O saber político de José Pacheco Pereira

por Lucas Brandão,    30 Junho, 2021
O saber político de José Pacheco Pereira
Ilustração de Mariana Dimas / CCA (@marianaalwaysknew)
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Quando se aborda o comentário político nos canais de informação dos generalistas, é inevitável falar em José Pacheco Pereira e na Quadratura do Círculo (ou Circulatura do Quadrado) que integra. Detentor de uma carreira política e diplomática já bem longa, cruza, hoje, essa experiência com uma vasta cultura social e intelectual, que o reforça como um argumento de autoridade quando se aborda qualquer assunto do quotidiano. Se bem que uma opinião não deixa de o ser, a verdade é que o seu saber em relação à História Contemporânea do país, para além da bibliografia que traduziu e para a qual contribuiu — nomeadamente, sobre temas estruturantes, nomeadamente sobre os sistemas políticos —, valorizaram uma voz e uma mente que são de destaque e de proa no entendimento de como se vive em sociedade e em individualidade.

José Álvaro Machado Pacheco Pereira nasceu na freguesia do Bonfim, no Porto, no dia 6 de janeiro de 1949. Neto do pintor Gonçalo Pacheco Pereira, nasceu de perto das humanidades, já que o seu pai era professor de História e de Filosofia no Ensino Secundário. A sua mãe, funcionária dos Correios de Portugal, juntou-se a uma família senhorial, aristocrata, com antepassados que remontam aos alcaides-mor do Castelo de Vila de Rei. A sua irmã, Beatriz, seria a futura fundadora do festival de cinema Fantasporto. José cresceria no coração dessa cidade do Porto, no Liceu Alexandre Herculano. Aqui, teria uma das suas primeiras iniciativas associativas, com a direção do jornal Prelúdio, que tinha sido criado pelos futuros políticos José Augusto Seabra e Manuel Alegre. Literariamente, já sentia a influência (pessoal) de Eugénio de Andrade, mas também de autores, como Rainer Maria Rilke, Thomas Mann ou Marguerite Yourcenar. Foi nessas incursões sociopolíticas que deu de caras com o Partido Comunista Português e com a contestação protagonizada por este em relação ao Estado Novo. No entanto, juntar-se-ia à sua ala maoísta (traduziria, nos inícios, obras de Mao Tsé-Tung e de Friedrich Engels), no ano de 1972, com 23 anos, e começaria a debruçar-se sobre as questões das lutas operárias ao longo da história do país, que ajudavam a compreender e a mobilizar as subsequentes.

A publicação de um livro sobre o tema colocá-lo-ia sob as suspeições da polícia política, obrigando-o a, depois de uma rusga na sua residência, em 1973, a viver em clandestinidade, da qual só se emanciparia dois anos depois. Contava já com o bacharelato feito, mas só chegaria à licenciatura em 1978, curso esse concluído, à imagem do seu pai, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, na área da Filosofia, depois de uma breve passagem pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, abdicando do curso de Direito. Depois de concluída a formação, e de abandonada a ideologia comunista, encontrou estabilidade profissional no ensino, lecionando no mesmo Ensino Secundário no qual o seu pai deu aulas, mas também no Ensino Superior, encontrando o seu espaço no ISCTE — Instituto Universitário de Lisboa, inicialmente como assistente, e na Universidade Autónoma de Lisboa. Estas funções fizeram mobilizar o seu centro de gravidade para Lisboa, na qual encontrou mais condições para desenvolver um trabalho pelo qual passou a ser conhecido (mais naquilo que lhe proporcionou no que, propriamente, fez): a recolha bibliográfica sobre a política e os políticos em Portugal. Uma recolha que culminou em várias biografias, entre as quais a de Álvaro Cunhal (lançada em três volumes, entre 1999 e 2005), a organização de várias palestras, nas quais foi e é orador, e a participação na organização e na redação de várias revistas científicas.

A partir de uma vasta gama de fontes primárias e secundárias que agregou, começou a estudar e a produzir conhecimento com o cruzamento destes materiais: entre outros, desenvolveu um boletim onde canalizou os seus estudos sobre o comunismo, ainda nos anos 1980, boletim esse que originou uma autêntica revista, na qual abrigou uma série de redatores do seu tempo, entre outros, o historiador Fernando Rosas. Em 1984, fundaria, ao lado do investigador Manuel Villaverde Cabral e do professor universitário João Carlos Espada, um Clube de Esquerda Liberal, que apostava em abandonar as ideias fixas do marxismo e em adotar uma perspetiva mais social-democrata, aberta ao espírito liberal e à economia de mercado.

Não obstante, nunca deixou de considerá-lo como algo essencial para o conhecimento sociológico e para a interpretação social, a análise dos conflitos na sociedade. Considerou, antes, que a análise social e política deve ser feita com um pressuposto de primeira importância: a fragilidade de todas as estruturas, de todos os valores e do sistema democrático, dado que nada é seguro e tudo é mutável. É, precisamente, a vontade que age como força sustentadora do que é cultural e civilizacional, e, como tal, a esperança deve ser alimentada e sublinhada. Esforço de vontade esse que, a seu ver, nem sempre foi favorecido em Portugal, em prol do que é uma capacidade de trabalho parca e de uma apetência para a organização a si proporcional. É uma sociedade que, antes, procura punir e premiar, com pouca aspiração a ir mais longe, naquilo que é uma certa inércia em relação à oportunidade de mudar.

