Glockenwise: “Vivemos num mundo estranho, não vivemos? Parece tudo uma caricatura do que se pretendia ser”

por Ana Isabel Fernandes,    26 Abril, 2019
Glockenwise: “Vivemos num mundo estranho, não vivemos? Parece tudo uma caricatura do que se pretendia ser”
Glockenwise / Fotografia de João Garcia
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Os barcelenses Glockenwise lançaram, em Dezembro passado, o álbum Plástico, caracterizado por um lado estético, visual e sinestésico bastante vincado. Basta ter em atenção o videoclipe do tema de avanço, ‘Moderno’, em que a tonalidade azul toma conta da imagem enquanto o conceito de plasticidade toma conta dos nossos sentidos.  Sonoramente há também uma viragem, já não tão Garage Rock, talvez mais Arte Pop ― uma denominação que quase agrada Nuno Rodrigues, com quem falámos por telefone. A banda vai actuar no festival solidário Party Sleep Repeat, em São João da Madeira, já dia 27, ou seja, este sábado. Enquanto, junte-se à conversa quem quiser ler sobre pós-modernismo, modernismo, sinestesias, de como a partir do individualismo se pode partir para algo mais geracional ou, até, como nós somos os nossos próprios espaços. É uma entrevista também pós-moderna, portanto.

“Plástico” tem uma intenção estética bastante forte pautada, até, pelo constante azul do videoclipe do tema de avanço, “Moderno”. Faz lembrar, até, Helena Almeida. Foi uma referência? Porquê um uso tão forte do azul?
No que diz respeito a Helena Almeida, é uma artista que eu aprecio bastante  e foi com muita pena que a vimos partir há pouco tempo. Quase que coincidiu com o lançamento do disco. Compreendo a comparação, porque as obras dela com um cromado azul tiveram grande destaque. Mas, na verdade, o seu trabalho é muito maior do que esse e é, fundamentalmente, a preto e branco. Em primeiro lugar, não foi uma referência, de todo, para o nosso trabalho, embora aprecie bastante. Depois, acho que a obra dela é muito maior do que, apenas, essas fotos a azul. Mas compreendo que se crie essa relação e fico feliz por isso. Na verdade, o azul era algo que já vinha dessa ideia génese que tinha muito a ver com a ideia de plástico. Tem uma resposta muito simples: nós somos de uma terra industrial, Barcelos, e os bidões que se usam para o transporte de corantes — corantes químicos para têxteis — são daquele azul plástico. Se pesquisares vais ver que são, exactamente, daquele azul. Portanto, começou aí. Queremos falar de plástico, das várias versões da plasticidade. Não falamos do material, do plástico, mas da plasticidade: a forma de fazer isso  foi através de uma forma cromática. O azul estava muito presente na minha cabeça porque associei sempre essa ideia cromática à parte industrial e, portanto, a esses bidões. A relação com a cor começa aí e acabou por penetrar todo o imaginário visual do disco. Imaginário, esse, que foi pensado pelo grupo e que nós queríamos para este disco. A música verteu para o lado pictórico e o pictórico acabou por verter para a música. Foi um trabalho conjunto com várias pessoas. Para além de nós, a banda, contou com a Francisca Marques que fez um excelente trabalho de direcção artística. Agora está a realizar, por exemplo, o Hysteria, um projecto que se está a desenvolver  na cidade do Porto. Contou, também, com o Sérgio [Couto], que era do conhecido  estúdio de design Bolos Quentes e, ainda, com o Miguel Felgueiras que é um realizador de Viana do Castelo. Nós apreciamos o trabalho do Miguel já há muito tempo e, este, foi o primeiro videoclipe que fizemos com ele. Portanto, toda a gente colaborou nesta criação do imaginário visual.

