“L.A. Woman” dos The Doors celebra 50 anos

por José Malta,    18 Abril, 2021
“L.A. Woman” dos The Doors celebra 50 anos
Capa do disco
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A 19 de Abril de 1971, os The Doors lançavam o seu sexto álbum de estúdio, intitulado por L.A. Woman. A banda norte-americana formada em Los Angeles e tendo como principal rosto o vocalista e poeta Jim Morrison, conseguiria, através de trabalhos anteriores e de concertos memoráveis, atingir um enorme sucesso. Para além disso, a juntar o teclista Ray Manzarek, o guitarrista Robby Krieger e ainda o baterista John Densmore, os The Doors mostravam-se um conjunto de enorme qualidade musical e com um reportório impressionante, que viria a marcar toda uma geração em tão curto espaço de tempo. O álbum L.A. Woman viria a aumentar esse mesmo estatuto, com novas nuances e ideias, e com um conteúdo lírico bastante expressivo. Apesar do seu sucesso e de uma forte aclamação pela crítica da época, L.A. Woman acabaria por ser o último álbum dos The Doors com Jim Morrison ao leme, que viria a falecer aos 27 anos em Julho de 1971, poucos meses após o seu lançamento.

Os acontecimentos anteriores à gravação de L.A. Woman foram marcados pela postura algo irreverente e por desacatos de Jim Morrison em alguns concertos, chegando mesmo a ser detido e acusado de exibicionismo e de desobediência às autoridades no célebre escândalo em Miami. Para além de se ter tornado num sex symbol da época e de uma figura algo controversa para alguns, nesta altura apresentava-se com uma enorme barba e com algum peso a mais, usando roupas menos formais, relevando assim algum descuido pela sua imagem. Morrison já teria também de algum modo mostrado intenção de abandonar os palcos, até porque as suas recentes atitudes estavam a prejudicar o conjunto. Ao que tudo indica, Ray Manzarek terá convencido a continuar no projecto por mais algum tempo e como tal surgiria assim um novo álbum, L.A. Woman de seu nome. A capa, tal como os restantes álbuns (à excepção de Strange Days), contém a imagem dos quatro membros só que desta vez a preto e branco num fundo amarelo e com rebordo em grená, o que dá, meio século depois do seu lançamento, a alusão de uma peça vintage de enorme qualidade. Em termos musicais, o álbum é fortemente marcado pelo blues que se propagada de forma predominante pelo rock psicadélico característico da banda. Gravado pela editora Elektra Records, durante apenas seis dias entre Dezembro de 1970 e Janeiro de 1971, algumas das canções já teriam sido compostas e até mesmo equacionadas na gravação de outros álbuns. A banda acabaria por contratar Jerry Scheff, baixista de Elvis Presley, e o guitarrista Marc Benno para ajudar na sua execução, acrescentando mais algum ritmo às canções. Tudo isto torna L.A. Woman no último grito vivo de Jim Morrison e também no desfecho apoteótico de uma era brilhante de uma das mais influentes bandas de sempre.

The Doors / Da esquerda para direita: John Densmore, Robby Krieger, Ray Manzarek e Jim Morrison

L.A. Woman começa então com a canção The Changeling, iniciando-se com uma explosão do teclado de Ray Manzarek acompanhada pela voz de Jim Morrison ao longo da melodia. Os célebres versos “I live uptown / I live downtown / I live all around” mostram uma enorme alusão ao próprio Morrison, numa canção que fala de mudança, havendo também uma conexão aos acontecimentos que tinham abalado os Estados Unidos naquela época. A terminar com “Yeah, I’m leavin’ town /On a midnight train / Gotta see me change”, evidencia-se uma suposta fuga do principal rosto dos The Doors, algo que se revelaria pouco tempo depois. Love her Madly, segunda canção do álbum, foi escrita pelo guitarrista Robby Krieger, inspirada nas desavenças com a sua namorada Lynn, que mais tarde viria a ser sua esposa, sendo esta também uma das canções mais emblemáticas da banda. Been Down So Long , canção fortemente marcada pelo blues e pela voz predominante de Jim Morrison é inspirada no livro Been Down So Long It Looks Like Up to Mepossui, escrita pelo músico folk Richard Fariña. A letra aborda também temas como depressão, libertinagem, com enormes alusões às detenções de Jim Morrison e ao sistema judicial norte-americano. A guitarra de Robby Krieger desempenha também um papel importante ao longo da melodia. Já Car Hiss by My Window, trata-se de uma canção onde a pureza do blues se eleva, na qual o baixo marca compasso e onde os instrumentos se apresentam de um modo mais comedido do que nas canções anteriores.

