As obras e o legado de Mary Wollstonecraft

por Lucas Brandão,    12 Novembro, 2020
As obras e o legado de Mary Wollstonecraft
Mary Wollstonecraft, pintura (detalhe) de John Opie (1797)
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Quando se aborda o feminismo como uma causa e como um movimento temos de ir às raízes. Essas raízes apontam para o rosto e para o esforço da inglesa Mary Wollstonecraft, que foi muito mais do que, somente, a mãe de Mary Shelley, a autora de “Frankenstein”. Ela tornou-se na primeira defensora assumida dos direitos da mulher, em plena sociedade conservadora inglesa do século XVIII. Escolheu ensaios, mas também os romances, os contos de viagem e até a literatura infantil para fazer valer a reivindicação (polémica, nessa altura) de que a mulher deveria de ser tratada de forma equivalente ao homem, como ser racional com os mesmos direitos e deveres. A única coisa que não o permitia ser evidente era a falta de educação das mulheres. Vivendo somente 38 anos, Wollstonecraft fez valer o seu legado, mesmo apesar de uma vida controversa, e deixou marcas indeléveis para uma sociedade mais justa e equitativa.

Wollstonecraft nasceu a 27 de abril de 1759, falecendo a 10 de setembro de 1797. Até à publicação do seu primeiro livro, em 1787, a inglesa viveu uma infância e uma adolescência turbulentas, marcadas pela carência financeira, que a obrigaram a colocar em cheque as normas sociais convencionais e a arregaçar as mangas. Fez casa sozinha com somente 19 anos, embora trabalhasse em casa de outras famílias. No entanto, fez duas amizades que a marcaram indelevemente: Jane Austen, a futuramente consagrada escritora, e Fanny Blood, que se tornou providencial na sensibilização de Wollstonecraft quanto às vicissitudes da mulher na sociedade e que morreria em Lisboa, com pouco mais de 25 anos. O percurso da autora levou-a, depois dessa difícil superação, entre Londres, a Irlanda e Paris, acompanhando de perto a fase do Terror pós-Revolução Francesa e as suas repercussões (em “An Historical and Moral View of the French Revolution”, de 1794, embora valorizando os esforços da Revolução, foi crítica dos jacobinos, os revolucionários mais radicais, para além dos modos da própria sociedade aristocrata do Antigo Regime, o que açicatou as mulheres a serem manipuladoras e periogsas). Seria no final destas aventuras – e de muitos dilemas existenciais – que encontrou o amor da sua vida, o anarquista William Godwin, que já admirava a sua obra antes de a conhecer pessoalmente. No entanto, seria uma relação fugaz, antecedida por duas relações mal-fadadas (com o artista Henry Fuseli e com o negociante americano Gilbert Imlay, da qual nasceu a sua primeira filha, Fanny), dado que Wollstonecraft faleceria no parto da sua segunda filha, Mary. Não obstante, seria Godwin o responsável por compilar e publicar as memórias da sua amada e por fazer eternizar o seu legado.

Esse legado começou dez anos antes de falecer, em 1787, publicado por Joseph Johnson, que se tornaria um amigo e o publicador dos seus trabalhos, numa fase em que Wollstonecraft estava a necessitar de fontes de rendimento. Aliás, redigiria mais de duzentos artigos no periódico deste, “Analytical Review”, para além de ter sido editora literária e uma forte crítica das mulheres passivas que protagonizavam os romances de então. “Thoughts on the Education of Daughters: with Reflections on Female Conduct, in the more Important Duties of Life” é uma obra onde a inglesa expõe aquilo que acha que são premissas-base para a educação das mulheres, dedicando-a à emergente classe média na sociedade inglesa. É, assim, um livro de costumes e de etiqueta, embora com um traço moral proeminente, que bebe das narrativas religiosas e que exponencia esses bons costumes. Em suma, encoraja as mães a ensinar as suas filhas a pensar critica e racionalmente, com capacidade de análise, dotando-as, também, de auto-disciplina, de honestidade, agrado com a sua posição social e até competências burocráticas e mundanas, no sentido de se autossustentarem. Porém, como objetivo, está o serem, também elas, boas mães e boas esposas, papéis sociais através do quais, considerava, a mulher pode contribuir de forma mais relevante para a sociedade. Embora um papel predominantemente doméstico, era considerado, pela autora, como um papel com grande significado. São dados os primeiros passos num discurso que se radicalizaria com o passar do tempo, em especial com o reconhecimento da mulher sofredora enquanto independente.

