Goethe no que escreveu, no que viveu, no que legou

por Lucas Brandão,    25 Julho, 2018
Goethe no que escreveu, no que viveu, no que legou
“Goethe in the Roman Campagna” (1787), do pintor Johann Heinrich Wilhelm Tischbein
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Johann Wolfgang von Goethe é o nome de um dos mais pronunciados e influentes autores do mundo ocidental, de uma literatura que conheceu milhares de autores. Entre romances, peças de teatro, ensaios, epístolas e poemas, o alemão foi o principal veículo do Sturm und Drang, que respondia ao racionalismo que advinha do Iluminismo. As emoções que viajavam da espontaneidade e da verticalidade do coração eram puras e duras, sem filtros associados à razão, mas delicadamente articulados por um registo lírico substancial e definidor de muito do que haveria de se escrever em solo europeu. Dos sofrimentos de Werther à tragédia de Fausto, a sua obra conhece uma fama transversal às gerações e proporcional a muitos dos devotos corações pela vida, pelo amor e pelos seus consequentes.

A produção literária

Nascido em Frankfurt em 1749, e partindo em 1832, na cidade de Weimar, Goethe produziu grande parte do seu contributo na transição que fez após finalizar o seu curso em Direito, assumindo funções nos ducados que agora constituem a Alemanha, assim como do próprio Sacro Império Romano-Germânico. O seu primeiro trabalho de vulto foi redigido em 1773, com “Götz von Berlichingen”, em que o poeta-aventureiro com esse nome é ficcionado para uma personalidade aventureira e livre, que representa a integridade nacional perante uma sociedade entendida como decadente. No entanto, a condição trágica das suas viria a sentir-se aqui também, assim como em “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (1774).

É certo, afinal de contas, que neste mundo nada nos torna necessários a não ser o amor.

“Os Sofrimentos do Jovem Werther” (1774)

Nestas cartas direcionadas a Wilhelm, o jovem artista Werther exprime todos os seus sentimentos e todas as amarguras associadas ao seu trabalho e à sensibilidade do seu caráter, que condicionam o seu dia-a-dia. O infortúnio da relação conjugal que protagonizou equivale-se à obsessão que Goethe tinha, neste período, por uma jovem mulher, referência que perduraria naquilo que se escreveria futuramente. A controvérsia gerada em torno de alguns desfechos conflituosos com as práticas católicas viria a cimentar polémica, contornada por um entendimento poético, embora fosse evidente a crítica e a insurreição implícitas perante as autoridades vigentes. Esta obra seria pioneira na introdução do movimento que é conhecido como Sturm und Drang (à letra, tempestade e stress). A subjetividade individual e os extremos da emoção conhecem, assim, uma expressão muito transparente e despojada de quaisquer preconceitos, empenhando-se na oposição ao Iluminismo que vigorava no final desse século XVIII. Para lá de Goethe, também Friedrich Schiller, Friedrich Klinger e Johann Georg Hamann, considerado o ideólogo do movimento, assumiram o protagonismo na escrita fundamentada nessa corrente.

Quando se mudou para Weimar, Goethe conheceu pessoalmente Schiller, trazendo no seu pecúlio um punhado de novos livros. “Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister” (lançado entre 1795 e 1796) traz a tentativa de autorrealização, de fuga de uma vida tradicionalmente burguesa; “Ifigénia entre os Tauros” (1779, numa readaptação da tragédia do grego Eurípides, em torno da figura de Ifigénia); “Egmont” (1788, uma peça muito influenciada pelo teatro shakespeariano, numa crença do protagonista do bem de quem lhe rodeia, marcando a sua decadência); “Torquato Tosso” (1790, sobre a vida deste poeta italiano, escrita maioritariamente em Itália); e “Reineke Fuchs” (1794, um poema sobre a mítica figura medieval da raposa Reynard, efabulada como matreira e ardilosa para seu próprio proveito).

O homem não é feliz enquanto o seu estorço indeterminado não fixar a si mesmo os seus limites.

“Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister” (1795-96)

Já após conhecer Schiller, uma nova fase da produção literária de Goethe é encetada, que se inicia com o prosseguimento da narrativa de Wilhelm Meister, desta feita com “Wilhelm Meister’s Journeyman Years”, reestruturada entre poemas, aforismos e correspondência, guiando o protagonista pela qualidade da renúncia. Na construção poética, destaca-se “Hermann e Doroteia” (1796-97, um par que se conhece enquanto ajudam os refugiados da Revolução Francesa na região fronteiriça do Palatinado), assim como as “Elegias Romanas”, um exercício de reflexão sobre o período carnal vivido em Itália pelo autor; e o drama “Filha Natural”, em que a protagonista Eugenia sofre com o que de incontornável se sucede na sua vida, mesmo perante a preocupação da razão em encontrar as respostas às questões mais elementares.