Essa vontade de um lado visual bastante forte, como se vê agora, já vinha de algum tempo?
Nós já temos essas ideias de querer meter o visual à mistura há algum tempo. Não somos das artes plásticas. Temos essa lacuna em termos de formação, pelo menos não tivemos a sorte de termos ensino artístico. Portanto, tudo o que absorvemos foi de forma ad hoc e livre. Sempre tivemos essa vontade de nos aproximarmos mais das artes visuais, tanto que no nosso disco anterior, no Heat, a sessão de fotografia e a foto de capa foi feita pelo Tito Mouraz, um fotógrafo fabuloso. Está exposto em todo o mundo, praticamente, e sempre nos quisemos aproximar de artistas que admiramos muito e que desejamos que traduzam a linguagem da nossa música através das capacidades pictóricas que nós não temos.

É engraçado. A vossa relação com a arte não é, então, formal. Não são de artes. Mas há a tentativa de pensarem a música visualmente e vice-versa. Isso faz sentido para vós?
Sim! Há, um pouco, aquela ideia das sinestesias ― dos sons que te despertam cores ou as cores que te fazem ouvir sons. Agora é estranho porque, realmente, quando penso no disco, nas músicas, não consigo não associar ao azul. Já criei essa associação para mim mesmo, uma vez que não estava estabelecida quando estava a compor. Foi, portanto, no próprio processo de feitura do disco, da criação do seu elemento físico em si  e do momento de o gravar. Foi mais nessa altura em que essas duas características se fundiram. Sim, nós sempre tivemos interesse em tratar a imagem do disco. Acho que é aquilo que nos fica sempre na memória em relação às bandas que nós admiramos muito: houve, sempre, uma plasticidade no que diz respeito às artes plásticas, ao tratamento dos trabalhos. Nós admiramos muito bandas como os Devo, por exemplo. Na verdade, nas bandas todas que admiro, eles são todos art school kids mas nós nunca fomos art school kids. Então, como não temos as ferramentas à mão mas somos pessoas estéticas — ou melhor, estetas ― temos sempre essa preocupação de sermos observadores atentos do que nos rodeia. Queremo-nos sempre associar ― não associar no sentido de aproveitar as características de outros ― mas de trabalhar em conjunto as ferramentas que nós não temos. Aproveitar as ferramentas de outras pessoas e misturá-las num espírito de colaboração.

No vosso álbum há uma outra grande ideia que salta à vista ― a de moderno. Num cômputo geral, ao olharmos para o disco como um todo,  é curioso que essa ideia surja e ande lado-a-lado com a plástico, ou plasticidade. Essa foi uma crítica pensada?
Ora bem, sou eu o encarregue de escrever as letras. Tenho uma relação mais temática com o disco. Geralmente, acaba por ser através das letras que se começa a determinar a vontade temática do álbum. Para começar, não há uma crítica que faça que não faça a mim mesmo. Não sou muito o tipo de apontar os dedos para fora, nem tenho muitas respostas. Tenho bem mais perguntas que respostas.  Acho que isso está patente na temática. Quando se fala em crítica ― não gosto de utilizar muito esse termo ― mas quando se fala em crítica, não é no sentido condescendente ou paternalista, do tipo de cavalgar o cavalo moral, mas mais numa espécie de observação. Diria que sou mais voyeur do que crítico. O moderno tem um pouco a ver com isso. Tinha a ideia muito ambiciosa de fazer um disco sobre a pós-modernidade ou falar, pelo menos,da temática da pós-modernidade sem ser crítico ,mais uma vez. Mas, mais, como uma constatação. E, o mais engraçado, é que achava que conseguia estar nessa posição de observador independente, a apontar os defeitos e qualidades da pós-modernidade. Mas acabei por — em vez de o fazer de forma moderna [pré pós- modernidade] e vangloriar os grandes valores, ideias e universalismo ― acabei por, na verdade, fazer um objecto pós-moderno também, porque acabei por falar de mim num plano pessoal, num universo interior, em vez de ser universo exterior. Portanto, aquilo que pretendia ser uma observação exterior, ambiciosa da pós-modernidade, acabou por culminar num produto dessa pós- modernidade.

