A Generación de 27 na Espanha de Franco: de García Lorca até à actualidade

por Lucas Brandão,    16 Fevereiro, 2021
A Generación de 27 na Espanha de Franco: de García Lorca até à actualidade
Frederico García Lorca numa homenagem aos poetas Rafael Alberti e Maria Teresa León, em Madrid (1936). Fotografia: EFE.
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Na década de 1920, surgia um movimento literário e artístico que repensava os valores sociais, culturais e artísticos de um Espanha pós-colonial, ainda em busca de se encontrar neste nova identidade: a Geração de 27 ou, em espanhol, Generación de 27. Como referência, o autor sevilhano Luis de Góngora, que, celebrando-se o seu terceiro centenário, viu, da parte do médico e poeta José María Romero Martínez, uma dinâmica comemorativa que juntou uma série de outros autores e pensadores. Celebrou-se, com efeito, na cidade de Sevilha, no seu Ateneo, e uniu nomes da poesia, como Federico García Lorca, Rafael Alberti, José Bergamín, Dámaso Alonso, Gerardo Diego e Jorge Guillén. Eram nomes da poesia vanguardista que ganhava renome e atenções no país e que sucediam aos discursos do Novecentismo (ou Generación del 14) e que se eternizariam no auge da expressão artística do país.

Geração? Esta ideia foi posta em causa por um dos seus maiores membros, Pedro Salinas. Poeta, tradutor (de Marcel Proust) e ensaísta, exilar-se-ia nos Estados Unidos no final da Guerra Civil Espanhola, em 1939, depois de uma poesia carregada de uma ambição pelo absoluto, pela autenticidade e pelo ideal do belo, com referenciais de depuração e de perfeição, visando o amor pela vida e pelos seus pares, entre lamentos, resignações, agradecimentos, louvores e declarações. Isto porque tratavam-se de gentes de gerações diferentes, com formações distintas, com um discurso concertado entre si. Por exemplo, Juan Ramón Jiménez, que ganharia o Nobel da Literatura de 1956, provinha do Novecentismo e fundia-se com esta nova brigada literária da década de 1920. Alias, Jiménez seria influente na poesia de Salinas, que procurava uma poesia intelectual, capaz de decifrar o mistério das coisas ocultas. A linguagem em comum não era tanto o que os unia, mas mais um sentido identitário nacional e artístico, cujas afinidades confluíam no seu trabalho. A nostalgia sentida em relação ao Siglo de Oro, nos meados do século, anos de grande prosperidade a todos os níveis da nação, mas também a necessidade de incorporar o neopopulismo, que buscava as origens das diferentes comunidades locais e regionais distribuídas pelo seu território, juntava-se ao carinho nutrido pelo surrealismo e pelo culteranismo, uma pegada mais expansiva e estilística do barroco espanhol. Eram, de certa forma, um produto do projeto pedagógico introduzido no final do século XIX, a Institución Libre de Enseñanza, que procurou modernizar o ensino no país e aproximá-lo de um diálogo intercultural e científico com os seus países vizinhos.

“Y yo sé que quererte
es convertir los días,
las horas, en peligros,
en llamas.”

Pedro Salinas em “Rázon de Amor” (1936)

Porém, é inegável a convivência dos seus membros, tantos em ambientes estudantis, como em próprias tertúlias culturais. Seriam essas que alimentariam os grandes meios de comunicação, que formariam uma certa consciência coletiva, que era avessa à Guerra Civil e aos laivos fascistas que se anteviam para uma sociedade que se pretendia republicana. Essas plataformas foram, entre outras, a “La Gaceta Literaria” (1927-32), que acolheram nomes, como José Ortega y Gasset e até Luis Buñuel, e a “Litoral” (fundada em 1926), que publicou muita da poesia dos seus primeiros membros. “Verso y Prosa” (1927-28) era outra publicação que verbalizava esses nomes altos da geração, uma réplica às exigências dos cânones da poesia contemporânea, assim como o “Suplemento Literario de la Verdad” (1923-26). Era uma visão congregada e agregada de um instinto europeu, progressista, contrastando a visão de a arte ser algo separável da política e até da vertente social, valendo por ela mesma, com uma propensão às influências das novas tecnologias e da realidade subconsciente. A subjetividade é, assim, proeminente, embora não descure o cuidado e o rigor conceptual, com afinidades a outros movimentos, como o ultraísmo e o criacionismo, com um sentido concreto de arte absoluta, corporizado pelo poeta Adriano del Valle, o rosto desta união através da sua poesia. Neste amplo conceito de poesia, destacava-se o de “poesia taurina”, um discurso que manifestava o sentido estético e belo pela palavra, com considerações sobre o folclore do país e pelas celebrações tauromáquicas, com especial destaque para estas (o toureiro Ignacio Sánchez Mejias seria um exemplo para os seus membros).