No entanto, até lá chegar, surge a grande compilação de literatura infantil, de seu título “Original Stories from Real Life: with Conversations Calculated to Regulate the Affections and Form the Mind to Truth and Goodness” (1788). Como base, duas jovens crianças que são educadas por uma professora particular, que as apresenta vários contos didáticos. De novo, embora adaptado para os mais jovens, uma necessidade de promover a formação cívica e intelectual das mulheres desde cedo, colocando-as no contexto dessa classe média a surgir em solo britânico. Wollstonecraft considerava que, se as mulheres fossem devidamente educadas, se tornariam adultas racionais e conscientes da sua posição e da sua realidade. De certa maneira, desenvolve a sua própria pedagogia, procurando superar os preconceitos da sorte e da chance casual, em muito constituintes dos contos dominantes de uma cultura cortês, oposta à que a inglesa reconhecia como nova.

Nesse mesmo ano, é publicado o primeiro e único romance completo de Wollstonecraft: “Mary: A Fiction” (1788). É o relato de uma história trágica de uma mulher e de duas das suas amizades mais fortes, uma com uma mulher e outra com um homem. Porém, é uma heroína independente, autónoma e autodidata, que se consegue definir a si mesma, e que faz assentar o seu comportamento em valores racionais. Tem, assim, opiniões convictas e originais, que começam, desde logo, por questionar o casamento e os “sábios/génios” que, por norma, são, somente, homens. Assim, a protagonista torna-se, também ela, uma pessoa excecional e, embora sensível e sentimental, capaz de ter o papel principal nas suas relações humanas e na forma como interage com a sua sexualidade. Este é o primeiro livro que é escrito com a plena intenção de se consolidar como escritora, algo que era inusitado naquele período; e também o primeiro a criar um discurso feminista ficcional, mesmo apesar de Wollstonecraft tecer grandes críticas a esta obra, no futuro.

“Para se ser uma boa mãe – uma mulher deve ter o bom senso e aquela independência de espírito que poucas mulheres possuem quando são ensinadas a depender inteiramente dos seus maridos.“

“A Vindication of the Rights of Woman: with Strictures on Political and Moral Subjects” (1792)

A sua grande obra chega quatro anos depois, com “A Vindication of the Rights of Woman: with Strictures on Political and Moral Subjects” (1792). É uma resposta cabal aos intelectuais iluministas, que defendiam que as mulheres não deveriam de receber uma educação racional, mas somente uma doméstica, nomeadamente de um relatório que Charles Maurice de Talleyrand-Périgord havia escrito para a Assembleia Nacional francesa e ao pensamento do seu compatriota Edmund Burke e à sua obra “Reflection on the Revolution in France” (1790). A refutação desta tese é feita com base em motivos sociais e morais, defendendo que a educação feminina deve ser adequada à posição social ocupada pela mulher, sendo que são seres essenciais à nação, ao criar das crianças e ao serem companheiras “respeitáveis” dos seus maridos. Não obstante, as mulheres, para si, são merecedoras dos mesmos direitos fundamentais que os homens e não são meras posses ou mercadoria destes. Para a autora, a sociedade torna-se imoral quando isto se evidencia. Trata-se de uma resposta, em muito, movida pela emoção, embora programasse escrever um segundo volume, com maior ponderação e sustentação. Por isso é que, numa análise cuidada, se detetam algumas ambiguidades, nomeadamente quanto à efetiva equidade entre os sexos. No entanto, tornou-se fundamental para defender os direitos das mulheres no século XIX, em especial com o movimento das sufragistas e a sua Declaração dos Sentimentos, assinada em 1848, na Convenção de Seneca Falls.