Porém, Schiller viria a partir em 1805, o que o deixaria desamparado de um dos grandes dinamizadores deste percurso literário. Não obstante, foi na sucessão deste acontecimento que iniciou a redação de “Fausto”, nomeadamente a sua primeira parte (1808). A segunda seria lançada em 1832, ano da morte do autor, culminando naquela que é considerada a principal obra literária da história da Alemanha. No rescaldo de uma aposta de Mefistófeles com Deus, pega no seu filho mais amado, Fausto, e decide desviá-lo dos seus propósitos moralmente certos. O acordo que Fausto discute com a chegada figura de Mefistófeles condiciona a sua assessoria, embora coloque em evidência as atribulações morais que o protagonista vive, em especial com Gretchen, a sua amada. A segunda parte torna-se desviada da narrativa entre os protagonistas assinalados, tratando-se mais de uma análise social e moral de Goethe, embora o fim do trama seja aqui espelhado, conduzindo as conclusões religiosas do autor. Embora o romance se perca, é o mundo que é observado na segunda parte, indo para lá do pequeno contexto que é encabeçado pelas peripécias de Fausto e pelos esforços de Mefistófeles por ganhar a sua aposta. Esta obra seria transposta para várias óperas e composições musicais de nomes, como Richard Wagner, Gustav Mahler, Hector Berlioz e Franz Liszt. A famosa referência de “vender a alma ao diabo” consuma-se precisamente neste trabalho do autor alemão, que se tornaria atual nas comparações estabelecidas com o desenvolvimento industrial e tecnológico, perante as repercussões sociais a si associadas.

Entre as partes constituintes de “Faust”, Goethe escreveu “Afinidades Eletivas” (1809), num conto que cruza as emoções com a ciência e a química, procurando perceber de que forma a primeira condiciona os casamentos que vão existindo, e como a segunda regula as ligações conjugais e emocionais que se vão estabelecendo entre as pessoas. A influência do Oriente (o fascínio de Goethe pela literatura em sânscrito e em persa era proeminente) também se faz sentir no germânico, que lança uma coleção de poemas (um diwan) denominada “West–östlicher Divan” [Diwan Oeste-Leste] (1819), procurando, através de alusões históricas e de parábolas, cruzar as culturas e as morais cristã e islâmica. Autobiograficamente, deixou um testemunho muito especial em “Aus meinem Leben: Dichtung und Wahrheit” [“Da minha vida: poesia e verdade] (1833), abordando as suas experiências na infância e na adolescência, que resultaram no seu desenvolvimento como poeta e ser humano; ao qual se junta “Viagem a Itália” (1816-17), que relata as suas vivências em Roma e Nápoles, num contacto muito estreito com a arte renascentista e com as maravilhas naturais do país, tanto numa abordagem investigativa, como contemplativa.

Não conhecemos as pessoas quando elas se dirigem a nós; somos nós que temos de nos dirigir a elas para saber como são.

“Afinidades Eletivas” (1809)

O percurso literário deambularia, assim, entre poesia e prosa, entre o teatro e as epístolas, gerando ampla repercussão no seio da comunidade artística, que, para além do poeta Heinrich Heine, alcançaria os nomes de Mozart e de Beethoven. Os ideais do Sturm und Drang eram, também eles, incorporados na sua vida pessoal e na sua perceção moral, que se celebrizam nos aforismos que lhe são atribuídos, associados à forma como encarar a vida e o que dela advém. Seriam conclusões valiosas, mas que não o evitariam de sentir as consequências de uma vida protagonizada por várias crises emocionais e existenciais, que o levavam a caminhar entre os extremos, dos quais são exemplificativas as suas narrativas.

Se da Amada estás ausente
Como o Oriente do Ocidente,
O coração transpõe todo o deserto;
Só, por toda a parte acha o seu caminho certo.
Para quem ama Bagdad é aqui perto.