Personificam um processo de renovação social e cultural, que se procura encontrar nas fundações históricas e no seu ilustre passado, mas, ao mesmo tempo, nesse mesmo processo quase revolucionário de um vanguardismo com caraterísticas únicas e diferenciadas. Reviam-se nos contributos históricos e sociais dados por Ortega y Gasset, mas também nos escritos de Ernesto Giménez Caballero, fundador da “La Gaceta Literaria” que, ironicamente, seria o grande promotor do conceito do fascismo em Espanha. Por sua vez, outros nomes fortes da Generación iam criando as suas revistas: Miguel Altolaguirre, fundador da “Litoral”, ao lado do poeta Emilio Prados, foi um dos poetas mais espirituais e intimistas do movimento, com os temas do amor, da saudade, da morte, ao som de uma musicalidade composta pelos versos curtos e pelas estrofes tradicionais que redigia. O jornalista do periódico “La Verdad” e editor do “Suplemento Literario de la Verdad”, José Ballester Nicolás, também abria portas a esses novos poetas, tal como o seu parceiro Juan Guerrero Ruiz.

“Cerré mi puerta al mundo;
se me perdió la carne por el sueño…
Me quedé, interno, mágico, invisible,
desnudo como un ciego.

Lleno hasta el mismo borde de los ojos,
me iluminé por dentro.

Trémulo, transparente,
me quedé sobre el viento,
igual que un vaso limpio
de agua pura,
como un ángel de vidrio
en un espejo.”

Emilio Prados em “Cuerpo Perseguido” (1946)

Por sua vez, Jorge Guillen, companheiro de edição deste, faria amizade desde cedo com os membros do movimento, acabando por o incorporar, após uma convivência regular nas residências universitárias em que viviam. Seria fiel ao ideal da poesia pura, visualizando o mundo com otimismo e serenidade e procurando, através de uma linguagem arrojada e elaborada e de um verso curto e grosso, alcançar a plenitude do tempo e do espaço. Por sua vez, José Bergamín, diretor do jornal Cruz y Raya, seria um discípulo de Miguel de Unamuno, e dedicou-se aos romances, à poesia e aos ensaios. Também Gerardo Diego tinha criado um jornal na Cantábria, e também ele era um destacado poeta e professor, arrecadando o Prémio Cervantes de 1979, três anos depois de Guillen o ter ganho. Isto porque conseguiu ser mestre na poesia tradicional e na vanguardista, com os ideais do ultraísmo e do criacionismo como pano de fundo dessa autenticidade de emoções e de tendência a alcançar o absoluto. Porém, entre todos estes, destacar-se-ia o nome de Rafael Alberti, um dos rostos dessa nova Edad del Plata da cultura espanhola. Membro do Partido Comunista Espanhol, exilou-se até à reposição da democracia, quando regressou e se tornou profundamente homenageado pela comunidade académica do país. Criando, também, o seu jornal, “Octubre”, confluiu, na sua poesia, momentos de popularismo, de culteranismo, de surrealismo, de marxismo e até de erotismo. A sua fé foi interrogada vezes sem conta, procurando avistar o paraíso que considerava perdido, dentro de um imaginário repleto e vivo, em que o surrealismo era agente criador. Com eles, conviveu também Pablo Neruda, em especial através da direção da revista “Caballo” (1935). Tamanha diversidade de proveniências (Alberti e Altolaguirre eram da Andaluzia, Diego da Cantábria, Bergamín e Caballero madrilenhos, Guillen de Valladolid, Nicolás e Guerrero Ruiz de Murcia) não poderia ser, simplesmente, rotulada como uma geração e, assim, também ficou a designação de “Grupo del 27”.