Igualmente marcantes seriam as “Letters Written During a Short Residence in Sweden, Norway and Denmark” (1796). É um conjunto de cartas, que se articulam numa narrativa de viagem, e que desdobram questões filosóficos e sociológicas, nomeadamente sobre as comunidades escandinavas. Foi uma viagem que Wollstonecraft empreendeu sozinha, procurando encontrar e recuperar um navio do tesouro a Gilbert Imlay, procurando, implicitamente, recuperar a sua relação. Aliás, foi nessa mesma viagem que percebeu que não era intenção dele reatar essa relação. São missivas que acompanham o desenvolvimento pessoal e as frustrações subjacentes à infidelidade da qual se foi apercebendo que tinha de Imlay. Vai, assim, colocando em perspetiva a relação entre ela mesma e a sociedade, dando primazia e destaque à experiência subjetiva e à importância da libertação e da educação das mulheres, sem tecer algumas críticas às relações comerciais na sociedade. Foram cartas que se tornaram profundamente influentes para o movimento romântico do século XIX, apelando-os à viagem e à sua descoberta íntima e sentimental nessas expedições.

Póstumas foram as “Memoirs of the Author of A Vindication of the Rights of Woman” (1798), que é um relato biográfico que William Godwin faz à sua companheira. É uma das fontes de informação mais privilegiadas sobre a sua vida e obra, embora não se trate de uma coleção de escritos desta. O que ficara incompleto seria a sequência a “A Vindication of the Rights of Woman”, embora acabassem por ser publicadas por Godwin nesse mesmo ano. Trata-se, todavia, de um romance, com traços filosóficos e góticos, onde uma mulher é internada num asilo pelo seu marido. É a primeira grande crítica à sociedade patriarcal, que é visada perante o tratamento que as mulheres recebiam nos seus matrimónios. Para além disso, subjacente à sociedade, está a lei, em muito conivente com esse patriarcado. Em confronto com essa necessidade de emancipação está a opressão sentimental à qual a protagonista é sujeita, sendo obrigada a abdicar das suas fantasias românticas e do seu sentimentalismo frágil e vulnerável. De certa forma, acaba por ser uma versão ficcionada do livro que antecedeu a este romance, embora com a criação de um espaço de convivência para a revelação e discussão da sexualidade feminina e da mitigação das distâncias entre classes das mulheres, aproximando-as pela sua génese.

Mary Wollstonecraft foi, assim, aquilo que se pode considerar uma “protofeminista”. Apesar de alguns exemplos, embora pontuais, antes do seu século XVIII, foi a primeira a conhecer uma repercussão mais coadunável com os pergaminhos da sociedade inglesa e, nela, a tecer uma crítica sustentada na experiência e na chancela das editoras. Embora tomando em conta o papel maternal e doméstico da mulher, a autora era avessa à postura enferma e diminuta que a mulher vinha assumindo, tanto na realidade, como na ficção, e desejava a igualdade. A igualdade de salvaguardas e de considerações entre o homem e a mulher e o reconhecimento do valor social, racional e humano da mulher foram as suas grandes causas, que fomentaram visitas e redescobertas nos séculos seguintes, trazendo-a, sob novos olhos e interpretações, para a vanguarda dos movimentos a favor dos direitos das mulheres. Conhecendo a Europa e vivenciando alguns dos mais trépidos tempos que o continente conheceu, Wollstonecraft foi crescendo e, com isso, amadurecendo uma postura que se tornou fundamental para que as ideias e as instituições, em sintonia com os tempos, pudessem transformar-se e ajustar-se à tão natural equidade.

“Certamente há algo neste coração que não é perecível, e a vida é mais do que um sonho.”

Letters Written During a Short Residence in Sweden, Norway, and Denmark Letters Written in Sweden (1796)

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