“West–östlicher Divan” (1819)

Goethe na ciência

Goethe desenvolveu bastante trabalho investigativo à luz da ciência, por mais que se tornasse numa reação ao Iluminismo que havia chegado à Europa. No palco da história natural, no da ótica, no da anatomia e no da morfologia, produziu bibilografia que se tornou influente naquilo que é a trajetória do desenvolvimento científico até aos dias presentes. “A Metamorfose das Plantas” (1790) trouxe uma abordagem biológica quanto aos órgãos constituintes das plantas, onde se enquadram as pétalas, as folhas fotossintéticas e os cotilédones (primeiras folhas provenientes na germinação das sementes), parte da dimensão homológica dessas plantas. A homologia transmitia a ancestralidade partilhada entre diferentes estruturas biológicas, abordada por Goethe antes da teorização do inglês Richard Owen e das expedições de Charles Darwin. Denotou, assim, a capacidade adaptativa das plantas, decisiva na sua evolução cronológica, e a sua plasticidade, que estudou na jardinagem que ia fazendo na sua residência de Weimar.

Por sua vez, a teoria das cores conhece a sua obra em 1810, sendo abordada a natureza das cores e a forma como são percetíveis ao olhar humano. Aqui, enquadra os conceitos de sombras coloridas, refração e aberração cromática (dispersão da cor perante o fenómeno de refração em lentes). Como base, toma a análise de Isaac Newton, embora o seu objeto de estudo se direcionasse para as qualidades associadas à perceção do fenómeno da cor pelo ser humano. A cor surgia, assim, numa constante relação entre a luz e o escuro, levando aos efeitos fisiológicos observáveis e aos contrastes emergentes entre as próprias cores. A análise seria relevante para o trabalho de vários artistas, como William Turner ou Wassily Kandinsky, assim como para pensadores, como Arthur Schopenhauer, Ludwig Wittgenstein, e cientistas, como Werner Heisenberg e Kurt Gödel.

O alemão inventariou e colecionou mais de dez milhares de minerais, naquilo que é a maior coleção europeia privada. Para além disso, efetuou a descoberta de um osso transversal a todos os mamíferos, tratando-se do intermaxilar, que se tornou denominado de “osso de Goethe”. Sendo o crânio de um elefante que o conduziu a essa descoberta, também o elefante se passou a chamar “elefante de Goethe”. A meteorologia também foi uma área de estudos de Goethe, tendo potenciado os postulados do físico Evangelista Torricelli para dar origem a um barómetro de água, que lhe permitia prever o tempo. Para além disso, conseguia ler as condições climatéricas das várias localidades para as quais ele o levava, analisando as variações de altitude e de localização. Mesmo prevendo-se que muitos superassem o pensamento científico de Goethe, a sua abordagem fenomenológica ficaria vincada na história, para a qual muito havia contribuído as suas dimensões artística e moral.

Goethe e a sua mundividência

Por mais sensitivo e emocional que se revelasse, o autor nunca escondeu o seu gosto por uma dimensão mais carnal do ser humano. Esse apreço demonstrou-se de igual forma nas suas narrativas, em que explora a sexualidade como um caminho não só artístico, mas parte da convivência e da proximidade do desejo. Mesmo associando esse erotismo a um lado menos sensível (como nas tentações aconselhadas por Mefistófeles a Fausto), Goethe não tinha tabus, nutrindo afeição tanto pelo sexo masculino como pelo feminino, até ao ponto de ser a favor da pederastia, isto é, de relações homossexuais entre adultos e adolescentes, considerando-a como alojada na própria Natureza.

Já visado pela Igreja Católica, nunca deixou de se revelar num pensador aberto ao que de novo era introduzido no mundo. Crítico das várias Igrejas católicas, tornou-se distinto pela forma como afirmava a fé cristã, que respeitava e com a qual partilhava vários valores, mas que não assumia totalmente. Crescendo numa família luterana, a sua espiritualidade foi-se ampliando com o panteísmo e com o esoterismo que o século XVIII trouxe, assim como a filosofia ocidental. Aqui, foi influenciado por Baruch Espinoza, filósofo de origens judaicas, origens essas pelas quais nutria uma afinidade, tendo em conta considerá-las fonte de energia e de tenacidade perante os objetivos a que se predispõem.

No que toca à geopolítica do que o rodeava, os seus valores eram conservadores, olhando com alguma desconfiança para os propósitos e meios através dos quais a Revolução Francesa se exprimia. Mesmo perante a intenção de unir todas as partes geográficas da Alemanha numa só nação, já no virar do século XIX, Goethe permanecia alheio, acreditando na sua poesia como um veículo de comunicação para lá das nações, assente na universalidade humana. Tendo em conta a geografia e a história dos territórios, defendia a sua importância na definição da jurisdição da terra e dos países responsáveis por esta, contrariando a autossuficiência da razão na construção das sociedades e das suas estruturas legais.