No entanto, não só destes nomes reza a história e a memória da Generación del 27. Juan José Domenchina, madrilenho, é um dos exemplos. O maior deles todos, em termos de reconhecimento obtido postumamente, seria Federico García Lorca, também andaluz, de Granada. Notabilizou-se como dramaturgo e poeta, acabando a sua vida fuzilado por uma falange de futuros membros franquistas. No entanto, durante a sua vida, deu a cara pela força do amor como sentido da própria vida, reforçando as preocupações sociais, algo inusitado para o modernismo artístico. Era um folclórico, apaixonado pelas suas origens andaluzes e pelas comunidades ciganas. Porém, era, também, um trágico, com uma vocação decadente nas suas canções e nos seus romances, que se transformaria, com o tempo, nesse espírito expressivo e esperançoso. Era avesso às dinâmicas urbanas, especialmente após a visita a Nova Iorque, que visualizava como pesadas e angustiantes (poesia imortalizada em “Poeta en Nueva York”, de 1940). Criaria, também, o grupo La Barraca, um teatro universitário que devolvia aos palcos as grandes peças da tradição literária espanhola. Essa afeição pelos cancioneiros e pelos anais da literatura levaram-no a um caminho de busca presente pela dor e pelo dano, fundindo as influências da fé cristã, das suas raízes locais e da dramaturgia de William Shakespeare. A marginalidade era, também, um tema ao qual dedicava especial atenção, já que se colocava como um. A solidão e o destino trágico perante uma sociedade conservadora e opressiva sempre foi a sua grande frente de batalha e que só deixou de o ser com a sua morte tão precoce, aos 38 anos.

“¡Ay qué sinrazón! No quiero
contigo cama ni cena
y no hay un minuto del día
que estar contigo no quisiera,
porque me arrastras y voy,
y me dices que me vuelva
y te sigo por el aire
como una brizna de hierba.”

Federico García Lorca em “Bodas de Sangre” (1933)

Andaluz, mas de Sevilha, era Luis Cernuda, contemplador nas suas elegias do amor e do erotismo, com grande proximidade ao surrealismo, mas também com preocupações sociais e intimistas, nomeadamente com a emancipação da sua homossexualidade, à imagem do que se sucedeu com García Lorca. Seria, também, professor em diversas universidades do país, enquanto procurava o indefinível em estrofes heterodoxas e espelhar a experiência humana com versos simples e livres. Entre os choques entre os desejos e a realidade, ia em busca de um gozo intemporal da vida. Outro de Sevilha era Vicente Aleixandre, futuro membro da Real Academia Española e Nobel da Literatura em 1977, também com predicados surrealistas, mas também abordando a velhice, na sua poesia. Seria um dos poetas que faria valer a sua perseverança durante o franquismo, no qual mostrou a sua visão soturna e dramática, apesar de solidária com o humano e com a natureza, fazendo valer essa sua comunicação como um suspiro que roçava o surrealismo.

De Madrid, era Dámaso Alonso, futuro diretor da Real Academia Española e membro da sua Real Academia de Historia, sendo um dos poucos, ao lado de Gerardo Diego, que não se exilaria no período franquista. Venceu o Prémio Cervantes em 1978, depois de uma carreira que partilhou dos ideais culteranos e que respirou filologia, sendo, também, o responsável pela criação da Revista de Filología Espãnola. Foi, também, editor de Góngora, e verbalizou essa poesia pós-Guerra Civil, através de um verso livre que abrangia as influências do existencialismo e dos salmos bíblicos. Das Canárias, era Pedro García Cabrera, com muitos laivos insulares, mas também vanguardistas. Da comunidade de Castilla y Léon, chega um membro parcial: León Felipe, um poeta de uma geração anterior à dos seus companheiros, à imagem de José Moreno Villa, andaluz que chegou a dirigir o Archivo del Palacio Nacional, de Fernando Villalón, também andaluz, conhecido como “poeta brujo” pela sua associação ao surrealismo e ao misticismo, e de Max Aub, nascido em Paris. Outros de menor relação direta seriam Joaquín Romero Murube, andaluz, e Miguel Hernández, valenciano que se afeiçoou mais à Generación de 36, ligada ao pós-Guerra Civil, mas que fez prevalecer a obra da sua antecessora.