Ou seja, é o conceito da pós-modernidade aliada ao seu aspecto mais autocentrado.
O pós-modernismo caracteriza-se, sobretudo, por essa ideia do plano interior, do individualismo. Na verdade, falar do pós-modernismo da segunda metade do séc. xx é muito interessante porque há uma desilusão gigante com as grandes ideias e os grandes valores. Basta lembrar que duas guerras mundiais quase que destruíram a Europa e o mundo, certo? Então aparecem escritores e artistas a fazerem ponderações do universo interior. Isso foi importante, perceber que existe um universo em nós, enfim, abordar não só a colectividade mas, também, o interior. Isso acabou por se metamorfosear, de uma forma estranha, ao longo das décadas que se seguiram. Chegamos a estes níveis de individualismo quase caricaturescos. Acho interessante, são ideias interessantes. Nós vivemos num mundo completamente estranho, não vivemos? Em que tudo parece uma caricatura do que se pretendia, inicialmente, ser. No fundo, o disco tenta falar sobre isso sem julgamentos ou juízos de valor ― era isso que eu estava a dizer. Achava que conseguiria falar de pós-modernismo sem ser pós-moderno, mas acabei por falar de mim e dos meus problemas. Da minha visão do mundo ou da percepção que eu acho que as pessoas podem ter sobre mim. É algo que, portanto, vem sempre ao ego, vem sempre ao eu [Ich], vem sempre ao pós- moderno.

Mas, se calhar, é graças a esse lado mais individual que, depois, consegues com que as coisas se abram e ampliem às pessoas da tua geração.
Calculei que tu fosses partir para aí.

Costumo fazer esta questão várias vezes [risos]. Mas não deixa de haver um lado que é geracional.
Sim, acho que a minha experiência pessoal não é assim tão diversa da experiência das pessoas da minha idade. É por isso que as pessoas se conseguem relacionar umas com as outras : vivemos coisas semelhantes, experienciamos as coisas em sociedade de forma semelhante. Cada um fará o seu trajecto mas haverá, sempre, guias mestras que acabam por criar estas relações semióticas. Nunca me preocupei  em tentar escrever algo verdadeiramente universal porque sei que não sou, assim, tão interessante para ser completamente único. Por isso posso escrever, perfeitamente, à vontade sobre o EU que estarei sempre a falar sobre o nós. Não sei se gosto disso, sabes? Mas também não me preocupo demasiado, visto que a minha relação com a arte ou com aquilo que faço é catártica. Há outros aspectos da vida em que terei de ser mais minucioso, este não será um deles. Por isso, ainda não estou afastado o suficiente para avaliar se as minhas intenções foram cumpridas, se este é um objecto que gostaria, realmente, de deixar. É o que é. É catártico!

A letra do tema corpo é das mais curiosas. Juntas uma tríade engraçada: corpo, lugar, casa.
Sabes que foi a primeira letra que escrevi e que resultou num manifesto de intenções. Não tinha pensado muito nisso na altura mas, depois, chamaram-me à atenção no momento em que estávamos a desenhar, até, o alinhamento do disco,“esta devia ser a primeira música porque começas ali com vontade de mudar e teres passos para dar.” Mais uma vez, não estava a pensar em nós nem na banda. E isto tudo ainda surge associado ao facto de estar a escrever numa língua diferente à qual não estava habituado [a escrever canções]. Não tinha escrito isto por causa de nós, os Glockenwise, estarmos a mudar ou lá o que se pareça, mas foi mais vez sobre mim. Ou seja, lá está, voltamos mais uma vez àquela conversa que as coisas depois se abrem e são todas semelhantes umas às outras.

