Daniel Day-Lewis: este é o processo criativo de um dos melhores atores da atualidade

por Lucas Brandão,    29 Abril, 2020
Daniel Day-Lewis: este é o processo criativo de um dos melhores atores da atualidade
PUB

Um dos atores mais peculiares de Hollywood atualmente, Daniel Day-Lewis, agora Sir, apresenta-se também como um dos mais bem-sucedidos da indústria. Sendo o único com três Óscares na categoria de Melhor Ator Principal na bagagem, o inglês apenas figurou em 5 filmes desde 1998 e apresenta-se como um profissional exímio no que toca à exploração das suas personagens. Um ator que não se limita a representar mas sim a absorver e a transmitir os fundamentos e as crenças de uma mera personagem que, para além de ganhar uma vida, ganha uma atitude.

De ascendência polaca e filho de uma progenitora judia, o inglês foi várias vezes vítima de bullying na escola pelos seus colegas, para reverter esta situação Day-Lewis começou a dominar a pronúncia local e a despistar os seus bullies com o que o próprio viria a declarar “primeira grande interpretação”. Com uma personalidade já bastante irreverente e oscilante, o britânico viria a perpetrar furtos e a mostrar sinais de pretender alguma flexibilidade e liberdade para dar azo às suas virtudes. Isso ocorreu quando ingressou numa escola independente que o conduziu à sua estreia na representação com 14 anos de idade no filme Sunday Bloody Sunday, em 1971. Filho de um poeta, Cecil Day-Lewis, e de uma atriz, Jili Balcon, a arte nunca lhe foi estranha e seguiria consigo até aos dias de hoje, assim como traços pouco ortodoxos da sua personalidade.

Com uma participação discreta no galardoado filme Gandhi, em 1982, foi nessa mesma década que a sua carreira deu um salto qualitativo. Com um papel controverso de um gay envolvido numa relação interracial no filme inglês A Room with a View (1985), o impacto foi elevado sobretudo pela austera política vivida no país de Sua Majestade graças à “Iron Lady” Margaret Thatcher. De seguida, em 1987, evidenciou-se mais um traço peculiar e até obsessivo do ator ao estudar intensamente a língua checa para a personagem e ao não largá-la durante os oito meses de gravações de The Unbearable Lightness of Beinginterpretando-a até fora dos estúdios.

Constituinte da nova fornada de atores britânicos dos finais dos anos 80 conhecida por “Brit Pack” com atores como Gary Oldman, Tim Roth e Colin Firth, foi o próprio Day-Lewis que acabou por ser o mais galardoado e, paradoxalmente, o menos profícuo em trabalhos. No seu primeiro êxito em 1989 com My Left Foot, o inglês visitou frequentemente clínicas onde se encontravam indivíduos com deficiências motoras e visuais de forma a estruturar melhor a personagem a interpretar. Durante as gravações, o ator nunca abdicou de usar a cadeira de rodas subjacente ao homem paralisado que representava para intensificar as particularidades da personagem e acabou por dificultar as filmagens. Outro episódio caricato ocorreu em palco, na representação do marco da cultura britânica Hamlet, de William Shakespeare. Day-Lewis desmaiou e, ao recuperar a consciência, recusou voltar para o palco. Chorando compulsivamente, alegou então que tinha visto o espírito do seu pai. Foi a última representação cénica do ator, abandonando assim o teatro. Sentindo-se alvo de um acompanhamento acérrimo dos media, o inglês mudou-se para a República da Irlanda, de forma a manter a sua privacidade.

Já na década de 1990, Day-Lewis mostrou mais argumentos que se compaginam ao seu incrível talento de trabalho das suas personagens. Para The Last of The Mohicans, em 1992, o ator passou a viver na floresta e começou a tomar hábitos de vida como se de um residente da mesma se tratasse, ao caçar, pescar, acampar, etc. Já para In The Name of the Father, em 1993, seguiu um plano específico de redução de peso, recebeu lições de tiro e até passou tempo preso. Representando um alegado terrorista, pediu também à direção do filme que lhe atirasse água à cara e o insultasse verbalmente para o estimular para as cenas mais intensas. O ator também vestiu roupas aristocratas ligadas aos anos 70 durante dois meses, em Nova Iorque, para a adaptação de Martin Scorsese, em 1993, à obra de Edith Wharton The Age of InnocenceApós vários papéis que Day-Lewis interpretou, o próprio assumiu entrar, aos 41 anos, num “semi-retirement” do grande ecrã, participando somente em mais cinco filmes desde então.