As mulheres também tinham uma grande falange neste movimento, ficando conhecidas como as “Las Sinsombrero” (sem chapéu), motivadas pela vontade de querer quebrar as normas sociais e usuais e de libertar as suas ideias e a sua expressão. Fazendo parte do madrilenho Lyceum Club Femenino, são elas a galega Maruja Mallo, pintora surrealista, a autora madrilenha Concha Méndez, que editou coleções da sua poesia ainda em vida, María Teresa Léon, de La Rioja, uma das maiores confrontadoras das vicissitudes sociais, a basca Ernestina de Champourcín, defensora da poesia pura e nova, de certa forma mística, mas atual e presente, a escritora Rosa Chacel, de Valladolid, a professora murciana Carmen Conde, a primeira mulher na Real Academia Española, a atriz, cantora e escritora Josefina de la Torre, das Canárias, outra das poetas com muitas afinidades com as ilhas e com as origens, a atriz e jornalista Luisa Carnés, de Madrid, a pintora figurativa madrilenha Rosario de Velasco, a artista visual Margarita Gil Roësset, que inspirou o imaginário do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, a pintora Margarita Manso, a catalã Ángeles Santos Tornella, pintora figurativa e modernista.

Todas elas, verdadeiramente comprometidas com o seu tempo e espaço sociais, também procuravam fundir as emergentes expressões artísticas com as fundações culturais do país. Nessa convulsão nacional, buscavam um espaço de afirmação e de transformação, combatendo os arcaicos valores tradicionais, que se sustentavam num alegado determinismo biológico. A mulher assume o protagonismo no trabalho destas artistas, com traços modernos e soltos, assumindo a sua força individual e a sua independência. Assim o foi noutras poetas entretanto descobertas, como o caso das andaluzes Casilda de Antón del Olmet, María Enciso e María Luísa Muñoz de Vargas, das madrilenhas Josefina Romo Arregui e Pilar de Valderrama, da catalã Elisabeth Mulder, da basca Josefina Bolinaga, da asturiana Concha de Albornoz e de Margarita Ferreras, de Castilla y Léon.

“Si ha de ser, quiero que sea
de pronto. Cuando yo piense
en horizontes dormidos
y en el mar sobre la playa.
Si ha de ser, que me sorprenda
en mis mejores recuerdos
para hacer de su presencia
un solo signo en el aire.
Dormida no, ni despierta:
si ha de ser, quiero que sea.

Josefina de la Torre em “Poemas de la Isla” (1930)

Autores com afinidades ao movimento seriam, de igual modo, José Fernández Montesinos, crítico literário, Juan Larrea, José María Hinojosa, que colaborou com alguns dos seus membros e que ajudou a importar a poesia surrealista em Espanha, o dramaturgo Alejandro Casona, que partilhou o estilo dramático com García Lorca, e o poeta Juan Gil-Albert. Também Rogelio Buendía, que chegou a trocar correspondência com Fernando Pessoa, Valentín Andrés, Antonio Espina, Rafael Laffón, Miguel Valdivieso, José Moreno Gans, César Arconada (foi redator-chefe da “La Gaceta Literaria”), Rafael Porlán (ajudou a fundar a revista “Mediodia”), o dramaturgo Paulino Masip, Rafael Dieste, Juan Chabás, Guillermo de Torre, Alejandro Collantes de Terán, Pedro Garfias, Pedro Pérez Clotet, Agustín de Foxá, Antonio Oliver, José María Souvirón, José María Luelmo, Emeterio Gutiérrez Albelo, Francisco Ayalae Rafael de León seriam os demais membros deste forte coletivo.

Outros membros tardios, mais vocacionados para o teatro dentro do grupo, seriam o guionista e dramaturgo José López Rubio, o autor Ramón Gómez de la Serna, profundamente vanguardista e motivado pelos seus aforismos, aos quais chamava “greguerías”, o polímata (escritor, dramaturgo e cineasta) Edgar Neville, o escritor Miguel Mihura e o humorista Tono. A pintura de Óscar Domínguez, de Gabriel García Maroto, de Ramón Gaya, de Gregorio Prieto e de Salvador Dalí (seria um dos maiores amigos de García Lorca), o cinema de Luis Buñuel (que traria muitas das ideias surrealistas para o seu país), as histórias de K-Hito e a síntese artística de Manuel Ángeles Ortiz seriam, todas elas, pautadas por esta marca indelével da geração. Aliás, até existiria um equivalente musical ao grupo, o Grupo de los Ocho, que queria combater o conservadorismo musical, sendo sustido pelo franquismo emergente. Entre os seus membros, estão Ernesto Halffter, o grande discípulo de Manuel de Falla (que chegaria a elogiar em público a Generación), Fernando Remacha, Gustavo Durán e Gustavo Pittaluga. Na Catalunha, também outro grupo de músicos defendia o mesmo, protagonizado por Eduard Toldrà. Na arquitetura, com o mesmo pendor vanguardista, nasceu a Generación del 25.