E lá está, “Vontade de mudar/ E de ter passos para dar”, é algo com que alguém no final da casa do vinte se relaciona muito bem.
Pois, acho que é uma contenda comum [risos],imagino que  sim! Mas, depois, a parte final, que eu gosto muito ― é quase um mantra que é repetido. Acho que é mesmo um momento de exteriorização sem filtros: quero mesmo mudar, quero mesmo seguir em frente, quero mesmo ser tudo. Quero ser um corpo solto, quero ser um porto, alguém que dá e que recebe, independentemente de estar à espera de dar e de receber. Quero ser uma casa, quero ser um lar, quero ser um espaço. Em que é que eu me posso transformar? O que é que eu posso fazer de mim mesmo, ainda? É essa ideia de metamorfose, de projectarmos o pessoal no espaço. Ontem, tive o aniversário do meu sobrinho e estava a brincar com ele no sítio onde ele brinca na casa dele. Estava a pensar que tinha um espaço destes para mim, também. Uma relação em que me conseguia lembrar dos cheiros, da temperatura, das texturas, tudo. Aquele, seria esse mesmo espaço para o meu sobrinho. Nós somos os espaços também, não é? Nós somos os espaços que habitamos. É um bocado por aí, era a isso que eu me queria referir. Quero ser um espaço outra vez.

Este é um álbum não tão garage rock, talvez mais arte pop. Há  mudanças significativas. Houve desafios inerentes?
Isso ocorre, sempre, muito naturalmente. Nenhum de nós é formado em música, por isso estamos, sempre, sujeitos às nossas limitações técnicas. Essas técnicas não são só o quão bem eu toco guitarra, são, também, o quão bem eu consigo pensar em música em termos abstractos. Uma das coisas a que nos propomos é não estarmos limitados por barreiras de estilo.  Evidentemente, mais garage rock ou menos garage rock, nós somos uma banda de rock, “entre aspas”. Portanto, estamos dentro de um circuito, estamos a operar dentro de uma série de padrões estéticos. Mas o que alterou muito a estética do disco ― já não tanto no processo de composição ― foi o próprio processo de gravação e os sons que foram necessários utilizar, a maneira que tenho de cantar. Ou seja, qualquer uma daquelas músicas pode ser transformada, rapidamente, em garage rock, mas há tantas bandas de garage rock agora… É engraçado que quando nós começamos, para aí há uma década, éramos a única banda de garage rock da nossa zona, de certeza. No país diria que existiriam bandas de garage rock no Barreiro e mais nada. Ainda por cima, faziam um garage rock completamente ortodoxo. Fomos, por isso, sempre um pouco órfãos. Entretanto, acho que foi um género que saturou muito. Acho que o garage rock perdeu qualquer militância que ainda restasse, ou qualquer relevância que ainda tivesse em termos de intenções. Era algo muito da década de 2000, sobretudo da segunda metade da década de 2000. Entretanto, a coisa foi-se dissolvendo, diluindo, e apareceram ziliões de bandas. Se todas as bandas de garage rock eram as referências antigas de garage rock, então estas, agora, já são as referências, das referências, das referências. Caixas, dentro de caixas, dentro de caixas. Qualquer miúdo de 16 anos pode ver um vídeo dos King Gizzard & The Lizard Wizard, copiar os mesmos pedais e ficar com o mesmo som. Eu ainda comecei a fazer garage rock como faziam as outras bandas. Tu fazias aquilo porque, primeiro, não sabias tocar bem e, segundo, tu não tinhas nada : o amp era posto no 10 e siga. Acho que a coisa ficou um bocado desvirtuada. Na verdade, já fazemos isso há algum tempo e queremos ver que tipo de sonoridades é que nós ― dentro das ferramentas que temos ― conseguimos abordar. Compreendo a ideia de arte pop e até me agrada, quase, a classificação porque a maior parte das bandas que aprecio são catalogadas assim. Isso também demonstra que nós, em termos de intenções artísticas, conseguimos fazê-las passar ― independentemente de elas serem boas ou más ― mas há aqui um substracto, uma ideia. Em termos de desafios, realmente, nunca aconteceu ter de bater com a cabeça na parede a pensar o que vamos fazer agora. As coisas vão sempre, organicamente, avançando. Nunca há, realmente, obstáculos, a não ser os obstáculos da nossa própria criatividade.

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