Já nesse período, o ator abraçou um novo projeto do realizador Martin Scorsese, desta feita Gangs of New York, em 2002. Com uma nova pronúncia nova-iorquina e representando um vilão, Day-Lewis teve lições de talhante e, como seu apanágio, não saía da personagem mesmo durante as pausas das gravações. Como se algo de mais único fosse rebuscado, o britânico padeceu de uma pneumonia e abdicou de ser consultado e de usar roupa mais quente, sendo só após a conclusão das mesmas. Num filme seguinte, realizado pela sua esposa Rebecca Miller e denominado The Ballad of Jack and Rose (2003), o inglês viveu num estado de isolamento para se embrenhar no mundo da personagem.

Já em 2007, Day-Lewis protagonizou There Will Be Blood, com o qual venceu o seu segundo Óscar de Melhor Ator Principal. Dedicando-o a Heath Ledger e à sua prestação em Brokeback Mountain (2005), o britânico, de forma a preparar convenientemente a personagem, estudou filmes e gravações dos inícios do século XX para preparar a sua voz e as entranhas da mesma e leu sobre o magnata de petróleo Edward Doheny. Interpretando-o de forma quase sinistra e intimidatória, os elogios não tardaram a fluir quanto à intensidade colocada pelo ator, que, no decorrer nas gravações, partiu uma costela numa queda.

Por fim, na terceira conquista da estatueta de Melhor Ator Principal, o ator inglês interpretou o saudoso presidente dos EUA Abraham Lincoln no seu filme biográfico denominado Lincoln (2012) e realizado pelo colosso Steven Spielberg. Para a preparação do papel, que demorou um ano conforme solicitado pelo autor, Day-Lewis mergulhou em vários documentos, entre eles mais de 100 livros, e preparou cuidadosamente a sua indumentária, deixando também crescer a barba de forma a assemelhar-se o mais possível à do presidente norte-americano. Neste trabalho, o britânico incorpora plenamente a personalidade do ex-presidente ao assumir um papel de um eloquente e conhecedor homem que reúne consensos através da retórica. Para além disso, exibe a fácil habilidade social reconhecida nele, que era tão delicada perante os estereótipos dominantes na bipartida sociedade norte-americana no século XIX.

Naquele que foi o último papel da sua carreira (reformou-se após este filme), Phantom Thread (2017, realizado por Paul Thomas Anderson) apresenta o mundo da alta costura dos meados do século XX, em que Day-Lewis representa um estilista que desenvolve uma relação de grande estima e de paixão por uma modelo. O ator seria nomeado para o papel de Melhor Ator e não o conseguiu somente pela sua performance: conseguiu-o por se manter fiel à sua rotina. Inspirando-se no designer espanhol Cristóbal Balenciaga, ele próprio encarnou no estilista e desenvolveu de raiz um vestido Balenciaga, caraterizado pelo elevado grau de perfecionismo e de algum puritanismo estilístico. Para isso, entregou-se a inúmeros vídeos de desfiles de moda dos anos 1940 e 1950, fez-se pupilo de um designer ligado ao ballet, Marc Happel, e, tendo como modelo a sua esposa, desenvolveu o tal vestido. Isto depois de aprimorar a arte do esboço e do corte e costura do tecido como um verdadeiro profissional da área.

Com isto, as conclusões possíveis de se deduzir são as de que estamos perante uma personagem que representa outras personagens. De insólitos modos mas de inegável talento, tal como o seu currículo indica, Daniel Day-Lewis não é um qualquer na indústria cinematográfica e muitos desejam incessantemente o regresso ao ativo do atorCom uma devoção inexcedível, o britânico chega até a pôr a sua saúde em jogo quando encarna as suas personagens. Seletivo e abnegado. Num sentido mais restrito, único.

 

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.

Artigos Relacionados