Dentro da própria Generación del 27, houve várias nuances que conviveram dentro de si, entre outras já referidas e outras novas. O neopopulismo, absorvendo os preceitos da lírica tradicional e pitoresca, com influências tão recuadas até à obra de Gil Vicente, juntava-se ao otimismo lírico, contrastante ao decadentismo, e ao surrealismo, entre inquietudes religiosas e existenciais, marcadas, também, por um forte diálogo direto com a homossexualidade e a sua aceitação e afirmação. O intelecto comandava as palavras e as demais expressões, refreando os extravasares emocionais, contendo a sensibilidade e o sentimentalismo. A arte era romantizada, sim, mas sem esquecer esse valor humano, tão determinante para que essa sua graça se pudesse materializar. A preocupação e atenção para com os problemas da humanidade valorizavam essa pureza poética, esses equilíbrios de um discurso popular e, ao mesmo tempo, universal, munido por um carinho muito grande pelos grandes nomes e pelas tradições literárias que os fizeram surgir.

Lentos veranos de niñez
Con monte y mar, con horas tersas,
Horas tendidas sobre playas
Entre los juegos de la arena,
Cuando el aire más ancho y libre
Nunca embebe nada que muera,
Y se ahondan los regocijos
En luz de vacación sin tregua,
El porvenir no tiene término,
La vida es lujo y va muy lenta.

Jorge Guillén em “Clamor” (1963)

Entre outros géneros já mencionados, os de cariz religioso, como os autos sacramentais, gizados para o teatro como dramas litúrgicos com grandes significados morais e até teológicos. Poetas, como Francisco de Aldana, San Juan de la Cruz ou Lope de Vega, eram reverenciados e cruzados com as influências modernistas. Este cruzamento permitiu, assim, ir da perfeição formal visada até a uma reumanização poética, com um sentido de libertação da opressão que começava a ganhar contornos no país até ao período de um exílio, tanto exterior na geografia, como interior na intimidade e nos valores da nacionalidade questionados – a poesia desarraigada. Há uma vontade alinhada de superação e de renovação dos valores e das crenças existentes, que consiga desconstruir os ícones que são divinizados e encarados como referenciais e quase normativos. As imagens retratadas, muitas vezes em forma de metáforas e de formas mais irracionais de expressão, são avistadas como originais e independentes, sem estarem completamente atadas a alguma espécie de movimento ou de discurso padronizados, visando o seu rompimento com uma postura plural e construtiva.

A Generación de 27 continua a ser uma descoberta constante, perseverante. É um registo de uma poesia transparente, de uma arte um tanto ou quanto combativa, mas, decerto, humana. Apesar de, no final, se destacar e se relembrar o legado e o fatídico fim de Federico García Lorca, a verdade é que são dezenas de outros vultos que fazem deste grupo de artistas manter-se como um estandarte firme e consolidado de um vanguardismo artístico único. Sem dispensar os cânones antigos da literatura, mas também os elementos primordiais dos lugares e das gentes das suas diferentes comunidades, foi um manifesto em verso e por escrito de uma Espanha que se queria livre e verdadeira consigo mesma, adaptada aos tempos modernos, mas sem esquecer de onde partiu. Para a história, para a memória e para a (re)descoberta, um testemunho quase infindável do que é viver e criar no auge do constrangimento e da opressão, em busca dessa pegada tão identitária e tão íntegra.

Se desprendió mi sangre para formar tu cuerpo.
Se repartió mi alma para formar tu alma.
Y fueron nueve lunas y fue toda una angustia
de días sin reposo y noches desveladas.

Y fue en la hora de verte que te perdí sin verte.
¿De qué color tus ojos, tu cabello, tu sombra?
Mi corazón que es cuna que en secreto te guarda,
porque sabe que fuiste y te llevó en la vida,
te seguirá meciendo hasta el fin de mis horas.

Concha Méndez em “Niño y Sombras” (1936)

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