Para isso, também pesa o papel da educação, que caiu numa desvalorização social, que quer mais o imediato e o pronto do que o envolvente e o abrangente (como a leitura, um processo lento, mas completo). Uma educação que se tornou ao serviço da sociedade consumista, para a qual a humanidade é moldada. A falta de preparação e de organização originou, assim, que muitos dos vícios se fossem impondo, nomeadamente aqueles em que a burocratização é crescente, confinando os órgãos de poder a essa esfera, e em que a comunicação social se torna obrigada a funcionar num mecanismo pouco dado a trabalhar com detalhe e minúcia o que comunica, funcionando como um mecanismo imediatista e menos como um mediador entre poderes e órgãos, entre informador e informado, em que cada vez se percebe menos quem é quem.

Numa sociedade que precisa mais do ethos (da ética, dos princípios, de um corpo de costumes e de preceitos), há mais espaço para o pathos (a efusividade das emoções, das excitações e do espetáculo). Como prática premente e incentivada, a do debate público, político e social, convidando a acompanhar e a apreciar o exemplo cívico, ao mesmo tempo que se pune o bem e se recomenda o exemplar. Mais do que abrir a porta da casa, abrir, antes, a porta da mente, que acolhe as ideias que cada um tem e que podem e devem ser devidamente esgrimidas. São as respostas para que exista um dinamismo social capaz de problematizar os organismos políticos e as suas fontes e sedes de poder, ao invés de se renderem a um sentimento de irritação e de frustração.

Deste Clube de Esquerda Liberal, faria parte Mário Soares, político por quem nutria amizade e afinidade nas suas campanhas presidenciais. No entanto, estava no lado oposto da barricada no Parlamento, já que havia sido elegido deputado pelo Partido Social Democrata, cujos quadros integrou no ano de 1988. Inicialmente independente, seria deputado entre 1987 e 1999, retomando funções entre 2009 e 2011. Como membro desse PSD, seria líder parlamentar e presidente da Comissão Distrital de Lisboa. Neste período, envolveu-se em várias atividades diplomáticas, como a presença na Assembleia da NATO, a vice-presidência do Instituto Luso-Árabe para a Cooperação e o estabelecimento de diálogos políticos, culturais e institucionais para com os países do antigo Bloco do Leste, após o desmembramento da URSS. De igual modo, seria deputado europeu, assumindo a vice-presidência do Parlamento Europeu entre 1999 e 2004, apesar de pontuais campanhas legislativas nos círculos eleitorais de Aveiro e do Porto.

Pacheco Pereira chegou a ser embaixador de Portugal na UNESCO, apesar de forma fugaz, depois de se tornar crítico na mudança de executivos (a saída de Durão Barroso e a entrada de Santana Lopes). Seria um dos rostos de oposição ao Novo Acordo Ortográfico, de 1990, posição que reforçou nas suas inúmeras colaborações com a comunicação social, assumindo colunas de opinião nos jornais Diário de Notícias e Público e na revista Sábado, para além da presença na rádio (Minuto a Minuto, no Rádio Clube Português), na televisão (com Viva a Liberdade, ao lado de Miguel Sousa Tavares e António Barreto, Ponto/Contraponto e a Quadratura do Círculo, agora Circulatura do Quadrado) e no ambiente digital (o Abrupto e o Ephemera). Em 2005, seria, mesmo, agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.

Sobre o Ephemera, projeto da total autoria de Pacheco Pereira, é importante sublinhar a sua residência, na Marmeleira, situada em Rio Maior, na qual está a sua extensíssima biblioteca privada, que abriga toda a documentação já referida e outra tanta. São mais de 110 mil unidades que são apoiadas por uma associação – a Associação Cultural Ephemera (ACE) – com mais de duzentos membros, com o objetivo de a disponibilizar ao público esse seu arquivo, moldando-o ao jeito de uma biblioteca sobre a história social, política e cultural contemporânea. Essa bagagem de documentação que a sua veia de colecionador – herdada do seu pai e da sua volumosa biblioteca — continua a alimentar. O Ephemera foi criado em 2003 e dispõe de vários pontos de recolha de documentação, um pouco de Norte a Sul do país, desde Viana do Castelo, no seu Café Girassol, a Torres Vedras, na Rua Venerando de Matos, passando pelo Café Santa Cruz, em Coimbra; pelo antigo Pólo de Ciências da Comunicação da Universidade do Porto e o Espaço Mira, também nesta cidade; e no edifício da Livraria Ler Devagar, na Lx Factory, em Lisboa; para além do armazém no Parque Industrial do Barreiro, que dá apoio no armazenamento e organização de vários elementos documentais. Em 2020, depois de, até, contar com um programa na TVI24, a instituição tornar-se-ia, mesmo, Membro-Honorário da Ordem do Mérito.

O arquivo, por força dos seus associados e demais interessados, foi reforçado com variadíssimas ofertas, para além do legado do pai de José, Álvaro Pacheco Pereira. Essa associação permite, assim, a promoção e o patrocínio desse património, para além de incentivar iniciativas investigativas e comunicativas do conhecimento gerado a partir dessas fontes, mais especificamente nas áreas da história, da sociologia e da literatura. De igual modo, não deixar esmorecer o processo de organização e de manutenção destes centros documentais, tendo em conta as progressivas doações e ofertas e os espólios herdados.

José Pacheco Pereira é, assim, um dos rostos mais solenes e respeitáveis quando se suscitam temas políticos e sociais numa discussão em antena aberta. Esse mesmo estatuto não nasceu por fruto do acaso, mas antes por um percurso que, mais do que institucional, foi munido pela curiosidade e pela avidez de recolher, de colecionar e de cruzar fontes de diferentes tipos, de várias proveniências, com afinidades específicas: a vida política e a sociedade dos nossos tempos. Pacheco Pereira, por entre os seus projetos e as suas plataformas de comunicação, estabeleceu-se como uma autoridade no que toca ao compreender da situação política e social do seu tempo e como um eixo naquilo que é o entendimento singular de uma pluralidade que tanto precisa de debater e de se entender.

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