entrei com 20 anos.

Proflow. Essas críticas também dependem de onde vêm. Em todo o lado tu ouves aquele saudosismo “no meu tempo é que era”. Isso para mim vale pouco porque são pessoas que notam que o tempo delas já passou. Às vezes, critica-se só por criticar. A nossa geração tem gente muito capaz em todas as áreas. A idade não me diz nada. Mas claro que vais errar quando generalizas, porque não podes definir a geração numa palavra ou num conceito.

Vocês já estão a viver para isto. Para o hip-hop. Mas querem viver disto no futuro.
Proflow. É exatamente isso. É uma conclusão simples e faz todo o sentido. Às vezes, o pessoal tenta convencer-nos a dar um concerto para ganhar x ou y. Zero, zero, zero! As coisas funcionam bem e a moção está lá. O ganhar dinheiro é uma consequência. Uma pessoa faz isto porque se sente bem. O Nixa, numa letra, diz “vou ter que escalar, mas eu não durmo enquanto não chegar ao cume da montanha e ver lá os meus pés”. E é mesmo assim que pensamos. Enquanto estás a escalar, desfruta do que estás a ver. Sem pressas. É a mesma cena com o DJing. Eu já fui convidado para passar música em alguns locais, mas estava castrado porque não era a minha música, não tinha escolha. E eu isso não quero. Prefiro esfalfar-me noutra cena e fazer o que gosto só para mim.

Madnixa. O objetivo nunca foi carreira. Nunca me imaginei a viver disto e a ganhar dinheiro com isto. O viver disto, para mim, é ir fazendo porque gosto. Simples. Estavam sempre a lixar-me a cabeça para gravar as músicas da mixtape. Aos anos. Eu dizia sempre “calma!”. Ainda quando só tinha duas músicas. Este gajo começou a interessar-se, a ajudar e montamos o estúdio. Depois, compramos um microfone. Sempre passo a passo. sempre.
Quem é que não gostava de rodar festivais em Portugal e de dar concertos atrás de concertos? Claro que gostávamos. Mas não sonho com isso. Como o Proflow disse, é uma consequência disto. Pura e simplesmente. Quero é fazer a melhor rima! Agora, não vou andar a bater de porta em porta e a pôr vídeos no Youtube só para ter muitos likes e concertos à pala disso! Os objetivos primordiais são acabar a mixtape e dar o concerto de abertura memorável!

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