É na quinta faixa que surge a canção que intitula este álbum e que acaba por demonstrar a enorme plenitude de cada um dos membros do conjunto. Para além de ter dado nome a um dos trabalhos de maior sucesso dos The Doors, L.A. Woman é uma canção que conseguiu definitivamente elevar ainda mais a banda até a um estatuto eterno que permanece nos dias de hoje. Trata-se da faixa mais longa do álbum, com uma duração próxima dos oito minutos, apresentando-se com diferentes nuances, onde todos os membros do conjunto contribuem de forma harmoniosa na sua execução. Para além de ter sido inspirada na obra City of Night de John Rechy a canção acaba por tratar Los Angeles como se fosse uma figura feminina, sendo fortemente marcada pela repetição intensa da expressão “Mr. Mojo Risin”. Tal expressão é um anagrama do nome Jim Morrison, algo que atribui uma característica especial a um álbum que foi gravado pouco tempo antes do seu desaparecimento. L’America volta a devolver uma matriz muito própria dos The Doors. A canção foi gravada inicialmente para o filme Zabriskie Point da autoria de Michelangelo Antonioni, mas viria a ser excluída da soundtrack final. Hyacinth House, trata-se de uma canção ao estilo de uma balada, com uma enorme exibição dos teclados de Ray Manzarek. Escrita por Jim Morrison, terá tido como fonte de inspiração algumas divergências com a sua namorada Pamela Courson, terminando ainda com uma das suas rimas preferidas “I need a brand new friend, the end”, remetendo um pouco para a célebre canção The End, dada a conhecer no álbum de estreia do conjunto em 1967.

Crawling King Snake apresenta-se com uma forte predominância do blues, sendo esta um cover da canção da autoria de John Lee Hooker, seguindo-se The WASP (Texas Radio and the Big Beat) que mostra uma espécie de apresentação em tom radiofónico e que acaba também por ter uma agradável influência neste álbum. Por fim, o álbum termina ao som de uma tempestade que emerge com as teclas que simulam a chuva a cair, a percussão suave, e um tom melodioso de guitarra com Riders on the Storm. Parte da canção terá sido alegadamente inspirada em (Ghost) Riders in the Sky: A Cowboy Legend da autoria de Stan Jones e no assassino Billy Cook, um serial killer americano que foi responsável pela morte de uma família inteira, algo que pode ser visível nos versos “There’s a killer on the road / His brain is squirmin’ like a toad (…) If ya give this man a ride / Sweet family will die / Killer on the road.” Existem nos versos também referências à namorada de Jim Morrison com “Girl, ya gotta love your man (…) The world on you depends / Our life will never end / Gotta love your man”. De facto, Riders on the Storm tem uma essência muito própria, sendo esta uma das canções de maior sucesso dos The Doors que enaltece o espírito poético de Jim Morrison. A combinação da sua voz com os instrumentos, o som da chuva e da trovoada, confere uma identidade única a uma tempestade que encerra um dos melhores álbuns dos The Doors.

L.A. Woman, acabou por ser o último cântico de Jim Morrison, apesar dos álbuns Other Voices, lançado no final de 1971, Full Circle de 1972 gravados já sem Morrison, e ainda o célebre álbum póstumo An American Prayer de 1978, que se aproxima mais de um álbum a solo do que dos The Doors. Existem outras faixas lançadas em edições especiais e comemorativas de L.A. Woman, nomeadamente versões preliminares das canções apresentadas bem como outras canções que não foram adicionadas ao álbum como She Smells so Nice e Rock Me, ambas com grande qualidade. L.A. Woman traz consigo uma enorme matriz “Morrisoniana” quando, por ironia do destino, Ray Manzerek previu que este pudesse vir a ser o último álbum de estúdio do conjunto. Após as gravações, Jim Morrison mostrou intenção de ir para Paris por uns tempos com a sua namorada Pamela, algo que já estaria planeado quando o álbum estava a ser gravado, decisão essa que os restantes elementos respeitaram. Acabou por falecer a 3 de Julho de 1971 aparentemente devido a uma insuficiência cardíaca, embora a sua namorada constatasse que a causa terá sido devido a uma overdose acidental na ingestão de heroína quando este julgava que fosse cocaína. 

Meio século depois do lançamento de L.A. Woman, assinala-se também meio século do desaparecimento de Jim Morrison que foi indubitavelmente um dos maiores vultos de uma era musical que também teve influências na sociedade e nas gerações que a vivenciaram. A sua voz, os seus versos e o seu espírito rebelde e genial permanecem vivos, e conseguiram tornar-se eternos mesmo para aqueles que não testemunharam o fenómeno musical dos The Doors. Passados 50 anos, L.A. Woman continua a ser escutado pelos amantes da música e a ser muito apreciado por aqueles que nutrem uma forte admiração pela banda, pela enorme qualidade dos músicos e pela matriz poética de Jim Morrison inerente, numa altura em que ironicamente, tal como Riders on The Storm, nos tornámos também viajantes perante uma tremenda tempestade que teima em passar. 

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