Cinema de Cecilia Mangini, primeira documentarista feminina italiana, é o foco da nova retrospectiva do Doclisboa

por Comunidade Cultura e Arte,    14 Julho, 2021
Cinema de Cecilia Mangini, primeira documentarista feminina italiana, é o foco da nova retrospectiva do Doclisboa
La Canta delle Marane, Cecilia Mangini, Itália, 1960

Em Outubro o Doclisboa presta homenagem ao cinema de Cecilia Mangini, um dos nomes maiores do documentário em Itália, e dedica uma retrospectiva à obra integral da cineasta, em colaboração com a Cinemateca Portuguesa, e com o apoio do Instituto Italiano de Cultura de Lisboa.

Cineasta italiana falecida no início deste ano, Mangini é um marco incontornável do cinema deste país, sendo uma das mulheres pioneiras na realização de documentários no pós-Guerra.
Nasceu em 1927, em Mola di Bari, no Sul da Itália. Em 1952, iniciou a sua relação com a imagem através da fotografia, mas foi apenas seis anos mais tarde que se deu o seu encontro com o cinema. Manteve-se sempre activa, tendo construído uma filmografia que abarca sete décadas. Desde o início da sua carreira que Cecilia Mangini assumiu uma visão comprometida, atenta e íntima com o indivíduo e com a sociedade. Os seus filmes preservam uma actualidade importante pois exploram temas urgentes, como a condição da mulher, comunidades periféricas e marginalizadas, as raízes do fascismo, a imigração ou a injustiça social. A obra de Mangini é permeada pela poesia e pela beleza mas é, acima de tudo, a história de uma vida dedicada a pensar o cinema como uma ferramenta de resistência.
A retrospectiva incluirá ainda um conjunto de títulos assinados pelo seu marido e também realizador Lino Del Fra, onde a cineasta deixou a sua marca como argumentista ou colaboradora influente.

Para assinalar esta retrospectiva, no dia 6 de Agosto, o Doclisboa e a Cinemateca Portuguesa irão apresentar uma sessão de antecipação, com a exibição de Ignoti alla cittàStendalì (Suonano Ancora) e La Canta delle Marane, os três primeiros filmes da cineasta, fruto de uma colaboração com Pier Paolo Pasolini, e que passarão em conjunto com Laokoon & Söhne, a primeira obra de Ulrike Ottinger (realizada a meias com Tabea Blumenschein).

A apresentação da obra de Mangini vem juntar-se à já anunciada retrospectiva completa de Ulrike Ottinger, figura ímpar do Novo Cinema Alemão, que irá decorrer no 19º Doclisboa, entre 21 e 31 de Outubro, nas habituais salas da cidade. Nesta edição, o festival voltará ao Museu do Oriente com a realização de uma exposição de fotografias bem como a exibição de dois filmes da cineasta e fotógrafa alemã.

Sessão de antecipação das retrospectivas, na Cinemateca Portuguesa

Ignoti alla città
Cecilia Mangini | Itália | 1958 | 10’

O primeiro filme de Mangini, retirado de circulação pela censura da altura, retrata a vida, problemas e esperanças de um grupo de rapazes dos subúrbios marginais e pobres de Roma. Pier Paolo Pasolini, então escritor e amigo da realizadora, contribui com as palavras que nos guiam pelas imagens de Mangini.
 
La Canta delle Marane
Cecilia Mangini | Itália | 1961 | 10’

Visão vibrante e sensual sobre a dissolução de fronteiras, La canta delle marane acompanha um grupo de rapazes que brinca à beira de um rio nos subúrbios de Roma. Toma a forma de um poema visual dedicado àquela zona periférica, que teve um papel importante nas narrativas de Pier Paolo Pasolini. Este filme inspira-se no romance de Pasolini, Ragazzi di vita [Meninos da Vida].

Stendalì (Suonano Ancora)
Cecilia Mangini | Itália | 1960 | 11’

Em Salento, no sul de Itália, mulheres vestidas de preto lamentam os mortos. Em Stendalì, Mangini retrata esta tradição num ritmo frenético, quase alucinatório, amplificado pela música vanguardista de Egisto Macchi.

Laokoon & Söhne
Ulrike Ottinger e Tabea Blumenschein | RFA | 1972-73 | 48’

Num país imaginário, habitado apenas por mulheres, Esmeralda del Rio empreende uma série de transformações, tornando-se viúva na tundra gelada, patinadora no gelo e até o gigolô Jimmy. Este primeiro filme de Ottinger, raramente projetado, é em si um acto de metamorfose, com a autora a passar para o cinema após trabalhar como artista e fotógrafa. O turbilhão excêntrico de imagens, acompanhado de uma narração divertida e caprichosa, é um exercício surrealista, um ritual e um jogo requintado tão sério como só os jogos o podem ser. “Os contos de fadas estão a chegar; os contos de fadas vieram para ficar.”

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