A influência e a inspiração

Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, Wittgenstein, Kierkegaard, Jung. Todos estes nomes, com diferentes objetos de estudo, foram influenciados pelos autênticos ensaios sobre a existência humana na sua literatura, embora grande parte deles ficcionada. A sua abordagem amiúde aforística levava a essa partilha de valores entre Goethe e os subsequentes pensadores, já desafiados a questionar a realidade e até a refutar as suas estruturas racionais, como o transcendentalista Ralph Waldo Emerson. Já na ciência, conforme referido, a sua influência fez-se sentir no estudo dos minerais e da evolução das espécies biológicas, mas também se fez notar nas ciências da linguagem, naquilo que concerne a linguística.

A sua perceção da transformação expressiva das emoções na Europa conduziu Goethe à transparência que muitos louvaram, embora sempre com um valor intrínseco que não banalizasse essa expressão. Eram impulsos similares aqueles que norteavam os seus contributos científicos, coordenados por uma esfera invisível e transcendente que formulava as leis inerentes a cada organismo. O círculo da vida era observado como uma trajetória em que todas as partes integrantes do mundo se relacionavam e atribuíam as razões de cada um existir. A teoria de cada um deter a sua própria baliza de valores morais opunha-se à iluminação associada ao poder monárquico, tantas vezes alimentado pelas figuras políticas dos vários estados europeus. Com o chegar do século XIX, Goethe esquivava-se aos ideais mecanicistas que a ciência ia cultivando, manifestando uma sensibilidade e o poder da intuição, contrastantes com o emergente primado da razão como intérprete da realidade. Nomes, como Nikola Tesla, Charles Darwin e Alfred Russel Wallace, seriam orientados por este olhar apurado da realidade que viriam a estudar e para a qual contribuiriam.

A sua emotividade e o lirismo do seu discurso enriqueceram o trabalho dos compositores que em si se inspiraram, transformando os detalhes sensoriais suscitados na musicalidade das suas partituras e das notas destas. Seriam argumentos que também conduziriam o esotérico Rudolf Steiner, fundador da antroposofia (uma doutrina que procura unificar a ciência e o espiritismo, num caminho em busca da verdade), a construir um recinto para as suas atividades, designado Goetheanum. Este centro reúne as iniciativas da Sociedade Antroposófica, fundada posteriormente, para além das infraestruturas para as suas conferências, subordinadas a vários temas do interesse da sociedade, e para a investigação apoiada pela instituição.

A cidade de Weimar viria a adquirir uma importância acrescida no século XX, fundação da constituição alemã de 1919, que conduziu à fundação da República de Weimar, consagrando em si a assembleia nacional. Para além deste reconhecimento implícito a Goethe, seriam fundadas instituições públicas e privadas, como o Goethe-Institut, de cariz estatal, fomentando o estudo sociocultural e político sobre o país (conta com uma representação oficial em Portugal). O acervo conservado pelo autor seria transformado nos Arquivos Goethe e Schiller, reconhecidos pela UNESCO como detentores de uma fatia valiosa da memória do mundo.

Por muito que desejasse e respeitasse a ordem, Johann Wolfgang von Goethe sempre se deixou mover pela intuição, pelas emoções, pelo coração. A sua literatura fundamentou-se sempre no empenho das emoções contarem as suas narrativas, nas primeiras, segundas e terceiras pessoas que foi criando e às quais foi dando voz. A influência que lega percorre muito mais do que a literatura, tocando na identidade do seu país e da humanidade, no progresso científico e na compreensão filosófica da sua existência. Goethe é, desta forma, no discurso do seu Sturm und Drang, um caminho de apurada sensibilidade para um compreender mais amplo e global do mundo e da sua humanidade.

A cada etapa da vida do homem corresponde uma certa Filosofia. A criança apresenta-se como um realista, já que está tão convicta da existência da peras e das maçãs como da sua. O adolescente, perturbado por paixões interiores, tem que dar maior atenção a si mesmo, tem que se experimentar antes de experimentar as coisas, e transforma-se protanto num idealista. O homem adulto, pelo contrário, tem todos os motivos para ser um céptico, já que é sempre útil pôr em dúvida os meios que se escolhem para atingir os objectivos. Dito de outro modo, o adulto tem toda a vantagem em manter a flexibilidade do entendimento, antes da acção e no decurso da acção, para não ter que se arrepender posteriormente dos erros de escolha. Quanto ao ancião, converter-se-á necessariamente ao misticismo, porque olha à sua volta e as mais das coisas lhe parecem depender apenas do acaso: o irracional triunfa, o racional fracassa, a felicidade e a infelicidade andam a par sem se perceber porquê. É assim e assim foi sempre, dirá ele, e esta última etapa da vida encontra a acalmia na contemplação do que existe, do que existiu e do que virá a existir.

“Máximas e Reflexões” (1794)

 

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