“Serotonina”: irá Michel Houellebecq alguma vez sair da crise da meia-idade?

por Miguel Fernandes Duarte,    7 Junho, 2019
“Serotonina”: irá Michel Houellebecq alguma vez sair da crise da meia-idade?
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Como já vem sendo hábito nos últimos anos, cada livro de Michel Houellebecq é recebido com a maior das atenções mediáticas. O enfant terrible das letras francesas (talvez à falta de melhores alternativas contemporâneas?) atingiu tal estatuto no seu país natal, que a cada novo lançamento se sucedem os artigos na comunicação social, as críticas de louvor e as de desprezo. Para isso, ainda mais contribuiu o seu romance anterior, Submissão, que trata uma sociedade francesa cada vez mais influenciada pelo Islão, ter sido lançado no mesmo dia dos atentados ao Charlie Hebdo, levantando imediatamente a imprensa todo o género de associações entre os acontecimentos.

Neste novo Serotonina, agora publicado em português pela Alfaguara, foram imediatas as associações aos conflitos dos gilets jaunes (coletes amarelos) e cedo se fizeram ouvir louvores a Houellebecq por, mais uma vez, ter conseguido prever um acontecimento, mesmo que o livro, lançado em França em Janeiro deste ano, tenha vindo a público já após a deflagração dos protestos.

Larga parte de Serotonina enfoca na miséria crescente dos agricultores franceses, em especial os normandos, já que o deprimido narrador de Houellebecq é, desta vez, um engenheiro agrónomo dos quadros do ministério da agricultura francês.

A política agrícola comum, levada a cabo pela União Europeia — em especial a abolição das quotas leiteiras — vai fazendo descer os preços de tudo e arruinando negócios como o de Aymeric, um aristocrata latifundiário amigo do narrador, até que os protestos começam a subir de escala. Mas uma coisa é identificar um problema e prevê-lo enquanto foco de tensões, como Houellebecq faz muito bem neste livro, outra é prever um movimento transversal ao país e com foco bem além da classe agrícola, como é o movimento dos gilets jaunes.

Michel Houellebecq @ Agencia Efe/REX

Por entre os efeitos da globalização na agricultura francesa, temos o mesmo Houellebecq de sempre, com especial prazer em ser provocador, chocante e cáustico, narrando mais uma vez através de um homem em crise de meia-idade, deprimido, este de nome Florent-Claude Labroueste.

Também a sua obsessão com o sexo está presente, mesmo quando a personagem começa a sentir os efeitos secundários de impotência sexual de tomar Captorix, um suposto novo comprimido que estimula a produção da serotonina que dá título ao livro, um neurotransmissor associado à felicidade. As causas da depressão já vêm de longe, mas adensam-se no momento em que Florent abandona Yuzu, a mulher japonesa, vinte anos mais nova que ele, com quem vivia (curioso notar que, em 2018, o próprio Houellebecq se casou com Qianyum Lysis Li, chinesa originária de Shangai, também vinte anos mais nova que ele). O desespero é tanto que, abraçando um certo ideal de renovação da própria vida, Florent larga o seu posto no ministério da agricultura para, com o dinheiro que tinha acumulado no banco, mudar de vida, indo viver para um hotel, onde pouco mais faz que ver televisão, embebedar-se e dar uma volta pedonal pelas redondezas.

Serotonina é, portanto, mais uma vez Houellebecq a tentar encontrar-se, imerso nos seus problemas e incapaz de os ultrapassar. O anti-depressivo pode ajudá-lo a viver o seu dia-a-dia, mas não resolve o problema de solidão do narrador. Mesmo com a sua líbido diminuída, enceta o plano de rever as relações passadas que inevitavelmente ficaram para trás, incluindo a que teve com Camille, o suposto amor da sua vida, que conheceu quando trabalhou na Normandia, a promover os queijos regionais.

A essa região ele regressa, e é sobretudo nesse contexto que junta os problemas da população agrícola francesa à crueza que lhe é associada, mas não deixa de ser curioso que um escritor tão cáustico se leia tão facilmente. No final de contas, mesmo dentro de um ambiente depressivo, Houellebecq parece sempre preferir um pouco de ligeireza sarcástica ao mergulho opressivo na verdadeira densidade das questões que levanta.

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